DOCUMENTAÇÃO

PAPA FRANCISCO

 

ENTREVISTA NO VOO DE REGRESSO DA COREIA

 

 

Durante o voo de regresso da Coreia, a 18 de Agosto passado, o Santo Padre conversou mais de uma hora com os jornalistas que o acompanhavam.

Pelo interesse que têm, damos aos nossos leitores um apanhado de algumas questões, tomado de “L'Osservatore Romano”, ed. port., de 21/VIII/2014.

 

 

Santidade, o meu nome é Alan Holdren, trabalho para a Catholic News Agency, ACI Prensa, de Lima, no Perú, e também para EWTN. Como sabe, as forças militares dos Estados Unidos começaram, há pouco, a bombardear terroristas no Iraque para impedir um genocídio, para proteger o futuro das minorias – penso também nos católicos sob a Sua guia. Aprova este bombardeamento americano?

– Papa Francisco: Obrigado pela pergunta tão clara. Nestes casos, em que há uma agressão injusta, posso apenas dizer que é lícito parar o agressor injusto. Sublinho o verbo: parar. Não digo bombardear, fazer a guerra, mas pará-lo. Os meios, com os quais se pode pará-lo, deverão ser apreciados. Parar o agressor injusto é lícito. Mas devemos também usar a memória! Quantas vezes, com esta desculpa de parar o agressor injusto, as potências apoderaram-se dos povos e fizeram uma verdadeira guerra de conquista! Uma nação sozinha não pode julgar como se pára um agressor injusto. Depois da II Guerra Mundial, afirmou-se a ideia das Nações Unidas: é lá que se deve discutir, interrogar-se: «É um agressor injusto? Parece que sim. Como é que o paramos?» Digo apenas isto, nada mais.

Em segundo lugar, as minorias. Obrigado pela palavra usada. Porque a mim dizem: «Os cristãos, pobres cristãos...». E é verdade, sofrem. Os mártires, sim: há muitos mártires. Mas, aqui, há homens e mulheres, minorias religiosas, nem todas cristãs, e todos são iguais perante Deus. Parar o agressor injusto é um direito da humanidade, mas é também um direito do agressor: ser parado, para não fazer mal.

 

– Johannes Schidelko, da Agência católica alemã: Santidade, que tipo de relacionamento existe entre Vossa Santidade e Bento XVI? Existe uma troca regular de opiniões, de ideias, existe um projecto comum depois desta Encíclica?

– Papa Francisco: Vemo-nos... Antes de sair, fui encontrá-lo. Duas semanas antes, ele enviara-me um escrito interessante: pedia-me a opinião... Temos um relacionamento normal, porque volto a esta ideia que talvez não agrade a algum teólogo – eu não sou teólogo –: penso que o Papa emérito não é uma excepção, mas, depois de muitos séculos, este é o primeiro emérito. Pensemos antes no que ele disse: «Estou velho, não tenho as forças». Foi um belo gesto de nobreza e também de humildade e de coragem. Eu penso: há 70 anos, também os bispos eméritos eram uma excepção, não existiam. Hoje, os bispos eméritos são uma instituição. Eu penso que «Papa emérito» é já uma instituição. Porquê? Porque a nossa vida prolonga-se e, a uma certa idade, não há a capacidade de governar bem, porque o corpo se cansa, a saúde talvez seja boa, mas não há a capacidade para levar avante todos os problemas de um governo como o da Igreja. E eu creio que o Papa Bento XVI fez este gesto que, de facto, institui os Papas eméritos. Repito: talvez algum teólogo me diga que isto não é justo, mas eu penso assim. Os séculos dirão se é assim ou não; veremos! O senhor poderá dizer-me: «E se um dia o Santo Padre sentir que não consegue continuar?» Eu farei o mesmo, farei o mesmo! Rezarei muito, mas farei o mesmo. Ele abriu uma porta que é institucional, não excepcional. O nosso relacionamento é, verdadeiramente, de irmãos. Já disse que sinto como se tivesse o avô em casa, pela sabedoria: é um homem com uma grande sabedoria, com nuances, que me faz bem escutá-lo. E também encoraja-me muito. Este é o relacionamento que tenho com ele.

 

– Deborah Ball, de Wall Street Journal: A nossa pergunta é: O Santo Padre mantém um ritmo muito, muito intenso, muito apertado e permite-se pouco descanso e férias... nenhumas; faz estas viagens massacrantes. Depois, nos últimos meses, vimos que teve de cancelar alguns compromissos, mesmo no último momento. Não é de preocupar-se com o ritmo que mantém?

– Papa Francisco: Sim, já alguém mo disse! Eu fiz as férias, agora, em casa, como é meu costume fazer. Porque … uma vez, li um livro, interessante, cujo título era: «Alegra-te por seres neurótico!». Também eu tenho algumas neuroses, mas é preciso tratá-las bem, as neuroses! Dar-lhes o mate cada dia... Uma destas neuroses é que sou um pouco demasiado apegado ao habitat. A última vez que fiz férias fora de Buenos Aires, com a comunidade jesuíta, foi em 1975. Depois, sempre faço férias – de verdade! – mas no habitat: mudo o ritmo. Durmo mais, leio as coisas que me agradam, ouço a música, rezo mais... E isto repousa-me. Em Julho e parte de Agosto, fiz isto, e estou bem. A outra questão: o facto de ter cancelado [compromissos]: isso é verdade, é verdade. No dia em que devia ir ao "Gemelli", ainda tentei até 10 minutos antes, mas verdadeiramente não conseguia... Tinham sido dias muito intensos. E agora devo ser um pouco mais prudente. Tens razão!

 

– Jürgen Erbacher, da Televisão alemã: A pergunta é: fala-se há tempos do projecto duma Encíclica sobre a ecologia. Pode-se dizer quando sairá e quais são os pontos centrais?

– Papa Francisco: Esta encíclica... Conversei muito com o Cardeal Turkson e outros, e pedi ao Cardeal Turkson para reunir todas as contribuições que chegaram. E, antes da viagem – uma semana antes; não, quatro dias antes –, o Cardeal Turkson entregou-me o primeiro rascunho. O primeiro rascunho é grande, assim... Eu diria que é um terço maior que a Evangelii gaudium! É o primeiro rascunho. Mas agora surge um problema não fácil, porque sobre o cuidado da criação, a ecologia, também a ecologia humana, pode-se falar com uma certa segurança até certo ponto. Depois, vêm as hipóteses científicas: umas bastante seguras, outras não. E uma Encíclica assim, que deve ser documento de magistério, deve andar sempre com segurança, sobre coisas que sejam seguras. Porque, se o Papa diz que o centro do universo é a Terra, e não o Sol, engana-se, porque diz uma coisa que devia ser científica, e assim não pode ser. Assim acontece agora. Temos agora de estudar, número por número, e creio que ficará mais pequena. Mas, ficar no essencial e naquilo que se pode afirmar com segurança. Pode-se dizer em nota de rodapé: «Sobre isto há esta hipótese, aquela, aqueloutra»; dizê-lo como informação, mas não no corpo de uma Encíclica, que é doutrinal e deve ser segura.

 

– Pulella: Uma observação e uma pergunta: como italo-americano, queria felicitá-lo pelo seu inglês. Não deve ter receio. E, se antes de ir à América – a minha segunda pátria –, quiser praticar um pouco, eu estou disponível. Seja qual for o sotaque que quiser tomar, por exemplo, o novayorquês – eu sou de Nova York –, estou disponível. A pergunta é esta: Falou do martírio: em que ponto está o processo do bispo Romero? Que resultado desejaria ver deste processo?

– Papa Francisco: O processo estava na Congregação para a Doutrina da Fé, bloqueado – dizia-se – «por prudência». Agora foi desbloqueado. Passou para a Congregação das Causas dos Santos e segue o caminho normal de um processo. Depende do modo como se movem os postuladores. Isto é muito importante: que o façam rapidamente. Eu, aquilo que queria é que se esclareça: quando há o martírio in odium fidei, quer por ter confessado o Credo, quer por ter feito as obras que Jesus nos manda em favor do próximo. E isto é um trabalho dos teólogos, que estão a estudar. Porque, por trás dele [Romero], estão Rutilio Grande e outros; há outros que foram mortos, mas não estão à mesma altura de Romero. Deve-se distinguir teologicamente isto. Para mim, Romero é um homem de Deus, mas deve-se fazer o processo e também o Senhor deve dar o seu sinal... Se Ele quiser, fá-lo-á. Mas agora os postuladores devem mover-se, porque não há impedimentos.

 

– Céline Hoyeau, de La Croix, jornal católico francês: Santo Padre, tendo em conta a guerra em Gaza, foi um fracasso – a seu ver – a oração pela paz organizada no Vaticano a 8 de Junho passado?

– Papa Francisco: Obrigado, obrigado pela pergunta. Aquela Oração pela paz não foi, de modo nenhum, um fracasso. Em primeiro lugar, a iniciativa não partiu de mim: a iniciativa de rezar juntos veio dos dois Presidentes, do Presidente do Estado de Israel e do Presidente do Estado da Palestina. Eles tinham-me feito chegar este desejo. Depois, queríamos fazê-la lá [na Terra Santa], mas não se encontrava o lugar certo, porque o custo político de cada um era muito forte, se fosse à outra parte. A Nunciatura, sim, seria um lugar neutro; mas, para chegar à Nunciatura, o Presidente do Estado da Palestina deveria entrar em Israel e isso não era fácil. E eles disseram-me: «Façamos no Vaticano, e nós vamos lá». Estes dois homens são homens de paz, são homens que acreditam em Deus, e viveram tantas coisas más, tantas coisas más que estão convencidos de que o único caminho para resolver aquela história é a negociação, o diálogo e a paz. Mas, agora a sua pergunta: foi um fracasso? Não, eu creio que a porta está aberta. Todos os quatro, como representantes; eu quis que Bartolomeu estivesse lá como chefe da Ortodoxia, Patriarca Ecuménico da Ortodoxia – não quero usar termos que talvez não agradem a todos os ortodoxos –, era bom que estivesse connosco como Patriarca Ecuménico. Foi aberta a porta da oração. Diz-se: «Deve-se rezar». É um dom, a paz é um dom, um dom que se merece com o nosso trabalho, mas é um dom. E dizer à humanidade que, juntamente com o caminho da negociação – que é importante –, do diálogo – que é importante –, há também o da oração. Tudo certo! Depois aconteceu o que aconteceu; mas isso é conjuntural. Pelo contrário, aquele encontro não era conjuntural; é um passo fundamental do comportamento humano: a oração. Agora, a fumaça das bombas, das guerras não deixa ver a porta, mas a porta ficou aberta desde então. E como eu creio em Deus, creio que o Senhor olha para aquela porta, e olha para quantos rezam e para quantos Lhe pedem que Ele os ajude. Sim, gostei desta pergunta. Obrigado, obrigado por a ter feito! Obrigado!

 


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