TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

ROMANO GUARDINI

 

 

 

 

Juan Luís Lorda

Professor de Teologia

Universidade de Navarra (Espanha)

 

 

 

Temos o gosto de oferecer aos nossos leitores um artigo publicado na revista “Palabra”, de Madrid, de Agosto/Setembro 2014 – a cujo director agradecemos a gentileza da autorização – sobre um pioneiro de renome da teologia litúrgica.

 

 

Romano Guardini (1885-1968) é um teólogo pioneiro. Está na origem do movimento litúrgico e no que poderia chamar-se a renovação personalista da moral. Sem participar no movimento bíblico, tem uma visão renovadora da apresentação dos Evangelhos e da figura de Jesus Cristo, e sobre quase todos os temas de dogmática. Deixou inumeráveis análises sobre a situação do cristianismo no presente.

A unidade de tudo isto explica-se por uma expressão que lhe era muito querida: a “existência cristã”. Fugiu sempre de tratar os temas cristãos como puro objecto de reflexão ou de ensino. Para ele, era uma questão de honestidade intelectual. Se tratava os temas, era para descobrir o seu lugar na existência cristã real, tanto a liturgia como o dogma, como a moral, como a apresentação da figura de Jesus Cristo (O Senhor). O mesmo se poderia dizer das suas análises literárias e sobre a situação histórica. Tudo o que Guardini tem de renovador surge pelo simples empenho de que os grandes temas cristãos se convertam em vida e não fiquem em letra morta. Ele nunca quis ser apenas ou principalmente um académico, e considerou a sua actividade como um serviço a esse conjunto de verdades que eram mais importantes do que ele.

 

A “incomodidade” vital de Guardini

 

Com a mesma honestidade, pouco antes de fazer 60 anos, com o retiro forçoso que lhe impuseram os nazis (1939), faz uma revisão da sua vida numas encantadoras Notas para uma autobiografia.

Tinha ficado alarmado ao saber que um amigo planeava fazer a sua biografia. Não lhe agrada a ideia e quer adiantar-se para sublinhar o que considera importante. Vê-se como um homem que recorda mal o passado, porque lhe interessa o futuro. Sublinha com toda a claridade os seus limites, a sua timidez, as suas indecisões, as suas esporádicas melancolias (hoje chamar-lhes-íamos, com menos carga literária, depressões), o ter de improvisar às vezes. Com muito agradecimento. Percebe que lhe foram abrindo um caminho na vida. Embora entretanto os nazis o tenham fechado.

Recorda com carinho o ambiente totalmente italiano da sua família, emigrada de Verona para Mainz (Mogúncia) quando ele só tinha um ano, para levarem avante o negócio paterno. Depois de uma infância metida na família, o desnorteamento da sua juventude, sem saber o que fazer. Estuda um ano de química em Tubinga (1903) apenas porque é o que escolheu o seu companheiro de banco na escola. Não se lhe vê no laboratório. Tenta economia política durante ano e meio, mas os seus amigos são todos de letras, e interessa-lhe mais a literatura e o teatro. Deixa aquilo. Está perdido. Além disso, no elevado clima intelectual da universidade, a sua fé simples e italiana evapora-se. Até que fala com um grande amigo sobre o futuro da sua vida, e vêem que a vocação deles tem de ser amar e entregar a vida. Isto só se pode fazer a sério na Igreja Católica. Decidem fazer-se sacerdotes (1905). Guardini considerará sempre que o sacerdócio é o traço mais importante da sua personalidade.

 

Incomodidades eclesiásticas

 

Como é universitário, e mais do que a média, solicita e permitem-lhe que estude teologia em Friburgo (1906) e Tubinga (1907). Entra no seminário. A diocese e o seminário de Mainz são muito tradicionais e com uma disciplina severa, onde quase tudo está mal visto. Não está cómodo, e atrasam-lhe alguns meses a ordenação (1910). Supunha que os estudos eram para ser professor do seminário, mas o tempo passa e não se concretiza. A sua timidez dificulta-lhe fazer-se entender. Mudam-lhe várias vezes de destino pastoral e, embora isso o incomode, agradece as experiências (1910-1918).

Nesta primeira época como sacerdote faz três descobertas importantes para toda a sua vida. Por um amigo que tentou ser beneditino, descobre a renovação da liturgia no Mosteiro de Maria Laach, e isso fascina-o. Para além de um ensino da liturgia baseado simplesmente nas rubricas e na sua história, aparece uma teologia viva centrada no mistério celebrado. Guardini ama a Santa Missa e isto fá-lo viver. Por contraste, durante vários anos tem de celebrar a Missa enquanto o Santíssimo Sacramento está exposto e o povo reza o Terço. Há muito que fazer, mas Guardini é tímido, paciente e com sentido de Igreja. Por ocasião de umas aulas, escreve O espírito da liturgia (1918), publicado pela abadia beneditina de Maria Laach. Um livro fundamental.

Um breve encargo de atender a juventude da diocese faz-lhe ver a importância da formação dos jovens. Pouco depois contactará com um movimento juvenil, Quickborn, que com certo toque beneditino promove cursos de Verão para que os jovens aproveitem o tempo e se formem cristãmente. Em 1920, participa nos cursos de Verão no castelo de Rothenfels, que atenderá ao longo de quase toda a vida. Pouco a pouco publicará muitas das colecções de palestras, e acabará por ser o guia espiritual do movimento. Daqui saem muitas obras, como as Cartas de formação.

 

Descobertas e incomodidades teológicas

 

Além disso, como em alguns encargos tem pouco que fazer, solicita e concedem-lhe preparar a tese de doutoramento. Depois de muitas dúvidas, escolhe como tema a doutrina da salvação em S. Boaventura (1915). Considera isto providencial na sua vida. Sempre preocupado com um saber vivo, entronca com um amor à tradição viva da Igreja. Frente ao ambiente académico alemão, bastante crítico, descobre que o dogma cristão é um caminho de verdade e não uma restrição imposta. Isto centrará a sua teologia para toda a vida. Por ocasião de uma conferência que lhe pede a associação de académicos católicos, publica Sobre o sentido da Igreja, onde expõe o que descobriu.

Morre o seu pai e a sua mãe regressa a Verona. Diminuem as suas raízes em Mainz. Pede e concedem-lhe continuar os estudos em Bona. Fará a tese de habilitação sobre a doutrina da iluminação em S. Boaventura (1922). Começará a sua carreira académica. Segue com interesse a renovação da teologia, mas incomoda-o o liberalismo de alguns professores. Rapidamente percebe que não é o seu lugar. Também não o deseja nessas condições. Ele não quer ser apenas professor. Quer estudar a verdade.

 

Incomodidades universitárias

 

Entretanto, teve lugar a primeira Guerra Mundial, com uma breve mobilização como enfermeiro (1916-1918). Ganha posições o partido Zentrum, com o apoio de muitos católicos. Pela primeira vez durante séculos, têm algo a dizer na Alemanha, de prepotente maioria cultural protestante. E dizem-no. Querem formação católica para os universitários católicos. Ocorre-lhes começar uma disciplina de “Filosofia da religião e cosmovisão católica” na Universidade de Berlim, de tradição totalmente protestante. Os outros interpretam isto como uma ridícula bofetada.

Como o ministro dos cultos teve conhecimento das suas palestras, pede a Guardini que se encarregue dessa disciplina que ninguém sabe em que consiste (1923) e que, do ponto de vista administrativo, é um disparate. Como a Universidade de Berlim não quer saber nada, fazem depender a disciplina de Breslau. Para Berlim, ela não existe. Isto dá-lhe muita liberdade e difíceis horários, mas consegue a última hora da tarde (que nenhum professor deseja, mas que é boa para atrair estudantes). Quando cheguem os nazis (1933), tardarão seis anos em aperceber-se de que existe essa disciplina e excluí-la (1939). Depois da guerra, oferecer-lhe-ão a mesma cátedra em Tubinga (1946-1948) e em Munique (1948-1962). Uma vida inteira preenchendo uma disciplina improvisada.

 

Uma cosmovisão católica

 

O que dizer? No primeiro ano fala dos modos de salvação, que toma da sua tese, à falta de melhor. Mas isto não pode funcionar. Max Scheler recomenda-lhe que leia Dostoievski, então na moda, e estude as suas personagens, tentando conectar com elas a experiência cristã. É uma luz que agradece e segue. Começará então uma longa série de temas, centrados nos grandes da literatura. Isto vai levar-lhe toda a sua vida. Passam Pascal, Dante, Hölderlin, Rilke, Santo Agostinho, Sócrates, Nietzsche... Alguns livros mais famosos e traduzidos para o castelhano são: O universo religioso de Dostoievski, Pascal ou o drama da consciência cristã, A morte de Sócrates.

Pouco a pouco, vai-se organizando. Recorda que lia cuidadosamente os textos no Verão, e tomava citações. Depois, durante o ano, chegava muito cedo à Universidade e escrevia cada lição em estenografia, na biblioteca, sempre em luta com o tempo. Apercebe-se de que não pode consultar a imensa literatura que há sobre cada tema, mas quer ir ao essencial, dialogar com as grandes obras e tirar-lhes luz para a existência cristã.

 

Pregação

 

Em Berlim, diversas associações pedem-lhe para pregar semanalmente. Prega duas ou três vezes por semana, também na Missa que tem para os universitários em St. Benedikt. Guardini é muito consciencioso e, em parte também pela sua timidez, prepara muito bem as pregações. Rapidamente repara que tudo é mais simples se organiza a pregação em ciclos, para não ter de improvisar de cada vez o tema.

O fruto mais importante desses anos é O Senhor, um percurso já clássico pelas grandes cenas do Evangelho e das festas litúrgicas. Guardini revela uma especial capacidade para fazer falar os textos, com uma preparação literária crescente.

A pressão nazi é cada vez maior. Suprimem as reuniões e a revista de Rothenfels (e expropriam o castelo); jubilam-no da universidade (1939), proíbem-lhe publicar e pregar (1941). Começa um tempo obscuro de retiro, em casa de um grande amigo, onde também adverte que a saúde lhe falha. Escreve Liberdade, graça e destino (1948).

 

A última parte da vida

 

Após o desastre da guerra e da revisão da vida, Guardini aparece como uma figura de referência no mundo eclesiástico, e também numa cultura alemã que necessita refazer-se. Depois de uma curta estadia em Tubinga, instala-se em Munique, que será a última e muito feliz parte da sua vida. Ali renova a sua pregação na igreja universitária (St. Ludwig), com muita assistência. Além disso, restabelecem-se os cursos de Verão de Rothenfels. E continua com a “cosmovisão cristã”.

É época de condecorações e homenagens que castigam um pouco a sua incomodidade. Mas também dão-lhe a oportunidade de falar da “existência cristã”. Pode até dar um longo curso de moral e outro sobre “A existência do cristão”, embora não seja o mais entretido de Guardini.

 

A essência do cristianismo (1929)

 

Guardini é mais um homem de ensaios. É por onde o levou a vida. Alguns dos seus escritos permaneceram clássicos. Por exemplo, A essência do cristianismo (1929). Aí, como sucede tantas vezes, diz coisas que hoje todo o mundo repete, mas repete-se porque ele o disse. A essência do cristianismo é uma pessoa. O cristianismo tem uma doutrina, mas não é uma doutrina; tem uma moral, mas não uma moral; tem um culto, mas não é um culto. A essência do cristianismo é uma pessoa, e não há doutrina nem moral nem culto que sejam realmente cristãos se não se podem vincular ao Filho incarnado. Um ensaio imprescindível.

 

Mundo e pessoa (1939)

 

Guardini, que conviveu com Scheler e conheceu e leu o filósofo judeu Martin Buber, faz uma brilhante e pequena antropologia neste livro. Distingue os níveis do ser, sublinha a categoria relação para entender as pessoas e conclui que a relação fundante das pessoas é com Deus.

 

O fim da modernidade (1950)

 

Grande análise histórica, onde mostra quanto mudou o contexto cultural do Ocidente, ao passar de uma sociedade cristã antiga para uma sociedade em grande parte emancipada do religioso. Sociedade que herda muito do cristianismo, mas quer distanciar-se dele. Medita sobre as necessidades da hora e conclui que o cristianismo aprecia muitas das tradições culturais e relações com as nações. Mas a sua força está no testemunho da verdade. Por isso, precisamente as coisas mais autênticas do cristianismo chocam com a mediania consumista moderna, mas ao mesmo tempo são a melhor apresentação e a melhor apologética. Inesquecível.

 

 


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