DOCUMENTAÇÃO

PAPA FRANCISCO

 

ENTREVISTA NO VOO DE REGRESSO DA TERRA SANTA

 

 

Durante o voo de regresso da Terra Santa, na noite de 26 de Maio passado, o Santo Padre conversou mais de uma hora com os jornalistas que o acompanhavam.

Pelo interesse que têm, damos aos nossos leitores um apanhado de algumas questões, tomado de “L'Osservatore Romano”, ed. port., de 31/V/2014.

 

 

Nestes dias, Vossa Santidade fez alguns gestos que ressoaram por todo o mundo: a mão no muro de Belém, o sinal da cruz, o beijo aos sobreviventes, hoje em Yad Vashem, mas também o beijo no Santo Sepulcro, ontem, dado conjunta e simultaneamente com Bartolomeu, e muitos outros. Queríamos perguntar-lhe se já tinha pensado e estavam na sua intenção todos estes gestos; se sim, porque é que os pensou e quais serão depois, segundo Vossa Santidade, as consequências destes gestos, para além – naturalmente – daquele grandíssimo gesto de ter convidado Peres e Abu Mazen para virem ao Vaticano…

– Papa Francisco: Os gestos mais autênticos são aqueles que não se pensam, aqueles que nos surgem espontaneamente, não é? Eu pensei que se poderia fazer alguma coisa, mas o gesto concreto, não; nenhum destes foi pensado. Coisas há, como por exemplo o convite aos dois Presidentes para a oração, que tinha pensado um pouco fazê-la lá, mas havia muitos problemas logísticos, muitos, porque eles devem ter em conta também o território onde se faz, e não era fácil. Por isso, pensava numa reunião… mas por fim saiu este convite, que espero se possa realizar. (...)

 

Santidade, gostaria de lhe perguntar como resolver a «questão de Jerusalém» para se obter uma paz, como disse, estável e duradoura. Obrigado.

– Papa Francisco: Há muitas propostas sobre a questão de Jerusalém. A Igreja Católica – o Vaticano, digamos – tem a sua posição do ponto de vista religioso: será a Cidade da Paz das três religiões. Isto, do ponto de vista religioso. As medidas concretas para a paz devem resultar das negociações. Tem que se tratar. Eu estaria de acordo que das negociações talvez possa sair este ponto: será capital de um Estado, de outro... Mas não passam de hipóteses. Eu não digo: «Deve ser assim»; são hipóteses que eles devem negociar. A sério, não me sinto competente para dizer: «Faça-se isto, ou aquilo» porque seria uma loucura da minha parte. Mas creio que se deve empreender com honestidade, fraternidade, confiança mútua, no caminho das negociações. E ali negoceia-se tudo: todo o território, também as relações.  É preciso vontade para fazer isso, e peço muito ao Senhor que estes dois líderes, estes dois governos tenham a decisão de seguir em frente. Este é o único caminho para a paz. Digo apenas aquilo que a Igreja deve dizer e que sempre disse: que Jerusalém seja preservada como capital das três religiões, como referência, como cidade de paz – estava para dizer «sagrada», mas não é correcto –, mas de paz e religiosa.

 

Durante a sua peregrinação, falou longamente e encontrou-se várias vezes com o Patriarca Bartolomeu. Perguntamos se terão falado também de passos concretos de aproximação, e se tiveram ocasião de falar dum ponto concreto: refiro-me aos sacerdotes casados, uma questão premente para muitos católicos na Alemanha. Pergunto-me se a Igreja Católica teria algo a aprender das Igrejas ortodoxas. Obrigado.

– Papa Francisco: A Igreja católica tem sacerdotes casados​​, não tem? Os greco-católicos, os católicos coptas... No rito oriental, há sacerdotes casados​​. Porque o celibato não é um dogma de fé; é uma regra de vida que eu aprecio muito e creio que é um dom para a Igreja. Não sendo um dogma de fé, sempre temos a porta aberta: neste momento não falámos disto, como programa, pelo menos para já. Temos coisas mais importantes a tratar. Com Bartolomeu, este tema não foi tocado, porque é deveras secundário nas relações com os ortodoxos. Falámos da unidade: a unidade que se vai fazendo ao longo da estrada, a unidade é um caminho. (…)

 

Santidade, no seu pontificado enfrenta uma grande quantidade de compromissos e fá-lo de modo muito pessoal, como vimos nestes dias. Se um dia, digamos um dia ainda muito distante, sentisse que não tinha forças para levar avante o seu ministério, tomaria a mesma decisão do seu predecessor, isto é, deixaria o pontificado?

– Papa Francisco: Eu farei o que o Senhor me diga para fazer. Rezar, buscar a vontade de Deus. Mas acho que Bento XVI não é um caso único. Quando se viu sem forças, honestamente – é um homem de fé, muito humilde – tomou a decisão. Ele é uma instituição. Há 70 anos, os bispos eméritos quase não existiam. E agora, há muitos. Que vai suceder com os Papas eméritos? Eu acho que devemos olhar para ele como para uma instituição. Ele abriu uma porta, a porta dos Papas eméritos. Haverá outros, ou não. Só Deus o sabe. Mas esta porta está aberta: eu acho que um Bispo de Roma, um Papa que sente que as forças o abandonam – porque agora vive-se muito tempo – deve colocar-se as mesmas perguntas que se fez o Papa Bento.

 

Vossa Santidade tornou-se um líder espiritual, mesmo um líder político, e está despertando muitas expectativas tanto dentro da Igreja como na comunidade internacional. Dentro da Igreja, por exemplo, que acontecerá com a comunhão dos divorciados que voltam a casar-se; e, na comunidade internacional, com esta mediação, com que surpreendeu o mundo, propondo este encontro no Vaticano. A pergunta: Não teme um fracasso, despertando muitas expectativas? Não teme que possa haver algum fracasso? Obrigado.

– Papa Francisco: Em primeiro lugar, farei um esclarecimento sobre este encontro no Vaticano: será um encontro de oração, e não para fazer uma mediação ou procurar soluções, não. Reunir-nos-emos apenas para rezar; e, depois, cada um volta para sua casa. Mas eu acho que a oração é importante, rezar juntos, sem haver conversações de outro género, isto ajuda. Talvez, antes, não me tenha explicado bem como seria. Será um encontro de oração: estará um rabino, estará um muçulmano e estarei eu. Pedi ao Custódio da Terra Santa que se encarregasse de organizar um pouco as coisas práticas.

Em segundo lugar, agradeço a pergunta sobre os divorciados. O Sínodo será sobre a família, sobre o problema da família, sobre a riqueza da família, sobre a situação actual da família. A exposição preliminar feita pelo Cardeal Kasper tinha cinco capítulos: quatro sobre a família, a beleza da família, o seu fundamento teológico, alguns problemas familiares; e o quinto capítulo, a problemática pastoral das separações, das nulidades matrimoniais, os divorciados... Desta problemática faz parte o tema da comunhão. E eu não gostei que tantas pessoas – mesmo de Igreja, sacerdotes – tenham dito: «Ah, o Sínodo é para a comunhão aos divorciados», e fixaram-se nisso, nesse ponto. Dá a impressão como se tudo se reduzisse a uma casuística. E não, é mais amplo. Hoje, como todos sabemos, a família está em crise: é uma crise mundial. Os jovens não se querem casar: ou não se casam, ou convivem. O matrimónio está em crise, e também a família. E eu não queria que caíssemos nesta casuística: vai-se poder? não se vai poder? Por isso, agradeço-lhe muito esta pergunta, porque me dá a oportunidade de esclarecer este ponto. O problema pastoral da família é muito, muito amplo, muito amplo. E é preciso estudar caso a caso. Uma coisa que Bento XVI disse três vezes sobre os divorciados, a mim ajuda-me muito. Uma vez no Vale d’Aosta, outra vez em Milão e a terceira no último Consistório público que convocou para a criação de Cardeais: estudar os processos de nulidade matrimonial, estudar a fé com que uma pessoa vai ao matrimónio, e deixar claro que os divorciados não estão excomungados, e muitas vezes são tratados como excomungados. E isto é uma coisa séria. Isto a propósito da casuística deste problema… mas o Sínodo será sobre a família: as riquezas, os problemas da família. Soluções, nulidades, tudo isso. E tratar-se-á também deste problema, mas no conjunto. (…)

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial