TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

A ressurreição e a vida do mundo FUTURO

 

 

 

J. José Alviar *

Professor de Teologia Dogmática

Universidade de Navarra (Espanha)

 

 

“Assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados. Mas cada um na sua ordem: como primícias, Cristo; depois, quando Ele vier, os que são de Cristo (...). E quando lhe forem submetidas todas as coisas, então também o próprio Filho se submeterá Àquele que lhe submeteu todas as coisas, para que Deus seja tudo em todas as coisas” [1]. São Paulo resume deste modo um aspecto essencial da fé e da esperança cristãs: Deus chegará a ser, finalmente, tudo em todas as coisas; culminará a sua amorosa aproximação às criaturas com um encontro pleno e transformador, realizando-se a ressurreição da carne e a renovação do cosmos.

No Antigo Testamento, a revelação de Deus – o seu poder ilimitado, o seu amor indefectível, a sua plena justiça, o seu ser fonte de vida – assegura progressivamente a esperança na ressurreição futura. O povo de Israel vai compreendendo como a fidelidade e a omnipotência divinas obterão o triunfo definitivo sobre a morte com a ressurreição. Segundo o livro de Daniel, quando chegue o Dia do Senhor, “muitos dos que dormem no pó da terra despertarão: uns para a vida eterna, outros para vergonha, para a ignomínia eterna” [2]; um dos judeus martirizados por Antíoco Epifânio afirma que “é preferível morrer às mãos dos homens com a esperança que Deus dá de ser ressuscitado de novo por Ele” [3].

No tempo de Jesus, a fé na ressurreição está já bastante generalizada; mas é o próprio Senhor que a manifesta e realiza na sua própria pessoa, garantindo não só a verdade da ressurreição dos mortos, mas toda a mensagem evangélica. São Paulo é muito claro ao falar da centralidade deste facto na vida cristã: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, é vã também a vossa fé” [4]. Os apóstolos são fundamentalmente testemunhas do Ressuscitado, e exclamam: “É o Senhor!” [5], ao ouvirem a sua voz, ao comprovarem o seu indefectível carinho, ao verem e tocarem os sinais da Paixão. Cristo ressuscitou como primícias dos que morrem, dando-nos a certeza de que seremos vivificados n’Ele no fim dos tempos [6].

 

Ressurreição e vida cristã

 

A crença cristã na ressurreição dos mortos encontrou desde o princípio a incompreensão e a oposição por parte dos pagãos [7]. É uma noção estranha para aqueles que não acreditam num Deus omnipotente, ou olham com desprezo para a matéria. Em relação aos primeiros, Padres e apologistas afirmaram que a obra de reconstituir o corpo desfeito pela morte é mais fácil do que criar o mundo a partir do nada [8]. Perante os outros, que sobrevalorizavam a alma em detrimento do corpo, os cristãos defenderam a profunda unidade do homem e sublinharam que a Trindade destinou toda a pessoa a participar na sua vida íntima: “Que indigno seria de Deus levar metade do homem para a salvação!” [9].

A doutrina da ressurreição dá uma dignidade ao corpo humano que tem importantes implicações para o baptizado: quando o cristão percebe a forma definitiva a que está chamada a sua existência, pode descobrir novos aspectos do carácter totalizador que possui a sua vocação e compreender mais a fundo que tudo o que implica a corporalidade também está incluído na chamada à comunhão com Deus. Como diz São Josemaria Escrivá, “há uma única vida, feita de carne e espírito, e essa é que tem de ser – na alma e no corpo – santa e cheia de Deus” [10].

Actualmente, há ideias acerca do corpo que recordam os erros que enfrentaram os primeiros cristãos. Assim, não é raro que a corporalidade se considere quase como um acidente que acontece ao homem, que não o configura como ser pessoal e livre, de modo que é fácil que acabe por ser reduzido a mera fonte de prazer. O corpo humano aparece como um elemento secundário da pessoa, esquecendo-se de que Deus amou e chamou a participar na vida divina homens e mulheres determinados, com a sua alma e o seu corpo, e não outros; e é a eles a quem busca, nas suas condições e circunstâncias concretas.

Ante estas opiniões, o mistério da ressurreição esclarece a profunda unidade da pessoa e recupera-se a verdade do corpo, capaz de manifestar a pessoa e implicado, como diz São Paulo, na luta pela santidade: “glorificai, portanto, a Deus no vosso corpo” [11]. A fé na vida do mundo futuro redescobre o nervo da corporalidade, que há-de frutificar segundo o desígnio divino para alcançar a bem-aventurança.

 

Morrer com Cristo, para ressuscitar com Ele

 

O dom da ressurreição dá sentido à morte, ao sofrimento, à dor; para aqueles que morrem na graça de Deus, o fim da vida de algum modo completa e aperfeiçoa a incorporação com Ele [12], e chegará o momento em que o Senhor lhe devolverá o seu mesmo corpo, sem defeito. A fé também nos indica que nem todos morreremos, embora todos seremos transfigurados. Aqueles que forem surpreendidos pelo fim do mundo, passarão directamente ao estado definitivo e glorioso da sua corporalidade, sem conhecer a morte física.

Portanto, a morte física não é necessária para a ressurreição gloriosa. O principal é que, enquanto está na terra, o homem morra sacramentalmente em Cristo para ressuscitar com Ele; morte ao pecado que se realiza já com o Baptismo e que compromete a secundar a graça divina, a continuar a lutar contra a concupiscência e os apetites desordenados para assim purificar o coração. Nesta perspectiva, a guarda do coração, os afectos e as paixões ganham um novo sentido: são a consequência da identificação com Cristo, o fruto da submissão à acção salvífica do Espírito Santo. “Se vivemos pelo Espírito, caminhemos também segundo o Espírito” [13].

Crer na ressurreição é crer que o nosso corpo, algum dia, manifestará como correspondemos à graça divina, como é a nossa comunhão com Ele; este mistério também nos recorda que a perfeita integridade a que está destinado o homem e que Deus lhe concederá no final dos tempos, já pode de algum modo antecipar-se nesta terra com a sua graça, pois “Cristo vive no cristão. A fé diz-nos que o homem, em estado de graça, está endeusado. (...) A divinização redunda em todo o homem como uma antecipação da ressurreição gloriosa” [14]. É a pureza do coração que permite ver aqueles que nos rodeiam segundo Deus, e considerar o corpo humano – o nosso e o do próximo – como um templo do Espírito Santo, uma manifestação da beleza divina [15]. A limpeza do coração leva a ajustar inteligência e vontade às exigências da santidade divina, principalmente na caridade, a castidade, o amor à verdade e a fé. Existe um vínculo entre a pureza do coração, a do corpo e a da fé [16].

 

Novos céus e nova terra

 

Compreender a dignidade do próprio corpo, olhar como Deus olha a mim e aos outros, leva o cristão a purificar o seu coração e a fazer o que está ao seu alcance para purificar o clima social. Hoje, torna-se especialmente necessária uma cruzada de virilidade, integridade e pureza [17], que revalorize as virtudes da modéstia e do pudor, a delicadeza no convívio, nos gestos, no vestuário. São virtudes pequenas, mas fundamentais, pois estão ordenadas a respeitar o mistério da pessoa humana, mostrando a sua dignidade. Por isso, “educar no pudor crianças e adolescentes é despertar neles o respeito pela pessoa humana” [18].

Transmitir o valor destas virtudes obriga, em primeiro lugar, a esforçar-se por as viver com fortaleza. Não se pode transigir com a espontaneidade de mau gosto, com o reclame mórbido, com a impureza que frequentemente aparece nos meios de comunicação ou na indústria do ócio. Ante eles, o cristão deve buscar – e promover! – alternativas válidas, para ele e para aqueles que o rodeiam; e não se deixar levar, entretanto, por um ambiente permissivo que, embora não incite directamente ao pecado, fomenta sim uma falta de tom sobrenatural e humano que vicia o ambiente e dificulta a alma para se dirigir a Deus. A pureza, pelo contrário, ajuda a viver uma autêntica caridade, aquela que busca o bem do outro e mantém a constância e incisividade do apostolado.

Considerar a ressurreição dos mortos, não só permite apreciar a dignidade do corpo: também ajuda a apreciar melhor o valor salvífico da actividade humana sobre a terra. No passado, era comum acusar o cristianismo de desentender-se da vida presente, por colocar a esperança num mundo futuro espiritual e desencarnado, alheio ao empenho por transformar o mundo actual. Tais críticas, se alguma razão tiveram, não são aplicáveis à fé católica quando se considera o que acontecerá no Último Dia.

A Revelação afirma a profunda unidade de destino entre o homem e o universo: não sabemos quando chegará a segunda vinda do Senhor, mas quando aconteça os homens e mulheres que estejam unidos a Cristo formarão a comunidade dos resgatados, e o próprio cosmos será restaurado ao seu primitivo estado [19], um estado em que “ninguém fará mal nem causará dano em todo o meu monte santo, porque a terra estará cheia do conhecimento do Senhor, como as águas que cobrem o mar” [20].

Esta transformação final do mundo pode ser, como a própria morte, uma chamada à vigilância e um estímulo para buscar a santidade com urgência; mas, sobretudo, é um motivo de esperança. Nenhum esforço realizado para construir um mundo à medida do coração de Cristo se manifestará como supérfluo ou desnecessário. Certamente, os novos céus e a nova terra realizar-se-ão pelo poder de Deus, serão um dom, e não uma conquista humana, mas a renovação do mundo tem de algum modo o seu arranque na história: quem “está em Cristo, é uma nova criatura” [21]. O homem renascido nas águas baptismais adquire a capacidade de converter o mundo actual num reflexo do mundo escatológico; a sua actividade terrena prepara misteriosamente o Reino de Deus, e continua o mistério de Cristo, renovador do universo.

Por isso, embora a missão do cristão não consista em criar um paraíso terrestre, faz parte de sua vocação ordenar o mundo segundo a vontade divina, a justiça, a paz, o amor, a santidade, a beleza; Deus criou o homem para que trabalhasse, para que cooperasse com Ele no aperfeiçoamento da criação visível, para que de algum modo participasse no seu poder criador. O pecado original quebrou a harmonia original, tornando penoso o trabalho; mas este continuou a pertencer à mais profunda realidade do homem.

“O autêntico sentido cristão – que professa a ressurreição de toda a carne – enfrentou-se sempre, como é lógico, com a desencarnação, sem temor de ser julgado materialismo. É lícito, portanto, falar de um materialismo cristão, que se opõe audazmente aos materialismos cerrados ao espírito” [22]. Um materialismo, portanto, que não consente que a pessoa seja só matéria, nem que o corpo seja um elemento secundário da pessoa; uma concepção íntegra do homem que revaloriza qualquer trabalho humano honrado, reconhecendo-lhe um lugar no plano salvador de Deus e garantindo de algum modo a sua pervivência por toda a eternidade.

Com a ressurreição dos mortos e a vinda do mundo futuro, Deus dar-nos-á não só a plenitude do ser material: também devolver-nos-á, aperfeiçoado, todo o nosso actuar, sem as sombras que o pecado próprio ou alheio tenham podido introduzir [23]. Por isso, “a expectativa de uma terra nova não deve amortecer, mas antes estimular, a preocupação de aperfeiçoar esta terra, onde cresce o corpo da nova família humana, que pode de algum modo antecipar um vislumbre do novo século” [24]. Nesta terra, o nosso trabalho por vezes não alcança todo o bem que desejaríamos; as nossas limitações e as dos outros fazem que, apesar dos bons desejos, os resultados possam parecer pobres. Quando o mundo seja transfigurado, Deus, por assim dizer, levará o nosso trabalho ao seu cumprimento; reencontraremos os frutos do nosso esforço e apreciaremos plenamente o seu valor no plano divino da redenção.

 

 



[1] 1 Cor 15, 22-28.

[2] Dan 12,2.

[3] 2 Mac 7, 14

[4] 1 Cor 15, 14.

[5] Jo 21, 6.

[6] Cfr. 1 Cor 15, 22; 1 Tess 4, 14.

[7] Cfr. Act 17, 32.

[8] Cfr. TACIANO, Oratio ad graecos, 6; TERTULIANO, De carnis resurrectione, 11; S. GREGÓRIO MAGNO, Homiliae in Evangelia, 2, 26, 12.

[9] TERTULIANO, De carnis resurrectione, 34; cfr. também ATENÁGORAS, De resurrectione, 18; SANTO AGOSTINHO, De civitate Dei, 13, 20.

[10] S. JOSEMARIA ESCRIVÁ, Temas actuais do Cristianismo, n. 114.

[11] 1 Cor 6, 20.

[12] Cfr. Catecismo da Igreja Católica, nn. 1002 e 1010.

[13] Gal 5, 25.

[14] S. JOSEMARIA ESCRIVÁ, Cristo que passa, n. 103.

[15] Cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 2519.

[16] Cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 2518.

[17] Cfr. S. JOSEMARIA ESCRIVÁ, Caminho, n. 121.

[18] Catecismo da Igreja Católica, n. 2524.

[19] Cfr. Catecismo da Igreja Católica, nn. 1045-1047.

[20] Is, 11, 9.

[21] 2 Cor 5, 17.

[22] S. JOSEMARIA ESCRIVÁ, Temas actuais do Cristianismo, n. 115.

[23] Cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 1050.

[24] CONCÍLIO VATICANO II, Const. Past. Gaudium et spes, n. 39.


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