ANUNCIAÇÃO DO SENHOR

25 de Março de 2014

 

Solenidade

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Acolhe Virgem piedosa, M. Cartageno, NRMS 101

Hebr 10, 5.7

Antífona de entrada: Ao entrar no mundo, o Senhor disse: Eu venho, meu Deus, para fazer a vossa vontade.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Celebramos este ano a solenidade da Anunciação do Senhor na quarta feira da Semana de Paixão. O nosso olhar está orientado para os Mistérios da Páscoa de Jesus Cristo, e de modo especial para o seu Sacrifício na Cruz. A festa de hoje nos lembra que a Paixão de Nosso Senhor não é um acto de amor generosíssimo mas isolado; é, antes, o desenvolvimento pleno de um acto de amor infinito que se inicia no mistério da Encarnação em que hoje meditamos.

 

Oração colecta: Deus, Pai santo, que na vossa benigna providência quisestes que o vosso Verbo assumisse verdadeira carne humana no seio da Virgem Maria, concedei-nos que, celebrando o nosso Redentor como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, mereçamos também participar da sua natureza divina. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: O Profeta Isaías anuncia, movido pelo Espírito Santo, um Sinal de Deus, que só virá a acontecer séculos mais tarde: o Mistério da concepção virginal de Maria: e a Encarnação do Filho de Deus. O Mistério da Encarnação é a mais plena manifestação do Amor de Deus pelos homens.

 

Isaías 7, 10-14 8, 10

 

Naqueles dias, 10o Senhor mandou ao rei Acaz a seguinte mensagem: 11«Pede um sinal ao Senhor teu Deus, quer nas profundezas do abismo, quer lá em cima nas alturas». 12Acaz respondeu: «Não pedirei, não porei o Senhor à prova». 13Então Isaías disse: «Escutai, casa de David: Não vos basta que andeis a molestar os homens para quererdes também molestar o meu Deus? 14Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: a virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será ‘Emanuel’, porque Deus está connosco».

 

Este célebre texto messiânico é extraído do início do «Livro do Emanuel», assim chamado pela misteriosa figura central do Immánu-El (connosco Deus), um «menino» descrito com traços que, excedendo tudo o que a história da monarquia hebraica regista (Is 7, 1 – 12, 6), lhe dão um carácter messiânico, em quem os cristãos vêem uma figura do Salvador.

10-13 Como prova de que o rei Acaz não virá a ser destronado e substituído pelo filho de Tabel, estranho à linhagem davídica (estamos na conjura siro-efraimita contra o rei de Judá), o profeta Isaías propõe ao rei que peça um sinal divino, por mais extraordinário que seja (cf. v. 11). O rei, com hipócrita religiosidade, nega-se a pedir esse sinal, porque não acredita em sinais, em coisas sobrenaturais. Foi por esta ocasião (o que não quer dizer exactamente no mesmo momento) que o Profeta, dirigindo-se à linhagem (casa) de David, anunciou que o Senhor dará um sinal verdadeiramente extraordinário e que o trono de David se consolidará eternamente (cf. 2 Sam 7, 16).

14 Esse «sinal» é a virgem que concebe. Muito se tem discutido e escrito sobre este sinal. Uma coisa é certa, é que o crente não pode prescindir de algum sentido messiânico (directo ou indirecto) desta célebre passagem isaiana. De facto, a própria exegese bíblica mostra que estamos no chamado «Livro do Imanuel» (Is 7 – 12), uma secção de carácter vincadamente messiânico por apontar para um descendente de David, em quem se concentram as promessas da salvação de Deus, o Imanuel (o Deus connosco). Ainda que, num primeiro plano, possa ser visado o próprio filho do rei Acaz, Ezequias, ele pode ser considerado como uma figura ou tipo do Messias. A tradução grega dos LXX (inspirada por Deus?) utilizou um termo específico para designar a virgindade desta mãe, chamando-a parthénos, quando o termo hebraico original não designa mais que a sua idade juvenil: ‘almáh. A célebre tradução grega em que se apoiavam os primeiros apologistas cristãos para demonstrarem aos judeus que Jesus é o Messias prometido, veio a ser rejeitada pelos judeus, que a substituíram por outras versões (ou antes adaptações gregas, Áquila, Símaco e Teodocião); e o dia festivo para comemorar a tradução dos LXX passou a ser um dia de luto! A interpretação mais tradicional defende o sentido literal (não se contentando com o sentido chamado típico ou pleno, suficientes para se garantir o sentido messiânico da passagem) e faz finca-pé em que Deus tinha oferecido pelo Profeta um sinal prodigioso, e eis que o dá; ora esse sinal só é prodigioso se a concepção e o nascimento do Menino acontece sem destruir a virgindade da Mãe; aliás é ela a pôr o nome ao filho, coisa que pertence sempre ao pai (que aqui não aparece). O próprio nome do filho insinua a sua divindade, «Deus connosco»: é a mesma personagem extraordinária anunciada em Is 9, 5-6: «Deus forte, príncipe da paz...».

 

Salmo Responsorial    Sl 39 (40), 7–8a.8b–9.10.11 (R. 8a.9a)

 

Monição: O Salmo que iremos rezar é um salmo messiânico em que o autor oferece a Deus não um sacrifício de coisas materiais mas o sacrifício da própria obediência a Deus. Isto se aplica de modo eminente a Jesus Cristo, mas também deve poder dizer-se de cada um de nós.

 

Refrão:        Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade.

 

Não Vos agradaram sacrifícios nem oblações,

mas abristes–me os ouvidos;

não pedistes holocaustos nem expiações,

então clamei: «Aqui estou».

 

De mim está escrito no livro da Lei

que faça a vossa vontade.

Assim o quero, ó meu Deus,

a vossa lei está no meu coração».

 

Proclamei a justiça na grande assembleia,

não fechei os meus lábios, Senhor, bem o sabeis.

 

Não escondi a vossa justiça no fundo do coração,

proclamei a vossa fidelidade e salvação.

Não ocultei a vossa bondade e fidelidade

no meio da grande assembleia.

 

Segunda Leitura

 

Monição: O autor da Carta aos Hebreus explica aos cristãos procedentes do judaísmo como todo o culto e os sacrifícios rituais da Antiga Lei eram preparação do único e verdadeiro Sacrifício Redentor oferecido por Jesus Cristo. Esse Sacrifício se torna presente em cada Eucaristia.

 

Hebreus 10, 4-10

 

Irmãos: 4É impossível que o sangue de touros e cabritos perdoe os pecados. 5Por isso, ao entrar no mundo, Cristo disse: «Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas formaste-Me um corpo. 6Não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado. 7Então Eu disse: ‘Eis-Me aqui no livro sagrado está escrito a meu respeito: Eu venho, meu Deus, para fazer a tua vontade’». 8Primeiro disse: «Não quiseste sacrifícios nem oblações, não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado». E no entanto, eles são oferecidos segundo a Lei. 9Depois acrescenta: «Eis-Me aqui: Eu venho para fazer a tua vontade». Assim aboliu o primeiro culto para estabelecer o segundo. 10É em virtude dessa vontade que nós somos santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita de uma vez para sempre.

 

O autor de Hebreus está no final da primeira parte da obra, precisamente quando discorre sobre a superioridade do sacrifício de Cristo relativamente a todos os sacrifícios da Lei Antiga (8, 1 – 10, 18), sob o ponto de vista da eficácia, argumentando, à boa maneira rabínica, a partir dos Salmos 40, 7-9 e 110, 1. Perante a ineficácia dos sacrifícios da Antiga Lei, o próprio Deus decide vir à Terra, na pessoa do Filho para poder oferecer, da parte da humanidade (Cristo é perfeito homem), um sacrifício de eficácia infinita (Cristo é perfeito Deus), oferecido de uma vez para sempre (v. 10), e assim aboliu o primeiro culto, o levítico (v. 9). Recorde-se que o Sacrifício do Calvário é único pelo seu infinito valor, o Sacrifício da Missa não é outro sacrifício diferente, mas o mesmo sacrifício que se torna presente sacramentalmente a todos os tempos nos nossos altares, aplicando-nos os méritos da Cruz (cf. Encíclica Ecclesia de Eucharistia, nº 12).

7 «Eis-me aqui». Palavras do Salmo 40 (39) que o autor inspirado aplica a Jesus, e que a Liturgia hoje põe no coração do Filho de Deus, ao incarnar no seio da Santíssima Virgem.

