aCONTECIMENTOS eclesiais

ENTREVISTA

 

DOIS PAPAS SANTOS E MUITO HUMANOS

 

 

 

Cardeal José Saraiva Martins

 

 

Em vésperas da canonização dos Papas João XXIII e João Paulo II, celebrada pelo Santo Padre Francisco na Praça de São Pedro no Domingo da Divina Misericórdia (27-IV-2014), a Agência Ecclesia entrevistou o Cardeal D. José Saraiva Martins, Prefeito emérito da Congregação para as Causas dos Santos.

 

 

Agência Ecclesia (AE) – Como acompanhou o processo de canonização do Papa João XXIII e do Papa João Paulo II?

D. José Saraiva Martins – Conheci muito bem os dois Papas, tanto João XXIII como João Paulo II. Tive relações profundas com os dois, em especial com João Paulo II, durante os meus anos na Cúria Romana, como secretário da Congregação para a Educação Católica e depois como Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos. Foram dois Papas que conheci bem, não só do ponto de vista pastoral, mas como pessoas. São duas personalidades extraordinárias.

 

AE – Como acompanhou o pontificado de João XXIII, na altura como professor e reitor nas universidades romanas?

Eu era professor na Pontifícia Universidade Gregoriana. Uma vez encontrei-me com João XXIII demoradamente e ele perguntou-me o que fazia eu em Roma... Eu disse-lhe que era professor na Universidade ao que ele respondeu com espanto: “Já? Tão jovem e já é professor?”

Ficou admirado com a minha juventude! Era uma pessoa muito simpática, com uma linguagem muito popular. Era o Papa bom, muito sensível e próximo do povo. A gente amava-o profundamente, era como um pai, um pai bom.

Tenho uma ideia muito agradável, muito profunda da personalidade humana, não só pontifícia, mas humana de João XXIII.

 

AE – Recorda a eleição de João XXIII e o início do seu pontificado?

Recordo-me bem! Sucedeu ao Papa Pio XII, de quem era bastante diferente do ponto de vista humano e no modo de agir, mas sem se contradizerem.

Os Papas são todos diferentes uns dos outros, consoante a sua personalidade. Completam-se mutuamente. João XXIII completou o pontificado de Pio XII, o Papa Pacelli, para mim um dos grandes Papas, se não o maior da época contemporânea!

 

AE – O pontificado de João XXIII ficou incontornavelmente marcado pela convocação do Concílio Vaticano II…

João XXIII ficou marcado como sendo o autor do Concílio Vaticano II, que foi um verdadeiro Pentecostes para a Igreja, o princípio de uma renovação profunda da comunidade eclesial. No entanto, a ideia do Concilio não é propriamente de João XXIII. A ideia do Concílio é do Papa Pio XII. Ele pensou convocar um Concílio Ecuménico para rever vários problemas da Igreja, naquele tempo. Pensou fazer um Concílio e nomeou uma comissão teológica para estudar o problema. Simplesmente tinha já a sua idade e faleceu. Veio João XXIII e retomou a ideia do Concilio e naturalmente convocou-o.

 

AE – Isso tira algum mérito a João XXIII e ao seu pontificado?

Não tira mérito, antes pelo contrário. Foi um sinal de continuidade do pontificado do Papa Pio XII num campo tão importante como a pastoral da Igreja.

 

AE – Que relevo têm as encíclicas sociais de João XXIII, a promoção da paz ao longo do seu pontificado?

Encontramos parte do seu pensamento nos documentos do Concílio Vaticano II, sobre a renovação litúrgica (a Sacrosantum Concilium), sobre a Igreja e as relações entre Igreja e o mundo, na Constituição Gaudium et spes, que é documento muito importante e que exprime o pensamento de João XXIII.

 

AE – A realização do Concílio e o estilo do Papa gerou alguma viragem no diálogo da Igreja com a sociedade?

Certamente. Era um Papa muito próximo das pessoas. Não se considerava uma pessoa superior ou longe da sociedade. Era um membro da sociedade, via muito bem quais os problemas que existiam entre a Igreja e o Estado, o mundo político, e procurou aprofundar vários problemas, inclusivamente os que implicavam a ação pastoral da Igreja. Deixou-nos documentos importantíssimos.

 

AE – O que é que na sua opinião faz de João XXIII um Papa santo?

Observei sempre em João XXIII a simplicidade evangélica. Era realmente como Cristo. Estava sempre connosco. Para mim era uma interpretação autêntica do Evangelho e renovou a imagem de Cristo, no seu tempo e no seu pontificado.

 

AE – De João Paulo II, terá memórias mais próximas, mais pessoais?

