Homilia FeriaL

 

TEMPO COMUM

 

27ª SEMANA

 

2ª Feira, 6-X: Bons samaritanos como Jesus.

Gal 1, 6-12 / Lc 10, 25-37

Mas um samaritano, que seguia de viagem, veio por junto dele e, quando o viu, encheu-se de compaixão.

«O Senhor pede-nos que, como Ele, nos façamos o próximo do mais afastado (Ev.)» (CIC, 1825). O bom samaritano da parábola é, em primeiro lugar, o próprio Cristo. Manifestou o seu amor por nós, entregando a sua vida (Santa Missa) e, parando junto de nós, para nos curar as feridas (Confissão sacramental).

Depois, também quer que nós sejamos samaritanos. Há pessoas com feridas no corpo e na alma: longe de Deus, em circunstâncias dolorosas, com falta de carinho,  abandonados, cheios de misérias. S. Paulo faz de bom samaritano (Leit.), oferecendo o alimento do verdadeiro Evangelho e pedindo que não passemos para outro Evangelho.

 

Homilia Ferial:                      Nuno Romão

 

Nossa Senhora do rosário

7 de Outubro de 2014

 

Memória

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Rainha do Santíssimo Rosário, S. Marques, NRMS 86

cf. Lc 1, 28.42

Antífona de entrada: Avé, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois Vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Celebramos hoje a festa de Nossa Senhora do Rosário, no mês que a Igreja dedica à principal devoção mariana. Demos graças a Deus nesta celebração, pelos abundantíssimos dons que nos faz chegar por meio desta oração, tão querida da Mãe de Deus, e façamos propósitos de rezar com mais fé e amor o terço de cada dia

 

Oração colecta: Infundi, Senhor, a vossa graça em nossas almas, para que nós, que, pela anunciação do Anjo, conhecemos a encarnação de Cristo, vosso Filho, pela sua paixão e morte na cruz e com a intercessão da bem-aventurada Virgem Maria, alcancemos a glória da ressurreição. Por Nosso Senhor...

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Os discípulos, depois da Ascensão do Senhor, de modo natural se reúnem com Maria, a Mãe de Jesus, para rezar. Com a mesma naturalidade nasceu o Rosário e é rezado, nos cinco continentes, pelo povo cristão.

 

Actos 1, 12-14

Depois de Jesus ter subido ao Céu, os Apóstolos voltaram para Jerusalém, descendo o monte chamado das Oliveiras, que fica perto de Jerusalém, à distância de uma caminhada de sábado. Quando chegaram à cidade, subiram para a sala de cima, onde se encontravam habitualmente. Estavam lá Pedro e João, Tiago e André, Filipe e Tomé, Bartolomeu e Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zeloso, e Judas, irmão de Tiago. Todos estes perseveravam unidos em oração, em companhia de algumas mulheres, entre as quais Maria, Mãe de Jesus.

 

Quando deixa de ter visibilidade a pessoa de Jesus, a sua Mãe ocupa um lugar digno de nota, logo na oração da Igreja nascente. Com Ela os primeiros que seguiram a Cristo, esperam o Espírito Santo, perseverando, «unidos em oração». Note-se também a importância dada à lista dos Apóstolos e como em todas as quatro listas que aparecem no N. T. Pedro é constantemente o cabeça de lista, embora estas não contenham os nomes sempre na mesma ordem.

 

Salmo Responsorial    Lc 1, 46-47.48-49.50-51.52-53.54-55 (R. Lc 1, 49)

 

Monição: O Cântico de louvor a Deus que iniciou Nossa Senhora em casa de Isabel, continua a ecoar ininterruptamente na devoção do Rosário.

 

Refrão:        O Senhor fez em mim maravilhas:

                     santo é o seu nome.

 

Ou:               Bendita sejais, ó Virgem Maria,

                     que trouxestes em vosso ventre o Filho do eterno Pai.

 

A minha alma glorifica o Senhor,

e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador.

 

Porque pôs os olhos na humildade da sua serva,

de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações.

O todo-poderoso fez em mim maravilhas:

Santo é o seu nome.

 

A sua misericórdia se estende de geração em geração

sobre aqueles que O temem.

Manifestou o poder do seu braço

e dispersou os soberbos.

 

Derrubou os poderosos de seus tronos

e exaltou os humildes.

Encheu de bens os famintos

e aos ricos despediu de mãos vazias.

 

Acolheu Israel, seu servo,

lembrado da sua misericórdia,

como tinha prometido a nossos pais,

a Abraão e à sua descendência para sempre.

 

 

Aclamação ao Evangelho          Lc 1, 28

 

Monição: Escutemos de novo o diálogo da Encarnação do Verbo de Deus, e retiremos afectos e propósitos para enriquecer as nossas Ave-marias.

 

Aleluia

 

Cântico: M. Faria, NRMS10 (II)

 

Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco

bendita sois Vós entre as mulheres.

 

 

Evangelho

 

São Lucas 1, 26-38

Naquele tempo, o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. O nome da Virgem era Maria. Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?». O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril porque a Deus nada é impossível». Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra».

 

A cena da Anunciação, narrada com toda a simplicidade, tem uma singular densidade, pois encerra o mistério mais assombroso da História da Salvação, a Incarnação do Filho eterno de Deus. Assim, a surpresa do leitor transforma-se em encanto e deslumbramento. O próprio paralelismo dos relatos lucanos do nascimento de João e de Jesus, revestem-se dum contraste deveras significativo: à majestade do Templo e grandiosidade de Jerusalém contrapõe-se a singeleza duma casa numa desconhecida e menosprezada aldeia de Galileia; ao afã dum casal estéril por ter um filho, a pureza duma virgem que renunciara à glória de ser mãe; à dúvida de Zacarias, a fé obediente de Maria!

26 «O Anjo Gabriel». O mesmo que anunciou a Zacarias o nascimento de João. Já era conhecido o seu nome no A.T. (Dan 8, 16-26; 9, 21-27). O seu nome significa «homem de Deus» ou também «força de Deus».

28 Coadunando-se com a transcendência da mensagem, a tripla saudação a Maria é absolutamente inaudita:

«Ave»: Vulgarizou-se esta tradução, correspondente a uma saudação comum (como ao nosso «bom dia»; cf. Mt 26, 49), mas que não parece ser a mais exacta, pois Lucas, para a saudação comum usa o semítico «paz a ti» (cf. Lc 10, 5); a melhor tradução é «alegra-te» – a tradução literal do imperativo do grego khaire –, de acordo com o contexto lucano de alegria e com a interpretação patrística grega, não faltando mesmo autores modernos que vêem na saudação uma alusão aos convites proféticos à alegria messiânica da «Filha de Sião» (Sof 3, 14; Jl 2, 21-23; Zac 9, 9).

Ó «cheia de graça»: Esta designação tem muita força expressiva, pois está em vez do nome próprio, por isso define o que Maria é na realidade. A expressão portuguesa traduz um particípio perfeito passivo que não tem tradução literal possível na nossa língua: designa Aquela que está cumulada de graça, de modo permanente; mais ainda, a forma passiva parece corresponder ao chamado passivo divino, o que evidencia a acção gratuita, amorosa, criadora e transformante de Deus em Maria: «ó Tu a quem Deus cumulou dos seus favores». De facto, Maria é a criatura mais plenamente ornada de graça, em função do papel a que Deus A chama: Mãe do próprio Autor da Graça, Imaculada, concebida sem pecado original, doutro modo não seria, em toda a plenitude, a «cheia de graça», como o próprio texto original indica.

«O Senhor está contigo»: a expressão é muito mais rica do que parece à primeira vista; pelas ressonâncias bíblicas que encerra, Maria é posta à altura das grandes figuras do Antigo Testamento, como Jacob (Gn 28, 15), Moisés (Ex 3, 12) e Gedeão (Jz 6, 12), que não são apenas sujeitos passivos da protecção de Deus, mas recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão confiada por Ele.

Chamamos a atenção para o facto de na última edição litúrgica ter sido suprimido o inciso «Bendita és tu entre as mulheres», pois este não aparece nos melhores manuscritos e pensa-se que veio aqui parar por arrasto do v. 42 (saudação de Isabel). A Neovulgata, ao corrigir a Vulgata, passou a omiti-lo.

