S. José, Esp. da V. Santa Maria

19 de Março de 2014

 

Solenidade

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Eis o servo fiel e diligente, F. Silva, NRMS 89

Lc 12, 42

Antífona de entrada: Este é o servo fiel e prudente, que o Senhor pôs à frente da sua família.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Nos desígnios de Deus, José foi o homem escolhido para ser o pai adoptivo de Jesus. É no seio da sua família modestíssima que se realiza, com efeito, o Ministério da Incarnação do Verbo. Intimamente unido à Virgem-Mãe e ao Salvador, José situa-se num plano muito superior ao dos mais profundos místicos: amando Jesus, amava o Seu Deus; toda a ternura respeitosa, com que envolvia Maria, dirigia-se à Imaculada Mãe de Deus.

Figura perfeita do «justo» do Antigo Testamento, homem de uma fé a toda a prova, no cumprimento da sua missão, mostrará sempre uma disponibilidade total, mesmo nos acontecimentos mais desconcertantes.

Protector providencial de Cristo, continua a sê-lo do Seu Corpo Místico. O exemplo da sua vida é sempre actual para todos quantos querem situar a sua vida no âmbito dos desígnios de salvação do Senhor.

 

Oração colecta: Deus todo-poderoso, que na aurora dos novos tempos confiastes a São José a guarda dos mistérios da salvação dos homens, concedei à vossa Igreja, por sua intercessão, a graça de os conservar fielmente e de os realizar até à sua plenitude. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: As leituras da festa de São José fazem-nos admirar o grande homem de Deus que ele é. A primeira leitura começa por nos apresentar a grande fidelidade de José aprendida do seu antepassado David.

 

2 Samuel 7, 4-5a.12-14a.16

4Naqueles dias, o Senhor falou a Natã, dizendo: 5a«Vai dizer ao meu servo David: Assim fala o Senhor: 12Quando chegares ao termo dos teus dias e fores repousar com os teus pais, estabelecerei em teu lugar um descendente que nascerá de ti e consolidarei a tua realeza. 13Ele construirá um palácio ao meu nome e Eu consolidarei para sempre o seu trono real. 14aSerei para ele um pai e Ele será para Mim um filho. 16A tua casa e o teu reino permanecerão diante de Mim eternamente e o teu trono será firme para sempre».

 

Este texto, respigado da célebre profecia dinástica do profeta Natã, em que se garante a estabilidade da descendência de David à frente do povo de Israel – «o teu trono será firme para sempre» (v. 16) –, irá alimentar a esperança de restauração messiânica, após o desterro de Babilónia e justifica o título de «Filho de David» dado a Jesus ao longo do Novo Testamento (cf. Mt 1, 1; 9, 27; 12, 23; 15, 22; 20, 30-31; 21, 9; 22, 42; Act 2, 30; 13, 22-23; Rom 1, 3; 2 Tim 2, 8; Apoc 5, 5; 22, 16). O texto é escolhido para a solenidade de S. José, por ser ele quem garante a Jesus a sua descendência de David (Mt 1, 1; Lc 1, 31-33: «reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reino não terá fim»); com efeito, segundo a lei, José era pai de Jesus, um dado suficiente para Ele ser considerado descendente de David, embora também Maria devesse ser descendente de David, dado o costume de os casamentos se fazerem dentro da parentela.

4 «Naqueles dias», isto é, na mesma noite em que o profeta Natã tinha apoiado a resolução do rei David de vir a construir uma casa digna para a arca da aliança que substituísse o modesto tabernáculo feito de cortinados. A mensagem divina para David é que não vai ser ele a conseguir uma casa (templo) para Deus, mas vai ser o próprio Deus a erguer-lhe uma casa (descendência) que permanecerá eternamente. O profeta joga com o duplo sentido da palavra hebraica «báyit», casa e dinastia (v. 11-12).

 

Salmo Responsorial    Sl 88 (89), 2-3.4-5.27 e 29 (R. 37)

 

Monição: A nossa fé e fidelidade ao Senhor nascem da bondade e fidelidade do próprio Deus para connosco. É quando mantemos a nossa a toda a prova, que mais sentimos a experiência da d’Ele, com vontade até de a “cantar”.

