CANONIZAÇÕES

NOVAS CANONIZAÇÕES EQUIPOLENTES

 

 

 

 

Cardeal Angelo Amato

Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos

 

 

 

 

Depois de Angela de Foligno (9-X-2013) e de Pedro Favre (17-XII-2013) – ver “Celebração Litúrgica”, 45 (2013-2014), 3, pp. 771-774 –, o Papa Francisco procedeu a outras três canonizações equipolentes*.

Com efeito, entre os decretos promulgados em 3 de Abril passado sobressaem os nomes de Francisco de Laval (1623-1708), primeiro bispo de Quebec, de José de Anchieta (1534-1597), missionário jesuíta originário das Ilhas Canárias, e de Maria da Encarnação (1599-1672), ursulina francesa, que o Pontífice inscreveu no álbum dos Santos, estendendo o seu culto à Igreja universal.

Damos a seguir a entrevista realizada por Nicola Gori ao Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, Cardeal Angelo Amato, sobre o significado destas canonizações por decreto, publicada no “L’Osservatore Romano”, ed. port., de 10-IV-2014.

 

 

‒ Qual a razão e o significado destas canonizações equipolentes?

 

Convém recordar que já a 22 de Junho de 1980 João Paulo II tinha proclamado beatos cinco Servos e Servas de Deus, protagonistas da evangelização nas Américas: entre eles, além de Francisco de Laval, José de Anchieta e Maria da Encarnação, estavam também o terceiro franciscano Pedro de San José de Betancur (1626-1667), originário das Canárias e missionário na Guatemala, e fundador dos Irmãos Betlemitas, e a jovem nativa americana, Kateri Tekakwitha (1656-1680), de etnia iroquesa-mohawk-algonquina. Trata-se de um grupo exemplar de baptizados, que manifestam a multiplicidade das vocações na Igreja: um bispo, dois religiosos, uma religiosa e uma leiga. Todos deram, com o seu exemplo e o seu apostolado, um contributo incomparável para a evangelização americana.

 

‒ Dois deles já foram canonizados formalmente: Pedro de San José de Betancur, em 30 de Julho de 2002, por João Paulo II, e Kateri Tekakwitha, em 21 de Outubro de 2012, por Bento XVI. Por que se procede agora, para os outros três, à canonização equipolente que, falando de modo simples, parece omitir a consideração do milagre?

 

Na realidade o Papa Francisco, vindo ao encontro dos desejos e das muitas petições de bispos e fiéis americanos, que sonhavam ver canonizados os outros três beatos, procedeu à sua canonização de modo equipolente. Tal canonização não é arbitrária, mas bem motivada. De facto, ela pode ter lugar somente quando se verificam três condições precisas: posse antiga do culto, constante e comum testemunho de factos históricos dignos de fé sobre as virtudes ou sobre o martírio e fama ininterrupta de prodígios. É esta a doutrina plurissecular da Igreja, bem teorizada pelo Papa Bento XIV na sua famosa obra sobre a beatificação dos Servos de Deus e sobre a canonização dos Beatos. Nestes casos – ainda é a doutrina de Bento XIV – o Sumo Pontífice, por sua autoridade, pode proceder à canonização equipolente, isto é, à extensão do culto à Igreja universal, através da recitação do Ofício divino e da celebração da Missa, sem alguma sentença formal definitiva, sem ter havido qualquer processo jurídico e sem cumprir as habituais cerimónias próprias das canonizações. Como se vê, a fama dos milagres não está de facto ausente nesta canonização, que recompõe o quinteto dos Santos testemunhas da evangelização americana, como que a evidenciar que toda a evangelização, a antiga e a nova, tem como premissa e fonte indispensável a santidade de uma vida virtuosa.

 

‒ No Verão passado, no Rio de Janeiro, o Papa Francisco falou sobre José de Anchieta. O que nos pode dizer sobre a sua figura?

 

Durante a viagem por ocasião da Jornada Mundial da Juventude o Pontífice, falando aos jovens, disse que o missionário jesuíta tinha apenas 19 anos quando partiu para o Brasil. Acrescentou também que o melhor instrumento para evangelizar os jovens é outro jovem. De todos os modos, Anchieta foi um homem de grande cultura, professor, agente de paz, director espiritual, benfeitor dos pobres e dos doentes. Desenvolveu uma intensa actividade missionária entre as tribos indígenas do interior, encontrando-as e convertendo-as. Foi também um escritor prolífico. Escreveu gramáticas nalgumas línguas locais (tupi e guarani), catecismos, pregações, cânticos, poesias, dramas religiosos, promovendo uma autêntica evangelização inculturada. Mas sobretudo foi um apóstolo de extraordinária vida interior e de genuína santidade.

 

‒ Os outros dois Santos são do Canadá. Quem era Francisco de Laval?

 

Pertencia a uma das mais antigas e nobres famílias da França. Nomeado pelo Papa Alexandre VII Vigário apostólico da Nouvelle France, como então se chamava o Canadá, foi o primeiro bispo que chegou à América do Norte. Durante trinta anos exerceu um fecundo ministério pastoral para organizar a Igreja católica num país ainda em estado de missão, desenvolvendo uma extraordinária actividade apostólica e missionária, tanto a favor dos poucos franceses aí residentes como sobretudo a favor dos nativos americanos. Defendeu a estes do álcool e da exploração de que eram objecto por parte dos mercadores de peles. Favoreceu a sua educação, defendeu o seu trabalho, promoveu a sua dignidade humana. A sua actividade pastoral e missionária ia do Canadá até às regiões meridionais a norte do México, com a erecção de paróquias e seminários para a formação do clero.

 

‒ E a ursulina Santa Maria da Encarnação?

 

Marie Guyart – este é o seu nome de baptismo – casou aos dezoito anos e teve um filho. Quando o marido faleceu, recusou passar a segundas núpcias. Convidada pela sua irmã, começou a trabalhar no comércio, dando-se conta de possuir grandes dotes empresariais e administrativos. Não lhe faltava um pouco de graça feminina. Contudo, cultivava em segredo o sonho de uma vida inteiramente consagrada ao Senhor, também porque começou a ter experiências místicas extraordinárias. Abandonou assim uma certa elegância no vestir e emitiu o voto de castidade perfeita. Pode-se chamar a esta uma primeira conversão: da vaidade à simplicidade e ao recolhimento. Eram particularmente frequentes as visões da Trindade, que a levaram a amadurecer uma vida de união com o Senhor num convento. Assim, entrou na Congregação das ursulinas de Tours e esta foi a segunda conversão da sua vida, à qual se seguiu uma terceira, quando ela, sentindo-se chamada por Deus, decidiu partir para o Canadá como missionária, onde se empenhou particularmente na educação e formação cristã das jovens indígenas. Este seu louvável apostolado proporcionou-lhe o apelativo de apóstola e mãe espiritual da Igreja canadiana.

 

‒ Qual foi o seu contributo para a construção da sociedade canadiana?

 

Em 2008, ano do quarto centenário da cidade de Quebec, as celebrações ofereceram a ocasião de realçar o contributo também civil dos fundadores religiosos, entre os quais Maria da Encarnação ocupou um lugar privilegiado. Ela contribuiu para a edificação de uma Igreja e de uma sociedade num novo mundo com condições difíceis, no qual tudo deveria ser inventado para assegurar a sobrevivência. Além disso, teve um papel considerável no encontro com as populações autóctones, acolhendo incondicionalmente as jovens ameríndias e as suas famílias. Estudou as suas línguas, escreveu o primeiro dicionário hurãofrancês, compôs orações em hurão e algonquim, preparou obras de metodologia missionária para as irmãs de hábito e sacerdotes para uma correcta obra de evangelização inculturada.

 

‒ Trata-se contudo de Santos que, pelo menos na Europa, não são muito conhecidos.

 

A fama dos três novos santos é ainda hoje viva e difundida. Limitando-me agora a Maria da Encarnação, pode-se afirmar que, além de uma grande devoção popular ligada à sua santidade (os peregrinos que vão ao seu túmulo no mosteiro das ursulinas de Quebec são dezenas de milhares todos os anos), a sua figura e a sua obra foram celebradas em filmes, obras teatrais e muitos meios de comunicação. No filme intitulado Folle de Dieu (2008), de Jean-Daniel Lafond, a protagonista era Marie Tifo, uma das actrizes canadianas mais famosas. A película inspirou um espectáculo teatral, com a mesma actriz, que no início hesitou aceitar o papel da Santa. Contudo, depois do grande sucesso da obra, em cartaz no Canadá e nalgumas cidades francesas, a actriz falou com entusiasmo desta mulher fora do comum.

 

‒ Há um fio comum que une estas figuras?

 

Os três Santos ainda hoje são testemunhas coerentes e audazes de Cristo “o único Santo”. Temos urgência de apóstolos corajosos do Evangelho. Na sua vocação missionária comum existe o traço da fé imensa de Abraão e de Maria na obediência a Deus e à sua palavra. Este abandono na Providência divina fez frutificar as suas obras, que precisamente por isso se tornaram obras de Deus: opera Dei. Os Santos são instrumentos dóceis mas indispensáveis para que Deus realize as suas maravilhas.

 

 

 

 

 

 

 

 



* Assim diz o comunicado da Sala de Imprensa do Vaticano:

“Hoje, 3 de Abril de 2014, o Santo Padre Francisco recebeu em audiência privada Sua Eminência Reverendíssima o Cardeal Angelo Amato, S.D.B., Prefeito da Congregação das Causas dos Santos.

“No decurso da audiência, o Santo Padre, depois de receber os relatórios do Emmo. Prefeito, inscreveu no catálogo dos Santos e estendeu à Igreja Universal o culto litúrgico em honra dos seguintes Beatos:

“Francisco de Laval, que foi Bispo de Quebec, nascido em Montigny-sur-Avre (França) em 20 de Abril de 1623 e falecido em Quebec (Canadá) em 6 de Maio de 1708;

“José de Anchieta, sacerdote professo da Companhia de Jesus, nascido em San Cristóbal de La Laguna (Tenerife, Ilhas Canárias) em 19 de Março de 1534 e falecido em Reritiba (Brasil) em 9 de Junho de 1597;

“Maria da Incarnação (no século: Maria Guyart), Fundadora do Mosteiro das Ursulinas na cidade de Quebec, nascida em Tours (França) em 28 de Outubro de 1599 e falecida em Quebec (Canadá) em 30 de Abril de 1672”. (NR)


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