29 «Perturbou-se», ferida na sua humildade e recato, mas sobretudo experimentando o natural temor de quem sente a proximidade de Deus que vem para tomar posse da sua vida (a vocação divina). Esta reacção psicológica é diferente da do medo de Zacarias (cf. Lc 1, 12), pois é expressa por outro verbo grego; Maria não se fecha no refúgio dos seus medos, pois n’Ela não há qualquer espécie de considerações egoístas, deixando-nos o exemplo de abertura generosa às exigências de Deus, perguntando ao mensageiro divino apenas o que precisa de saber, sem exigir mais sinais e garantias como Zacarias (cf. Lc 1, 18).

32-33 «Encontraste graça diante de Deus»: «encontrar graça» é um semitismo para indicar o bom acolhimento da parte dum superior (cf. 1 Sam 1, 18), mas a expressão «encontrar graça diante de Deus» só se diz no A. T. de grandes figuras, Noé (Gn 6, 8) e Moisés (Ex 33, 12.17). O que o Anjo anuncia é tão grandioso e expressivo que põe em evidência a maternidade messiânica e divina de Maria (cf. 2 Sam 7, 8-16; Salm 2, 7; 88, 27; Is 9, 6; Jer 23, 5; Miq 4, 7; Dan 7, 14).

34 «Como será isto, se Eu não conheço homem?» Segundo a interpretação tradicional desde Santo Agostinho até aos nossos dias, tem-se observado que a pergunta de Maria careceria de sentido, se Ela não tivesse antes decidido firmemente guardar a virgindade perpétua, uma vez que já era noiva, com os desposórios ou esponsais (erusim) já celebrados (v. 27). Alguns entendem a pergunta como um artifício literário e também «não conheço» no sentido de «não devo conhecer», como compete à Mãe do Messias (cf. Is 7, 14). Pensamos que a forma do verbo, no presente, «não conheço», indica uma vontade permanente que abrange tanto o presente como o futuro. Também a segurança com que Maria aparece a falar faz supor que José já teria aceitado, pela sua parte, um matrimónio virginal, dando-se mutuamente os direitos de esposos, mas renunciando a consumar a união; nem todos os estudiosos, porém, assim pensam, como também se vê no recente e interessante filme Figlia del suo Figlio.

35 «O Espírito Santo virá sobre ti…». Este versículo é o cume do relato e a chave do mistério: o Espírito, a fonte da vida, «virá sobre ti», com a sua força criadora (cf. Gn 1, 2; Salm 104, 30) e santificadora (cf. Act 2, 3-4); «e sobre ti a força do Altíssimo estenderá a sua sombra» (a tradução litúrgica «cobrirá» seria de evitar por equívoca e pobre; é melhor a da Nova Bíblia da Difusora Bíblica): o verbo grego (ensombrar) é usado no A. T. para a nuvem que cobria a tenda da reunião, onde a glória de Deus estabelecia a sua morada (Ex 40, 34-36); aqui é a presença de Deus no ser que Maria vai gerar (pode ver-se nesta passagem o fundamento bíblico para o título de Maria, «Arca da Aliança»).

«O Santo que vai nascer…». O texto admite várias traduções legítimas; a litúrgica, afasta-se tanto da da Vulgata, como da da Neovulgata; uma tradução na linha da Vulgata parece-nos mais equilibrada e expressiva: «por isso também aquele que nascerá santo será chamado Filho de Deus». I. de la Potterie chega a ver aqui uma alusão ao parto virginal de Maria: «nascerá santo», isto é, não manchado de sangue, como num parto normal. «Será chamado» (entenda-se, «por Deus» – passivum divinum) «Filho de Deus», isto é, será realmente Filho de Deus, pois aquilo que Deus chama tem realidade objectiva (cf. Salm 2, 7).

38 «Eis a escrava do Senhor…». A palavra escolhida na tradução, «escrava» talvez queira sublinhar a entrega total de Maria ao plano divino. Maria diz o seu sim a Deus, chamando-se «serva do Senhor»; é a primeira e única vez que na história bíblica se aplica a uma mulher este apelativo, como que evocando toda uma história maravilhosa de outros «servos» chamados por Deus que puseram a sua vida ao seu serviço: Abraão, Jacob, Moisés, David… É o terceiro nome com que Ela aparece neste relato: «Maria», o nome que lhe fora dado pelos homens, «cheia de graça», o nome dado por Deus, «serva do Senhor», o nome que Ela se dá a si mesma.

«Faça-se…». O «sim» de Maria é expresso com o verbo grego no modo optativo (génoito, quando o normal seria o uso do modo imperativo génesthô), o que põe em evidência a sua opção radical e definitiva, o seu vivo desejo (matizado de alegria) de ver realizado o desígnio de Deus (M. Orsatti).

 

Sugestões para a homilia

 

1.     1.O Rosário, “pão espiritual” de cada dia

2.     2.A alma do Rosário

3.     3.O Rosário, escada para subir ao Céu

 

 

1. O Rosário “pão espiritual” de cada dia

 

O Cardial Ratzinger, no livro “Deus e o Mundo”, responde do seguinte modo à pergunta sobre o significado de Nossa Senhora na sua vida pessoal: “(Nossa Senhora é) a expressão da proximidade de Deus. A encarnação torna-se realmente palpável graças a Ela. (…)As festas litúrgicas marianas, as flores de Maio, o terço de Outubro, os lugares de peregrinação – ou seja, a piedade popular mariana – sempre significaram muito para mim. E quanto mais envelheço, mais importante e próxima se torna a Mãe de Deus”. Também nós somos cada vez mais conscientes, conforme passam os anos, da importância que teve e tem a presença de Nossa Senhora na nossa vida. Para muitos de nos essa presença de Nossa Senhora é inseparável da oração do terço. Quantas tentações vencemos graças ao terço, quantos obstáculos terão sido superados por meio do terço, quantos pecadores, nos o primeiro, terão alcançado a conversão pela reza do terço…Por isso não abandonemos nunca o terço diário.

A Igreja, e cada um de nos, continua, desde os primeiros tempos da sua existência, unida em oração com Maria a Mãe de Jesus (cfr. Primeira leitura). Não existe cristianismo sem oração e não existe oração para um cristão sem a mediação mariana. A Irmã Lúcia escreveu numa carta em Dezembro de 1970: “Nossa Senhora pediu e recomendou que se reze o terço todos os dias, repetindo o mesmo em todas as Aparições, como que prevenindo-nos para que, em estes tempos de desorientação diabólica, nos não deixemos enganar por falsas doutrinas, diminuindo na elevação da nossa alma para Deus, por meio da oração (…) O terço é, para a maioria das almas que vivem no mundo, como que o pão espiritual de cada dia; e privá-las ou tirar-lhes esta oração, isto é, diminuir nos espíritos o apreço e a boa fé com que a rezavam, é (…). como se na parte material privassem as pessoas do pão necessário à vida física. (…)É, pois, preciso rezar o terço, nas Cidades, nas Vilas e nas Aldeias, pelas ruas, pelos caminhos, de viagem ou em casa, nas igrejas e capelas! É a oração acessível a todos, e que todos podem e devem rezar. Há muitos que diariamente não assistem à oração litúrgica da Santa Missa; Se não rezam o terço, que oração fazem?! E, sem oração, quem se salvará ?! —"Vigiai e orai para não entrardes em tentação»”.

 

2. A alma do Rosário

 

A oração é a conversa filial com que nos dirigimos à Deus, à Nossa Senhora, aos Anjos ou aos Santos. Mas existem muitos modos de exprimir esse diálogo. Podemos falar com Deus usando fórmulas, já consagradas pela piedade cristã, como o Pai Nosso, a Ave Maria, a Gloria, o Credo, a Salve Rainha, etc. Chamamos rezar a este modo de falar com Deus. Mas também podemos conversar com as nossas palavras como o fazem os filhos com os pais, os amigos entre si, etc. Neste caso dizemos que estamos a orar ou fazer oração mental. Estas duas maneiras de nos dirigirmos à Deus não são totalmente separáveis, e, em todo caso, convêm que empreguemos ambas abundantemente.

