2.º Domingo dA QUARESMA

1 de Março de 2014

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Salvai, Senhor, vosso povo, J. Santos, NRMS 90-91

Salmo 26, 8-9

Antífona de entrada: Diz-me o coração: «Procurai a face do Senhor». A vossa face, Senhor, eu procuro; não escondais de mim o vosso rosto.

 

Ou

cf. Salmo 24, 6.3.22

Lembrai-vos, Senhor, das vossas misericórdias e das vossas graças que são eternas. Não triunfe sobre nós o inimigo. Senhor, livrai-nos de todo o mal.

 

Não se diz o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A caminhada quaresmal começa a solidificar o seu ritmo e, embora estes momentos se revistam de uma perspectiva itinerante e penitencial, não podemos perder do horizonte que estamos a ser conduzidos até ao epicentro do Amor de Deus, manifestado na Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Para que isso aconteça é necessário um reforço daquilo que é a busca interior de Deus, permitir ir ao mais profundo de nós mesmos e aclarar a vida à luz da Fé. Hoje, a Liturgia, vai exortar-nos a aclarar a vida através de uma descoberta e contemplação da pessoa de Jesus e querer caminhar na Sua presença.

 

Oração colecta: Deus de infinita bondade, que nos mandais ouvir o vosso amado Filho, fortalecei-nos com o alimento interior da vossa palavra, de modo que, purificado o nosso olhar espiritual, possamos alegrar-nos um dia na visão da vossa glória. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: A leitura que vamos escutar revela-nos a atitude crente por excelência, testemunhada na pessoa de Abraão. A obediência da fé exige, da atitude crente, uma confiança incondicional que ultrapassa os medos do que possa ser o incerto. Confiar em Deus e compreender o amor com que ele guia o decurso da nossa história é o segredo para olhar os desafios do mundo com um olhar certo de que Deus providenciará!

 

 

Génesis 22, 1-2.9a.10-13.15-18

 

1Naqueles dias, Deus quis pôr à prova Abraão e chamou-o: «Abraão!» Ele respondeu: «Aqui estou». 2Deus disse: «Toma o teu filho, o teu único filho, a quem tanto amas, Isaac, e vai à terra de Moriá, onde o oferecerás em holocausto, num dos montes que Eu te indicar. 9aQuando chegaram ao local designado por Deus, Abraão levantou um altar e colocou a lenha sobre ele. 10Depois, estendendo a mão, puxou do cutelo para degolar o filho. 11Mas o Anjo do Senhor gritou-lhe do alto do Céu: «Abraão, Abraão!» «Aqui estou, Senhor», respondeu ele. 12O Anjo prosseguiu: «Não levantes a mão contra o menino, não lhe faças mal algum. Agora sei que na verdade temes a Deus, uma vez que não Me recusaste o teu filho, o teu filho único». 13Abraão ergueu os olhos e viu atrás de si um carneiro, preso pelos chifres num silvado. Foi buscá-lo e ofereceu-o em holocausto, em vez do filho. 15O Anjo do Senhor chamou Abraão do Céu pela segunda vez 16e disse-lhe: «Por Mim próprio te juro – oráculo do Senhor – já que assim procedeste e não Me recusaste o teu filho, o teu filho único, 17abençoar-te-ei e multiplicarei a tua descendência como as estrelas do céu e como a areia das praias do mar, e a tua descendência conquistará as portas das cidades inimigas. 18Porque obedeceste à minha voz, na tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra».

 

Como observa The New Jerome Biblical Commentary, p 25, «esta história é uma obra-prima, ao apresentar Deus como o Senhor cujas exigências são absolutas, cuja vontade é inescrutável e cuja palavra final é benevolência. Abraão deixa ver a grandeza moral do fundador de Israel, em face de Deus, ao querer obedecer à palavra de Deus em toda a sua misteriosa severidade. Não há aqui as volúveis evasivas de Abraão (cf. cap. 13 e 21); ele mantém-se silenciosamente confiado e obediente».

1 «Deus quis pôr à prova Abraão». Deus não podia pretender a morte de Isaac (cf. v. 12), fazendo com que Abraão seguisse os bárbaros costumes cananeus; apenas quer «pôr à prova», isto é, aquilatar a fé, a obediência e o amor do seu eleito. Não se pense que esta prova era disparatada. Com efeito, inseria-se nos hábitos selvagens da religião cananeia, como se conta em 2 Re 3, 27: Mesa, rei de Moab, imolou o filho herdeiro para obter do seu deus Kemóx a libertação da sua cidade atacada pelos israelitas. E não poderia Deus ter para com Abraão uma exigência desta natureza? No entanto, a ordem divina era, humanamente vistas as coisas, simplesmente absurda: não era certo que Deus lhe prometera uma enorme descendência a partir de Isaac? Até este ponto chega a fé de Abraão: o mesmo Deus que lhe dera milagrosamente o filho tinha pleno direito de lho exigir e, se quisesse manter a sua promessa, podia vir a restituir-lho vivo (cf. Hebr 11, 19). Pode ver-se, a propósito, o belo comentário do Catecismo da Igreja Católica, nº 2572.

9 «Colocou a lenha sobre ele». Os Padres viram no sacrifício de Isaac, entregue à morte pelo seu próprio pai e carregando às costas a lenha do sacrifício, uma figura de Cristo, levando a cruz para o monte Calvário, o novo monte Moriá do sacrifício da Nova Lei (segundo 2 Cir 3, 1, o Templo erguia-se neste monte). Deus, que poupou o filho de Abraão, «não poupou o seu próprio Filho»! (Rom 8, 32: cf. 2.ª leitura).

 

Salmo Responsorial    Sl 115(116), 10-15,16-17, 18-19

 

Monição: A vivência do ser humano pode ter momentos de desalento, sobretudo quando fugimos da sua presença. O salmo convida-nos a caminhar na vida à luz da confiança e da certeza de que somos preciosos aos olhos do Senhor.

 

 

Refrão:        Andarei na presença do Senhor

                     sobre a terra dos vivos.

 

Ou:               Caminharei na terra dos vivos

                na presença do Senhor.

 

Confiei no Senhor, mesmo quando disse:

«Sou um homem de todo infeliz».

É preciosa aos olhos do Senhor

a morte dos seus fiéis.

 

Senhor, sou vosso servo, filho da vossa serva:

quebrastes as minhas cadeias.

Oferecer-Vos-ei um sacrifício de louvor,

invocando, Senhor, o vosso nome.

 

Cumprirei as minhas promessas ao Senhor

na presença de todo o povo,

nos átrios da casa do Senhor,

dentro dos teus muros, Jerusalém.

 

Segunda Leitura

 

Monição: O amor de Deus é revelado até ao extremo: permitir a morte do Seu Filho muito amado por amor da Humanidade. Embora tenha poupado o sacrifício de Isaac, como escutámos na primeira leitura, Deus não poupa o próprio Filho para que sejamos salvos.

 

 

Romanos 8, 31b-34

Irmãos: 31bSe Deus está por nós, quem estará contra nós? 32Deus, que não poupou o seu próprio Filho, mas O entregou à morte por todos nós, como não havia de nos dar, com Ele, todas as coisas? 33Quem acusará os eleitos de Deus? Deus, que os justifica? E quem os condenará? 34Cristo Jesus, que morreu, e mais ainda, que ressuscitou e que está à direita de Deus e intercede por nós?

 

A leitura foi escolhida pela provável referência ao sacrifício de Isaac relatado na 1.ª leitura: Deus, que poupara o filho de Abraão, não poupa à morte o seu próprio Filho: «Deus não poupou o seu próprio Filho» (v. 32). É a máxima prova do amor de Deus para connosco (cf. Jo 3, 16), e o máximo motivo da nossa esperança. A esperança não nos pode jamais vir a deixar confundidos (Rom 5, 5): eis até que ponto «Deus está por nós (v. 31)! Repare-se na expressiva insistência – três vezes neste pequenino trecho –, «por nós». Chamamos a atenção para o facto de que S. Paulo, ao falar assim, não quer dizer que o Pai desejava a morte do seu Filho (Abraão também não a desejava!), mas adopta uma linguagem impressionante para falar do misterioso dom do seu Filho para vir realizar a obra da nossa salvação, à custa da sua própria vida; longe de nós imaginar Deus Pai a descarregar a sua ira sobre o seu Filho para tirar vingança dos nossos pecados, como alguém poderia pensar.