 

Refrão:        A sua descendência permanecerá eternamente.

 

Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor

e para sempre proclamarei a sua fidelidade.

Vós dissestes: «A bondade está estabelecida para sempre»,

no céu permanece firme a vossa fidelidade.

 

Concluí uma aliança com o meu eleito,

fiz um juramento a David meu servo:

Conservarei a tua descendência para sempre,

estabelecerei o teu trono por todas as gerações.

 

Ele Me invocará: «Vós sois meu Pai,

meu Deus, meu Salvador».

Assegurar-lhe-ei para sempre o meu favor,

a minha aliança com ele será irrevogável.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Na segunda leitura, admiramos em José a sua grande fé, aprendida do pai Abraão.

 

Romanos 4, 13.16-18.22

Irmãos: 13Não foi por meio da Lei, mas pela justiça da fé, que se fez a Abraão ou à sua descendência a promessa de que receberia o mundo como herança. 16Portanto a herança vem pela fé, para que seja dom gratuito de Deus e a promessa seja válida para toda a descendência, não só para a descendência segundo a Lei, mas também para a descendência segundo a fé de Abraão. 17Ele é o pai de todos nós, como está escrito: «Fiz de ti o pai de muitos povos». Ele é o nosso pai diante d’Aquele em quem acreditou, o Deus que dá vida aos mortos e chama à existência o que não existe. 18Esperando contra toda a esperança, Abraão acreditou, tornando-se pai de muitos povos, como lhe tinha sido dito: 22«Assim será a tua descendência». Por este motivo é que isto «lhe foi atribuído como justiça».

 

Se na 1.ª leitura se falava de David, ascendente de S. José, nesta fala-se de outro ascendente mais longínquo, Abraão, o primeiro Patriarca do antigo povo de Deus. S. José é o Santo Patriarca do novo Povo de Deus, pois tem sobre Jesus os direitos legais de pai. 22Assim como Abraão foi pai de muitas nações (v. 17) também o Patriarca S. José é Pai e Patrono da Igreja de Cristo.

 

Aclamação ao Evangelho        Sl 83 (84), 5

 

Monição: Depois de outras provações em que São José não deixou ir abaixo a sua fé e fidelidade, também na aflitiva «noite escura» da perda de Jesus no Templo essa fé e fidelidade se mantiveram bem vigilantes e firmes.

 

 

Cântico: J. Santos, NRMS 40

 

Felizes os que habitam na vossa casa, Senhor:

eles Vos louvarão pelos tempos sem fim.

 

 

Evangelho

 

São Mateus 1, 16.18-21.24a

16Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo. 18O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. 19Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. 20Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados». 24aQuando despertou do sono, José fez como lhe ordenara o Anjo do Senhor.

 

S. Mateus centra o seu relato do nascimento de Jesus na figura de S. José (S. Lucas na de Maria), com uma clara intencionalidade teológica de apresentar Jesus como o Messias, anunciado como descendente de David. Isto é posto em evidência logo de início: «Genealogia de Jesus Cristo (=Messias), Filho de David» (v. 1). Como a linha genealógica passava pelo marido, é a de José que é apresentada. Os elos são seleccionados para que apareçam três séries de 14 nomes, obedecendo a uma técnica rabínica, chamada gematriáh, ou recurso ao valor alfabético dos números; assim o número 14, reforçado pela sua tripla repetição – «catorze gerações» – (no v. 17), sugere o nome de David, que em hebraico se escreve com três consoantes (em hebraico não se escrevem as vogais) que dão o número catorze ([D=4]+[V=6]+[D=4]=14). A concepção virginal antes de ser explicada e justificada pelo cumprimento das Escrituras (vv. 18-25), é logo anunciada na genealogia, pois para todos os seus elos se diz «gerou», quando para o último elo se diz «José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus» (v. 16).

18 «Antes de terem vivido em comum»: Maria e José já tinham celebrado os esponsais (erusim), que tinham valor jurídico de um matrimónio, mas ainda não tinham feito as bodas solenes (nissuim ou liqquhim), em que o noivo trazia festivamente a noiva para sua casa, o que costumava ser cerca de um ano depois.