O terço, por outra parte, embora composto de orações vocais, é uma devoção profundamente contemplativa. E é importante sublinhar também que, embora seja a principal das devoções marianas, é uma devoção profundamente trinitária e cristológica. Isto é assim quer pelas orações que são rezadas, quer pelos mistérios que são contemplados. Já o Papa Paulo VI chamou a atenção para a dimensão contemplativa, ou de oração mental, que deve ter a reza do terço, pois se ela faltar “o mesmo Rosário é um corpo sem alma e a sua recitação corre o perigo de tornar-se uma repetição mecânica de fórmulas (…) Por sua natureza, a recitação do Rosário requer um ritmo tranquilo e uma certa demora a pensar, que favoreçam, naquele que ora, a meditação dos mistérios da vida do Senhor, vistos através do coração daquela que mais de perto esteve em contacto com o mesmo Senhor, e que abram o acesso às suas insondáveis riquezas” (Paulo VI, E.A.Marialis cultus., n.47).

Tão importante é a dimensão contemplativa do rosário, por tanto, que se ela faltar, a oração torna-se um corpo sem alma, “um cadáver”, que não vive nem vivifica. E a contemplação deve estender-se a todo o terço; quer à meditação pausada do mistério que é contemplado, quer às orações que são rezadas com espírito contemplativo.

O terço assim “rezado”, para além do seu valor impetratório, é um meio de santificação pessoal de altíssimo valor, de algum modo semelhante ao que realiza a Liturgia. Como explica o Papa Paulo VI, “embora em planos essencialmente diversos, anamnese na Liturgia e memória contemplativa no Rosário têm por objecto os mesmos eventos "salvíficos" realizados por Cristo. A primeira torna presentes, sob o véu dos sinais, e operantes, de modo misterioso, os máximos mistérios da nossa Redenção; a segunda, por sua vez com o piedoso afecto da contemplação, reevoca na mente daquele que ora esses mesmos mistérios e estimula nele a vontade para haurir aí normas de vida”(Paulo VI, E.A.Marialis cultus., n.48).

A oração do terço é vocal, mental e também, de algum modo, “corporal”, pois o passar das contas não é só um acto mecânico de contabilização. É uma carícia, que acompanha à mente e à voz, e um modo de orar. O Papa João Paulo II costumava com muita frequência levar o terço agarrado na mão. Mesmo quando discursou na sede das Nações Unidas levava na mão o terço. Esse contacto corporal é um modo de orar silencioso.

Um episódio da vida de Bernini, famoso arquitecto e escultor italiano, faz pensar que também pode haver um modo de orar “permanente”. Numa das colunas do baldaquino da Basílica de S. Pedro, obra de Bernini, está esculpido no bronze um terço que parece que alguém deixou esquecido na base da coluna. Quando o Papa foi visitar a obra, viu o terço e quis pegar nele. Ao reparar que estava esculpido no bronze disse a Bernini que o retirasse de ali; mas o escultor respondeu “Santidade, eu sou um grande pecador e necessito toda a misericórdia de Nossa Senhora. Se quiser mande a Sua Santidade tira-lo a outro, mas eu não o posso tirar”. Ali continua aquela “oração permanente” de Bernini, na base da coluna rezando a Nossa Senhora, junto com um escapulário (noutra coluna) e algumas coisas mais. Este tipo de oração é semelhante à “oração silenciosa” de quem acende uma vela para a colocar junto do sacrário ou de uma imagem de Nossa Senhora, etc. Por isso quando levamos connosco devotamente, o terço, que é um sacramental, como o escapulário, etc., já estamos a rezar.

Procuremos que os nossos terços sejam uma oração o mais completa possível em todas as suas dimensões

 

3. O Rosário, escada para subir ao Céu

 

Na passagem do Evangelho que hoje foi proclamada, fomos introduzidos no mistério da renovação de todo o Mundo criado. A Encarnação do Filho de Deus realiza una nova presença de Deus no Cosmos, que renova todas as coisas e as leva a uma nova plenitude. Essa “descida” do Céu à Terra realiza-se por meio de Maria e permite que os homens possamos “subir” até ao Céu também por meio de Maria. Jesus é o único mediador, Pontífice ou “ponte” entre o Céu e a Terra; mas a Providencia quis que a sua função de Salvador, fosse realizada por meio de Maria.

