Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria

8 de Dezembro de 2014

 

PADROEIRA DE MOÇAMBIQUE E PORTUGAL

Solenidade

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Ditosa Virgem, cheia de graça, J. Santos, NRMS 75

Is 61, 10

Antífona de entrada: Exulto de alegria no Senhor, a minha alma rejubila no meu Deus, que me revestiu com as vestes da salvação e me envolveu com o manto da justiça, como esposa adornada com suas jóias.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A Igreja celebra hoje com toda a solenidade a Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria.

Deus preparou a nossa Redenção desde toda a eternidade, preparando Maria para ser a Mãe do Redentor do mundo. Cumulou-a de graças singulares, entre as quais está a sua Imaculada Conceição.

Maria não foi liberta do pecado, mas preservada dele e cheia de graça desde o primeiro instante da sua existência.

Nela vemos a vitória completa de Deus sobre o Demónio e temos consciência de que também nós estamos associados a este triunfo do Altíssimo.

Agradeçamos ao Senhor a maravilha da graça que é a Mãe de Deus e agradeçamos porque no-l’A deu por Mãe também a nós.

 

Acto penitencial

 

Pelos nossos pecados, muitas vezes nos temos colocado do lado do demónio, combatendo contra Maria Santíssima que comanda os exércitos de Deus.

Apressemo-nos em nos colocarmos sob o seu manto e bandeira, por uma emenda séria de vida.

 

(Tempo de silêncio. Sugerimos o esquema A, como o canto do Glória.)

 

Oração colecta: Senhor nosso Deus, que, pela Imaculada Conceição da Virgem Maria, preparastes para o vosso Filho uma digna morada e, em atenção aos méritos futuros da morte de Cristo, a preservastes de toda a mancha, concedei-nos, por sua intercessão, a graça de chegarmos purificados junto de Vós. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

 

Primeira Leitura

 

Monição: Depois do pecado dos nossos primeiros pais, Deus promete que nos dará uma Mulher singular que enfrentará o demónio e os que o seguem.

Maria é para todos nós a promessa da vitória definitiva sobre o Maligno e um auxílio permanente contra as investidas do Príncipe das Trevas.

 

Génesis 3, 9-15.20

9Depois de Adão ter comido da árvore, o Senhor Deus chamou-o e disse-lhe: «Onde estás?». 10Ele respondeu: «Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me». 11Disse Deus: «Quem te deu a conhecer que estavas nu? Terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira comer?». 12Adão respondeu: «A mulher que me destes por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi». O Senhor 13Deus perguntou à mulher: «Que fizeste?» E a mulher respondeu: «A serpente enganou-me e eu comi». 14Disse então o Senhor Deus à serpente: «Por teres feito semelhante coisa, maldita sejas entre todos os animais domésticos e entre todos os animais selvagens. Hás-de rastejar e comer do pó da terra todos os dias da tua vida. 15Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te esmagará a cabeça e tu a atingirás no calcanhar». 20O homem deu à mulher o nome de «Eva», porque ela foi a mãe de todos os viventes.

 

A leitura é extraída do segundo bloco do livro do Génesis, que vai do v. 4b do capítulo 2 até ao fim do capítulo 4, que os estudiosos atribuem à chamada «tradição javista», onde se encontra a narrativa da criação do homem e da mulher, do pecado dos primeiros pais com as suas consequências e da continuidade da vida humana marcada pelo pecado. É evidente que esta narrativa não é um relato jornalístico, pois tudo é descrito numa linguagem simbólica, muito expressiva e densa; a narrativa coloca o leitor perante realidades transcendentes que dizem respeito ao «ser humano» – o adam –, o homem de todos os tempos. O autor sagrado, que deu forma definitiva e inspirada ao Pentateuco, quis dar-nos um panorama coerente da história da salvação – que arranca da eleição divina e se concretiza na aliança e nas promessas de salvação – desenvolvendo-se por etapas correspondentes a um maravilhoso projecto divino, a que não escapa o enigma das origens.

Se perdêssemos de vista este plano divino, que conhecemos pela Revelação, a curiosidade científica poderia levar-nos a ficar atolados nos aspectos arqueológicos e episódicos, como poderia suceder a alguém que, para estudar um monumento antigo, se ficasse no estudo das pedras e na análise dos materiais de construção; por mais científica que fosse a sua análise, ficaria sem se aperceber da harmonia do conjunto, do significado histórico desse monumento e da sua verdade mais profunda. A doutrina da Igreja sobre o pecado original, de que Maria foi isenta por singular privilégio, não se fundamenta na narrativa do Génesis; muito menos se pode partir do estudo das fontes do Génesis para negar a existência desse pecado (uma ridícula ingenuidade, além do mais); a doutrina da fé encontra a sua sólida base na obra redentora de Cristo e nos ensinamentos do Novo Testamento, nomeadamente de S. Paulo; no entanto, a fé projecta grande luz sobre esta narrativa simbólica das origens.

10 «Tive medo porque estava nu; e então escondi-me». Deste modo se descreve, com fina psicologia, o sentimento de culpabilidade e de vergonha que não podia deixar de ser estranho ao primeiro pecado e igualmente ao pecado de todo aquele que não empederniu a sua consciência; esta, que antes de pecar era o aviso de Deus, toma-se depois uma premente censura. Este dar conta da própria nudez parece também indicar, por um lado, a enorme frustração de quem, ao pecar, em vão tinha tentado «ser igual a Deus» e, por outro lado, sugere o descontrolo das tendências instintivas (a concupiscência): depois do primeiro pecado, sentem-se dominados por movimentos e apetites contrários à razão, que tentam esconder (v. 7).

Não resistimos a citar algumas palavras da profunda reflexão antropológica de João Paulo II, nas audiências gerais de Maio de 1980: «Por meio destas palavras (v. 10) desvela-se certa fractura constitutiva no interior da pessoa humana, quase uma ruptura da original unidade espiritual e somática do homem. Este dá-se conta pela primeira vez de que o seu corpo cessou de beber da força do espírito, que o elevava ao nível da imagem de Deus. A sua vergonha original traz em si os sinais duma específica humilhação comunicada pelo corpo. (...) O corpo não está sujeito ao espírito como no estado da inocência original, tem em si um foco constante de resistência ao espírito e ameaça de algum modo a unidade do homem pessoa. (...) A concupiscência, em particular a concupiscência do corpo, é ameaça específica à estrutura da auto-posse e do autodomínio, por meio do qual se forma a pessoa humana».

14 «Hás-de rastejar e comer do pó da terra». Na narrativa, a sentença é dada primeiro contra a serpente, a primeira a fazer mal. Ninguém pense que o autor quer insinuar que dantes as cobras tinham patas: a sentença é proferida contra o demónio tentador; a expressão designa uma profunda humilhação (cf. Salm 71(72), 9; Is 49, 23; Miq 7, 17), infligida contra o demónio, que é o sentenciado, não as serpentes (cf. Apoc 12, em especial os vv. 9 e 17).

15 «Esta te esmagará a cabeça». Todo o versículo constitui o chamado Proto-Evangelho, o primeiro anúncio da boa nova da salvação que se lê na Bíblia. Não se limita esta passagem a anunciar o estado de guerra permanente entre as potências diabólicas – «a tua descendência» – e toda a Humanidade – «a descendência dela». É sobretudo uma vitória que se anuncia. Note-se que essa vitória é expressada não tanto pelo verbo, que no original hebraico é o mesmo para as duas partes em luta (xuf – na Neovulgata conterere), mas sim pela parte do corpo atingida nessa luta: a serpente será atingida na cabeça (ferida mortal, daí a tradução «esmagará»), ao passo que a descendência será apenas atingida no calcanhar (ferida leve, daí a tradução «atingirás»).

Mas, pergunta-se, a quem é que designa o pronome «esta» (v. 15)? Segundo o original hebraico, podia ser a descendência da mulher. A verdade, porém, é que esta descendência pecadora fica incapacitada para, por si, vencer o demónio e o pecado em que se precipitara. Assim, o tradutor grego da Septuaginta (inspirado?) referiu o dito pronome ao Messias (traduzindo-o na forma masculina, designando um indivíduo, autós, em vez da forma neutra (designando uma colectividade), autó, referindo este pronome a descendência, (que em grego se diz com a palavra neutra, sperma); esta tradução visava pôr em evidência que quem vence o pecado e o demónio é Ele, o Messias. A tradição cristã, e com ela a tradução da Vetus Latina seguida pela Vulgata, ao traduzir o pronome pelo feminino ipsa, aplicou este texto à Virgem Maria, explicitando um sentido (chamado eminente), que entreviu nesta passagem (se quisesse designar a descendência – semen – teria empregado o neutro ipsum, e não ipsa).

Eis como se costuma explicar o sentido mariano da passagem: a vitória é prometida à descendência de Eva, mas quem faz possível essa vitória é Jesus Cristo, com a sua obra redentora. Assim, unidos a Cristo, todos somos vencedores, mas Maria é a vencedora de um modo eminente, porque Mãe do Redentor e Mãe de toda a comunidade dos redimidos, a Igreja. O próprio contexto facilita esta referência a Maria: é que, contra tudo o que era de esperar, a profecia aparece dita a Eva, e não a Adão. Segundo o ensino da Igreja (cf. Bula «Ineffablis Deus» do Beato Pio IX), esta vitória de Maria sobre o demónio, inclui a perfeita isenção de toda a espécie de mancha do pecado, incluindo o original.

 

Salmo Responsorial    Salmo 84 (85), 9ab-10.11-12.13-14 (R. 8)

 

Monição: Costumamos cantar em honra e Maria: “És a obra mais perfeita / que saiu das mãos de Deus.”

Maria Imaculada é, de facto, a obra prima do Criador, a maior de todas as maravilhas que Ele criou, adornada de todas as graças e bênçãos.

Agradeçamos-Lhe que no-l'A tenha dado por Mãe, colocando ainda mais perto de nós, em Maria, o Seu Coração de Pai e cantemos o salmo de meditação.

 

Refrão:        Mostrai-nos o vosso amor

                e dai-nos a vossa salvação.

Ou:               Mostrai-nos, Senhor, a vossa misericórdia.

 

Escutemos o que diz o Senhor:

Deus fala de paz ao seu povo e aos seus fiéis.

A sua salvação está perto dos que O temem

e a sua glória habitará na nossa terra.

 

Encontraram-se a misericórdia e a fidelidade,

abraçaram-se a paz e a justiça.

A fidelidade vai germinar da terra

e a justiça descerá do Céu.

 

O Senhor dará ainda o que é bom

e a nossa terra produzirá os seus frutos.

A justiça caminhará à sua frente

e a paz seguirá os seus passos.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Deus chamou-nos à vida, fez de nós Seus filhos e tem um maravilhoso projecto de Amor para cada um de nós.

Escolheu-nos para seguirmos fielmente Jesus Cristo no caminho da santidade e assim alcançarmos a felicidade eternal.

 

Efésios 1, 3-6.11-12

3Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto dos Céus nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo. 4N’Ele nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença. 5Ele nos predestinou, conforme a benevolência da sua vontade, a fim de sermos seus filhos adoptivos, por Jesus Cristo, 6para louvor da sua glória e da graça que derramou sobre nós, por seu amado Filho. 11Em Cristo fomos constituídos herdeiros, por termos sido predestinados, segundo os desígnios d’Aquele que tudo realiza conforme a decisão da sua vontade, 12para sermos um hino de louvor da sua glória, nós que desde o começo esperámos em Cristo.

 

Este início da epístola aos Efésios de que é extraída a leitura tem o aspecto de um hino litúrgico e é uma das mais ricas sínteses doutrinais paulinas.

3 «Em Cristo». Toda a graça – «bênçãos espirituais» – que Deus concede ao homem, após o pecado original, incluindo a Imaculada Conceição da Virgem Maria, é concedida pela mediação de Cristo e através da união com Ele.

4-5 «Santos». «Filhos». O objectivo desta eleição eterna de Deus é «sermos santos», isto é, destacados do profano e pecaminoso para servir ao culto e glória divina: «diante d’Ele», isto é, na presença de Deus; estamos chamados a estar sempre diante de Deus para O glorificar a partir de tudo o que fazemos, dizemos ou pensamos, como ensina o Concílio Vaticano II: «Todos os cristãos são, pois, chamados e devem tender à santidade e perfeição do próprio estado» (LG 42). A santidade está em sermos «participantes da natureza divina» (2 Pe 1, 4; Rom 12, 1), sendo filhos de Deus e vivendo como tais, imitando a Cristo, o Filho de Deus por natureza (cf. Rom 8, 15-29; Gal 4, 5-7; 1 Jo 3, 1-3). E o modelo humano mais perfeito de santidade é Maria.

A expressão «santos e irrepreensíveis» faz pensar nas vítimas oferecidas a Deus no Antigo Testamento (cf. Lv 20, 20-22), insinuando-se assim o carácter oblativo e sacrificial de toda a vida do cristão (cf. 1 Pe 2, 5), bem como a perfeição que devemos pôr em tudo o que fazemos, demais que não se trata duma pureza meramente exterior e ritual, mas de um culto em espírito e verdade (cf. Jo 4, 23), «na sua presença» (de Deus) «que examina os rins e o coração» (Salm 7, 10), isto é, que perscruta o que há de mais íntimo no homem, a sua consciência, afectos e intenções.

 

Aclamação ao Evangelho        Lc 1, 28

 

Monição: Com a Anunciação do Arcanjo a Maria, comunicando-lhe o plano de salvação do nosso Deus, inaugurou-se uma nova era sobre a terra.

Alegremo-nos com esta certeza da fé e aclamemos, cantando, o Evangelho que vai ser proclamado para nós.

 

Aleluia

 

Cântico: M. Faria, NRMS10 (II)

 

Ave Maria cheia de graça, o Senhor é convosco;

bendita sois Vós entre as mulheres.

 

 

Evangelho

 

São Lucas 1, 26-38

Naquele tempo, 26o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. 27O nome da Virgem era Maria. 28Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». 29Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». 34Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?». 35O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 36E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril 37porque a Deus nada é impossível». 38Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra».

 

A cena da Anunciação, narrada com toda a simplicidade, tem uma singular densidade, pois encerra o mistério mais assombroso da História da Salvação, a Incarnação do Filho eterno de Deus. Assim, a surpresa do leitor transforma-se em encanto e deslumbramento. O próprio paralelismo dos relatos lucanos do nascimento de João e de Jesus, revestem-se dum contraste deveras significativo: à majestade do Templo e grandiosidade de Jerusalém contrapõe-se a singeleza duma casa numa desconhecida e menosprezada aldeia de Galileia; ao afã dum casal estéril por ter um filho, a pureza duma virgem que renunciara à glória de ser mãe; à dúvida de Zacarias, a fé obediente de Maria!

26 «O Anjo Gabriel». O mesmo que anunciou a Zacarias o nascimento de João. Já era conhecido o seu nome no A.T. (Dan 8, 16-26; 9, 21-27). O seu nome significa «homem de Deus» ou também «força de Deus».

28 Coadunando-se com a transcendência da mensagem, a tripla saudação a Maria é absolutamente inaudita:

«Ave»: Vulgarizou-se esta tradução, correspondente a uma saudação comum (como ao nosso «bom dia»; cf. Mt 26, 49), mas que não parece ser a mais exacta, pois Lucas, para a saudação comum usa o semítico «paz a ti» (cf. Lc 10, 5); a melhor tradução é «alegra-te» – a tradução literal do imperativo do grego khaire –, de acordo com o contexto lucano de alegria e com a interpretação patrística grega, não faltando mesmo autores modernos que vêem na saudação uma alusão aos convites proféticos à alegria messiânica da «Filha de Sião» (Sof 3, 14; Jl 2, 21-23; Zac 9, 9).

Ó «cheia de graça»: Esta designação tem muita força expressiva, pois está em vez do nome próprio, por isso define o que Maria é na realidade. A expressão portuguesa traduz um particípio perfeito passivo que não tem tradução literal possível na nossa língua: designa Aquela que está cumulada de graça, de modo permanente; mais ainda, a forma passiva parece corresponder ao chamado passivo divino, o que evidencia a acção gratuita, amorosa, criadora e transformante de Deus em Maria: «ó Tu a quem Deus cumulou dos seus favores». De facto, Maria é a criatura mais plenamente ornada de graça, em função do papel a que Deus A chama: Mãe do próprio Autor da Graça, Imaculada, concebida sem pecado original, doutro modo não seria, em toda a plenitude, a «cheia de graça», como o próprio texto original indica.

«O Senhor está contigo»: a expressão é muito mais rica do que parece à primeira vista; pelas ressonâncias bíblicas que encerra, Maria é posta à altura das grandes figuras do Antigo Testamento, como Jacob (Gn 28, 15), Moisés (Ex 3, 12) e Gedeão (Jz 6, 12), que não são apenas sujeitos passivos da protecção de Deus, mas recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão confiada por Ele.

Chamamos a atenção para o facto de na última edição litúrgica ter sido suprimido o inciso «Bendita és tu entre as mulheres», pois este não aparece nos melhores manuscritos e pensa-se que veio aqui parar por arrasto do v. 42 (saudação de Isabel). A Neovulgata, ao corrigir a Vulgata, passou a omiti-lo.

29 «Perturbou-se», ferida na sua humildade e recato, mas sobretudo experimentando o natural temor de quem sente a proximidade de Deus que vem para tomar posse da sua vida (a vocação divina). Esta reacção psicológica é diferente da do medo de Zacarias (cf. Lc 1, 12), pois é expressa por outro verbo grego; Maria não se fecha no refúgio dos seus medos, pois n’Ela não há qualquer espécie de considerações egoístas, deixando-nos o exemplo de abertura generosa às exigências de Deus, perguntando ao mensageiro divino apenas o que precisa de saber, sem exigir mais sinais e garantias como Zacarias (cf. Lc 1, 18).

32-33 «Encontraste graça diante de Deus»: «encontrar graça» é um semitismo para indicar o bom acolhimento da parte dum superior (cf. 1 Sam 1, 18), mas a expressão «encontrar graça diante de Deus» só se diz no A. T. de grandes figuras, Noé (Gn 6, 8) e Moisés (Ex 33, 12.17). O que o Anjo anuncia é tão grandioso e expressivo que põe em evidência a maternidade messiânica e divina de Maria (cf. 2 Sam 7, 8-16; Salm 2, 7; 88, 27; Is 9, 6; Jer 23, 5; Miq 4, 7; Dan 7, 14).

34 «Como será isto, se Eu não conheço homem?» Segundo a interpretação tradicional desde Santo Agostinho até aos nossos dias, tem-se observado que a pergunta de Maria careceria de sentido, se Ela não tivesse antes decidido firmemente guardar a virgindade perpétua, uma vez que já era noiva, com os desposórios ou esponsais (erusim) já celebrados (v. 27). Alguns entendem a pergunta como um artifício literário e também «não conheço» no sentido de «não devo conhecer», como compete à Mãe do Messias (cf. Is 7, 14). Pensamos que a forma do verbo, no presente, «não conheço», indica uma vontade permanente que abrange tanto o presente como o futuro. Também a segurança com que Maria aparece a falar faz supor que José já teria aceitado, pela sua parte, um matrimónio virginal, dando-se mutuamente os direitos de esposos, mas renunciando a consumar a união; nem todos os estudiosos, porém, assim pensam, como também se vê no recente e interessante filme Figlia del suo Figlio.

35 «O Espírito Santo virá sobre ti…». Este versículo é o cume do relato e a chave do mistério: o Espírito, a fonte da vida, «virá sobre ti», com a sua força criadora (cf. Gn 1, 2; Salm 104, 30) e santificadora (cf. Act 2, 3-4); «e sobre ti a força do Altíssimo estenderá a sua sombra» (a tradução litúrgica «cobrirá» seria de evitar por equívoca e pobre; é melhor a da Nova Bíblia da Difusora Bíblica): o verbo grego (ensombrar) é usado no A. T. para a nuvem que cobria a tenda da reunião, onde a glória de Deus estabelecia a sua morada (Ex 40, 34-36); aqui é a presença de Deus no ser que Maria vai gerar (pode ver-se nesta passagem o fundamento bíblico para o título de Maria, «Arca da Aliança»).

«O Santo que vai nascer…». O texto admite várias traduções legítimas; a litúrgica, afasta-se tanto da da Vulgata, como da da Nova Vulgata; uma tradução na linha da Vulgata parece-nos mais equilibrada e expressiva: «por isso também aquele que nascerá santo será chamado Filho de Deus». I. de la Potterie chega a ver aqui uma alusão ao parto virginal de Maria: «nascerá santo», isto é, não manchado de sangue, como num parto normal. «Será chamado» (entenda-se, «por Deus» – passivum divinum) «Filho de Deus», isto é, será realmente Filho de Deus, pois aquilo que Deus chama tem realidade objectiva (cf. Salm 2, 7).

38 «Eis a escrava do Senhor…». A palavra escolhida na tradução, «escrava» talvez queira sublinhar a entrega total de Maria ao plano divino. Maria diz o seu sim a Deus, chamando-se «serva do Senhor»; é a primeira e única vez que na história bíblica se aplica a uma mulher este sintagma, como que evocando toda uma história maravilhosa de outros «servos» chamados por Deus, que puseram a sua vida ao seu serviço: Abraão, Jacob, Moisés, David… É o terceiro nome com que Ela aparece neste relato: «Maria», o nome que lhe fora dado pelos homens, «cheia de graça», o nome dado por Deus, «serva do Senhor», o nome que Ela se dá a si mesma.

«Faça-se…». O «sim» de Maria é expresso com o verbo grego no modo optativo (génoito, quando o normal seria o uso do modo imperativo génesthô), o que põe em evidência a sua opção radical e definitiva, o seu vivo desejo (matizado de alegria) de ver realizado o desígnio de Deus (M. Orsatti).

Apraz-nos citar aqui as palavras de S. João Damasceno sobre Nª Senhora: «Ela é descanso para os que trabalham, consolação dos que choram, remédio para os doentes, porto de refúgio para as tempestades, perdão para os pecadores, doce alívio dos tristes, socorro dos que rezam».

 

Sugestões para a homilia

 

• A Promessa de Deus

Liberdade e responsabilidade

A fuga de Deus

Um raio de luz de esperança

• Imaculada Conceição

A Cheia de Graça

Mãe Virginal de Jesus

Nossa Mãe

 

1. A Promessa de Deus

 

a) Liberdade e responsabilidade. «Depois de Adão ter comido da árvore, o Senhor Deus chamou-o e disse-lhe: “Onde estás?”»

Deus teve um projecto, ao chamar-nos à vida: formou do barro da terra o primeiro par humano, como princípio de toda a humanidade e rei de tudo quanto foi criado. «Pouco menor que um anjo, ó Deus, Vós fizestes

  Quis tornar-nos felizes na terra e na eternidade, sentando-nos à Sua mesa, numa comunhão perfeita.

Mas não pode haver prémio sem liberdade e responsabilidade. Que prémio posso merecer, se me obrigam a fazer o que não quero?

Por isso, antes de entregar a felicidade para sempre aos nossos primeiros pais, submeteu-os a uma prova: aceitar Deus, ou rejeitá-l’O?

Entretanto, apareceu em cena um personagem sinistro, a personificação do mal. Por soberba, por ter recusado.

Não podendo vingar-se directamente de Deus, cevou o ódio em Adão e Eva, arrastando-os para a sua situação desgraçada.

Somos livres e responsáveis como o eram os nossos primeiros pais. Deus tem o direito de nos pedir contas, como fez com eles: – Que fizeste?

O que fizeram Adão e Eva foi desconfiar de Deus e acreditar no diabo que lhe segredava maldosamente: “Sereis como deuses!”

Eram-no antes, porque a filiação divina nos introduz na família de Deus. Pela fé, vemos tudo com os olhos de Deus; pela graça, amamos com o Seu Coração divino; somos vocacionados para nos sentarmos à mesa da Sua felicidade para sempre. De facto, antes da queda original éramos como deuses.

Depois, tudo mudou, porque ficámos reduzidos à condição infeliz do Príncipe das Trevas.

Deus pede contas a Adão e Eva para que tomem consciência do que lhes aconteceu. Enquanto o doente não sabe que o é, não se deixa tratar.

Também nós estamos na vida perante uma escolha fundamental e temos de o fazer com obras: obedecer a Deus ou ao demónio? Fazer a vontade ao nosso Pai do Céu ou ao nosso maior inimigo? 

 

b) A fuga de Deus. «Ele respondeu: “Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me”.»

O livro do Génesis fala-nos simbolicamente de uma recusa da vontade de Deus. Pouco importa que o pecado tenha sido comer uma maçã ou cometer qualquer outra acção. O essencial é que desobedeceram à vontade do Criador, para se submeterem à do demónio. Esta é a essência de todo o pecado.

“Sereis como deuses”, é a promessa que o demónio faz aos nossos primeiros pais. É uma promessa mentirosa, para lhes roubar o que, de facto, já são: como deuses! Pelo mistério da graça, participamos da natureza divina, possuímos a ciência de Deus, pela fé; e estamos envolvidos pelo Seu Amor, pela caridade sem fronteiras. É precisamente este serem como deuses que o Inimigo lhes quer roubar. O mesmo acontece connosco.

Diante de nós temos os Mandamentos da Lei de Deus, com a promessa de uma felicidade na terra e na eternidade. Deus pede-nos um acto de confiança na Sua Palavra. E, de facto, embora o seu cumprimento exija de nós sacrifícios sem os quais não podemos ser fieis ao Senhor, somos imensamente felizes já nesta vida terrena.

Pelo contrário, aqueles que se entregam ao pecado vivem num desconforto contínuo, sempre à procura de uma felicidade que o demónio lhes promete, mas que nunca encontram.

Todo o pecado é isto: pretender ser dono absoluto da própria vida, da própria conduta, sem prestar contas a ninguém.

Deste sonho de grandeza louca, caímos na vergonha da derrota. Também Adão e Eva se esconderam porque tiveram vergonha de si mesmos, tal a nudez a que o pecado os reduziu.

À medida que uma pessoa se afunda no lodaçal do pecado, começa a ter medo de Deus e a fugir-lhe. Deixa de rezar e de pensar n’Ele, porque tem medo de enfrentar as suas cobardias.

Vai-se deformando em nós a ideia de Deus. Em vez de um Pai, começamos a ver um estranho que nos mete medo, tal aconteceu a Adão e Eva.

A fuga de Deus rompe também o idílio de amor naquele casal: Adão acusa Eva com crueldade e culpa-a da sua queda.

 

c) Um raio de luz de esperança. «Disse então o Senhor à serpente: [...] “Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te esmagará a cabeça e tu a atingirás no calcanhar”.»

Depois de ter ajudado os nossos primeiros pais a tomarem consciência da gravidade da situação, o Senhor não os abandona ao desânimo. Promete-lhes um Salvador que virá restaurar a harmonia original.

Na verdade, o Senhor tinha um plano alternativo para remediar esta catástrofe: Uma Mulher – não Eva, porque se tornara súbdita e colaboradora do demónio – seria o princípio de um mundo novo.

Deus vai tornar-Se Homem, sendo Filho desta Mulher, para, em nome de todos nós, como membro da família humana, pagar a nossa dívida infinita. Como Deus, teria merecimento infinito; como Homem, podia apresentar-Se em nome de todos nós.

O encontro decisivo entre Deus e a humanidade dar-se-ia no seio virginal dessa Mulher extraordinária.

Entre todos os seres humanos, será a única não contagiada pelo veneno de Satanás. Por meio deste texto foi-nos revelada a verdade consoladora da Imaculada Conceição.

Quando proclamamos este dogma singular, queremos afirmar duas verdades:

• Maria não contraiu a mancha original, como todos nós. Não esteve um instante sequer sujeita à escravidão de Satanás.

• Foi concebida já na amizade com Deus, na graça santificante e, como consequência, não precisou ser baptizada.

Deus coloca-A à frente do exército de Deus, na luta contra o Príncipe das Trevas e seus seguidores. Ele arma ciladas ao seu calcanhar, quer dizer, ataca os seus filhos. Na verdade, o “calcanhar” da mãe, onde ela é mais sensível, é nos filhos.

É por isso que basta invocar a ajuda de Nossa Senhora, por uma simples palavra, para imediatamente o demónio nos deixar em paz.

«Ama a Senhora. E Ela te obterá graça abundante para venceres nesta luta quotidiana. – E de nada servirão ao maldito essas coisas perversas que sobem e sobem, fervendo dentro de ti, até quererem sufocar, com a sua podridão bem cheirosa, os grandes ideais, os mandamentos sublimes que o próprio Cristo pôs em teu coração. – "Serviam!»

 (“Servirei!).

 

2. Imaculada Conceição

 

a) A Cheia de Graça. «Naquele tempo, o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem. [...] O nome da Virgem era Maria. Tendo entrado onde ela estava, disse o anjo: “Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo”.»

Quando Deus chama uma pessoa a nova missão, dá-lhe um nome novo. Abrão ficou a chamar-se Abraão; Jacob, Israel; Simão, Pedro. Maria recebe o nome de “Cheia de Graça”, como nome próprio.

Ao mesmo tempo, recorda-lhe que este privilégio singular deve-se à escolha que Deus fez d’Ela para Mãe de Deus.

A maternidade divina e virginal de Maria não é mero acidente na sua vida, como se a sua missão se limitasse a conceber e a dar à luz o Filho de Deus. Ela ficou para sempre unida à missão redentora de Jesus, como elo que Deus quis que fosse indispensável.

Se o texto do Génesis chama a nossa atenção para o facto de Maria nunca ter sido tocada pela baba venenosa de Satanás, e nem por um instante ter vivido debaixo a sua tirania, o evangelho da Anunciação põe em destaque o ter sido enriquecida com toda a graça que uma criatura pode comportar. O Arcanjo revela-lho: “Ave, ó Cheia de Graça!” é nome novo que vem do Céu.

Ser cheia de graça significa que ao longo da vida nunca perdeu um só momento de crescer na vida divina. Equivale a proclamá-l’A Virgem Fiel ao Senhor, porque correspondeu semp5re aos desígnios divinos, sem nunca resistir à vontade de Deus.

Quando rezamos a Ave Maria estamos a conversar filialmente com Nossa Senhora, lembrando-lhe o que Ela é para cada um de nós: Mãe e Modelo a imitar. O fiat – sim – que disse ao Arcanjo, resume uma vida inteira de fidelidade.

Maria, por escolha divina, é Filha de Deus Pai, Mãe de Deus Filho, Esposa de Deus Espírito Santo.

 

b) Mãe Virginal de Jesus. «Disse-lhe o Anjo: “Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus.”»

Maria é Mãe de Jesus, no sentido pleno da palavra. Podemos mesmo afirmar que Ela é mais Mãe do que qualquer outra mulher do seu filho.

Na verdade, Nossa Senhora concebeu o Filho de Deus incarnado virginalmente, ao passo que na origem de qualquer outra criança, intervém o pai e a mãe, transmitindo-lhe a sua natureza, ao mesmo tempo que Deus infunde nela uma alma imortal.

Na Conceição virginal de Maria, mais nenhum ser humano intervém. «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso, o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus

Tudo quanto Jesus tem de humano – a cor dos olhos, os traços fisionómicos, o tom de voz, etc., tudo recebeu de Maria.

Mãe de Deus é a mais alta dignidade a que uma criatura pode ascender. Mais do que Maria, só Deus.

Maria é a Arca da Nova Aliança que traz em si durante nove meses Jesus Cristo, que O acalenta nos braços, O alimenta e defende dos perigos.

Jesus quis depender totalmente de Maria. Durante nove meses, respirou o ar que Ela mesma respirava, alimentou-Se com o seu sangue e os dois corações pulsaram em uníssono.

O Sangue preciosíssimo que Ele derramou na Cruz e que nos dá como Alimento na Santíssima Eucaristia é Sangue da Virgem de Nazaré.

Em atenção a esta missão sublime, e por mérito de Seu Filho, Maria foi preservada de toda a mácula. O texto de Génesis iluminou-se com o raciocínio simples dos teólogos medievais: Deus podia preservar Maria de todo o pecado; convinha que o fizesse, ou seja,  não podia tolerar a dignidade de Deus que a Sua Mãe estivesse por um instante sequer sob o domínio de Satanás, o Seu pior inimigo. A conclusão é luminosa: Deus fê-l’A Imaculada.

 

c) Nossa Mãe. «O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David; reinará eternamente sobre a casa de Jacob o seu reinado não terá fim

Jesus Cristo formou um Corpo – a Igreja – de que Ele é a Cabeça gloriosa. Somos enxertados neste Corpo pela Baptismo. A partir dele, começa a correr nas nossas veias sangue divino. A graça é a participação da natureza divina na criatura racional.

«Em Cristo fomos constituídos herdeiros, por termos sido predestinados, segundo os desígnios d’Aquele que tudo realiza conforme a decisão da sua vontade, para sermos um hino de louvor da sua glória, nós que desde o começo esperámos em Cristo

Maria não é apenas Mãe da Cabeça – de Jesus Cristo – mas todo o Corpo, do Cristo total.

Quando, pois, dizemos que a Imaculada Conceição é a nossa Mãe – Mãe da vida divina que temos em nós – não estamos apenas a atribuir-lhe um título simbólico. Ela é verdadeiramente nossa Mãe.

É por isso que basta um olhar à sua imagem, uma prece confiada, para que Satanás se afaste e deixe de nos tentar.

Quando quer tomar conta de uma pessoa, começa por sugerir-lhe que não lhe reze, que ponha e lado o Terço e as outras devoções marianas. Ele sabe que, quando consegue isto, é fácil arrastar-nos para o seu lado.

Ela acolhe-nos nos seus Santuários, as Casas da Mãe, como gostava de lhes chamar o S. João Paulo II.

Faz parte o plano de Deus sobre nós que cresçamos continuamente na amizade com Ela. “Queres amar a Virgem? Conversa com Ela?

– Como?

– Rezando bem o Rosário.” (S. Josemaria, Santo Rosário, Introdução). Na verdade, é falando que as pessoas se enamoram umas das outras.

Ela diz a cada um de nós como à Irmã Lúcia: “Sofres muito, minha filha? Eu nunca te desampararei.”

Por esta razão, a devoção a Nossa Senhora não é um acidente na vida do cristão, uma devoção mais, como a qualquer santo, mas é essencial para a nossa vida, por vontade do Altíssimo. Foi Deus quem determinou que fosse assim.

Maria é para nós a revelação do amor materno de Deus para connosco. Nada está perdido enquanto A invocamos.

Maria alimenta-nos com a Santíssima Eucaristia e ensina-nos a recebê-la com as necessárias disposições.

 

Fala o Santo Padre

 

«A Igreja invoca e celebra a Virgem que, com o seu «sim», aproximou o Céu da terra.»

Hoje a Igreja celebra solenemente a concepção imaculada de Maria. Como declarou o beato Pio IX na Carta Apostólica Ineffabilis Deus, de 1854, Ela «foi preservada, por particular graça e privilégio de Deus Todo-Poderoso, em previsão dos méritos de Jesus Cristo Salvador do género humano, imune de toda a mancha de pecado original». Tal verdade de fé está contida nas palavras da saudação que lhe dirigiu o Arcanjo Gabriel: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo!» (Lc 1, 28). A expressão «cheia de graça» indica a obra maravilhosa do amor de Deus, que quis restituir-nos a vida e a liberdade, perdidas com o pecado, mediante o seu Filho Unigénito encarnado, morto e ressuscitado. Por isso, a partir do século II, no Oriente e no Ocidente, a Igreja invoca e celebra a Virgem que, com o seu «sim», aproximou o Céu da terra, tornando-se «geradora de Deus e nutriz da nossa vida», como se exprime são Romano, o Melode, num antigo cântico (Canticum XXV in Nativitatem B. Mariae Virginis, em J.B. Pitra, Analecta Sacra t. I, Paris 1876, pág. 198). No século VII, são Sofrónio de Jerusalém elogia a grandeza de Maria, porque nela o Espírito Santo escolheu a sua morada, e diz: «Tu superas todos os dons que a magnificência de Deus jamais concedeu a qualquer pessoa humana. Mais que todos, és rica da posse de Deus que habita em ti» (Oratio II25 in SS. Deiparæ AnnuntiationemPG 87, 3, 3248 AB). E são Beda, o Venerável, explica: «Maria é bendita entre as mulheres, porque com o decoro da virgindade beneficiou da graça de ser geradora de um Filho, que é Deus» (Hom. I, 3: CCL 122, 16).

Também a nós é concedida a «plenitude da graça», que devemos fazer resplandecer na nossa vida, porque «o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo – escreve São Paulo – nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais... Foi assim que Ele nos escolheu... antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis... Predestinou-nos para ser adoptados como seus filhos» (Ef 1, 3-5). Nós recebemos esta filiação por intermédio da Igreja, no dia do Baptismo. A tal propósito, santa Hildegarda de Bingen escreve: «Portanto, a Igreja é a mãe virgem de todos os os cristãos. Na força secreta do Espírito Santo, concebe-os e dá-os à luz, oferecendo-os a Deus de tal modo que também eles sejam chamados filhos de Deus» (Scivias, visio III, 12: CCL Continuatio Mediævalis XLIII, 1978, 142). E, por fim, entre os antiquíssimos cantores da beleza espiritual da Mãe de Deus, sobressai são Bernardo de Claraval, afirmando que a invocação: «Ave Maria, cheia de graça» é «agradável a Deus, aos anjos e aos homens. Aos homens, graças à maternidade; aos Anjos, graças à virgindade; e a Deus, graças à humildade» (Sermo XLVII, De Annuntiatione DominicaSBO VI, I, Roma 1970, 266).

Prezados amigos, à espera de prestar esta tarde, segundo a tradição, a homenagem a Maria Imaculada na Praça de Espanha, dirijamos agora a nossa oração fervorosa Àquela que intercede junto de Deus, a fim de que nos ajude a celebrar com fé o Natal do Senhor, já próximo.

Papa Bento XVI, Angelus na Praça de São Pedro, 8 de Dezembro de 2011

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs:

Deus quer conceder-nos nesta vida todas as graças

por mediação de Maria Imaculada, nossa Mãe.

Peçamos, hoje, nesta solenidade, por seu intermédio,

as graças de que temos necessidade para a salvação.

Oremos (cantando):

 

    Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores!

 

1. Pelo Santo Padre, nosso modelo na devoção a santa Maria,

    para que os alente neste caminho que vai da terra ao Céu,

    oremos, irmãos.

 

    Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores!

 

2. Pelos Bispos, Presbíteros e Diáconos da Igreja de Cristo,

    para que nos ensinem a devoção à Conceição Imaculada,

    oremos, irmãos.

 

    Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores!

 

3. Pelas jovens das nossas comunidades e pelas suas famílias,

    para que imitem a generosidade da Imaculada Conceição,

    oremos, irmãos.

 

    Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores!

 

4. Pelas pessoas que andam afastadas do caminho do Céu,

    para que a devoção a Nossa Senhora as reencaminhe,

    oremos, irmãos.

 

    Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores!

 

5. Por todos nós aqui reunidos na celebração da Imaculada,

    para que renovemos o nosso amor ao imaculado Coração,

    oremos, irmãos.

 

    Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores!

 

6. Por todos os que faleceram e ainda são purificados,

    para que a Imaculada Conceição os conduza à glória,

    oremos, irmãos.

 

    Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores!

 

Senhor, que nos concedeis a graça de celebrar na terra

a Imaculada Conceição de Maria, Vossa e nossa Mãe,

alcançai-nos também hoje, por sua intercessão materna,

a graça de A contemplarmos eternamente na glória do Céu.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho,

na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Introdução

 

Pelo mistério da Incarnação do Verbo que habitou entre nós, tornou-se possível a Sagrada Eucaristia na qual Jesus Se nos oferece como Alimento.

Depois da Mesa da Palavra em que foi robustecida a nossa fé, Ele prepara para todos nós um Banquete Divino do Seu Corpo e Sangue. Avivemos a nossa fé e amor.

 

Cântico do ofertório: Gloriosa Rainha do mundo, C. Silva, NRMS 75

 

Oração sobre as oblatas: Aceitai, Senhor, o sacrifício de salvação que Vos oferecemos na solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria e, assim como acreditamos que, por vossa graça, ela foi isenta de toda a mancha, sejamos nós, por sua intercessão, livres de toda a culpa. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

O mistério de Maria e da Igreja

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, e louvar-Vos, bendizer-Vos e glorificar-Vos na Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria.

Vós a preservastes de toda a mancha do pecado original, para que, enriquecida com a plenitude da vossa graça, fosse a digna Mãe do vosso Filho. Nela destes início à santa Igreja, esposa de Cristo, sem mancha e sem ruga, resplandecente de beleza e santidade. Dela, Virgem puríssima, devia nascer o vosso Filho, Cordeiro inocente que tira o pecado do mundo. Vós a destinastes, acima de todas as criaturas, a fim de ser, para o vosso povo, advogada da graça e modelo de santidade.

Por isso, com os Anjos e os Santos, proclamamos com alegria a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo: M. Simões, NRMS 50-51

 

Saudação da Paz

 

O Arcanjo começa por saudar Maria dando-lhe a paz: Shalom!

Também agora o Senhor nos dá Sua paz, se a quisermos acolher com generosidade, no perdão mútuo.

Recebamos, agradecidos, esta saudação pacífica e manifestemos aos nossos irmãos este mesmo dom de Deus.

 

Saudai-vos na paz de Cristo!

 

Monição da Comunhão

 

O Filho de Deus que se fez Homem no seio imaculado de Maria é o mesmo que Se nos dá como alimento na Sagrada Comunhão.

Peçamos à Virgem Imaculada que nos ensine e ajude a recebê-lo com disposições de fé, amor e devoção.

 

Cântico da Comunhão: Como é bela e formosa, M. Luís, NRMS 33-34

 

Antífona da comunhão: Grandes coisas se dizem de vós, ó Virgem Maria, porque de vós nasceu o sol da justiça, Cristo nosso Deus.

 

Cântico de acção de graças: Canta um cântico novo, J. dos Santos, NRMS 10 (II)

 

Oração depois da comunhão: O sacramento que recebemos, Senhor, cure em nós as feridas daquele pecado, do qual, por singular privilégio, preservastes a Virgem Santa Maria, na sua Imaculada Conceição. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Caminhemos com alegria neste Advento, ao encontro do Senhor que vem para nos salvar.

Levemos os nossos irmãos de todas as condições a abrir o seu coração para que Jesus possa nascer em cada um deles.

 

Cântico final: Gloriosa Mãe de Deus, M. Carneiro, NRMS 33-34

 

 

Homilias Feriais

 

2ª SEMANA

 

3ª Feira, 9-XII: O carinho do bom Pastor.

Is 40, 1-11 / Mt 18, 12-14

Olhai que o Senhor Deus vai chegar com poder. É como o bom Pastor que apascenta o seu rebanho.

De acordo com a palavra do profeta, o Messias será o bom Pastor, que cuida de todas as ovelhas do seu rebanho (Leit.). E Jesus executará essa tarefa, procurando que todas as ovelhas do seu rebanho se salvem: «não é da vontade de meu Pai que se perca um único destes pequeninos» (Ev.). Seguindo os seus ensinamentos andaremos no bom caminho.

Todos nós somos, de certo modo, bons pastores dos nossos irmãos, quando fazemos de 'bom samaritano', que procura resolver as necessidades daqueles com quem convive, dando-se conta das suas 'feridas', ouvindo os seus problemas, descobrindo soluções, etc.

 

4ª Feira, 10-XII: Semeadores de serenidade e alegria.

Is 40, 25-31 / Mt 11, 25-30

Os que esperam no Senhor recuperam as forças, crescem sem se fatigarem, caminham sem se cansarem.

De acordo com esta profecia, o Messias virá ajudar todos os que andam cansados. O próprio Jesus nos faz esse convite: «Vinde a mim todos os que vos afadigais» (Ev.).

Quando nos sentimos cansados, dirijamos o nosso olhar ao Senhor, pedindo-lhe forças para acabar o trabalho, para atender uma pessoa de família ou amiga, etc. E procuremos igualmente imitar Jesus: «Aprendei de mim que sou manso e humilde coração» (Ev.). Procuremos criar à nossa volta um bom ambiente de serenidade, ajudando os que estão sobrecarregados pelos seus problemas pessoais. E, com bom humor e alegria, aliviaremos o ambiente tenso de discussões.

 

5ª Feira, 11-XII: Comodismo e fortaleza.

Is 41, 13-20 / Mt 11, 11-15

Eu venho socorrer-te, diz o Senhor. Irás bater e triturar os montes, reduzir as colinas a palha.

De acordo com esta profecia, o Messias vem trazer-nos a força necessária para ultrapassarmos os obstáculos que se nos apresentam: os montes, as colinas, etc (Leit.). E é também com essa fortaleza que alcançaremos o reino dos Céus (Ev.).

O ambiente em que vivemos tende muitas vezes para o comodismo, para abandonar o que custa. Precisamos uma fortaleza emprestada: «Eu venho socorrer-te» (Leit.). Com a fortaleza mantemo-nos firmes nas tentações, superamos os obstáculos, enfrentamos com coragem as provações e defendemos sem receio as causas justas e os valores maltratados.

 

6ª Feira, 12-XII: Nª Senhora de Guadalupe: Modelo de acolhimento da palavra de Deus.

Is 48, 17-19 / Mt 11, 16-19

Oh! Se tivesses atendido às minhas ordens, o teu bem estar seria como um rio, e a tua prosperidade como as ondas do mar.

Isaías anuncia que a nossa felicidade está ligada ao modo como acolhemos a palavra de Deus (Leit.). Infelizmente nem Jesus nem João Baptista foram bem aceites no seu tempo (Ev.).

Ante a expectativa da vinda de Jesus procuremos aceitar cada vez melhor os seus ensinamentos, depositar neles uma maior confiança, porque são caminho seguro para a nossa felicidade (Leit.). Ao celebrarmos a memória de Nª Senhora de Guadalupe tenhamos presente como a nossa Mãe ouviu a palavra de Deus e a pôs em prática. E rezemos à Padroeira das Américas por todos os povos lhe estão confiados, e especialmente pela pessoa do Papa.

 

Sábado, 13-XII: O acolhimento do Senhor.

Sir 48, 1-4. 9-11 / Mt 17, 10-13

Não quiseram reconhecê-lo (a Elias), mas fizeram-lhe tanto quanto lhes aprouve. Assim também o Filho do Homem será maltratado pela mesma gente.

Em ambas Leituras é recordada a figura do profeta Elias. Por um lado, foi maltratado e o mesmo aconteceu com Jesus (Ev.); por outro, realizou grandes prodígios: ressuscitou o filho da viúva de Sarepta, fez descer o fogo de Deus sobre o holocausto do Monte Carmelo, etc.

Foi escolhido para preparar a vinda do Messias, que realizará ainda maiores prodígios. Além dos milagres, Ele também fará descer o fogo do Espírito Santo, que queimará todas as impurezas do nosso coração. Se não estamos a preparar-nos bem para a vinda do Senhor, peçamos perdão, ponhamos mais ordem na nossa vida e cuidemos da limpeza da nossa alma.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Fernando Silva

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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