 

Aclamação ao Evangelho        Jo 1, 14ab

 

Monição: Contemplemos com admiração e agradecimento a cena da Anunciação narrada por S. Lucas, e tornemo-nos mais conscientes de que também nos somos chamados a colaborar com Deus na Obra da Salvação.

 

Cântico: J. Santos, NRMS 40

 

O Verbo fez–Se carne e habitou entre nós

e nós vimos a Sua glória.

 

 

Evangelho

 

São Lucas 1, 26-38

 

Naquele tempo, 26o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. 27O nome da Virgem era Maria. 28Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». 29Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». 34Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?». 35O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 36E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril 37porque a Deus nada é impossível». 38Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra».

 

A narrativa da Anunciação reveste-se duma densidade tal, que cada palavra encerra uma riqueza e profundidade impressionante, o que condiz bem com o acontecimento mais transcendente da História, o preciso momento em que, com o sim da Virgem Maria, o Eterno entra no tempo, o Criador se faz criatura.

26 «O Anjo Gabriel». O mesmo que anunciou a Zacarias o nascimento de João. Já era conhecido o seu nome no A.T. (Dan 8, 16-26; 9, 21-27). O seu nome significa «homem de Deus» ou também «força de Deus».

28 Coadunando-se com a transcendência da mensagem, a tripla saudação a Maria é absolutamente inaudita:

«Ave»: Vulgarizou-se esta tradução, correspondente a uma saudação comum (como ao nosso «bom dia»; cf. Mt 26, 49), mas que não parece ser a mais exacta, pois Lucas, para a saudação comum usa o semítico «paz a ti» (cf. Lc 10, 5); a melhor tradução é «alegra-te» – a tradução literal do imperativo grego khaire –, de acordo com o contexto lucano de alegria e com a interpretação patrística grega, não faltando mesmo autores modernos que vêm na saudação uma alusão aos convites proféticos à alegria da «Filha de Sião» (Sof 3, 14; Jl 2, 21-23; Zac 9, 9).

Ó «cheia de graça»: Esta designação tem muita força expressiva, pois está em vez do nome próprio, por isso define o que Maria é na realidade. A expressão portuguesa traduz um particípio perfeito passivo que não tem tradução literal possível na nossa língua: designa Aquela que está cumulada de graça, de modo permanente; mais ainda, a forma passiva parece corresponder ao chamado passivo divino, o que evidencia a acção gratuita, amorosa, criadora e transformante de Deus em Maria: «ó Tu a quem Deus cumulou dos seus favores». De facto, Maria é a criatura mais plenamente ornada de graça, em função do papel a que Deus A chama: Mãe do próprio Autor da Graça, Imaculada, concebida sem pecado original, doutro modo não seria, em toda a plenitude, a «cheia de graça», como o próprio texto original indica.

«O Senhor está contigo»: a expressão é muito mais rica do que parece à primeira vista; pelas ressonâncias bíblicas que encerra, Maria é posta à altura das grandes figuras do Antigo Testamento, como Jacob (Gn 28, 15), Moisés (Ex 3, 12) e Gedeão (Jz 6, 12), que não são apenas sujeitos passivos da protecção de Deus, mas recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão confiada por Ele.

Chamamos a atenção para o facto de na última edição litúrgica ter sido suprimido o inciso «Bendita és tu entre as mulheres», pois este não aparece nos melhores manuscritos e pensa-se que veio aqui parar por arrasto do v. 42 (saudação de Isabel). A Neovulgata, ao corrigir a Vulgata, passou a omiti-lo.

29 «Perturbou-se», ferida na sua humildade e recato, mas sobretudo experimentando o natural temor de quem sente a proximidade de Deus que vem para tomar posse da sua vida (a vocação divina). Esta reacção psicológica é diferente da do medo de Zacarias (cf. Lc 1, 12), pois é expressa por outro verbo grego; Maria não se fecha no refúgio dos seus medos, pois nela não há qualquer espécie de considerações egoístas, deixando-nos o exemplo de abertura generosa às exigências de Deus, perguntando ao mensageiro divino apenas o que precisa de saber, sem exigir mais sinais e garantias como Zacarias exigira (cf. Lc 1, 18).

32-33 «Encontraste graça diante de Deus»: «encontrar graça» é um semitismo para indicar o bom acolhimento da parte dum superior (cf. 1 Sam 1, 18), mas a expressão «encontrar graça diante de Deus» só se diz no A. T. de grandes figuras, Noé (Gn 6, 8) e Moisés (Ex 33, 12.17). O que o Anjo anuncia é tão grandioso e expressivo que põe em evidência a maternidade messiânica e divina de Maria (cf. 2 Sam 7, 8-16; Salm 2, 7; 88, 27; Is 9, 6; Jer 23, 5; Miq 4, 7; Dan 7, 14).

34 «Como será isto, se Eu não conheço homem?» Segundo a interpretação tradicional desde Santo Agostinho até aos nossos dias, tem-se observado que a pergunta de Maria careceria de sentido, se Ela não tivesse antes decidido firmemente guardar a virgindade perpétua, uma vez que já era noiva, com os desposórios ou esponsais (erusim) já celebrados (v. 27). Alguns entendem a pergunta como um artifício literário e a expressão «não conheço» no sentido de «não devo conhecer», como compete à Mãe do Messias (cf. Is 7, 14). Pensamos que a forma do verbo, no presente, «não conheço», indica uma vontade permanente que abrange tanto o presente como o futuro. Também a segurança com que Maria aparece a falar faz supor que José já teria aceitado, pela sua parte, um matrimónio virginal, dando-se mutuamente os direitos de esposos e renunciando a consumar a união; mas nem todos os estudiosos assim pensam, como também se vê no recente e interessante filme Figlia del suo Figlio.

35 «O Espírito Santo virá sobre ti…». Este versículo é o cume do relato e a chave do mistério: o Espírito, a fonte da vida, «virá sobre ti», com a sua força criadora (cf. Gn 1, 2; Salm 104, 30) e santificadora (cf. Act 2, 3-4); «e sobre ti a força do Altíssimo estenderá a sua sombra» (a tradução litúrgica «cobrirá» seria de evitar por equívoca e pobre; é melhor a da Nova Bíblia da Difusora Bíblica): o verbo grego (ensombrar) é usado no A. T. para a nuvem que cobria a tenda da reunião, onde a glória de Deus estabelecia a sua morada (Ex 40, 34-36); aqui é a presença de Deus no ser que Maria vai gerar (pode ver-se nesta passagem mais um fundamento bíblico para o título de Maria, «Arca da Aliança»).

«O Santo que vai nascer…». O texto grego admite várias traduções legítimas; a litúrgica, afasta-se tanto da da Vulgata, como da da Nova Vulgata; uma tradução na linha da Vulgata parece-nos mais equilibrada e expressiva: «por isso também aquele que nascerá santo será chamado Filho de Deus». I. de la Potterie chega a ver aqui uma alusão ao parto virginal de Maria: «nascerá santo», isto é, não manchado de sangue, como num parto normal. «Será chamado» (entenda-se, «por Deus» – passivum divinum) «Filho de Deus», isto é, será realmente Filho de Deus, pois o que Deus chama tem realidade objectiva (cf. Salm 2, 7).

38 «Eis a escrava do Senhor…». A palavra escolhida na tradução, «escrava» talvez queira sublinhar a entrega total de Maria ao plano divino. Maria diz o seu sim a Deus. Chamando-se «serva do Senhor», é a primeira e única vez que na história bíblica se aplica a uma mulher este apelativo, como que evocando toda uma história maravilhosa de outros «servos» chamados por Deus, que puseram a sua vida ao seu serviço: Abraão, Jacob, Moisés, David… É o terceiro nome com que Ela aparece neste relato: «Maria», o nome que lhe fora dado pelos homens, «cheia de graça», o nome dado por Deus, «serva do Senhor», o nome que Ela se dá a si mesma.

«Faça-se…». O «sim» de Maria é expresso com o verbo grego no modo optativo (génoito, quando o normal seria o uso do modo imperativo génesthô), o que põe em evidência a sua opção radical e definitiva, o seu vivo desejo (matizado de alegria) de ver realizado o desígnio de Deus (M. Orsatti).

 

Sugestões para a homilia

 

1. A Anunciação do Senhor e o Mistério da Encarnação

2. O Mistério da Encarnação e Nossa Senhora

3. O Mistério da Encarnação e a nossa vida

 

 

1. A Anunciação do Senhor e o Mistério da Encarnação

 

“Naquele tempo o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré”. Vamos transportar-nos também nos agora, com o pensamento, até aquele lugar como existe na actualidade.

Num pequeno espaço arrancado à montanha para servir de habitação encontramos um altar de reduzidas dimensões. Junto desse altar, no pavimento, uma pedra redonda, trabalhada de maneira sóbria pelo escultor, atrai o olhar do visitante. Cinco palavras, escritas na base do altar, esclarecem o seu significado: “Verbum caro hic factum est”(Aqui o Verbo se fez homem). A monumental Basílica da Anunciação foi construída para acolher essa pequena gruta, que em tempos formou parte da casa de Nossa Senhora em Nazaré.

Nunca deveriam sair da nossa mente e do nosso coração essas cinco palavras que poderiam ser traduzidas pela conhecida frase: “Aqui que tudo começou ”.

Hoje na Liturgia, somos introduzidos nesse lugar abençoado e nesse “começo” pela mão de S. Lucas. A Igreja não se cansa de proclamar e contemplar o momento mais transcendente da Humanidade, e hoje o faz de modo solene na sua celebração.

Ouvimos há instantes o sim de Maria, “faça-se em mim segundo a tua palavra”, Uma frase cheia de simplicidade, mas que fende como uma espada a Historia humana num “antes” e um “depois” de proporções cósmicas.

A expressão que correntemente utilizamos, “antes de Cristo” ou “depois de Cristo” sintetiza essa mudança do Mundo até as suas raízes, e é bom que recordemos o grandioso conteúdo que nela se encerra. Significa, entre outras coisas: antes da Encarnação e depois da Encarnação; antes da Plenitude dos tempos e depois do tempo ter sido levado à sua Plenitude; antes da nova Criação e depois de ter sido criado o Mundo de novo; antes de Deus viver entre nós e depois de Deus ser também Emanuel, Deus no meio de nós, Deus com rosto humano; antes do homem ser filho de Deus e depois do homem ter sido adoptado por Deus como filho chamado a viver na Sua Intimidade divina.

Este reiniciar-se da Historia de consequências colossais acontece, porem, na humildade e no silêncio, sem clamores nem espectáculo. Só Maria conhece o Amor infinito de Deus que está na origem da primeira Obra criadora e que nesta nova Criação age com toda a sua Omnipotência e a sua inesgotável Misericórdia. Tudo acontece na humildade, de modo escondido, “no seio da terra”. Uma gruta é o cenário do Mistério da Encarnação, numa gruta nasce o Verbo, e numa gruta ressuscita para a sua vida gloriosa.

A Encarnação redentora do Filho de Deus vem até nós pelo caminho do “interior da terra”, pelo caminho do grão de trigo que se enterra e morre para dar fruto (cfr. Jo 12,24), pelo caminho do abaixamento (cfr. Fil 2,7), pelo caminho da humildade. Não é Deus que nos abre uma porta para que possamos chegar até a Ele. É Deus que entra no mundo pela porta da humildade para vir até cada um de nós como o pastor que procura a ovelha tresmalhada, movido pela sua infinita Misericórdia.

Como não cairmos de joelhos agradecidos e espantados cada vez que consideramos estas verdades em cada Ave-Maria ou quando ao meio do dia (lembrando o “antes” e o “depois”) rezarmos a oração do Anjo do Senhor.

Vivamos hoje esta Eucaristia reforçando especialmente a sua dimensão de acção de graças, e procuremos mostrar com obras que acolhemos todo o Amor que até nós vem, deixando-nos transformar por ele.

A resposta de Nossa Senhora, “Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”, deve ser a disposição constante da nossa vida.

 

 

2. O Mistério da Encarnação e Nossa Senhora

 

“Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo”. Com estas palavras se dirige a Maria o Anjo Gabriel. S. Lucas tinha explicado, pouco antes, que “O nome da virgem era Maria”, e nós podemos entender que de facto diz “era”, porque o nome terreno cede o seu lugar ao nome que Nossa Senhora tinha no Céu. O nome que corresponde à mais plena verdade sobre Ela: “Cheia de graça”. O Papa emérito, Bento XVI explica que cheia de graça pode bem ser traduzido por “amada” por Deus, pois a graça não é outra coisa senão o amor de Deus ( cfr. Homilia, 25 de Março de 2006). Essa plenitude com que Nossa Senhora é amada por Deus faz de Ela uma criatura única e nova na história da Humanidade. É uma criatura em que de algum modo estão já presentes os “Novos Céus e a Nova Terra”(2 Pe 3, 13) da escatologia final. S. Tomás afirma existe uma “refluentia ou redumdantia da graça da alma sobre a materialidade do corpo de Maria, que se encontrou sempre de algum modo – muito misterioso para nós - «introducida» na vida íntima da Trindade” (A. Orozco “Mãe de Deus e nossa Mãe”, pg.31).

Nossa Senhora é a “Nova terra”, terra de uma bondade superabundante, comparada com aquela terra primitiva que Deus viu que era boa (cfr.Gn 1, 10) e da qual formou a Adão (Gn 2, 7). De esta nova terra, “Cheia de graça” formou Deus o “Homem novo”, Jesus Cristo, com a plena colaboração de Nossa Senhora. “Quando a Virgem pronunciou o seu "sim" ao anúncio do Anjo, Jesus foi concebido e com Ele iniciou a nova era da história, que seria depois sancionada na Páscoa como "nova e eterna Aliança". Na realidade, o "sim" de Maria é o reflexo perfeito daquele do próprio Cristo quando entrou no mundo, como escreve a Carta aos Hebreus interpretando o Salmo 39: "Eis que venho como está escrito de Mim no Livro para fazer, ó Deus, a Tua vontade" (Hb 10, 7). A obediência do Filho reflecte-se na obediência da Mãe e assim, mediante o encontro destes dois "sins", Deus pôde assumir um rosto humano, (Bento XVI, Angelus 25 de Março de 2007). Nessa lógica do amor, da doação insere-se a Encarnação e a Nova Aliança.

Deus não desiste no seu infinito amor ao homem, e a Aliança em Cristo é mais generosa, se podemos falar assim, do que a Aliança Antiga. Também a nossa vida deve desenvolver-se dentro de essa lógica, a lógica da doação, a lógica do amor. Que bom seria que renovássemos hoje os nossos compromissos baptismais, que são compromissos de amor e santidade. Também nós, como Nossa Senhora, devemos dizer “aqui estou” disposto a acolher todos os planos de Deus para nossa vida, tudo o que Deus dispor para nossa pessoa. Não esqueçamos que “a resposta de Maria ao Anjo prolonga-se na Igreja, chamada a tornar presente Cristo na história, oferecendo a própria disponibilidade para que Deus possa continuar a visitar a humanidade com a sua misericórdia. O "sim" de Jesus e de Maria renova-se assim no "sim" dos santos” (Bento XVI, Angelus 25 de Março de 2007), e nos queremos ser santos e levar Cristo aos irmãos.

 

 

3. O Mistério da Encarnação e a nossa vida

 

Na passagem da Epístola aos Hebreus há pouco proclamada, aparece Jesus Cristo na sua Divindade (o Filho que “entra” no mundo pela encarnação) e na sua humanidade (formaste-Me um corpo). Jesus Cristo, é Deus e homem verdadeiro, pois só de este modo poderia ser verdadeiramente o Redentor. Jesus por ser homem pode oferecer o seu sacrifício em nome de toda a Humanidade, e por ser Deus a sua oblação é de valor infinito. Desde o primeiro instante da Encarnação do Filho de Deus a sua natureza divina e a natureza humana assumida ficam inseparáveis e assim continuam no Céu depois da Glorificação do Senhor.

Deus em Jesus Cristo não só nos dá um Redentor (a Verdade e a Vida) mas também um Exemplo (o Caminho), com o qual devemos identificar mais e mais a nossa vida.

Nós os cristãos só temos uma natureza, mas elevada à ordem da graça e por isso existe em nós uma dupla dimensão, natural e sobrenatural, que não são duas realidades justapostas e separáveis, mas unidas e que olhando-nos em Jesus Cristo temos de saber harmonizar. Todo o que há de bom neste mundo e em nós deve ser elevado à ordem da graça sem deixar de ser humano. “Todos os caminhos da Terra podem ser uma ocasião de encontro com Cristo, que nos chama a identificar-nos com Ele, para realizarmos - no lugar onde estamos - a sua missão divina.

Deus chama-nos através dos incidentes, da vida de cada dia, no sofrimento e na alegria das pessoas com quem convivemos, nas preocupações dos nossos companheiros, nas pequenas coisas da vida familiar. Deus também nos chama através dos grandes problemas, conflitos e ideais que definem cada época histórica, atraindo o esforço e o entusiasmo de grande parte da Humanidade. (…) Cada situação humana é irrepetível, fruto de uma vocação única, que se deve viver com intensidade, realizando nela o espírito de Cristo. Assim, vivendo cristãmente entre os nossos iguais, com naturalidade mas de modo coerente com a nossa fé, seremos Cristo presente entre os homens” (S. Josemaria Escrivã “Cristo que passa”, nº110 e nº112).

Estas palavras de S. Josemaria nos lembram que Cristo vive em nós os baptizados e o Espírito Santo vai conduzindo a nossa vida de maneira a se tornar essa presença mais profunda e identificativa. Devemos colaborar com a Acção do Espírito Santo até chegar a um momento em que pensamos como pensa Jesus, nos alegramos com o que da alegria a Jesus, nos entristece o que entristece a Nosso Senhor, e os nossos interesses, os nossos projectos e ideais são os de Cristo. Cristo vive em nós como a videira vive nas varas, mas devemos ser conscientes dessa presença transformante e manter com nosso Senhor um diálogo pessoal, simples e movido pelo amor, o mais continuo possível. Conversando com verdadeira amizade com Jesus todo o dia procuraremos fazer como Ele a vontade do Pai em todos os momentos e circunstâncias da jornada. Esta é a essência da vida cristã, que lança as suas raízes no mistério da Encarnação que hoje contemplamos.

Peçamos agora a Nossa Senhora, que todos os seus filhos sejam os ramos fecundos da videira que é Jesus Cristo, e que todos os que se encontrarem separados dela voltem à fonte da Vida nesta Quaresma já adiantada para celebrar de modo frutuoso a Santa Semana que iremos iniciar no próximo Domingo.

 

 

 

Diz-se o Credo. Às palavras e encarnou..., ajoelha-se.

 

Oração Universal

 

Irmãs e irmãos em Cristo

unidos pela fé, à Virgem Maria,

em cujo seio o Verbo Se fez carne para a salvação do mundo,

façamos subir ao Pai as nossas súplicas,

dizendo (ou cantando):

 

R. Pela Vossa Encarnação, ouvi-nos Senhor.

Ou: Interceda por nós a Virgem cheia de graça.

Ou: Interceda por nós a Mãe do Verbo Encarnado

 

 

1.  Para que a Igreja dispersa pelo mundo,

anuncie fielmente Jesus Cristo,

concebido no seio da Virgem Maria, por obra do Espírito Santo,

oremos, irmãos.

 

2.  Para que o papa Bento XVI, os bispos, os presbíteros e os diáconos:

amem a Deus de todo o coração

e exerçam o seu ministério imitando a Cristo,

oremos, irmãos.

 

3.  Para que em Cristo, servo obediente,

que veio ao mundo para fazer a vontade do Pai,

ofereçamos a Deus a nossa própria vida,

oremos, irmãos

 

4.  Para que aos pobres e a todos os que sofrem

seja feita justiça, não lhes falte o necessário

e se reconheça em eles o rosto de Cristo,

oremos, irmãos.

 

5.  Para que a Virgem Santa Maria, Mãe do “Emanuel”,

que nos foi dada por seu Filho como nossa Mãe,

nos acompanhe quer na vida quer na morte,

oremos, irmãos.

 

6.  Para que os cristãos de todas as igrejas,

particularmente da nossa Diocese,

imitem Cristo no seu modo de viver,

oremos, irmãos.

 

Infundi, Senhor a vossa graça em nossas almas,

para que a anunciação do Anjo,

que nos revelou a encarnação do vosso Filho,

e a intercessão da Virgem Maria

nos levem a contemplar a vossa glória

Por Cristo, nosso Senhor

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: O Anjo do Senhor, M. Simões, NRMS 31

 

Oração sobre as oblatas: Recebei, Senhor, os dons da vossa Igreja, que reconhece a sua origem na Encarnação do vosso Filho e fazei-lhe sentir a alegria de celebrar nesta solenidade os mistérios do seu Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Prefácio

 

O mistério da Encarnação

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor. Pela Anunciação do mensageiro celeste, a Virgem Imaculada acolheu com fé a vossa Palavra e pela acção admirável do Espírito Santo trouxe em seu ventre com amor inefável o Primogénito da nova humanidade, que vinha cumprir as promessas feitas a Israel e revelar-Se ao mundo como a esperança de todos os povos.

Por isso com os Anjos, que adoram a vossa majestade e exulta eternamente na vossa presença, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

Santo, Santo, Santo...

 

Santo: F. da Silva, NRMS 38

 

Saudação da paz

 

Monição da Comunhão

 

Nossa Senhora foi concebida sem pecado para receber o Filho de Deus. Peçamos a sua ajuda para receber a Sagrada Comunhão com as melhores disposições; e se não estivermos em condições de comungar acudamos quanto antes ao sacramento da confissão

 

Cântico da Comunhão: Eu venho, Senhor, Az. Oliveira, NRMS 62

Is 7,14

Antífona da comunhão: A Virgem conceberá e dará à luz um Filho e o seu nome será Emanuel, Deus connosco.

 

Cântico de acção de graças: O Senhor fez em mim maravilhas, Az. Oliveira, NRMS 45

 

Oração depois da comunhão: Confirmai em nós, Senhor, os mistérios da verdadeira fé, para que, tendo proclamado que Jesus Cristo, concebido da Virgem Maria, é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, cheguemos, pelo poder da sua ressurreição, às alegrias da vida eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado, é o “Emanuel”, Deus connosco. Mantenhamos sempre viva a consciência de que Jesus está em todas as circunstâncias junto de nós, e caminhemos muito perto de Ele durante os últimos dias da Quaresma e na Semana Santa.

 

Cântico final: Avé Maria Senhora, F. da Silva, NRMS 81

 

 

Homilias Feriais

 

5.ª Feira, 26-III: Fidelidade à Aliança.

Gen 17, 3-9 / Jo 8, 51-59

Esta é a minha Aliança contigo: serás pai de um grande número de nações.

Deus estabelece uma Aliança com Abraão, que será válida para os seus descendentes (Leit.). Ele confiou em Deus e venceu todas as provações, tonando-se um exemplo de fidelidade. Se confiarmos na palavra de Deus seremos igualmente salvos: «se alguém guardar a minha palavra nunca mais verá a morte» (Ev.).

A Aliança estabelecida com Abraão foi renovada, de uma vez para sempre, por Cristo na Cruz. A Santa Missa, ao actualizar o sacrifício de Cristo na Cruz, é o momento adequado para reiterarmos a nossa fidelidade aos compromissos do Baptismo.

 

6.ª Feira, 27-III: A vitória alcançada na Cruz.

Jer 20, 10-13 / Jo 19, 31-42

Mas o Senhor está comigo como herói poderoso e os meus perseguidores cairão vencidos.

Este herói poderoso (Leit.) é o próprio Cristo que veio à terra para vencer o demónio. No entanto, os judeus querem dar-lhe a morte, apedrejando-o (Ev.).

Esta luta contra o demónio continuará até ao fim dos tempos. Mas temos motivos de esperança, porque Cristo o venceu e nada temos a temer, porque a derrota já está consumada. Esta vitória foi alcançada na Cruz: «A vitória sobre o 'príncipe deste mundo foi alcançada de uma vez para sempre, na hora em que Jesus se entregou livremente à morte para nos dar a sua vida» (CIC, 2853).

 

Sábado, 28-III: Como se pode pagar o bem com o mal.

Jer 20, 10-13 / Jo 10, 31-42

Hei-de livrá-los de todas infidelidades que cometeram, purificá-los-ei, para serem o meu povo e eu o seu Deus.

Havemos de reflectir pausadamente nesta Quaresma sobre o modo como correspondemos ao bem que Deus nos faz (Leit.).

Ele veio para perdoar os pecados e foi condenado ao suplício; realizou imensos milagres e decidiram matá-lo (Ev.); veio trazer amor e pagaram-lhe com o ódio; foi inocente e preferiram soltar um ladrão em vez dEle; veio para dar a Vida e pagaram-lhe com a morte. E tudo volta a repetir-se nos nossos dias em tantas partes do mundo e, talvez em parte, com cada um de nós, quando pecamos.

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Carlos Santamaria

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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