«Encontrava-se grávida por virtude do Espírito Santo»: isto conta-se em pormenor no Evangelho de S. Lucas (1, 26-38), lido na festa da Imaculada Conceição (ver comentário então feito). Ao dizer-se «por virtude do Espírito Santo», não se quer dizer que o Espírito Santo desempenhou o papel de pai, pois Ele é puro espírito. Também isto nada tem que ver com os relatos mitológicos dos semideuses, filhos dum deus e duma mulher. Além do mais, é evidente o carácter semítico e o substrato judaico e vétero-testamentário das narrativas da infância de Jesus em Mateus e Lucas; ora, nas línguas semíticas a palavra «espírito» (rúah) não é masculina, mas sim feminina. Isto chegava para fazer afastar toda a suspeita de dependência do relato relativamente aos mitos pagãos. Por outro lado, na Sagrada Escritura, Deus nunca intervém na geração à maneira humana, pois é espiritual e transcendente: Deus não gera, Deus cria. As narrativas de Mateus e Lucas têm tal originalidade que excluem qualquer dependência dos mitos, coisa totalmente contrária à verdade da Revelação divina.

19 «Mas José, seu esposo…». Partindo do facto real e indiscutível da concepção virginal de Jesus, aqui apresentamos uma das muitas explicações dadas para o que se passou. Não dispomos da crónica dos factos, pois a intenção do Evangelista era primordialmente teológica, embora sem inventar histórias, pois, em face dos dados das suas fontes, nem sequer disso precisava. Maria nada teria revelado a José do mistério que nela se passava e José ao saber da gravidez de Maria, não a denuncia como adúltera; sendo um santo, «justo», não a condena, pois conhecia a santidade singular de Maria; não admite qualquer suspeita, mas pressente que está perante algo de sobrenatural e não quer intrometer-se num mistério que o ultrapassava. É assim que «resolveu repudiá-la em segredo», evitando, «difamá-la» (colocá-la numa situação infamante) ou simplesmente «tornar público» («deigmatísai») o mistério messiânico. A sua delicadeza extrema levava-o a não pedir explicações a Maria. Ela também não falou de algo tão extraordinário, inaudito e incrível. Maria calava, sofria também, deixando nas mãos de Deus a sua honra e as angústias por que José iria passar por sua causa; Deus, que tinha revelado já a Isabel o mistério da sua concepção, podia igualmente vir a revelá-lo a José.

20 «Não temas receber Maria, tua esposa». O Anjo não diz: «não desconfies», mas: «não temas». Segundo a explicação anterior, José deveria andar amedrontado com algo de divino e misterioso que pressentia: Julgando-se indigno de Maria, decide não se imiscuir num mistério que o transcende; «tomado dum assombro sagrado perante a novidade de tão grande milagre, perante a proximidade de tão grande mistério, quis deixá-la ocultamente... José tinha-se, por indigno...» (S. Bernardo). Zerwick pensa que o texto poderia mesmo traduzir-se: «embora o que nela foi gerado seja do Espírito Santo, Ela dar-(te-)á à luz um filho ao qual porás o nome de Jesus», exercendo assim para Ele a missão de pai». O Anjo não só elucida José, como também lhe diz que ele tem uma missão a cumprir no mistério da Incarnação, a missão e a dignidade de pai do Salvador. Comenta Santo Agostinho: «A José não só se lhe deve o nome de pai, mas este é-lhe devido mais do que a qualquer outro. Como era pai? Tanto mais profundamente pai, quanto mais casta foi a sua paternidade... O Senhor não nasceu do germe de José. Mas à piedade e amor de José nasceu um filho da Virgem Maria, que era Filho de Deus».