Com João Paulo II eu mantive relações muito próximas. Foi ele que me pediu para ficar em Roma. Depois de uns anos como professor na Urbaniana, tinham-me pedido para ir para Lisboa para a Universidade Católica Portuguesa, para a Faculdade de Teologia. O Patriarca de então, o Cardeal Cerejeira, andava à procura de professores de Teologia e soube que em Roma havia um professor português na Universidade Pontifícia Urbaniana e escreveu várias cartas a pedir que fosse para a Faculdade em Lisboa. Eu estava disposto a ir para Lisboa, mas o reitor da Pontifícia Universidade Urbaniana impediu-me. Ainda procurei uma solução intermédia – um semestre em Lisboa, outro em Roma –, mas o reitor rejeitou.

Estive lá 22 anos enquanto professor.

João Paulo II nomeou-me para a Congregação para a Educação Católica, que é o ministério da educação da Igreja, e depois para Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos que, segundo ele, era o dicastério mais importante da Igreja, uma vez que trata da santidade, da santidade dos membros da Igreja.

 

AE – A sua permanência em Roma está então muito ligada a João Paulo II?

Devo-a a ele, assim como devo a João Paulo II o meu serviço na Santa Sé.

Tive com o Papa um relacionamento muito próximo, com quem estive muitas vezes em almoços de trabalho. Ele também era de uma simplicidade extraordinária e falava connosco como falamos com um amigo. Sempre admirei nele a sua humanidade. João Paulo II foi um Papa profundamente humano.

A sua vida consistiu em defender e promover a pessoa humana, a sua dignidade, e defender com coragem, muita coragem, por vezes heroica, os direitos fundamentais e naturais do homem. Direitos inalienáveis que têm de ser respeitados e promovidos até ao fim.

Hoje fala-se muito também do problema da igualdade entre homem e mulher. E esta problemática foi enfrentada por João Paulo II, com espírito de uma compreensão extraordinária. Era um Papa moderno, humano, profundamente humano. A explicação para mim é simples: era um santo. Tinha uma fé profunda, concreta, não abstrata. Era um santo enamorado de Cristo.

Como santo era também humano porque, ao contrário do que se pensa, [os santos] são todos humanos. A santidade e a humanidade não são duas realidades contrapostas, mas intimamente unidas, inseparáveis. A santidade para mim não é senão a plenitude da humanidade e os santos são os que viveram em profundidade à luz do Evangelho a própria humanidade. Foi também o que fez João Paulo II: um santo muito humano, que o exprimiu de tantas maneiras.

 

AE – Quais as essenciais, ao longo do seu pontificado?

Foi um Papa missionário, apostólico, evangelizador. Para mim foi o São Paulo dos tempos modernos. Foi ele que começou as viagens apostólicas por todo o mundo e, à semelhança de São Paulo, evangelizou os gentios de hoje.

As suas viagens por todos os continentes não eram viagens turísticas, mas apostólicas, missionárias e evangelizadoras.

Sempre tive uma grande admiração por João Paulo II.

 

AE – Recorda algum momento de encontro com João Paulo II que o tivesse marcado particularmente?

Lembro-me de um facto importante do ponto de vista humano. Depois de ter sido eleito Papa convocou todos os reitores das Pontifícias Universidades Romanas, entre as quais a Urbaniana. Eu era o chefe dos reitores das várias Universidades e discutimos profundamente os vários problemas das universidades de Roma. Depois de uma hora, de discussões, ele tomou a palavra e disse: “Agora vamos começar a segunda parte do nosso encontro, que é ainda mais importante do que a primeira. A segunda parte é a ceia de todos nós”. Um gesto extraordinário, de uma grande simplicidade!

Tenho outras lembranças com ele e sempre que falávamos era como entre amigos!

 

AE – O que dizia João Paulo II sobre Portugal? Que imagem tinha ele do nosso país?

Muito boa. Para ele foi sempre uma nação fiel à Santa Sé e ao Papa e exprimia-o de muitas maneiras. E quando se fala de Portugal, fala-se naturalmente de Fátima. Ele foi um homem enamorado de Fátima. Foi várias vezes a Fátima e atribuiu sempre a Nossa Senhora de Fátima a proteção e o facto de não ter morrido no dia do atentado (13 de maio de 1981, ndr). Ele dizia que tinha sido Nossa Senhora a desviar a bala para que ele não morresse.

Trouxe uma imagem de Nossa Senhora e colocou-a no palácio apostólico de Castel Gandolfo. Depois beatificou os dois pastorinhos, Jacinta e Francisco, processo que eu acompanhei.

João Paulo II estimava muito Portugal, como país e nação católica.

 

AE – Por ocasião do atentado, esteve com ele nos dias imediatos?

Não. Ele foi para o hospital e tinha de descansar. Ainda ficou no hospital bastante tempo. Na altura, o que podíamos fazer, e fazíamos, era rezar por ele.

 

AE – Os anos subsequentes do pontificado, depois do atentado, foram de alguma expectativa sobre a possibilidade de João Paulo II continuar ou não? As consequências que aquele atentado poderia ter na sua saúde?

Não há dúvida de que o atentado teve as suas consequências. Ele suportou sempre aquela situação como um verdadeiro crente. Como uma espécie de associação ou reprodução da Paixão de Cristo.

 

AE – Também nos últimos anos de pontificado?

Também e mais ainda, porque havia outros aspetos da sua saúde nada bons. Todos se lembram do dia em que ele foi à janela do seu apartamento, quis falar à multidão presente na Praça de São Pedro mas não saiu uma palavra. Foi um momento, do ponto de vista humano, trágico. Só quem viveu esses momentos com ele se dá conta do significado profundo para o Papa.

 

AE – E foi a melhor decisão do Papa João Paulo II levar o seu pontificado até à sua morte, tal como aconteceu?

Sim. É preciso ter em conta um facto importante: num certo momento ele pensou demitir-se. Pediu conselhos aos colaboradores mas disseram-lhe que seria melhor não se demitir.

 

AE – Falou consigo sobre isso?

Não. Diretamente não. Ele deu-se conta da sua situação. Também já Paulo VI tinha pensado demitir-se e nomeou uma comissão para estudar o problema, que o desaconselhou. A demissão de um Papa não é uma novidade absoluta.

Bento XVI seguindo a mesma linha, para bem da Igreja, achou melhor demitir-se. É o Código de direito canónico, o cânone 83, que diz expressamente que o Papa tem o direito de se demitir se achar que é conveniente para o bem da Igreja e ninguém o pode impedir.

 

AE – Num pontificado tão longo como o de João Paulo II, alguma coisa ficou por fazer?

Alguma coisa fica sempre por fazer. A Igreja tem de dar importância à pastoral no momento presente. Há sempre problemas, tal como há sempre problemas na sociedade. A Igreja tem de viver no tempo presente, por isso, tem de falar ao homem de hoje, com a linguagem de hoje. A de ontem já não existe.

Naturalmente isso pede uma adaptação e levanta problemas. A grande preocupação da Igreja é ajudar a resolver os problemas do ponto de vista pastoral e eclesial. O Papa tinha essa ideia muito clara.

 

AE – João Paulo II terá enfrentado da melhor forma o problema da pedofilia na Igreja? Ter-se-ia apercebido dos problemas e proposto uma resolução?

Este Papa tão próximo das pessoas, deu-se conta do problema e procurou resolvê-lo. Mas nem tudo o que de bom faz um Papa é reproduzido na imprensa. Ele interveio várias vezes por meio da Congregação para a Doutrina da Fé. A Igreja preocupou-se sempre porque este é um problema real.

A Igreja é geralmente acusada por não ter denunciado os sacerdotes pedófilos, mas isso não é verdade. Ela procurou com muito cuidado intervir. E interveio, mais do que uma vez em vários casos, não publicamente, tendo sido sábia ao seguir um caminho discreto.

 

AE – O que faz deste Papa, à semelhança de João XXIII, um Papa santo?

João Paulo II foi santo porque seguiu o Evangelho. Procurar a santidade consiste em seguir o Evangelho, pôr em prática o que diz Cristo. Cumprir a Palavra de Deus. A santidade não é uma coisa extraordinária. É muito simples. Consiste em viver o Evangelho de Cristo, seguir a Sua voz, aplica-la no seu dia a dia. A santidade consiste nisso. E João Paulo II viveu em profundidade o Evangelho, em todos os sentidos e circunstâncias da sua vida.

 

AE – O Papa Francisco dispensou a existência de um milagre atribuído a João XXIII para concluir o processo de canonização. É a opção mais acertada na sua opinião?

Certamente. O Papa pode fazer uma exceção se achar mais importante para a Igreja neste momento.

Segundo os estatutos em vigor, requer-se um milagre para a beatificação e outro para a canonização feito depois da beatificação. É uma norma, não é de direito divino, mas eclesiástico. O Papa pode, se quiser e achar conveniente em qualquer momento da história, dispensar o milagre. Só não pode dispensar a heroicidade das virtudes.

Beatificar ou canonizar não é senão proclamar a santidade daquela pessoa, do candidato aos altares. Um milagre não está unido á beatificação ou canonização. É uma espécie de confirmação por parte de Deus de que aquela pessoa praticou as virtudes em grau heroico.

A Igreja achou, e muito bem, que se exija ordinariamente um milagre para a beatificação e canonização.

As virtudes heroicas têm de existir sempre. O milagre não é necessário para a canonização. E o Papa Francisco dispensou o milagre para João XXIII.

 

AE – No caso de João Paulo II o processo conclui-se com um milagre…

A cura de uma pessoa com um aneurisma cerebral da Costa Rica é atribuído à intercessão de João Paulo II.

Para que uma cura seja considerada milagrosa é preciso que seja completa, instantânea e duradoura à luz da ciência médica atual. Tem de aparecer claramente que aquela cura foi feita por intercessão de alguém.

 

AE – A comunidade dos crentes que enriquecimento tem com a canonização de dois Papas?

JSM – São dois Papas com um papel importante na aplicação do Concílio: o que inaugurou e um dos que mais contribuíram para a aplicação na vida da Igreja do Concilio. É este aspeto conciliar que une os dois Papas santos.

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial