TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

PASTORAL DA FAMÍLIA E MATRIMÓNIO

 

 

 

Ludmila Grygiel

Filósofa

 

 

 

De 2 a 4 de Outubro passado realizou-se em Roma a Assembleia plenária do Conselho das Conferências Episcopais da Europa, subordinada ao tema “A Família e o Futuro da Europa”.

A importância do Encontro provém de se ter efectuado nas vésperas do Sínodo Extraordinário dos Bispos (Vaticano, 6 a 19 de Outubro de 2014).

Damos a seguir um excerto do discurso na Assembleia plenária “Reflexões sobre a pastoral da família e o matrimónio”, a cargo da Prof. Ludmila Grygiel, publicado no site “Chiesa.Expresso”, do vaticanista Sandro Magister, a quem agradecemos a autorização para a reprodução.

Ludmila Grygiel, esposa de Stanislaw Grygiel, ambos polacos, filósofos e professores no Pontifício Instituto João Paulo II para Estudos sobre o Matrimónio e a Família (Roma), foram amigos de longa data de Karol Wojtyla, sacerdote, bispo e Papa.

 

 

No meu discurso, gostaria de compartilhar convosco algumas reflexões sobre a pastoral matrimonial e familiar, servindo-me quer da minha experiência pessoal de mulher casada, quer da pastoral que vivi na minha diocese de origem, Cracóvia, posta em acção pelo cardeal Karol Wojtyla e pelo seu mestre e predecessor, o bispo Jan Pietraszko, agora Servo de Deus [1].

São João Paulo II é conhecido como autor de estudos filosóficos em que desenvolveu a antropologia que ele próprio chama “antropologia adequada”. Mas muitas vezes se esquece que a sua reflexão filosófica era precedida e sempre acompanhada por um trabalho pastoral com pessoas reais. A partir dos anos 40 até à eleição ao Sólio Pontifício cuidou a pastoral, primeiro dos jovens universitários, a seguir a das suas famílias, que constituíram sui generis “paróquia pessoal”, que ele como “autêntico pároco” acompanhou até à morte.

Sabe-se que o pensamento filosófico de Karol Wojtyla está concentrado no homem, na pessoa humana em relação com Deus e com as outras pessoas. Ele próprio também disse que a pessoa humana em todas as suas dimensões era “o tema central da sua actividade pastoral” [2]. Na Introdução a “Amor e Responsabilidade”, sublinha que o livro é “antes de mais fruto de um contínuo confronto entre a doutrina e a vida” [3]. À pastoral nascida deste confronto eu chamaria “pastoral adequada”, per analogiam com a antropologia adequada. Tentarei explicar brevemente este neologismo criado por mim. Como se sabe, a antropologia adequada parte da experiência do homem, procurando nela os traços da presença de Deus, para reconduzir assim o homem para o Senhor. O ponto de partida da pastoral adequada é pelo contrário a Pessoa de Cristo e o Seu ensinamento, a cuja luz o homem começa a compreender a si mesmo e – consequentemente – esforça-se por viver como discípulo de Cristo. Ambas são “adequadas” à experiência do homem e ao ensinamento de Cristo transmitido pela Igreja. Ambas completam-se e ajudam a realizar quer o trabalho pastoral quer o intelectual. Karol Wojtyla servia-se também da ciência, sem contudo deixar-se condicionar pelas investigações psicológicas nem pelos inquéritos sociológicos. Não se deixava levar pela casuística dos comunistas que tentavam impor o seu modelo de matrimónio e família, mas baseava-se em sólido, imutável, fundamento – a Palavra de Deus – e no desejo do coração do homem inquieto enquanto não encontra alguém para amar e que seja capaz por sua vez de o amar.

A pastoral adequada não é, portanto, a tradução na prática de um projecto elaborado na secretária, mas o fruto de um trabalho com pessoas concretas no decorrer do qual o sacerdote, juntamente com os casais que se amam, procura compreender qual é o projecto de Deus sobre o seu matrimónio e sobre a sua família. A pastoral adequada do Padre Wojtyla ia-se formando no confronto entre a verdade evangélica e a experiência dos leigos casados. Foram eles – como ele próprio reconhece – que o ensinaram a amar o amor humano e o convenceram de que o amor puro, o amor para sempre, é possível. E quero recordar como João Paulo II até ao fim da sua vida amou o amor humano e testemunhou a firme convicção de que o amor para sempre é possível. Esta sua certeza era contagiosa para os jovens desejosos de amor e desiludidos com os “mestres da dúvida” que proclamavam a morte do amor puro, a morte do matrimónio e da família.

O padre e depois cardeal Wojtyla participava em toda a vida do casal e da sua família, e tinha com eles a oração, as celebrações litúrgicas e até as excursões na montanha e as festas de família, partilhava as suas alegrias e sofrimentos, incluindo os momentos de crise do matrimónio. A sua pastoral não era, portanto, um rígido programa realizado automaticamente, mas antes uma atitude e uma comunhão amigável de um pastor com os fiéis. A pastoral adequada também poderia chamar-se “pastoral integral”, porque (como disse) abraçava todas as vicissitudes da vida matrimonial e familiar: alegrias, dificuldades, vitórias e derrotas. Esta partilha e compreensão vivida e meditada reflecte-se nos documentos do magistério do Santo Pontífice. Basta reler a Familiaris Consortio, onde estão presentes todos os actuais problemas da família; só não é mencionado o fenómeno do género.

 

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A pastoral adequada realizada por Wojtyla e Pietraszko é possível também hoje, diria mesmo necessária, porque aqueles que decretaram a morte do matrimónio, e parecem ser a maioria, não escutam o desejo do coração inquieto dos homens e das mulheres, o mesmo desejo que desde o tempo de Jesus até aos nossos dias habita no coração do homem. Chesterton dizia que não necessitamos de uma Igreja movida pelo mundo, mas de uma Igreja que mova o mundo.

Parafraseando estas palavras, podemos dizer que hoje as famílias, as que estão em crise e as que são felizes, não necessitam de uma pastoral adequada ao mundo, mas de uma pastoral adequada ao ensinamento d’Aquele que sabe o que deseja o coração do homem.

O paradigma evangélico desta pastoral vejo-o no diálogo de Jesus com a Samaritana, no qual sobressaem todos os elementos que caracterizam a actual situação de dificuldades, quer dos esposos quer dos sacerdotes empenhados na pastoral. Cristo aceita conversar com uma mulher que vive em pecado. Cristo não é capaz de odiar, só é capaz de amar e, por isso, não condena a Samaritana, mas desperta o desejo originário do seu coração ofuscado pelos acontecimentos de uma vida desordenada. Perdoa-a somente depois de a mulher confessar que não tem marido. Assim, a passagem evangélica recorda que Deus não concede o dom da Sua misericórdia a quem não a pede, e que o reconhecimento do pecado e o desejo de conversão são a regra da misericórdia. A misericórdia nunca é um dom oferecido a quem não a quer, não é um produto em saldo por ser pouco procurado.

A pastoral adequada requer uma adesão profunda e convicta dos pastores à verdade do sacramento. No diário íntimo de João Paulo II, encontramos esta nota escrita em 1981, terceiro ano de seu pontificado: “A falta de confiança na família é a principal causa da crise da família” 9. Poder-se-ia acrescentar que a falta de confiança na família por parte dos pastores é uma das principais causas da crise da pastoral familiar. Esta não pode ignorar as dificuldades, mas não deve parar nelas e admitir desanimada a sua derrota. Não pode adequar-se à casuística dos modernos fariseus. Deve acolher as samaritanas, não para esconder a verdade sobre o seu comportamento, mas para levá-las à conversão.

Os cristãos estão hoje numa situação semelhante àquela em que se encontrou Jesus, o qual, apesar da dureza dos corações dos seus contemporâneos, voltou a propor o modelo do matrimónio tal como querido por Deus desde o Princípio.

Permiti-me uma última consideração: tenho a impressão de que nós, os cristãos, falamos demasiado dos casamentos fracassados mas pouco dos casamentos fiéis, falamos demasiado da crise da família mas pouco do facto de que a comunidade matrimonial e familiar garante ao homem não só a felicidade terrena mas também a eterna e é o lugar onde se realiza a vocação à santidade dos leigos. Assim, é ofuscado também o facto de que, graças à presença de Deus, a comunidade matrimonial e familiar não se limita ao que é temporal, mas abre-se ao sobrenatural, uma vez que cada um dos esposos é destinado à vida eterna e é chamado a viver para sempre na presença de Deus, que criou ambos e os quis unidos, selando Ele próprio esta união com o sacramento.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Jan Pietraszko (1911-1988), capelão carismático dos universitários em Cracóvia, que foi o primeiro a elaborar o modelo de pastoral dos jovens e das famílias, adoptado também por Karol Wojtyla, e educou duas gerações de intelectuais.

[2] João Paulo II com Vittorio Messori, Varcare la soglia della speranza (trad. port.: Atravessar o limiar da Esperança), Mondatori, Milano 1994, p. 217.

[3] Karol Wojtyla, Amore e Responsabilità, in: Tutte le opere filosofiche e saggi integrativi, editado por Giovanni Reale e Tadeusz Styczen, Milano, Città del Vaticano 2003, p. 463.

9 Cfr. Karol Wojtyla, Jan Pawel II, Jestem bardzo w rekach Bozych, Notatki osobiste 1962-2003 (trad. port.: Estou muito nas mãos de Deus. Os apontamentos pessoais, 1962-2003), Wydawnictwo Znack, Kraków 2014, p. 255.


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