34 «Quem os condenará?» Pela parte de Deus, infinitamente fiel, misericordioso e poderoso, podemos estar seguros da salvação: a esperança é certa e firme. No entanto, pela nossa parte, temos que trabalhar pela nossa salvação «com temor e tremor» (Filp 2, 12), dado que temos a possibilidade de não corresponder à graça de Deus, usando mal a liberdade, acabando por vir a ser desclassificados ou condenados (cf. 1 Cor 9, 25-27).

 

Aclamação ao Evangelho       

 

Monição: Se no Salmo manifestávamos a nossa vontade de nos colocarmos diante de Jesus e caminha na Sua presença, o Evangelho revelar-nos-á a forma genuína com que Jesus se manifesta sem reservas àqueles que com Ele caminham.

 

 

Aleluia

 

Cântico: B. Salgado, NRMS 32

 

No meio da nuvem luminosa, ouviu-se a voz do Pai:

«Este é o meu Filho muito amado: escutai-O».

 

 

Evangelho

 

São Marcos 9, 2-10

Naquele tempo, 2Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e subiu só com eles para um lugar retirado num alto monte e transfigurou-Se diante deles. 3As suas vestes tornaram-se resplandecentes, de tal brancura que nenhum lavadeiro sobre a terra as poderia assim branquear. 4Apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus. 5Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés, outra para Elias». 6Não sabia o que dizia, pois estavam atemorizados. 7Veio então uma nuvem que os cobriu com a sua sombra e da nuvem fez-se ouvir uma voz: «Este é o meu Filho muito amado: escutai-O». 8De repente, olhando em redor, não viram mais ninguém, a não ser Jesus, sozinho com eles. 9Ao descerem do monte, Jesus ordenou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto, enquanto o Filho do homem não ressuscitasse dos mortos. 10Eles guardaram a recomendação, mas perguntavam entre si o que seria ressuscitar dos mortos.

 

 

 

A cena da Transfiguração situa-se nos inícios da segunda parte do Evangelho de Marcos. A primeira parte (Mc 1, 1 – 8, 29) parece querer ser a resposta à incompreensão das pessoas que se interrogam – «quem é este homem?» – sem atinarem com a resposta certa, culminando com a confissão de Pedro: «Tu és o Cristo!» (8, 29). Mas perante a revelação da natureza da obra messiânica de Jesus, que passa pela aparente derrota da Paixão e da Cruz, surge a incompreensão dos próprios discípulos, a começar pelo próprio Pedro (8, 31-33). É assim que a visão antecipada da glória do Messias na Transfiguração serve de correctivo para aqueles que ficaram confundidos com o primeiro anúncio da Cruz como meio de salvação (8, 31 – 9, 1). Para nós, é também uma visão antecipada da vinda gloriosa de Cristo, a encher-nos de esperança (cf. Filp 3, 21). A Transfiguração do Senhor nada tem a ver com os mitos gregos das metamorfoses. O próprio S. Lucas, melhor conhecedor da cultura grega, teve o escrupuloso cuidado de evitar o verbo grego usado por S. Marcos – metamorfôthê, transfigurou-Se – substituindo-o por um circunlóquio: «ao rezar, ficou outro o aspecto do seu rosto». Nos mistérios gregos, chegava-se progressivamente à transformação da natureza – a metamorfose –, através duma iniciação mistagógica, ao passo que esta transfiguração de Jesus foi repentina e passageira, uma manifestação do que Jesus já era antes.

2 Pedro, Tiago e João, são os três predilectos de Jesus, destinados a ser «colunas da Igreja» (Gal 2, 9) particularmente firmes, também testemunhas da ressurreição da filha de Jairo (Mc 5, 37) e da agonia de Jesus no horto (Mt 26, 37), diríamos, uma espécie de núcleo duro dos Doze. «A um alto monte»: Os Evangelhos não dizem o nome do monte que habitualmente se julga ser o Tabor, um monte situado a 10 km a Leste de Nazaré, segundo uma antiga tradição já referida por Orígenes. Como este monte não é muito alto (apenas 560 m), há exegetas que falam antes do Monte Hermon (2.759 m), junto a Cesareia de Filipe, região onde Jesus tinha estado, segundo os três sinópticos, uma semana antes. «E transfigurou-Se diante deles»: o acontecimento é descrito, não como uma visão, mas como uma epifania, pois foi Ele mesmo a «manifestar» a sua própria glória divina, enquanto estava com eles. O facto deveras notável não foi tanto a visão de Moisés e Elias, mas a da glória de Jesus.

3 «As vestes… resplandecentes…» S. Marcos não faz referência ao rosto de Jesus que ficou brilhante como o Sol (Mt 17, 2). O Evangelista não precisava de pormenorizar mais, pois a referência da brancura sobrenatural das vestes era o suficiente para que o leitor tomasse consciência da personalidade celestial de Jesus (cf. Dan 7, 9; Act 1, 10; Apoc 3, 4-5; 4, 4; 7, 9).

4 «Moisés e Elias». A sua presença à volta de Jesus deixa ver como a Lei e os Profetas convergem para Ele, uma vez que tinham preparado e anunciado a sua vinda. A própria tradição rabínica falava de Moisés como precursor do Messias e Malaquias anunciara a vinda de Elias nos tempos messiânicos (Mal 3, 23).

5-7 «Três tendas». Assim se prestava Pedro a facilitar que se prolongasse aquele êxtase paradisíaco. Fala de três e não de um único refúgio, tendo em conta a desigual dignidade de cada uma das pessoas. «Não sabia o que dizia»: Pedro, tomado de assombro, pensa em categorias de um messianismo glorioso e pretende que aquela situação extraordinária se prolongue e mantenha, totalmente alheado da realidade do dia a dia. «Veio então uma nuvem»: mas esta não era uma resposta à sugestão de Pedro para construir um abrigo; a nuvem – a tenda de Deus (cf. 2 Sam 22, 12; Salm 18(17), 12), que cobriu e envolveu Jesus «com a sua sombra» –, era sobretudo um sinal bíblico da presença de Deus, que simultaneamente O revelava e O ocultava (cf. Ex 13, 22; 19, 9; 24, 15-16; 33, 9; Lv 16, 2; Nm 9, 15-23; 11, 25). De acordo com Lc 9, 32, este prodígio deve-se ter verificado de noite, enquanto o Senhor fazia oração (Lc 9, 29). Mas não consta que Jesus se tenha elevado, levitando no ar, como O pintou Rafael. «Este é o meu Filho». Com estas palavras a cena atinge o apogeu: a voz vinda do Céu é mais uma confirmação divina da anterior confissão da fé de Pedro (Mc 8, 29). S. Tomás comenta: «Apareceu toda a Trindade, o Pai na voz, o Filho no homem, o Espírito na nuvem luminosa». «Escutai-O!», assim comenta Bento XVI: «No monte Sinai, Moisés tinha recebido a Toráh, a palavra com o ensinamento de Deus. Agora, referindo-se a Jesus, é-nos dito: «ouvi-O». Hartmut Gese comentou esta cena com sagaz propriedade: «Jesus tornou-se a própria Palavra divina da revelação. Os Evangelhos não podem apresentar isto de modo mais claro e majestoso: Jesus é a própria Toráh». E assim terminou a aparição; o seu significado mais profundo está resumido nesta última palavra. Os discípulos devem voltar a descer com Jesus e aprender sempre de novo: «Ouvi-O»» (Jesus de Nazaré, p. 392)

9 «Ordenou-lhes que não contassem…» Esta ordem pertence à chamada disciplina do segredo messiânico – a que Marcos dá especial ênfase pela preocupação teológica de fazer ressaltar a incompreensão perante Jesus, a ser superada pelos seus só após a glória da Ressurreição –, visa evitar possíveis agitações populares, que só contribuiriam, para perturbar e dificultar a missão de Jesus.

 

Sugestões para a homilia

 

Sei que temes a Deus:

Nos últimos tempos parece surgir uma mentalidade desvirtuante do sentido do Temor, que é um dom do Espírito Santo. Há quem confunda Temor com tremor, levando à negação da possibilidade de amar sem condições. O Temor, tal como escutávamos na leitura do Génesis, leva Abraão a tomar uma decisão que jamais pensara e admitira na sua vida. Matar o fruto de todo o seu existir e em função do qual orientou toda a sua vida implicaria negar tudo o que foi e lançar-se no mundo dos infortúnios. No entanto, Abraão, à luz da fé, olha a Sua vida na perspectiva própria de quem acredita, de quem confia e de quem serve, ou seja, na perspectiva de quem ama. O seu Temor a Deus fez com que colocasse toda a sua vida sobre aquele altar de pedra e, com a força dos seus próprios braços, negasse e rejeitasse todos os seus sonhos de felicidade. O Temor é esta forma de amor, que ama sem colocar condições e esperar satisfações, acreditando apenas que o Amor de Deus tudo providenciará para que se realize em nós o acontecimento da Salvação.

 

Este é o meu filho muito amado:

Não faz muito tempo que escutávamos esta teofania de Deus, precisamente na celebração do Baptismo de Jesus. Curiosamente, as manifestações do Pai Eterno ao longo dos Evangelhos resumem-se a manifestar a Sua Paternidade e a revelar Jesus como o Seu Filho muito amado. Compreender esta teofania neste Domingo da Quaresma é querer assumir o caminho quaresmal como um dinamismo de fé onde o percurso tem de ser à luz da nossa filiação divina, de sermos filhos de Deus, pois somos filhos no Filho. Quando a Quaresma se resume a noções obscuras de sacrifícios corre-se o risco de desvirtuar a beleza com que a Igreja nos chama à penitência. Este tempo chama-nos efectivamente a reforçar meios penitenciais, mas têm que nos unir muito a Deus, têm de nos falar de Deus e têm de ser sinais de amor a Deus. Assim sendo, partindo da esmola, do jejum, da oração e das demais práticas penitenciais que se possam fazer, é necessário que o critério seja sempre à luz de Deus e para ele, como prova do imenso amor que temos para com Ele, reconhecidos pelas provas de Amor que Ele nos deu e continua a dar, e com vontade de entrar em maior intimidade com Ele, salvaguardando o bem que podemos fazer aos irmãos. O tempo da Quarema é um tempo de deserto, onde o recolhimento nos leva a colocar o olhar sobre o essencial e a tudo entregar, como verdadeiros filhos, nas mãos do Pai.

 

Fala o Santo Padre

 

«Subamos com Jesus ao monte da oração

e deixemo-nos colmar interiormente pela sua luz.»

 

Queridos irmãos e irmãs!

Este domingo, segundo da Quaresma, caracteriza-se como domingo da Transfiguração de Cristo. Com efeito, no itinerário quaresmal, a liturgia, depois de nos ter convidado a seguir Jesus no deserto para enfrentar e vencer com Ele as tentações, propõe-nos que subamos juntamente com Ele ao «monte» da oração, para contemplar no seu rosto humano a luz gloriosa de Deus. O episódio da transfiguração de Cristo é confirmado de modo concorde pelos Evangelistas Mateus, Marcos e Lucas. Os elementos essenciais são dois: antes de tudo, Jesus sobe com os discípulos Pedro, Tiago e João a um monte alto e lá «foi transfigurado diante deles» (Mc 9, 7), o seu rosto e as suas vestes irradiaram uma luz resplandecente, enquanto ao lado d’Ele apareceram Moisés e Elias; em segundo lugar, uma nuvem envolveu o cimo do monte e dela ouviu-se uma voz que dizia: «Este é o Meu Filho muito amado, ouvi-o!» (Mc 9, 7). Portanto, a luz e a voz: a luz divina que resplandece no rosto de Jesus, e a voz do Pai celeste que testemunha por Ele e dá a ordem de O ouvir.

O mistério da transfiguração não deve ser separado do contexto do caminho que Jesus está a percorrer. Ele já se orientou decididamente para o cumprimento da sua missão, sabendo bem que, para alcançar a ressurreição, deverá passar sempre através da paixão e da morte de cruz. Disto falou abertamente aos discípulos, os quais contudo não compreenderam, aliás, recusaram esta perspectiva, porque não pensam segundo Deus, mas segundo os homens (cf.Mt 16, 23). Por isso, Jesus leva consigo três deles ao monte e revela a sua glória divina, esplendor de Verdade e de Amor. Jesus quer que esta luz possa iluminar os seus corações quando atravessarem a escuridão espessa da sua paixão e morte, quando o escândalo da cruz for para eles insuportável. Deus é luz, e Jesus deseja doar aos seus amigos mais íntimos a experiência desta luz, que habita n’Ele. Assim, depois deste acontecimento, será neles luz interior, capaz de os proteger dos assaltos das trevas. Também na noite mais escura, Jesus é a lâmpada que nunca se apaga. Santo Agostinho resume este mistério com uma expressão lindíssima; diz: «Aquilo que o sol que vemos é para os olhos do corpo, o mesmo é [Cristo] para os olhos do coração» (Sermo 78, 2: pl 38, 490.

Amados irmãos e irmãs, todos nós precisamos de luz interior para superar as provas da vida. Esta luz vem de Deus, e é Cristo quem a concede, Ele, no qual habita a plenitude da divindade (cf. Cl 2, 9). Subamos com Jesus ao monte da oração e, contemplando o seu rosto cheio de amor e de verdade, deixemo-nos colmar interiormente pela sua luz. Peçamos à Virgem Maria, nossa guia no caminho da fé, que nos ajude a viver esta experiência no tempo da Quaresma, encontrando todos os dias alguns momentos para a oração silenciosa e para a Palavra de Deus.

Papa Bento XVI, Angelus na Praça de São Pedro, 4 de Março de 2012

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs:

Enriquecidos por tudo o que nos foi anunciado,

apresentemos, por Jesus, no Espírito Santo ao Pai,

as dificuldades dos nossos irmãos de todo o mundo

que, juntamente connosco, caminham na fé.

Oremos (cantando): Senhor, aumentai a nossa fé!

 

1.  Pelo Santo Padre, os Bispos, Presbíteros e Diáconos,

para que nos apresentem, com toda a beleza e exigência,

a Palavra de Deus que Jesus nos veio anunciar,

oremos, irmãos.

Senhor, aumentai a nossa fé!

 

2.  Pelos cristãos perseguidos e privados de liberdade,

para que o Senhor os fortaleça e encha de alegria,

na sua caminhada heróica para as alegrias eternas,

oremos, irmãos.

Senhor, aumentai a nossa fé!

 

3.  Pelos Catequistas e todos os que nos alimentam a fé,

para que o façam com generosa sentido de responsabilidade,

fiéis ao Magistério e com o testemunho das suas vidas,

oremos, irmãos.

Senhor, aumentai a nossa fé!

 

4.  Por todos os pais que assumiram o Baptismo dos filhos,

para que na gozosa intimidade da família, igreja doméstica,

revelem aos filhos o verdadeiro rosto de Deus que nos ama,

oremos, irmãos.

Senhor, aumentai a nossa fé!

 

5.  Por todos aqueles que nos precederam na confissão da fé,

para que, se e necessário, Deus abrevie o tempo de purificação

e possam contemplar, quanto antes a glória da Santíssima Trindade,

oremos, irmãos.

Senhor, aumentai a nossa fé!

 

Senhor que nos concedestes gratuitamente o dom da fé,

chamando-nos, por ela, a participar da bem-aventurança:

ajudai-nos a viver com fidelidade a nossa vocação cristã,

para que Vos possamos contemplar um dia no Céu.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho,

Que é Deus convosco, na unidade do espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Atei os meus braços, M. Faria, NRMS 9 (II)

 

Oração sobre as oblatas: Esta oblação, Senhor, lave os nossos pecados e santifique o corpo e o espírito dos vossos fiéis, para celebrarmos dignamente as festas pascais. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

A transfiguração do Senhor

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor.

Depois de anunciar aos discípulos a sua morte, manifestou-lhes no monte santo o esplendor da sua glória, para mostrar, com o testemunho da Lei e dos Profetas, que pela sua paixão alcançaria a glória da ressurreição.

Por isso, com os Anjos e os Santos do Céu, proclamamos na terra a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo, Santo, Santo.

 

Santo: Santo IV, H. Faria, NRMS 103-104

 

Monição da Comunhão

 

Vamos abeirar-nos da Sagrada Comunhão, onde o Filho de Deus se dá a nós. Este acto de entrega convida-nos também a nós a unirmo-nos a Cristo, verdadeira vítima e oferenda, ao qual nos unimos também nós como oferenda agradável a Deus.

 

Cântico da Comunhão: Ouviu-se uma voz, A. Mendes, Cânticos de Entrada e Comunhão I, pág. 87

Mt 17, 5

Antífona da comunhão: Este é o meu Filho muito amado, no qual pus as minhas complacências. Escutai-O.

 

Cântico de acção de graças: Bendito sejas, sei que Tu pensas em mim, H. Faria, NRMS 2 (II)

 

Oração depois da comunhão: Alimentados nestes gloriosos mistérios, nós Vos damos graças, Senhor, porque, vivendo ainda na terra, nos fazeis participantes dos bens do Céu. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

A Transfiguração do Senhor remete-nos para um compromisso com o mundo. Sair da Eucaristia é voltar ao mundo com o olhar contemplativo do próprio Deus. Amar o mundo apaixonadamente e manifestar-lhe a beleza da Fé é o desafio que hoje levamos, certos de que caminhamos na Sua presença sempre que a nossa confiança repousa na Sua vontade.

 

Cântico final: Ficai connosco, Senhor, M. Borda, NRMS 43

 

 

Homilias Feriais

 

2.ª SEMANA

 

2.ª feira, 2-III: Aprender a ser misericordiosos.

Dan 9, 4-10 / Lc 6, 36-38

Sede misericordiosos como o vosso Pai celestial é misericordioso.

Para sermos misericordiosos como Jesus nos pede (Ev.) precisamos, em primeiro lugar, de reconhecer que somos pecadores como os demais. Assim o lembra Daniel: «Nós pecámos, deixámos os vossos mandamentos e as vossas leis» (Leit.). Deste modo seremos mais compreensivos com os defeitos do próximo. Depois, recebamos o sacramento da misericórdia regularmente, que nos ajudará a sermos igualmente misericordiosos.

Lembremo-nos do Coração Sacratíssimo de Jesus. Peçamos-lhe que nos conceda um coração à medida do dEle, para que todas as criaturas encontrem um lugar no nosso coração.

 

3.ª Feira, 3-III: A conversão interior e as boas obras.

Is 1, 10. 16-20 / Mt 23, 1-12

 Fazei e observai tudo quanto vos disserem, mas não procedais segundo as suas obras, pois eles dizem e não fazem.

Jesus, o Mestre divino, começou primeiro a fazer e só depois a ensinar. Por isso, contrasta o seu modo de actuar com o dos escribas e fariseus (Ev.). Estes impunham um fardo pesado, que nunca colocavam sobre os seus ombros e Jesus carrega com os nossos pecados sobre os ombros.

A nova conversão interior deve ser acompanhada pelas boas obras pois, caso contrário, os nossos propósitos seriam estéreis. É necessária toda uma prática de aprendizagem: «Aprendei a fazer o bem» (Leit.). É verdade que o mais importante é a conversão do coração, pois esta quando é autêntica é acompanhada por sinais visíveis, gestos e obras de penitência.

 

4.ª Feira, 4-III: O melhor serviço à sociedade.

Jer 18, 18-20 / Mt 20, 17-28

Eles hão-de condená-lo à morte, para que o escarneçam, açoitem e crucifiquem.

As Leituras falam-nos das conjuras contra o profeta Jeremias: «Vinde, vamos atingi-lo com as nossas palavras, sem atendermos a quanto ele disser» (Leit.); e contra Jesus (Ev.). Estas actuações continuam a verificar-se nos nossos dias, pois os adversários de Deus atacam a Igreja e as suas instituições, pagando o bem com o mal, como fizeram com o profeta e com Jesus.

Esquecem que os ensinamentos de Cristo têm como finalidade tornar a sociedade mais digna: O Filho do homem veio para servir e dar a vida por todos (Ev.) Do mesmo modo, todos os cristãos são chamados a prestar um serviço à sociedade, cumprindo muito bem os seus deveres.

 

5.ª Feira, 5-III: Os benefícios da Cruz.

Jer 17, 5-10 / Lc 16, 19-31

Filho, lembra-te que recebeste os teus benefícios durante a vida, tal como Lázaro os infortúnios. E, agora aqui ele é consolado, ao passo que tu és atormentado.

O homem rico da parábola, bem como os seus cinco irmãos (Ev.), nunca se lembraram de Deus nem dos pobres. Só confiaram nos bens materiais, afastando o seu coração de Deus (Leit.) Em quem pomos a nossa confiança? «Feliz de quem confia no Senhor. É semelhante a uma árvore plantada a beira da água» (Leit. e S. Resp.)

A cruz, depois de Cristo a ter abraçado, passou a ser o símbolo da vitória, a ter o sinal mais. Porque, como Jesus diz, quem aqui sofre os infortúnios, por amor de Deus, recebe as consolações na outra vida. E quem só tem benefícios aqui, já não receberá mais nada (Ev.).

 

6.ª Feira, 6-III: Como acolhemos Jesus?

Gen 37, 3-4. 12-13. 17-28 / Mt 21, 33-43. 45-46

Mas, ao verem o filho, os agricultores disseram entre si: este é o herdeiro. Vamos matá-lo.

Esta parábola dos vinhateiros pode aplicar-se também a José (Leit.), a quem os irmãos pretenderam matar e acabaram por vender como escravo. Mas aplica-se especialmente ao próprio Jesus.

Foi enviado pelo Pai à terra para nos salvar, viveu a nossa vida, ensinou os caminhos para a vida eterna, curou muitos doentes, etc. E, em troca, recebeu uma cruz. Pode ser uma boa ocasião para lutarmos mais decididamente para evitar os nossos pecados e também como o acolhemos: na comunhão, nos tempos de trabalho, nas contrariedades, nos tempos dedicados à oração, etc.

 

Sábado, 7-III: As nossas misérias e a misericórdia de Deus.

Miq 7, 14-16. 18-20 / Lc 15, 1-3. 11-32

Qual o deus semelhante a vós, que tira o pecado e perdoa o delito, o Deus que se compraz em ser compassivo?

Este retrato de Deus do profeta Miqueias (Leit.), coincide perfeitamente com o traçado na parábola do filho pródigo, ou do pai misericordioso (Ev.).

Em vez de ficarmos tristes e abatidos com os nossos pecados recorramos à misericórdia de Deus: «O dinamismo da conversão e da penitência foi maravilhosamente descrito por Jesus na parábola do filho pródigo, cujo centro é o pai misericordioso: a miséria extrema, o arrependimento e a decisão de se declarar culpado, o caminho do regresso; o acolhimento generoso por parte do pai; eis alguns aspectos do processo de conversão» (CIC, 1439).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Ricardo Cardoso

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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