23 «Será chamado Emanuel». No original hebraico de Isaías 7, 14, temos o verbo no singular (forma aramaica para a 3ª pessoa do singular feminino: weqar’at referido a virgem, que é quem põe o nome = «e ela chamará»). Mateus, porém, usa o plural, que não aparece na tradução litúrgica, (kai kalésousin: «e chamarão»), um plural de generaliza­ção, a fim de que o texto possa ser aplicado a S. José, para pôr em evidência a missão de S. José, como pai «legal» de Jesus (era ao pai que pertencia pôr o nome, não à mãe). Mateus não receia adaptar o texto à realidade maravilhosa, muito mais rica do que a letra do anúncio profético. Note-se que esta técnica de actualização (o deraxe) não é arbitrária, pois se baseia na regra hermenêutica rabínica chamada al-tiqrey («não leias»), a qual consiste em não ler um texto consonântico com umas vogais, mas com outras (o hebraico escrevia-se sem vogais). Neste caso, trata-se de «não ler» as consoantes do verbo (wqrt) com as vogais que correspondem à forma feminina (tanto da 3ª pessoa do singular da forma aramaica, como da 2ª pessoa do singular da tradução dos LXX: weqar’at – «e tu chamarás»), mas de ler com as vogais que correspondem à 2ª pessoa do singular masculino (weqar’ata «e tu chamarás» (lembrar que em hebraico há formas diferentes para o masculino e feminino das 2ª e 3ª pessoas dos verbos). Como pensa Alexandre Díez Macho, «com este deraxe oculto, mas real, Mateus confirma as palavras do anjo do Senhor no v. 21: «e (tu, José) o chamarás». Assim, S. João Crisóstomo parafraseia: «Tu lhe farás as vezes de pai, por isso, começando pela imposição do nome, Eu te uno intimamente com Aquele que vai nascer» (Homil. in Mt, 4).

25 «E não a tinha conhecido...» S. Mateus pretende realçar que Jesus nasceu sem prévias relações conjugais, mas por um milagre de Deus. Quanto à posterior virgindade o Evangelista não só não a nega, como até a parece insinuar no original grego, ao usar o imperfeito de duração («não a conhecia») em vez do chamado aoristo complexívo como seria de esperar, caso quisesse abranger apenas o tempo até ao parto (Zerwick). Uma tradução mais à letra seria «até que Ela deu à luz» (em vez de: «quando Ela deu à luz»), uma afirmação que não significa necessariamente que depois já não se verificasse o que até este momento acontecera (assim é também em Jo 9, 18).

 

 

Evangelho alternativo:

São Lucas 2, 41-51a

41Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa. 42Quando Ele fez doze anos, subiram até lá, como era costume nessa festa. 43Quando eles regressavam, passados os dias festivos, o Menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem. 44Julgando que Ele vinha na caravana, fizeram um dia de viagem e começaram a procurá-l’O entre os parentes e conhecidos. 45Não O encontrando, voltaram a Jerusalém, à sua procura. 46Passados três dias, encontraram-n’O no templo, sentado no meio dos doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. 47Todos aqueles que O ouviam estavam surpreendidos com a sua inteligência e as suas respostas. 48Quando viram Jesus, seus pais ficaram admirados e sua Mãe disse-Lhe: «Filho, porque procedeste assim connosco? Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura». 49Jesus respondeu-lhes: «Porque Me procuráveis? Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?». 50Mas eles não entenderam as palavras que Jesus lhes disse. Jesus desceu então com eles para Nazaré e era-lhes submisso.

 

Quando faziam 12 anos, os rapazes israelitas começavam a ter os deveres e direitos da Lei mosaica, incluindo o dever de peregrinar a Jerusalém. Os judeus costumavam deslocar-se em caravanas e em grupos separados de homens e de mulheres, as crianças podiam fazer viagem em qualquer dos grupos; nas paragens do caminho, as famílias reuniam-se. É neste contexto que se desenrola o relato. A atitude de Jesus de ficar em Jerusalém é deveras surpreendente. Não deveria ter avisado os pais ou outros familiares? O que não faz sentido é buscar a explicação do sucedido numa rebeldia ou na irresponsabilidade dum adolescente – este rapaz é o Filho de Deus –, embora o relato evangélico possa fornecer luzes aos pais que se deparam com situações similares de filhos perdidos.

A teologia de Lucas talvez nos possa dar alguma pista para a compreensão do episódio narrado. «Jerusalém» não é simplesmente o centro da vida religiosa de Israel. Para os evangelistas, e de modo singular para Lucas, Jerusalém representa o culminar de toda a obra salvadora de Jesus, por ocasião da Páscoa da Paixão, Morte e Ressurreição. É por isso que Lucas, ao pôr em evidência a tensão de Jesus para a sua Paixão, apresenta grande parte do seu ensino «a caminho de Jerusalém», onde Jesus tem de padecer para ir para o Pai e entrar na sua glória (cf. Lc 24, 26). A teologia de Lucas não é abstracta e desligada da realidade. Ora a realidade é que Jesus não é apenas «o Mestre», Ele é «o Profeta», e, por isso mesmo, não ensina apenas quando exerce a função de rabi, mas, em todos os passos da sua vida, actua como Profeta, ensinando através dos seu agir, mormente através de acções simbólicas de profundo alcance, por vezes bem chocantes. O «Menino perdido» – já não é tão menino, pois é um jovem no pleno uso dos seus direitos como judeu – é um Profeta que realiza uma acção simbólica para proclamar quem é e qual é a sua missão: «Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?» Ele é o Filho de Deus, e tem de cumprir a missão que o Pai lhe confiou – «em Jerusalém» –, ainda que isto lhe custe bem e tenha de fazer sofrer aqueles que mais ama – «aflitos à tua procura» (v. 48). O episódio passa-se em Jerusalém, como prenúncio e paralelo de um sofrimento bem maior, também em Jerusalém. A lição é clara: não se pode realizar plenamente a vontade do Pai do Céu e, ao mesmo tempo, evitar todo o sofrimento tanto o próprio como o dos seres mais queridos; subir a Jerusalém é subir à Cruz, e subir à Cruz é «elevar-se» ao Céu, também em Jerusalém (cf. Lc 24, 50-51).

41 «Os pais de Jesus». «Teu pai» (v. 48). Uma vez que Lucas tinha acabado de falar tão explicitamente da concepção virginal de Jesus, não tem agora qualquer receio de nomear S. José como pai (virginal) do Senhor.

49 «Eu devia estar na Casa de Meu Pai». A tradução de «tá toû Patrós mou» pode significar tanto «a casa de meu Pai», como «as coisas (assuntos, vontade) de meu Pai». A verdade é que o redactor pode ter querido dar à resposta de Jesus uma certa ambiguidade: «Não sabíeis que Eu tenho de estar nas coisas de meu Pai» (e que, por isso, me deveria encontrar aqui no Templo)»?

50 «Eles não entenderam». A resposta do Menino envolvia um sentido muito profundo que ultrapassava uma simples justificação da sua «independência». Não alcançam ver até onde iria este «estar nas coisas do Pai», mas também não se atrevem a fazer mais perguntas. Estamos postos perante o mistério do ser e da missão de Jesus; é mais um «sinal» e mais uma «espada» (cf. Lc 2, 34-35).

 

Sugestões para a homilia

 

1. São José, guardião

2. Poder e amor

3. Modelo de educador e de pai

4. Dia do pai

 

 

Gostava de fazer esta reflexão a partir das palavras do Papa Francisco, proferidas no início do seu pontificado, a 19 de março de 2013, onde o Santo Padre, o grande homem de Deus para nosso tempo, nos fala de São José, outro grande homem da história da salvação.

1. São José, guardião

Começámos por ouvir, no Evangelho, que «José fez como lhe ordenou o anjo do Senhor e recebeu sua esposa» (Mt 1, 24). “Nestas palavras, encerra-se já a missão que Deus confia a José: ser guardião. Guardião de quem? De Maria e de Jesus, mas é uma guarda que depois se alarga à Igreja”.

“Como realiza José esta guarda? Com discrição, com humildade, no silêncio, mas com uma presença constante e uma fidelidade total, mesmo quando não consegue entender. Desde o casamento com Maria até ao episódio de Jesus, aos doze anos, no templo de Jerusalém, acompanha com solicitude e amor cada momento. Permanece ao lado de Maria, sua esposa, tanto nos momentos serenos como nos momentos difíceis da vida, na ida a Belém para o recenseamento e nas horas ansiosas e felizes do parto; no momento dramático da fuga para o Egipto e na busca preocupada do filho no templo; e depois na vida quotidiana da casa de Nazaré, na carpintaria onde ensinou o ofício a Jesus” e cuidou dos seus.

Mas tratou dos seus de forma especial. Na verdade, “cuidar, guardar requer bondade, requer ser praticado com ternura. Nos Evangelhos, São José aparece como um homem forte, corajoso, trabalhador, mas, no seu íntimo, sobressai uma grande ternura, que não é a virtude dos fracos, antes pelo contrário denota fortaleza de ânimo e capacidade de solicitude, de compaixão, de verdadeira abertura ao outro, de amor. Não devemos ter medo da bondade, da ternura!”

 

2. Poder e amor

O Papa Francisco lembra ainda que, em São José, a autoridade é exercida como atenção permanente aos outros e que o verdadeiro poder é o serviço. “O pai para exercer o poder, deve entrar sempre mais naquele serviço que tem o seu vértice luminoso na Cruz; deve olhar para o serviço humilde, concreto, rico de fé, de São José e, como ele, abrir os braços para guardar os seus filhos e acolhê-los, com afecto e ternura, sobretudo nos momentos de maior fragilidade. De facto, como diz o Papa Francisco, “apenas aqueles que servem com amor são capazes de proteger”.

3. Modelo de educador e de pai

O Papa Francisco disse-nos ainda que São José é o modelo de “educador” e de “pai” para todos os pais do mundo: “A missão de São José é, certamente, única e irrepetível, porque Jesus é absolutamente único, mas na sua custódia de Jesus, educando-o para crescer em idade, em sabedoria e em graça, ele é modelo para cada educador, em particular para todos os pais”. E educou como crente, alimentando e fortalecendo a fé e, desta forma, abrindo-lhes a esperança. “Também hoje, perante tantos pedaços de céu cinzento, há necessidade de ver a luz da esperança e de darmos nós mesmos esperança. Guardar a criação, cada homem e cada mulher, com um olhar de ternura e amor, é abrir o horizonte da esperança, é abrir um rasgo de luz no meio de tantas nuvens, é levar o calor da esperança! E, para o crente, para nós cristãos, como Abraão, como São José, a esperança que levamos tem o horizonte de Deus que nos foi aberto em Cristo, está fundada sobre a rocha que é Deus.

4. Dia do Pai

Neste dia do pai, saudamos os pais aqui presentes, os pais de cada um de nós. Aos pais pedimos, como o Papa “a graça de estarem sempre muito próximos dos filhos, deixando-os crescer, mas próximos, próximos”. “Os filhos têm necessidade de vós, da vossa presença, da vossa proximidade, do vosso amor. Sede para eles São José, guardiães do seu crescimento em idade, em sabedoria e em graça, guardiães do seu caminho”. E acrescentou: “Obrigado por tudo aquilo que fazeis pelos vossos filhos”.

 

 

Oração Universal

 

Irmãs e irmãos:

Reunidos para celebrar as maravilhas que Deus realizou em São José,

homem justo e humilde,

elevemos ao Pai do Céu as nossas súplicas,

dizendo (ou: cantando), com alegria:

 

R. Pai nosso, que estais nos céus, ouvi-nos.

 

1. Pela santa Igreja, dispersa por toda a terra,

para que anuncie a palavra de Deus com alegria

e dê fruto no coração dos seus fiéis,

oremos, irmãos.

 

2. Pelos que exercem a autoridade neste mundo,

para que sejam humanos nas suas decisões

e pratiquem obras de justiça e de rectidão,

oremos, irmãos.

 

3. Pelos pais e mães de família,

para que a oração em família e os sacramentos

alimentem a sua fé e a de seus filhos,

oremos, irmãos.

 

4. Pelos jovens dos nossos Seminários

e pelos que trabalham na sua formação,

para que os dons do Espírito Santo os iluminem,

oremos, irmãos.

 

5. Pelos homens que ganham o pão com o seu trabalho,

para que os seus direitos sejam respeitados

e a sua dignidade humana reconhecida,

oremos, irmãos.

 

6. Por todos nós aqui reunidos em assembleia,

para que, por intercessão de São José,

tenhamos uma boa morte, na paz de Deus,

oremos, irmãos.

 

(Outras intenções).

 

Senhor, nosso Deus, velai por todos os filhos da Igreja,

para que, nas alegrias e provações desta vida,

descubram, como São José, a vossa vontade misteriosa

e colaborem na obra da redenção.

Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Confiarei no meu Deus, F. Silva, NRMS 106

 

Oração sobre as oblatas: Concedei-nos, Senhor, a graça de servir ao vosso altar de coração puro, imitando a dedicação e fidelidade com que São José serviu o vosso Filho Unigénito, nascido da Virgem Maria. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio de São José [na solenidade]: p. 492

 

Santo: F. da Silva, NRMS 38

 

Monição da Comunhão

 

Acolhamos, com humildade e fé, Aquele que nos salva e vem até nós pela comunhão eucarística.

 

Cântico da Comunhão: Ó famintos de Pão divino, J. Santos, NRMS 89

Mt 25, 21

Antífona da comunhão: Servo bom e fiel, entra na alegria do teu Senhor.

 

ou

Mt 1, 20-21

Não temas, José: Maria dará à luz um Filho e tu lhe darás o nome de Jesus.

 

Cântico de acção de graças: Os justos viverão eternamente, M. Faria, NRMS 36

 

Oração depois da comunhão: Senhor, que na solenidade de São José alimentastes a vossa família à mesa deste altar, defendei-a sempre com a vossa protecção e velai pelos dons que lhe concedestes. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

José, o justo, o crente, o que é capaz de renunciar aos seus planos para trilhar um plano maior, coloca-se a caminho sabendo que o projeto de Deus é de salvação, porque “Deus salva” (o nome que José põe ao seu filho). Oxalá aprendamos a humildade desse homem, que sabendo que Deus olha para ele, deixa o Altíssimo interferir na sua vida, dá espaço para que Deus atue nele e nele realize a sua vontade.

 

Cântico final: Outrora S. José, M. Faria, NRMS 5 (I)

 

 

Homilias Feriais

 

6.ª Feira, 20-III: A cooperação na paixão de Cristo.

Sab 2, 1. 12-22 / Jo 1-2. 10. 25-30

Se esse justo é filho de Deus, Deus estará a seu lado. Condenemo-lo a morte infamante, pois ele diz que será socorrido.

Estes pensamentos dos ímpios (Leit.) são uma profecia do que viria a acontecer na paixão de Cristo: «os judeus procuravam dar-lhe a morte» (Ev.).

O Senhor aceitou livremente a sua paixão e morte, para cumprir a vontade do Pai e por amor dos homens, a quem o Pai quer salvar. Todos nós beneficiamos dos méritos da sua paixão e, ao mesmo tempo, somos chamados a associar-nos ao seu sacrifício. O mesmo aconteceu com sua Mãe, embora em sumo grau. Ela ficou associada mais intimamente do que ninguém ao mistério do sacrifício redentor do Filho.

 

Sábado, 21-III: O Cordeiro pascal.

Jer 11, 18-20 / Jo 7, 40-53

Eu era como dócil cordeiro levado ao matadouro, sem saber da conjura que teciam contra mim.

Foi João Baptista que aplicou a Jesus esta profecia do 'Cordeiro de Deus'. «Jesus é, ao mesmo tempo, o servo sofredor, que se deixa levar ao matadouro (Leit.), sem abrir a boca, carregando sobre Ele os pecados das multidões, e o cordeiro pascal, símbolo da redenção de Israel na primeira Páscoa» (CIC, 608).

Do mesmo modo «a morte de Cristo é, ao mesmo tempo, o sacrifício pascal por meio do cordeiro que tira o pecado do mundo, e o sacrifício da nova Aliança, que restabelece a comunhão entre o homem e Deus» (CIC, 613).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Nuno Westwood

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial