TEMAS LITÚRGICOS

O Coração da liturgia

 

 

 

Juan José Silvestre

Professor de Teologia Litúrgica

Consultor da Congregação para o Culto Divino

 

 

 

Oferecemos aos nossos leitores este artigo publicado na revista “Palabra” (Madrid, Abril de 2014), a cujo Director agradecemos a autorização.

 

 

 O Papa Francisco introduz-nos, pela mão da liturgia, no conteúdo dos dias santos que estamos prestes a comemorar: "A celebração eucarística é muito mais do que um simples banquete: é precisamente o memorial da Páscoa de Jesus, o mistério central da salvação. «Memorial» não significa somente uma recordação, uma simples recordação, mas significa que cada vez que celebramos este sacramento participamos no mistério da paixão, morte e ressurreição de Cristo" (audiência, 5 de fevereiro de 2014). Tratemos de nos introduzir no significado das palavras do Papa.

 Na Última Ceia o Senhor une os gestos de partir o pão, distribuí-lo pelos seus e compartilhar o cálice com as palavras que os acompanham num contexto de oração que nos permite afirmar: "A instituição da Eucaristia é a grande oração de Jesus e da Igreja" (Bento XVI). As palavras que pronuncia e os gestos que realiza na Última Ceia são verdadeiras e não simples metáforas nem frases retóricas: a morte real do Senhor sustenta-as.

 A morte de Jesus sem as palavras da Última Ceia apresentar-se-nos-ia como uma morte carecida de sentido; a Ceia, sem a realização concreta e real da morte antecipada, seria um mero gesto despojado da realidade. Ceia e Cruz são, conjuntamente, a única e indivisível origem da Eucaristia. Por sua vez, esta morte seria algo vazio se não fosse verdade que o amor é mais forte do que a morte, se não chegasse a Ressurreição, que demonstra que aquelas palavras foram pronunciadas pela autoridade de Deus. A Ressurreição é a resposta e a interpretação divina da Cruz. A Ceia sem a Cruz e a Cruz sem a Ceia careceriam de sentido; mas ambas seriam uma esperança fracassada sem a Ressurreição. As palavras e gestos da Ceia, a morte e a Ressurreição estão juntas. Esta tríade é o que denominamos Mistério pascal, origem e fonte de que provém a Eucaristia. "O Tríduo pascal está como que incluído, antecipado e concentrado para sempre no dom eucarístico" (João Paulo II, Ecclesia de Eucharistia, n. 5).

 Podemos agora intuir que Jesus Cristo, com as suas pessoais palavras e gestos durante a Última Ceia, torna possível que a sua morte possa ser re-presentada, possa tornar-se presente, porque a oração eucarística atravessa os séculos. Ao mesmo tempo esta morte transmissível (comunicável), nós podemos entrar nesta oração transformante, podemos tomar parte. "Na nossa Eucaristia somos atraídos por aquele momento de oração, unimo-nos sempre à oração de Jesus" (Bento XVI). Torna-se essencial destacar o carácter da oração da Santa Missa, também sob o ponto de vista da forma externa da celebração eucarística.

 O Senhor não quer que sejamos simples espectadores deste mistério de amor, limitados a uma mera passividade. Ele identifica-se de tal modo connosco, que se apropria dos nossos pecados, enquanto nós nos apropriamos do seu ser. Deus faz-se homem, assume um corpo e sai para atender aqueles que vivem na carne. É o sacrum commercium, o intercâmbio entre Deus e os homens de que falam os Padres.

 Se nos perguntarmos pelo que aconteceu na Última Ceia, que se renova de cada vez que celebramos a Eucaristia e se prolonga na Liturgia das Horas, podemos responder com Bento XVI: "Deus, o Deus vivo estabelece connosco uma comunhão de paz, mais ainda, Ele cria uma consanguinidade entre Ele e nós". Esta consanguinidade, este ser "um só em Cristo Jesus" (Gál 3,28) significa morrer para nós mesmos para viver com Cristo, por Cristo e em Cristo. Na realidade, mediante o pão e vinho consagrados, em que estão realmente presentes o Seu Corpo e o Seu Sangue, Cristo transforma-nos, assimilando-nos a Ele: envolve-nos na sua obra de redenção, tornando-nos capazes, pela graça do Espírito Santo, de viver de acordo com a mesma lógica de entrega.

 Como afirma João Paulo II, "dado que a morte de Cristo na Cruz e a sua Ressurreição constituem o centro da vida diária da Igreja e o penhor da sua Páscoa eterna, a Liturgia tem como primeira função conduzir-nos constantemente através do caminho pascal inaugurado por Cristo, no qual se aceita morrer para entrar na vida". Domingo a domingo a comunidade convocada pelo Senhor encontra a forma eucarística da sua existência e trata de tomar consciência dela para a viver constantemente. É aquele "viver segundo o domingo", "fazer de todo o dia uma Missa".

 

Em Revista Palabra, Abril de 2014, pág. 85

 


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