PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR

missa do dia

5 de Abril de 2014

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Cristo ressuscitou, vencedor, M. Carneiro, NRMS 97

Salmo 138, 18.5-6

Antífona de entrada: Ressuscitei e estou convosco para sempre; pusestes sobre mim a vossa mão: é admirável a vossa sabedoria.

Ou:

Lc 24, 34; cf. Ap 1, 5

O Senhor ressuscitou verdadeiramente. Aleluia. Glória e louvor a Cristo para sempre. Aleluia.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Imaginemos, por momentos, que uma pessoa falecida da nossa família, ou das nossas relações de amizade, regressava à vida, quando as saudades dela nos atormentavam. Seria um motivo de grande alegria e um acontecimento que percorreria o mundo.

Podemos, assim, embora à distância, imaginar a profunda alegria que invadiu os corações de Nossa Senhora, dos Apóstolos e santas mulheres, além dos muitos amigos que tinha Jesus Cristo.

Para nós, que temos fé, a Ressurreição do Senhor é mais do que um motivo humano de alegria. Ela é o fundamento da nossa fé e a certeza e que a morte – a nossa morte – foi definitivamente vencida. A partir de agora, a morte dos nossos é apenas um adeus até breve, porque todos nos encontraremos no Céu e o nosso corpo, baixado à sepultura, há-de ressuscitar também no fim do mundo.

Alegremo-nos, pois, nesta solenidade, participando na alegria da Igreja primitiva, ao celebrar a Ressurreição do Senhor Jesus.

 

Acto penitencial

(Suprime-se o Acto penitencial quando se faz a aspersão da assembleia com a água benta)

 

Para nos associarmos e participarmos da glória de Cristo Ressuscitado, temos de combater o poder da morte que ainda vigora entre nós, pelos pecados de cada dia.

Arrependamo-nos de todo o coração e prometamos emenda de vida com verdadeira sinceridade da nossa alma

 

Oração colecta: Senhor Deus do universo, que neste dia, pelo vosso Filho Unigénito, vencedor da morte, nos abristes as portas da eternidade, concedei-nos que, celebrando a solenidade da ressurreição de Cristo, renovados pelo vosso Espírito, ressuscitemos para a luz da vida. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: S. Pedro, em casa de centurião romano Cornélio, que o mandara chamar para que lhe anunciasse Jesus Cristo, ao mesmo tempo que o Apóstolo tinha uma visão no terraço de Simão Curtidor, em Jope, dá um entusiasta testemunho sobre a Ressurreição gloriosa do Mestre, depois de ter feito um resumo da Sua vida.

 

 

Actos dos Apóstolos 10, 34a.37-43

Naqueles dias, 34aPedro tomou a palavra e disse: 37«Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou: 38Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando a todos os que eram oprimidos pelo Demónio, porque Deus estava com Ele. 39Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez no país dos judeus e em Jerusalém; e eles mataram-n’O, suspendendo-O na cruz. 40Deus ressuscitou-O ao terceiro dia e permitiu-Lhe manifestar-Se, 41não a todo o povo, mas às testemunhas de antemão designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele, depois de ter ressuscitado dos mortos. 42Jesus mandou-nos pregar ao povo e testemunhar que Ele foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos. 43É d’Ele que todos os profetas dão o seguinte testemunho: quem acredita n’Ele recebe pelo seu nome a remissão dos pecados».

 

O texto faz parte do corpo do discurso de Pedro em Cesareia na casa do centurião Cornélio, o qual tinha mandado chamar Pedro a Jope, ilustrado por uma visão (cf. Act 10, 1-33). Este discurso tem um carácter mais catequético e apologético do que propriamente missionário, como seria de esperar num primeiro anúncio da fé a um gentio (embora se tratasse dum «temente a Deus»: v. 2). Lucas redige este discurso a pensar mais nos leitores da sua obra, do que com a preocupação de reconstruir exactamente a cena originária e as mesmas palavras pronunciadas naquela circunstância; com efeito, começa por fazer referência ao Evangelho já antes pregado aos ouvintes: «vós sabeis o que aconteceu…», e também parece que dá por suposta a fé no valor salvífico da Cruz (cf. v. 39b) e não termina, como seria de esperar, com um apelo explícito à conversão. Assim, Lucas nos deixou mais uma bela síntese do que era o Evangelho pregado pela Igreja primitiva.

38 «Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus». Esta nova tradução litúrgica desfez a hendíadis tão própria da estilística hebraica (ungiu de Espírito Santo e de fortaleza), recorrendo, por motivo de clareza, a uma equivalência dinâmica, (a força que é o Espírito Santo). Deus (o Pai) concedeu à natureza humana de Jesus todos os dons do Espírito Santo, que Lhe competiam a partir do momento da Incarnação; estes dons manifestam-se visivelmente nos milagres de Jesus, nas teofanias do Baptismo e da Transfiguração e muito particularmente na Ressurreição. A unção era o rito que constituía os reis e os sacerdotes na sua função; assim, a união hipostática em Jesus aparece como uma unção da natureza humana de Jesus, «que passou fazendo o bem e curando a todos» (maravilhoso resumo da vida de Jesus, bem ao sabor do Evangelista da bondade).

41 «Não a todo o povo». Jesus não se mostra a todos depois de ressuscitado, não só para não violentar a liberdade das pessoas, mas também porque está nos planos divinos conduzir o mundo à salvação mediante o ministério dos seus discípulos (testemunhas de antemão designadas por Deus) e mediante a fé, que é meritória (cf. Rom 1, 16-17). Note-se o acento que se põe no testemunho acerca da Ressurreição; não estamos apenas perante uns simples pregadores (cf. v. 42a) duma mensagem salvadora, mas diante de verdadeiras testemunhas (cf. v. 42b), que dão testemunho (o verbo grego tem um matiz forense) capaz de fazer fé em tribunal. A ideia de testemunho é fortemente acentuada neste breve texto, não só por ser repetida quatro vezes (vv. 39.41.42.43), mas também por se tratar de testemunhas escolhidas por Deus para esta missão (v. 41), que conviveram com o Ressuscitado, comendo e bebendo com Ele, o que exclui logo à partida a hipótese de se tratar de mera fantasia (Lucas mostra especial sensibilidade a este problema: cf. Lc 24, 37-43).

 

Salmo Responsorial    Sl 117 (118), 1-2.16ab-17.22-23 (R. 24)

 

Monição: Este salmo é considerado por todas as Liturgias como o mais pascal e dominical de todos, porque nele se evoca o Mistério Pascal de Cristo, celebrado em cada Eucaristia, mas especialmente na dominical.

Acerca dele nos diz Santo Agostinho: «Ouvimos, irmãos, como o Espírito Santo nos exorta a oferecermos a Deus um sacrifício de louvor, 'porque Ele é bom'. Nenhuma outra coisa existe melhor do que essa. Digamos que o Senhor é bom, não apenas com o ruído das palavras, mas pelo amor que nos une a Ele. Que o amor seja essa voz.

O salmo começa e termina com as mesmas palavras, por não haver nada mais agradável do que o louvor de Deus e o Aleluia eterno».

Aceitemos este convite e demos graças ao Senhor, porque Ele é bom.

 

Refrão:        Este é o dia que o Senhor fez: exultemos e cantemos de alegria.

 

Ou:               Aleluia.

 

Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom,

porque é eterna a sua misericórdia.

Diga a casa de Israel:

é eterna a sua misericórdia.

 

A mão do Senhor fez prodígios,

a mão do Senhor foi magnífica.

Não morrerei, mas hei-de viver

para anunciar as obras do Senhor.

 

A pedra que os construtores rejeitaram

tornou-se pedra angular.

Tudo isto veio do Senhor:

é admirável aos nossos olhos.

 

Segunda Leitura

 

Monição (Missa da manhã): S. Paulo propõe-nos um sentido de vida, para vivermos como filhos de Deus ressuscitados: devemos aspirar às coisas do Alto, conservar o coração em Deus, embora com os pés na terra.

Isto vai exigir de nós uma luta em pormenor pela santidade pessoal. Talvez não se trate de fazer coisas novas, mas de fazer melhor aquilo que sempre temos feito.

 

Colossenses 3, 1-4  (de manhã)

Irmãos: 1Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus. 2Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. 3Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. 4Quando Cristo, que é a vossa vida, Se manifestar, também vós vos haveis de manifestar com Ele na glória.

 

Com estas palavras é introduzida a parte final da Carta, uma série de exortações morais para que os fiéis tenham um modo de viver coerente com a fé cristã. A sua conduta moral é uma consequência natural da profunda união com Cristo ressuscitado produzida pelo Baptismo recebido.

1 «Aspirai às coisas do alto» corresponde ao mesmo incitamento que, na Santa Missa, a Igreja sempre nos repete: Sursum corda! Corações ao alto!.

3-4 «Vós morrestes». A nossa união a Cristo pressupõe a morte para o pecado, que não pode reinar mais em nós (cf. Rom 6). Com Cristo morto pelos nossos pecados, morremos para o pecado; com Cristo ressuscitado, vivemos vida de ressuscitados. É a «vida» da graça, uma vida toda interior, «escondida» no centro da alma, vida que ninguém nos pode arrebatar, vida que é toda feita de presença de Deus e de visão sobrenatural, levando-nos a santificar todos os afazeres diários, trabalhando com os pés bem firmes na terra, mas o coração e o olhar fixos no Céu.

 

 

Monição (Missa vespertina): O fermento do pão, se não houver cuidado, acaba por se corromper e comunicar a toda a massa a sua corrupção.

Assim aconteceu com o fermento da Antiga Lei. Um legalismo oco, agarrado ao exterior, mas com o coração afastado de Deus, impediu muitos contemporâneos de Jesus de aceitar a salvação e mantém ainda hoje muitos cristãos fora da vida da Igreja.

A advertência feita por S. Paulo aos cristãos de Corinto é também para nós. E preciso fugir de um cristianismo sem alma, de uma prática religiosa rotineira, de um culto religioso que só se preocupa com o que visto, de um trabalho feito sem perfeição e, portanto, sem amor, e de uma vida de família em que a preguiça e o aburguesamento são a lei que impera.

 

1 Coríntios 5, 6b-8  (de tarde)

Irmãos: 6bNão sabeis que um pouco de fermento leveda toda a massa? 7Purificai-vos do velho fermento, para serdes uma nova massa, visto que sois pães ázimos. Cristo, o nosso cordeiro pascal, foi imolado. 8Celebremos a festa, não com fermento velho nem com fermento de malícia, mas com os pães ázimos da pureza e da verdade.

 

Parece haver aqui (v. 6b) uma referência ao incestuoso de que acaba de falar (vv. 1-5); um mau exemplo é um mau fermento. Mas S. Paulo faz imediatamente uma aplicação mais vasta da ideia de mau fermento, e isto talvez pela proximidade da festa da Páscoa, que já então, pelo ano 55, os cristãos celebravam em Corinto como festa da Ressurreição do Senhor, segundo o que se lê no v. 8: «celebremos pois a festa». Na exortação do Apóstolo há uma alusão ao costume judaico, que ainda hoje se conserva, de limpar escrupulosamente as casas de todo o fermento e pão fermentado durante os sete dias que duravam as festas pascais. Nós os cristãos, para celebrarmos a Páscoa – «Cristo, nosso Cordeiro pascal» (v. 7) –, temos que o fazer sem o fermento (o princípio corruptor) da malícia e da perversidade, mas «com os pães ázimos da pureza e da verdade», isto é, da sinceridade de vida. Poderia haver, nesta referência a Cristo como «Cordeiro imolado», uma alusão à própria celebração da Eucaristia.

 

Sequência

 

À Vítima pascal

ofereçam os cristãos

sacrifícios de louvor.

 

O Cordeiro resgatou as ovelhas:

Cristo, o Inocente,

reconciliou com o Pai os pecadores.

 

A morte e a vida

travaram um admirável combate:

Depois de morto,

vive e reina o Autor da vida.

 

Diz-nos, Maria:

Que viste no caminho?

Vi o sepulcro de Cristo vivo

e a glória do Ressuscitado.

 

Vi as testemunhas dos Anjos,

vi o sudário e a mortalha.

Ressuscitou Cristo, minha esperança:

precederá os seus discípulos na Galileia.

 

Sabemos e acreditamos:

Cristo ressuscitou dos mortos:

Ó Rei vitorioso,

tende piedade de nós.

 

Aclamação ao Evangelho        1 Cor 5, 7b-8a

 

Monição: (Em vez do versículo desta Missa pode cantar-se a perícope da Vigília Pascal).

Cristo ressuscitado está connosco. E o mesmo que a Madalena encontrou junto ao túmulo, que apareceu aos Onze, no Cenáculo e surpreendeu os dois fugitivos de Emaús.

Disponhamo-nos a ouvir com atenção e generosidade a Sua Palavra e a pô-la em prática.

Manifestemos estes sentimentos de alegria e disponibilidade, cantando aleluia.

 

Aleluia

 

Cântico: Aclamação – 4, F. da Silva, NRMS 50-51

 

Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado:

celebremos a festa do Senhor.

 

 

Evangelho

 

São João 20, 1-9 (de manhã)

1No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. 2Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o discípulo predilecto de Jesus e disse-lhes: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram». 3Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. 4Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro. 5Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. 6Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão 7e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte. 8Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou. 9Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

 

Nenhum dos quatro Evangelhos narra o facto da Ressurreição de Jesus, pois não foi presenciado por testemunhas; era um facto sobrenatural que, de si mesmo, escapava à experiência humana. E isto só vem dar credibilidade ao facto da Ressurreição, pois, se se tratasse duma ficção, era de esperar que se dessem os seus pormenores. S. João começa com a verificação do túmulo vazio feita pela Madalena, mas vão ser os dois discípulos, que vão fazer o reconhecimento do local e que verificam indícios eloquentes, aptos para levarem à fé na Ressurreição de Jesus.

2 «Não sabemos…». Este plural parece aludir à tradição sinóptica que conhece a ida de mais mulheres ao sepulcro. É evidente que não houve a mínima preocupação de harmonizar os diferentes relatos evangélicos do sepulcro vazio e das aparições, o que é um forte motivo de credibilidade a favor da realidade da ressurreição, facto misterioso, que é a base de toda a fé cristã (cf. 1 Cor 15, 12-19).

7-8 «Viu e acreditou». Porque começou a crer o discípulo? A explicação habitual é que um ladrão não deixaria ficar os panos, e muito menos em ordem. Mas há mais dados a ter em conta: porque é que o Evangelista atribui tanta importância à diferente posição dos panos? É que as ligaduras e o lençol estavam espalmados no chão da pedra tumular, ao passo que o pano que envolvera a cabeça do Senhor não estava espalmado no chão, mas mantinha a forma da cabeça que envolvera (cf. a nossa tradução na Nova Bíblia da Difusora Bíblica). Não sabemos se Pedro partilhou da fé do Discípulo Amado, mas S. Lucas diz que ficou maravilhado (cf. Lc 24,12). Os panos com que Jesus foi amortalhado eram com toda a probabilidade: 1) um lençol mortuário (síndone), tecido largo e comprido que envolvia todo o corpo; 2) um lenço (sudário) que cobria a cabeça e caia sobre o rosto (e ajudaria a manter a boca fechada); 3) várias ligaduras que não só serviam para manter apertados os pés um contra o outro e as mãos unidas ao corpo, mas também que poderiam ajudar a aconchegar a síndone ao corpo. S. João não fala especificamente desta síndone, mas deve englobá-la na designação genérica de «ligaduras» (em grego, othónia).

9 «Ainda não tinham entendido a Escritura». Os discípulos não estavam psicologicamente predispostos a admitir a Ressurreição, para que esta pudesse ser fruto de uma alucinação; com efeito, só depois de confrontados com a realidade da ressurreição de Jesus é que se recordaram das Escrituras (cf. 1 Cor 15, 4; Act 2, 24-32; Jo 2, 22) e as entenderam. A ressurreição era uma realidade só admissível para o fim do mundo (cf. Jo 11, 24), pois, apesar de Jesus ter anunciado a sua ressurreição ao terceiro dia, este só poderia ser o dia final, de acordo com a profecia de Oseias (Os 6, 2). Diante do sepulcro vazio, só pensam num roubo (vv. 2.13.15) e não dão crédito a quaisquer notícias das aparições (cf. Mc 6, 11.13; Lc 24, 21-24; Jo 20, 25).

 

Em vez deste Evangelho, pode ler-se o que se leu na Vigília da Noite Santa.

 

Nas missas vespertinas pode ler-se o Evangelho de Lc 24, 13-35.

 

São Lucas 24, 13-35   (de tarde)

13Dois dos discípulos de Jesus iam a caminho duma povoação chamada Emaús, que ficava a duas léguas de Jerusalém. 14Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido. 15Enquanto falavam e discutiam, Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho. 16Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem. 17Ele perguntou-lhes: «Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?» Pararam, com ar muito triste, 18e um deles, chamado Cléofas, respondeu: «Tu és o único habitante de Jerusalém a ignorar o que lá se passou nestes dias». 19E Ele perguntou: «Que foi?» Responderam-Lhe: «O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; 20e como os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes O entregaram para ser condenado à morte e crucificado. 21Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel. Mas, afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu. 22É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram: foram de madrugada ao sepulcro, 23não encontraram o corpo de Jesus e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos a anunciar que Ele estava vivo. 24Alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas a Ele não O viram». Então Jesus disse-lhes: 25«Homens sem inteligência e lentos de espírito para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram! 26Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para entrar na sua glória?» 27Depois, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito. 28Ao chegarem perto da povoação para onde iam, Jesus fez menção de seguir para diante. 29Mas eles convenceram-n’O a ficar, dizendo: «Ficai connosco, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite». Jesus entrou e ficou com eles. 30E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. 31Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O. Mas Ele desapareceu da sua presença. 32Disseram então um para o outro: «Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» 33Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com eles, 34que diziam: «Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão». 35E eles contaram o que tinha acontecido no caminho e como O tinham reconhecido ao partir o pão.

 

Temos aqui uma das mais belas páginas do Evangelho: um relato cheio de vivacidade, de finura e de psicologia, em que acompanhamos o erguer daquelas almas desde a mais amarga frustração até às alturas da fé e da descoberta de Jesus ressuscitado. A crítica bíblica procura distinguir neste relato os elementos de tradição e os elementos redaccionais. Podem identificar-se muitos elementos de tradição neste relato, mas não dispomos de meios para classificar como meramente redaccionais todos os restantes, pois não são do nosso conhecimento todas as fontes de que Lucas dispôs; a própria crítica admite «fontes especiais» para a redacção de Lucas. Um facto indiscutível é que Lucas é um teólogo e um catequista, não é um jornalista e não se limita a contar a seco umas aparições; não temos, porém, elementos suficientes para definir em que medida reelaborou as suas fontes.

13 «Emaús»: uma povoação a 60 estádios (duas léguas), uns 11 quilómetros e meio de Jerusalém. Há duas leituras variantes nos manuscritos gregos do Evangelho de Lucas: a imensa maioria deles regista 60 estádios; alguns poucos têm 160 (o que equivale a uns 30 Km). Também não existe completo acordo sobre a sua localização, sendo indicados vários locais na tradição cristã; Al-Qubeibeh é o de maior aceitação, a uns 12 Km a Noroeste da Cidade Santa (a abadia beneditina de Abus-Gox corresponde aos 160 estádios).

16 «Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem». Não é que não vissem a Jesus, ou que Jesus se quisesse ocultar, mas eles é que estavam obcecados pelo seu extremo desalento. E fica-nos a lição: para que se possa reconhecer a Jesus ressuscitado é indispensável o olhar da fé.

18 «Cléofas» parece ser diferente do marido de Maria, mãe de Tiago e José (Jo 19, 25); embora alguns o identifiquem, a grafia é diferente: Klôpás.

22-24 «É verdade que algumas mulheres… Alguns dos nossos». Aqui se resume o que foi relatado antes com mais pormenor (Lc 23, 56b – 24, 9) e correspondente à tradição sinóptica e joanina. Certamente que «os nossos» são «Pedro e o outro discípulo» (certamente João, cf. v. 12 e Jo 20, 1-10). «Mas a Ele não O viram»: se este não é um pormenor meramente redaccional, temos que admitir que ainda não lhes constava da aparição de Jesus a Pedro, referida adiante, no v. 34; (cf. 1 Cor 15, 5).

28-30 «Jesus fez menção de seguir para diante». Lucas volta a aludir ao «caminho de Jesus» (no v. 15 já tinha usado o mesmo verbo grego que significa caminhar). R. J. Dillon (From eye-witnesses to ministers of the word) pensa que este pormenor lucano insinua que a presença de Jesus no meio dos seus através da Eucaristia – a fracção do pão do v. 30 – constitui o momento cume do seu caminhar  pelo caminho da salvação. Enternece o leitor ver como Jesus ressuscitado se torna o companheiro de caminho (recorde-se como Lucas gosta de focar a vida cristã como um caminho e um seguimento de Jesus); Jesus, depois de se fazer encontrado, agora faz-se rogado. Isto mesmo nos sucede muitas vezes na vida cristã. Ele vem ao nosso encontro sem O procurarmos e, outras vezes, quer dar-nos o ensejo de O convidarmos a ficar connosco e de praticarmos a caridade com os outros, que são Ele (cf. Mt 25, 40). Mas aqui o convite feito a Jesus não é um simples acto de caridade e de cortesia. Com efeito, parece que a narrativa nos leva a pensar que quem faz este pedido é toda a comunidade cristã, que se reúne para celebrar a Eucaristia e anseia estabelecer uma comunhão íntima com Jesus ressuscitado (ibid.). Todos estão de acordo em ver a estreita relação da refeição descrita com a multiplicação dos pães e a instituição da Eucaristia.

31 «Abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-no, mas Ele desapareceu da sua presença». É na Eucaristia que se abrem os olhos para a fé, para captar o que é invisível, mas real. Impressiona muito o relato ao unir o aparecimento com o desaparecimento, sem se dizer para onde é que Jesus se retirou. Desta maneira fica sugerida uma nova presença, a de Jesus glorioso e ressuscitado: uma ausência que é presença.

32 «Não ardia cá dentro o nosso coração?». Quando lemos a Escritura guiados por Jesus, presente na Igreja, inflama-se o nosso coração e sentimo-nos urgidos a mostrar aos que nos rodeiam, com as nossas vidas, pela palavra e pelo exemplo, que Cristo vive, que a Ressurreição é uma realidade. O episódio constitui um apelo a fazermos o mesmo papel do Ressuscitado junto dos desiludidos da vida e sem esperança e a comunicar-lhes a nossa experiência de fé. No relato também se põe em evidência a união do pão e da palavra na vida da Igreja.

 

Sugestões para a homilia

 

• Celebremos a Ressurreição de Cristo

Preparemos a nossa ressurreição

Demos testemunho de Cristo

Acreditemos em Jesus Cristo

• Ressuscitemos com Jesus Cristo

Jesus ressuscitou como disse

Acreditemos na Ressurreição

Sejamos fermentos de uma nova humanidade

 

 

1. Celebremos a Ressurreição de Cristo

 

Neste momento em que celebramos a Ressurreição de Jesus, devemos perguntar a nós mesmos? Que Ressurreição desejamos?

Paralelamente a esta pergunta, façamos uma outra: Que solução para a crise estamos a pedir ao Senhor?

 

a) Preparemos a nossa ressurreição. «Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando a todos os que eram oprimidos pelo Demónio, [...].»

Foram muitos os jovens que ontem à noite quiseram ser baptizados: no Porto, em Lisboa, em Braga e noutras dioceses de Portugal.

Para chegarem a este dia fizeram anos de preparação. Uma rapariga contava que aos 17 anos pediu para ser baptizada e a mãe negou-lhe a autorização para o fazer. Logo que pôde, começou uma preparação longa e manifesta agora a sua alegria.

Precisamos de ressuscitar na nossa vida cristã. Recebemos um cristianismo herdado dos nossos pais – deram-nos o melhor que puderam – mas depois muitos deixaram-se cair numa vida de paganismo, misturando algumas práticas cristãs com uma vida afastada de Deus no dia a dia.

Ontem à noite a Igreja convidava-nos a renovar as promessas do Baptismo: renúncia a Satanás e às suas obras e fé viva em Jesus Cristo ressuscitado.

Entendemos este apelo da nossa Mãe santa Igreja e estamos disponíveis para o acolher?

 

b) Demos testemunho de Cristo. «Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez no país dos judeus e em Jerusalém; eles mataram-n’O, suspendendo-O na cruz. Deus ressuscitou-O ao terceiro dia

Pedro, em casa do centurião Cornélio, em Cesareia, antes de o baptizar, como ele pedira, dá um testemunho vibrante sobre a Ressurreição de Jesus.

A Ressurreição de Jesus é o fundamento da nossa fé. Se Cristo não ressuscitou – diz S. Paulo – também nós não ressuscitamos. Quer dizer: depois desta vida não esperamos mais nada!

E se não ressuscitamos, somos os mais desgraçados dos filhos dos homens. Fazemos sacrifícios, renunciamos a mutas coisas, enquanto os outros vivem aparentemente à larga.

Mas Cristo Ressuscitou, e nós estamos aqui hoje porque é verdade. Confiamos-Lhe a nossa vida e queremos que Ele nos conduza ao Céu.

Mostremos com a nossa vida conforme aos ensinamentos do Evangelho que acreditamos na Ressurreição do Senhor.

 

c) Acreditemos em Jesus Cristo. «É d’Ele que todos os profetas dão o seguinte testemunho: quem acredita n’Ele recebe pelo seu nome a remissão dos pecados

Em cada Domingo, Dia do Senhor, celebramos a Páscoa da Ressurreição. Como na manhã de Páscoa, Jesus Cristo anda à nossa procura para nos reunir à Sua volta, conversar connosco e nos dar o Seu Corpo e Sangue como Alimento.

Cessamos então o trabalho e as actividades possíveis, para estarmos com Ele, e assim descansamos.

• Ilumina-nos com a sua Palavra;

• Alimenta-nos com o Seu Corpo e Sangue;

• e enchemo-nos de alegria e entusiasmo pelo testemunho das outras pessoas que estão connosco.

Mas o Domingo é também dia em que as pessoas se dedicam mais à família; convivem uns com os outros e partilham os seus problemas.

É dia de estreitar mais ainda os laços de comunhão de caridade uns com os outros.

A nossa fé em Jesus para pela participação semanal da santa Missa, se o não podemos fazer todos os dias.

 

2. Ressuscitemos com Jesus Cristo

 

a) Jesus ressuscitou como disse. «Maria Madalena [...] Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o discípulo predilecto de Jesus e disse-lhes: “Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram”.»

A Ressurreição de Cristo não foi um regresso à vida mortal e cheia de problemas, como a que tinha antes, mas a entrada numa vida imortal e gloriosa.

Os Apóstolos e as santas mulheres não estavam à espera deste acontecimento. Quando se dirigem ao sepulcro, na madrugada do domingo, vão à procura de um corpo morto, prevenidas com um lençol novo e perfumes para o embalsamar.

E mesmo depois de receberem a mensagem do Anjo – “ressuscitou como disse, não está aqui” – agarram-se à hipótese do roubo, porque não estão a contar com um Cristo vivo e glorioso.

Ressuscitou com os dotes do corpo glorioso: Impassibilidade - Claridade - Agilidade - Subtilidade

Baseada na Bíblia, a Igreja ensina que o corpo glorioso, além da imortalidade, possuirá os dons (ou dotes) da impassibilidade, da claridade, da agilidade e da subtileza.

A imortalidade não será exclusiva do corpo glorioso, mas será extensiva aos maus no inferno, conforme o Apocalipse: "Enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição." (Apoc. 21,4), e também "O último inimigo a derrotar será a morte, porque Deus sujeitou tudo debaixo dos seus pés." (I. Cor. 15,26). "Os que fizeram o bem vão ressuscitar para a vida eterna; os que praticaram o mal vão ressuscitar para a condenação." (Jo 5, 299

• A impassibilidade é o dote que impede que o corpo sinta qualquer dor, sofrimento ou incómodo. Pois diz São Paulo: "semeia-se o corpo na corrupção, ressurgirá na incorruptibilidade." (I Cor. 15,42). Além disso, o corpo glorioso não precisa de se alimentar, porque não é renovado, como o nosso.

• A claridade é o dom que tornará os corpos brilhantes como o sol, pois diz o evangelista: "os justos resplandecerão como o sol, no Reino de seu Pai." (S. Mateus, 13,43). Cristo antecipou-nos a visão desse dom na Transfiguração. Diferentemente da impassibilidade, igual para todos, com a claridade os corpos brilharão em diferentes graus, proporcionalmente ao mérito de cada um. O brilho de Cristo deslumbrou os guardas do sepulcro. Os Pastorinhos viram Nossa Senhora “vestida de luz”.

• A agilidade é uma libertação das leis físicas, particularmente a lei da gravidade, pois "semeia-se [o corpo] na fraqueza, ressurgirá na força." (I Cor. 15,43). Cristo percorre instantaneamente longas distâncias: ao encontro dos discípulos de Emaús, ao Cenáculo, etc.

• A subtilidade será a completa sujeição do corpo ao império da alma, executando suas ordens prontamente. Pois "semeia-se um corpo animal, ressuscitará um corpo espiritual." (I Cor. 15,44). Jesus sai do sepulcro sem rodarem a pedra e entra no Cenáculo sem Lhe abrirem portas ou janelas.

Temos connosco Jesus Cristo Ressuscitado, em cada celebração e no Sacrário. É o mesmo da Sua vida pública: afável, compreensivo, indulgente, misericordioso e disponível.

 

b) Acreditemos na Ressurreição. «Simão Pedro, [...] Entrou no sepulcro [...]: viu e acreditou

Também nós ressuscitaremos depois de passar este mundo, no fim dos tempos. A vida em graça é o sinal e condição desta ressurreição final.

Entretanto, temos de ajudar as outras pessoas a viverem como quem vai a caminho da vida eterna. Deus quer a nossa colaboração para que as coisas aconteçam.

Ele não quer um permissivismo preguiçoso que está à espera que Deus faça tudo.

Estamos em “recuperação”. A qualidade de vida física exige de nós muitos sacrifícios: caminhadas, dietas e medicamentos, além da procura do ar puro.

De modo semelhante, a nossa recuperação espiritual exige de nós também esforço, iniciativa.

Não podemos esperar que o mundo mude, ao mesmo tempo que permanecemos na atitude de não “levantar uma palheira do chão.”

A Ressurreição de Jesus alterou toda a vida dos primeiros cristãos. Os Apóstolos nunca mais terão um momento de descanso; sofrerão contradições e tormentos; viverão a solicitude pela salvação de todos; e morreram martirizados... mas estão felizes para sempre na glória do Paraíso.

 

c) Sejamos fermentos de uma nova humanidade. «aspirai às coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra

Nesta hora de crise que atravessamos, ninguém tem o direito de viver fechado no seu egoísmo cómodo.

Vivemos a solidariedade para com os outros procurando, em primeiro lugar, dar testemunho de um cristianismo autêntico. As pessoas estão saturadas de palavras bonitas dos políticos.

• Temos de cultivar as virtudes humanas. O nosso cristianismo – tantas vezes apregoado diante dos outros – não pode ser pretexto para procurar, quando convém, privilégios e favores.

Instrumentalizam-se, às vezes até os Sacramentos: “o cristianismo não me serve para nada, nem o prático, mas exijo o crisma para poder ser padrinho do Baptismo!”

• Cumprimento dos deveres: de estado – vivendo o matrimónio a sério, no amor e na educação dos filhos –, laborais – trabalhando com seriedade e consciência – e sociais – escolhendo dirigentes que não nos obriguem depois a engolir o que não queremos.

• Vivendo os compromissos com a Igreja: Missa dominical e frequência dos sacramentos.

Que Nossa Senhora, alegre com a Ressurreição do Seu Filho, nos ajude a caminhar para a felicidade eternal.

 

Homilia para a Missa da tarde

 

Introdução

 

Como dialogar com os homens de hoje que parecem já saber tudo, mas estão profundamente desiludidos e num beco sem saída?

Acreditam nos progressos da medicina, mas sabem que a morte chegará infalivelmente, pondo fim ao sonho de uma vida sem fim;

Põem a sua esperança no desenvolvimento da ciência, mas as suas interrogações mais profundas continuam sem resposta;

Os homens estão, como nunca, conscientes dos seus direitos, mas continuam profundamente divididos.

«A humanidade vive hoje uma fase nova da sua história, na qual profundas e rápidas transformações se estendem progressivamente a toda a terra. Provocadas pela inteligência e actividade criadora do homem, elas reincidem sobre o mesmo homem, sobre os seus juízos e desejos individuais e colectivos, sobre os seus modos de pensar e agir, tanto em relação às coisas como às pessoas. De tal modo que podemos já falar duma verdadeira transformação social e cultural, que se reflecte também na vida religiosa.

Como acontece em qualquer crise de crescimento, esta transformação traz consigo não pequenas dificuldades. Assim, o homem, que tão imensamente alarga o próprio poder, nem sempre é capaz de o pôr ao seu serviço. Ao procurar penetrar mais fundo no interior de si mesmo, aparece frequentemente mais incerto a seu próprio respeito. E, descobrindo gradualmente com maior clareza as leis da vida social, hesita quanto à direcção que a esta deve imprimir.

Nunca o género humano teve ao seu dispor tão grande abundância de riquezas, possibilidades e poderio económico; e, no entanto, uma imensa parte dos habitantes da terra é atormentada pela fome e pela miséria, e inúmeros são ainda os analfabetos. Nunca os homens tiveram um tão vivo sentido da liberdade como hoje, em que surgem novas formas de servidão social e psicológica. Ao mesmo tempo que o mundo experimenta intensamente a própria unidade e a interdependência mútua dos seus membros na solidariedade necessária, ei-lo gravemente dilacerado por forças antagónicas; persistem ainda, com efeito, agudos conflitos políticos, sociais, económicos, «raciais» e ideológicos, nem está eliminado o perigo duma guerra que tudo subverta. Aumenta o intercâmbio das ideias; mas as próprias palavras com que se exprimem conceitos da maior importância assumem sentidos muito diferentes segundo as diversas ideologias. Finalmente, procura-se com todo o empenho uma ordem temporal mais perfeita, mas sem que a acompanhe um progresso espiritual proporcionado.» (Conc. Vaticano II, Const. Pastoral sobre a Igreja e o mundo contemporâneo Gaudium et Spes, n. º 4).

 

O Santo Padre fala agora da necessidade urgente de uma nova evangelização, sobretudo para a velha Europa descristianizada.

O Exemplo de Jesus, no episódio do caminho de Emaús, na tarde do Domingo de Páscoa, pode inspirar-nos como fazê-la.

 

• «O próprio Jesus aproxima-Se e põe-Se a caminho com eles

Jesus faz-Se tudo para estar ao nosso lado: caminhante, doente, trabalhador, companheiro da mesa de café. Quer entrar em diálogo connosco e ajudar-nos.

 

• «os olhos deles estavam impedidos de O reconhecerem.» Também os nossos!

 

• Entra em conversa com divina habilidade. Pergunta, não começa a ensinar. É preciso dar-lhes a oportunidade de esvaziarem toda a amargura e desilusão que trazem na alma. Enquanto isso não acontecer, nada podem receber dentro de si. «Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho

 

• Estavam profundamente tristes. «Pararam, com ar muito triste.» Se nos dermos ao cuidado de olhar para as pessoas quando não sabem que estão a ser observadas, notaremos também isto.

 

• Jesus aguenta o primeiro embate, que é incómodo quando uma pessoa está desiludida. «Tu és o único habitante de Jerusalém a ignorar o que lá se passou nestes dias

Para ajudar uma pessoa é indispensável ouvi-la até ao fim. A nossa tentação é começar imediatamente a pregar moral.

 

• «E Ele perguntou: “Que foi?”». Para continuar o diálogo, há três opções na resposta:

dizer “não sei”. Jesus não pode usá-la porque é mentira. Ele era o protagonista de tudo.

Dizer “sei”. Quem melhor do que Ele sabia? Mas teria matado o diálogo.

Perguntar: “Que foi?” Jesus escolheu esta última hipótese de continuar o diálogo.

 

• No caminho de Emaús, a esperança dos dois discípulos – a libertação de Israel do jugo romano – não coincidia com o projecto de Salvação de Jesus.

Tinham pois, profunda “razão” para estarem desiludidos.

 

• Alimentavam ainda uma esperança de que, depois de tudo o que se passara, Jesus estivesse vivo, mas não gloriosamente ressuscitado.

Deste modo, na conversa com Jesus, chegaram a um beco sem saída do qual o mestre os vem libertar.

Chegou a hora de Jesus lhes dizer tudo o que era necessário.

Agora que é necessário continuar o diálogo, Jesus quer que eles manifestem vontade de o fazer. Continua o caminho, mas eles não Lho permitem.

Finalmente, os seus olhos abrem-se à luz da Eucaristia. É a meta de todo o apostolado: que as pessoas «tenham vida e a tenham em abundância

E uma vez com Cristo no coração, transformam-se em anunciadores da Boa Nova. Correm ao Cenáculo, apesar do avançado da hora e de terem pela frente mais de três horas de viagem.

 

 

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs:

Jesus Cristo, nosso Salvador,

enche o mundo de alegria e de paz

com a Sua Ressurreição gloriosa.

Como antes, na Sua vida mortal,

está disponível para nos atender.

Peçamos confiadamente a Sua ajuda

para nós e todas as pessoas de boa vontade.

Oremos (cantando):

 

    Senhor ressuscitado, atendei-nos!

Ou:           Cristo Ressuscitado: iluminai as nossas vidas!

 

1. Pelo Santo Padre, Bispos, Presbíteros e Diáconos,

    para que nos ensinem a viver a alegria da Páscoa,

    oremos, irmãos.

 

    Senhor ressuscitado, atendei-nos!

 

2. Por todos os que receberam ontem o Baptismo,

    para que vivam com alegria a Aliança baptismal,

    oremos, irmãos.

 

    Senhor ressuscitado, atendei-nos!

 

3. Pelos cristãos que perderam o sentido da vida,

    para que Jesus Cristo os encha de Esperança,

    oremos, irmãos.

 

    Senhor ressuscitado, atendei-nos!

 

4. Pelas pessoas que estão de luto por morte recente,

    para que a esperança na Ressurreição as conforte,

    oremos, irmãos.

 

    Senhor ressuscitado, atendei-nos!

 

5. Por todos nós, a celebrar a Páscoa da Ressurreição,

    para que o Senhor nos conceda a verdadeira paz,

    oremos, irmãos.

 

    Senhor ressuscitado, atendei-nos!

 

6. Pelos familiares que foram ao encontro de Cristo,

    para que Jesus Ressuscitado os receba no Paraíso,

    oremos, irmãos.

 

    Senhor ressuscitado, atendei-nos!

 

Senhor, que nos inundais com a luz da Vossa ressurreição,

Concedei-nos a graça da fidelidade ao nosso Baptismo,

Para Vos podermos contemplar um dia na felicidade do Céu.

Vós que sois Deus, na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Introdução

 

Jesus Cristo Ressuscitado preside à nossa celebração e vai tomar o pão e o vinho do nosso ofertório, para o converter, pelo ministério do sacerdote, no Seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade.

Avivemos a nossa fé e amor.

 

Cântico do ofertório: Bendita e louvada seja, M. Simões, NRMS 41

 

Oração sobre as oblatas: Exultando de alegria pascal, nós Vos oferecemos, Senhor, este sacrifício, no qual tão admiravelmente renasce e se alimenta a vossa Igreja. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio pascal I [mas com maior solenidade neste dia]: p. 469 [602-714]

 

No Cânone Romano dizem-se o Communicantes (Em comunhão com toda a Igreja) e o Hanc igitur (Aceitai benignamente, Senhor) próprios.

Nas Orações Eucarísticas II e III fazem-se também as comemorações próprias.

 

Santo: J. Santos, NRMS 6 (II)

 

Saudação da Paz

 

Jesus Cristo saudava os Apóstolos, depois de Ressuscitado, dizendo “a paz esteja convosco!”

Hoje queremos repetir o Seu gesto, renovando o propósito de vivermos com toda a exigência o mandamento da caridade.

 

Saudai-vos na paz de Cristo!

 

 

Monição da Comunhão

 

O nosso encontro com Jesus ressuscitado, neste momento da comunhão, vai ser mais íntimo do que o dos Apóstolos no cenáculo, porque vamos recebê-l’O sacramentalmente.

Façamo-lo com fé, amor e devoção, por tudo quanto fez por nós na Sua Paixão, Morte e Ressurreição.

 

Cântico da Comunhão: Cristo, nosso Cordeiro Pascal, M. Simões, NRMS 25

1 Cor 5, 7-8

Antífona da comunhão: Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado: celebremos a festa com o pão ázimo da pureza e da verdade. Aleluia.

 

Cântico de acção de graças: Louvai o Senhor, com tudo, M. Simões, NRMS 2 (I)

 

Oração depois da comunhão: Senhor nosso Deus, protegei sempre com paternal bondade a vossa Igreja, para que, renovada pelos mistérios pascais, mereça chegar à glória da ressurreição. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Nesta semana em que celebramos a oitava desta grande festa, anunciemos a todas as pessoas a Ressurreição de Cristo, com a nossa alegria e disponibilidade.

 

Cântico final: Cantai a Cristo Senhor, Az. Oliveira, NRMS 97

 

Na despedida, durante toda a Oitava, diz-se:

 

V. Ide em paz e o Senhor vos acompanhe. Aleluia. Aleluia.

R. Graças a Deus. Aleluia. Aleluia.

 

Homilias Feriais

 

TEMPO PASCAL

 

OITAVA DA PASCOA

 

2.ª Feira, 6-IV: A Ressurreição do Senhor e a nossa alegria.

Act 2, 14. 22-32 / Mt 28, 8-15

Pedro: Mas como David era profeta, viu de antemão e anunciou a ressurreição do Messias.

No dia de Pentecostes, Pedro recorda no seu discurso a profecia de David acerca da ressurreição do Messias (Leit.). E as santas mulheres foram as primeiras a encontrar-se com o Ressuscitado, e também as primeiras mensageiras da Ressurreição junto dos Apóstolos, apesar dos boatos espalhados em sentido contrário (Ev.).

Jesus ressuscitado é a causa da nossa alegria, porque venceu o pecado e a morte. Se alguma vez passamos por momentos de desânimo, procuremos rapidamente a sua companhia. E, como as santas mulheres, demos testemunho da nossa alegria a todos os que nos rodeiam.

 

3.ª Feira, 7-IV: Ressurreição e conversão.

Act 2, 36-41 / Jo 20, 11-18

Jesus: Mulher, por que estás a chorar?

No dia de Pentecostes, Pedro comove os seus ouvintes ao falar da paixão de Cristo: «todos sentiram o coração despedaçar-se» (Leit.). Maria de Magdala chora intensamente junto ao túmulo de Jesus (Ev.). Os discípulos perguntam: «Que havemos de fazer?». A Madalena recomeça, depois do encontro com Jesus ressuscitado, a esperança substitui o desânimo.

«Deus é quem nos dá a coragem de começar de novo. É, ao descobrir a grandeza do amor de Deus, que o nosso coração é abalado pelo horror e pelo peso do pecado. O coração humano converte-se ao olhar para aquele a quem os nossos pecados trespassaram» (CIC, 1432).

 

4.ª Feira, 8-IV: Toda a força vem de Deus.

Act 3, 1-10 / Lc 24, 13-35

Pedro: Não tenho prata nem oiro, mas o que tenho vou dar-to: Em nome de Jesus de Nazaré, anda!

Pedro cura um coxo, dando-lhe a força de Deus, e ele começa a andar de novo (Leit.). Jesus encontra dois discípulos e dá-lhes o alimento da palavra de Deus e o pão eucarístico (Ev.), e eles recomeçam, cheios do fogo do amor de Deus, a sua vida junto ao Senhor.

Já sabemos onde temos que ir procurar forças para recomeçarmos a andar pelos caminhos de Deus. Por um lado, toda a força vem de Deus: é preciso rezar mais. Por outro lado, aproveitar as graças que recebemos pela participação na Eucaristia: o Pão e a Palavra são indispensáveis para vencermos os desânimos.

 

5.ª Feira, 9-IV: O Senhor oferece-nos a sua paz.

Act 3, 11-26 / Lc 35-48

E disse-lhes: Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dos mortos.

Para explicar o milagre da cura do coxo, Pedro fala da morte e ressurreição de Cristo, e pede a conversão (Leit.). Jesus abre o entendimento dos discípulos com a mesma finalidade (Ev.). Aprendamos a ver onde devemos procurar a causa da nossa conversão, especialmente no campo da paz (Ev.).

A paz é um dos grandes dons do Ressuscitado: «A paz terrena é imagem e fruto da paz de Cristo. Pelo sangue derramado na cruz reconciliou com Deus os homens» (CIC, 2305). Na Missa repetimos: Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz». Difundamos a paz do Senhor à nossa volta.

 

6.ª Feira, 10-IV: No nome do Senhor.

Act 4, 1-12 / Jo 21, 1-14

Pelo nome de Jesus Cristo de Nazaré é que este homem se encontra na vossa presença perfeitamente são.

Pedro explica aos chefes do povo, aos anciãos e escribas o milagre do coxo: Em nome de Jesus Cristo (Leit.). A pesca milagrosa também se leva a cabo pelo mesmo poder: Pedro lança as redes conforme o Senhor lhe pedia (Ev.).

Porque foi fecunda a influência do cristianismo na Europa, devemos continuar a recorrer ao nome do Senhor, «para plasmar uma mentalidade cristã na vida corrente: na família, na escola, na comunicação social, no mundo da cultura, do trabalho, da economia, na política, nos tempos livres, na saúde e na doença» (S. João Paulo II).

 

Sábado, 11-IV:Cumprir o mandato de Cristo.

Act 4, 13-21 / Mc 16, 9-15

Ide a todo o mundo e proclamai a Boa Nova a todas as criaturas.

O milagre da cura do coxo continua a preocupar as autoridades, que proíbem os Apóstolos de falarem (Leit.). Mas, os Apóstolos, seguindo o mandato de Cristo (Ev.), não podem deixar de dizer o que viram e escutaram (Leit.).

S. João Paulo II recordava-nos que «a despedida no fim da Missa constitui um mandato, que leva o cristão a empenhar-se na propagação do Evangelho e na animação cristã da sociedade». Actuemos como os Apóstolos, apesar das proibições: deixem as vossas convicções para dentro da igreja; não falem de Deus num estado laico; não imponham os vossos valores...

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Fernando Silva

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 

 


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