A este propósito pode recordar-se a conhecida história de frei Leão, “um leigo que acompanhava sempre São Francisco de Assis, que, depois da morte do Santo, depositava todos os dias sobre o seu túmulo um punhado de ervas e flores e meditava sobre as verdades eternas. Certo dia, adormeceu e teve uma visão do dia do Juízo. Viu que se abria uma janela no Céu e aparecia Jesus, o amável Juiz, acompanhado de São Francisco. Fizeram descer uma escada vermelha, que tinha os degraus muito espaçados, de tal maneira que era impossível subir por ela. Todos tentavam e pouquíssimos conseguiam subir. Ao cabo de um certo tempo, e como subisse da terra um grande clamor, abriu-se outra janela, à qual apareceram novamente Jesus e São Francisco, mas com a Virgem ao lado do Senhor. Lançaram outra escada, mas esta era branca e tinha os degraus mais juntos. E todos, com imensa alegria, iam subindo. Quando alguém se sentia especialmente fraco, Santa Maria animava-o chamando-o pelo nome e enviando algum dos anjos que a serviam para que o ajudasse. E assim todos foram subindo, um atrás do outro5. Não deixa de ser uma lenda piedosa, que no entanto nos ensina uma verdade essencial e consoladora, conhecida desde sempre pelo povo cristão: com a Virgem, a santidade e a salvação tornam-se mais fáceis”(Francisco Fernandez Carvajal Falar com Deus, vol 7º, pgs. 274-275). A escada branca da história bem pode ser identificada com o terço. Por ela subimos degrau a degrau, mistério a mistério, ajudados pelos anjos e confortados pela Nossa Senhora e de olhos postos no Céu. Na festa de este dia não esqueçamos que essa escada que nos conduz até a Gloria a levamos connosco no bolso. Usemo-la para subir e ensinemos a utiliza-la a todas as pessoas.

 

 

Oração Universal

 

Irmãos, oremos a Deus todo-poderoso, e imploremos a misericórdia

d’Aquele que é o Deus Todo-Poderoso que fez maravilhas em Maria, dizendo:

Ouvi-nos Senhor.

 

1.  Pelos bispos, presbíteros e diáconos:

para que busquem apenas no Senhor a sua glória

e imitando assim a humildade de Maria,

oremos, irmãos.

 

2.  Pelos chefes das nações:

para que respeitem a dignidade de toda a pessoa humana,

temendo o Deus que derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes,

oremos, irmãos

 

3.     Para que nunca percamos a esperança perante as dificuldades da vida,

e sejamos sempre conscientes de que o Amor de Deus é mais forte que a morte,

oremos, irmãos.

 

4.     Para que em todas as famílias

haja diálogo, paz, amor e felicidade com a oração do Rosário,

oremos, irmãos

 

5.     Para que todos nós vivamos nossa fé em Cristo ressuscitado

numa Comunidade que saiba repartir com os demais tudo o que é e o que tem,

oremos, irmãos.

 

Deus Eterno e Omnipotente, nós Vos agradecemos todas as graças que por intercessão de Maria

Santíssima e pela Vossa infinita misericórdia generosamente nos concedeis.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo …

 

 

Liturgia Eucarística

 

 

Cântico do ofertório: Tudo vos damos, M. Faria, NRMS 11-12

 

Oração sobre as oblatas: Tornai-nos dignos, Senhor, de Vos oferecer este santo sacrifício, de modo que, celebrando fervorosamente os mistérios do vosso Filho, mereçamos alcançar as suas promessas. Por Nosso Senhor...

 

Prefácio de Nossa Senhora I [na festividade], p. 486 [644-756] ou II, p. 487

 

Santo: M. Simões, NRMS 50-51

 

 

Monição da Comunhão

 

Na Ave-Maria aclamamos Nossa Senhora como Cheia de Graça. Também ficaríamos nós “cheios de graça” se comungássemos com as devidas disposições. Peçamos a nossa Senhora que nos ajude a comungar com a alma dignamente preparada.

 

Cântico da Comunhão: O meu espírito exulta, C. Silva, NRMS 38

 

Antífona da comunhão: O Anjo do Senhor disse a Maria: Conceberás e darás à luz um Filho e o seu nome será Jesus.

 

Cântico de acção de graças: Minha Senhora e minha Mãe, H. Faria, NRMS 33-34

 

Oração depois da comunhão: Concedei, Senhor nosso Deus, que, ao anunciarmos neste sacramento a morte e a ressurreição do vosso Filho, O sigamos fielmente na sua paixão e mereçamos participar na alegria da sua glória. Por Nosso Senhor...

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Alimentados com a Palavra de Deus e o Pão que desce do Céu continuemos a caminhar na nossa vida quotidiana agarrados pela mão Materna de Nossa Senhora. Manteremos essa mão firmemente agarrada se rezarmos o terço todos os dias.

 

Cântico final: Caminhos de bênção, M. Faria, NRMS 10 (II)

 

 

Homilias Feriais

 

4ª Feira, 8-X: O pão da Vida e a palavra de Deus.

Gal 2, 1-2. 7-14 / Lc 11, 1-4

Dai-nos em cada dia o pão  para nos alimentarmos.

«Tomado no sentido qualitativo (Ev.), significa o necessário para a vida e, de um modo mais abrangente, todo o bem suficiente para a subsistência. Tomado à letra, designa directamente o pão da Vida, o corpo de Cristo, remédio de imortalidade, sem o qual não temos a vida em nós» (CIC, 2837). Além de o pedirmos, aproximemo-nos da Comunhão para recebê-lo.

S. Paulo fala de um outro alimento, igualmente importante, a palavra de Deus: «Expus o Evangelho que prego entre os gentios aos membros da Igreja» (Leit.). Dediquemos alguns minutos a tomar este alimento diariamente.

 

5ª Feira, 9-X: A eficácia da oração e do sacrifício.

Gal 3, 1-5 / Lc 11, 5-13

Mas, por causa da sua impertinência, levantar-se-á para lhe dar tudo o que precisa.

Esta é uma das três parábolas principais que S. Lucas nos oferece sobre a oração: a do amigo inoportuno (Ev.) Somos convidados a ser perseverantes na oração: «Batei e hão-de abrir-vos» (Ev.). A oração é sempre eficaz pois, mesmo que o Senhor não nos conceda o que lhe pedimos, fazemos uma obra boa: rezar.

O fruto será mais abundante se tivermos presente o conselho do Apóstolo: «a vossos olhos foi traçada a imagem de Cristo crucificado» (Leit.).  O Senhor não deixa de escutar os que estão perto da Cruz, o que vai exigir de nós a realização de algum sacrifício.

 

6ª Feira, 10-X: A defesa dos nossos 'tesouros' pela fé.

Gal 3, 7-14 / Lc 11, 15-26

Quando um homem forte e bem armado guarda o seu palácio, os seus haveres estão em segurança.

Precisamos estar muito atentos, vigilantes, para podermos defender os 'tesouros' da nossa vida (Ev.): a presença de Deus na nossa alma, o amor a Nossa Senhora, o amor limpo pelo próximo... Jesus ajuda-nos, expulsando os demónios pelo dedo de Deus (Ev.), que é o Espírito Santo (CIC, 700).

Também é necessária a nossa vida de fé: «o justo viverá pela fé» (Leit.). A fé dá-nos fortaleza e temos uma armadura adequada para lutar contra o demónio. Uma das armadilhas que ele utiliza é a sementeira da divisão (Ev.): na família, no trabalho, no convívio social, etc.

 

Sábado, 11-X: O recurso e os louvores a Nª Senhora.

Gal 3, 22-29 / Lc 11, 27-28

Feliz daquela que te trouxe no seio e que te amamentou ao seu peito.

«Tudo está sujeito ao domínio do pecado» (Leit.). E só Nª Senhora foi concebida sem mancha do pecado original. Por isso temos muita necessidade de recorrer a Ela

E também de louvá-la, como fizeram Jesus e aquela mulher (Ev.), através da Avé-Maria: «As suas palavras exprimem a admiração do céu e da terra, e deixam de certo modo transparecer o encanto do próprio Deus ao contemplar a sua obra prima: a Encarnação do Filho no ventre virginal de Maria. A repetição da Avé-Maria sintoniza-nos com este encanto de Deus: é júbilo, é admiração, é reconhecimento do maior milagre da História» (RVM, 33).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Carlos Santamaria

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial