DOCUMENTAÇÃO

PAPA FRANCISCO

 

DIÁLOGO COM JOVENS BELGAS

 

 

No dia 31 de Março de 2014 o Papa Francisco recebeu um pequeno grupo de jovens belgas que tinham participado na Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro e desejavam transmitir aos jovens flamengos o que tinham encontrado.

Pelo interesse que tem, damos aos nossos leitores um apanhado de algumas questões, tomado de “L'Osservatore Romano”, ed. port., de 10/IV/2014.

 

 

 – A primeira pergunta é: obrigado por ter aceitado o nosso pedido; mas, por que o aceitou?

Papa Francisco: Quando sinto que um jovem ou uma jovem tem inquietação, sinto que é meu dever servir estes jovens, prestar um serviço a esta inquietação, porque esta inquietação é como uma semente, que depois progredirá e dará frutos. E, neste momento, sinto que convosco presto um serviço àquilo que neste momento é mais precioso, que é a vossa inquietação.

 

– Um jovem: Neste mundo, cada um procura ser feliz. Mas nós quisemos interrogar-nos: o Senhor é feliz, e porquê?

Papa Francisco: Absolutamente sim, sou feliz! E sou feliz porque... não sei porquê... talvez porque tenho um trabalho, não sou um desempregado, tenho um trabalho, um trabalho de pastor! Sou feliz porque encontrei o meu caminho na vida, e percorrer este caminho torna-me feliz. É também uma felicidade tranquila, porque nesta idade não é a mesma felicidade de um jovem, há uma diferença. Uma certa paz interior, uma grande paz, uma felicidade que vem inclusive com a idade. E também com um caminho que sempre teve problemas; também agora há problemas, mas esta felicidade não se esvai com os problemas, não: vê os problemas, sofre por causa deles e depois segue em frente; faz algo para os resolver e segue em frente. Mas no fundo do coração há esta paz e esta felicidade. Para mim, é verdadeiramente uma graça de Deus. É uma graça. Não é mérito próprio!

 

– Uma jovem: Não creio em Deus, mas os seus gestos e os seus ideais inspiram-me. Talvez o Senhor tenha uma mensagem para todos nós, para os jovens cristãos, para as pessoas que não acreditam ou que têm outro credo, ou que crêem de modo diverso?

Papa Francisco: Para mim, deve-se procurar a autenticidade no modo de falar. E para mim a autenticidade é isto: estou a falar com irmãos! Somos todos irmãos! Crentes, não-crentes, desta confissão religiosa ou daquela, judeus, muçulmanos... somos todos irmãos! O homem está no centro da história, e isto para mim é muito importante: o homem está no centro! Neste momento da história, o homem foi expulso do centro, foi lançado para a periferia, e no centro – pelo menos neste momento – está o poder, o dinheiro. E nós temos que trabalhar pelas pessoas, pelo homem e pela mulher, que são a imagem de Deus. Por que os jovens? Porque os jovens – retomo o que eu disse no início – são a semente que dará fruto ao longo do caminho. Mas também em relação com aquilo que acabei de dizer: neste mundo, onde no centro está o poder, o dinheiro, os jovens foram afastados. Foram afastadas as crianças – não queremos crianças, queremos sempre menos crianças, famílias pequenas: as crianças não são desejadas. São afastados os idosos: muitos idosos morrem devido a uma eutanásia escondida, porque não são cuidados e assim morrem. E agora são afastados os jovens. Pensai que na Itália, por exemplo, o desemprego juvenil, dos jovens com menos de 25 anos, é quase de 50%; na Espanha é de 60% e na Andaluzia, no sul da Espanha, é de quase 70%... (…).

Pensai no que significa uma geração de jovens que não têm trabalho! Tu podes dizer-me: “Mas podem comer, porque a sociedade lhes dá de comer”. Sim, mas isto não é suficiente, porque eles não têm a experiência da dignidade de levar o pão para casa. E este é o momento da “paixão para os jovens”. Nós entramos numa cultura do descartável: aquilo que não serve para esta globalização é descartado. Os idosos, as crianças, os jovens. Mas deste modo descarta-se o futuro de um povo, porque nas crianças e nos jovens e nos idosos está o futuro de um povo. As crianças e os jovens, porque farão progredir a história, e os idosos porque devem transmitir-nos a memória de um povo, como se realizou o caminho de um povo. E se forem descartados, teremos um grupo de pessoas sem força, porque já não haverá tantos jovens e crianças, e sem memória. E isto é extremamente grave! Por isso, acho que devemos ajudar os jovens, para que possam desempenhar o seu papel na sociedade, que se requer neste difícil momento histórico.

 

– Uma jovem: Todos nós somos humanos e cometemos erros. O que lhe ensinaram os seus erros?

Papa Francisco: Errei, errei... Na Bíblia, no Livro da Sabedoria, diz-se que o homem mais justo erra sete vezes ao dia!... Quer dizer que todos erramos... Diz-se que o homem é o único animal que cai duas vezes no mesmo ponto, porque não aprende imediatamente com os seus erros. Alguém pode dizer: “Eu não errei!”, mas não melhora; isto leva à vaidade, à soberba, ao orgulho... Eu penso que também houve erros na minha vida e são grandes mestres de vida. Grandes mestres: ensinam muito! Também humilham, porque alguém pode sentir-se super-homem, super-mulher, e depois erra, e isto humilha e coloca no seu lugar. Não diria que aprendi com todos os meus erros: não, acho que com alguns deles não aprendi porque sou teimoso, e não é fácil aprender. Mas aprendi de muitos erros, e isto fez-me bem, fez-me bem! E também reconhecer os erros é importante: errei aqui, errei ali…   E também estar atento para não voltar a cometer o mesmo erro, não cair no mesmo poço... É coisa boa, o diálogo com os próprios erros, porque eles ensinam; e o importante é que ajudam a ser mais humilde, e a humildade faz muito bem, muito bem às pessoas, a nós, faz muito bem! Não sei se era esta a resposta...

 

– A tradutora: Tem um exemplo concreto, do modo como aprendeu de um erro? Ela (a jovem que fez a pergunta) é atrevida...

Papa Francisco: Não, vou dizer, escrevi num livro, é público. Por exemplo, no governo da vida da Igreja. Fui nomeado superior muito jovem, e fiz muitos erros com o autoritarismo, por exemplo. Eu era demasiado autoritário, aos 36 anos... E depois aprendi que se deve dialogar, deve-se ouvir o que pensam os outros... Mas não se aprende de uma vez para sempre, não! O caminho é longo! Este é um exemplo concreto. E eu aprendi da minha atitude um pouco autoritária, como superior religioso, a encontrar um caminho para não ser tão autoritário, ou para deixar de o ser... mas ainda cometo erros! Está contente?... Quer atrever-se mais?

 

– Uma jovem: Como não creio em Deus, não consigo compreender como o Senhor reza, ou por que reza. Pode explicar-me como reza, na sua veste de Pontífice, e por que reza? O mais concretamente possível...

Papa Francisco: Como rezo... Muitas vezes pego na Bíblia, leio um pouco, depois deixo-a e deixo-me olhar pelo Senhor: esta é a ideia mais comum da minha oração. Deixo-me olhar por Ele. E sinto – mas não é sentimentalismo – sinto profundamente o que o Senhor me diz. Às vezes, Ele não fala... nada, vazio, vazio, vazio... mas, pacientemente, fico ali, e assim rezo... Estou sentado, rezo sentado, porque me faz mal ajoelhar-me, e por vezes adormeço na oração... É também um modo de rezar, como um filho com o Pai, e isto é importante: sinto-me como um filho com o Pai. E por que rezo? “Porquê” como causa, ou por quem rezo?

 

– Ambas as coisas...

Papa Francisco: Rezo porque tenho necessidade. Sinto isto, algo que me impele, como se Deus me chamasse para falar. É a primeira coisa. E rezo pelas pessoas, quando encontro pessoas que me impressionam porque estão doentes ou têm problemas, ou quando há problemas que... por exemplo, a guerra... Hoje estive com o Núncio na Síria, e ele mostrou-me umas fotografias... e estou certo de que hoje à tarde rezarei por isto, por aquelas pessoas... Mostraram-me fotografias de pessoas mortas de fome, só ossos... neste tempo – isto não entendo – quando temos o necessário para dar de comer ao mundo inteiro, que haja pessoas que morrem de fome, para mim é terrível! E isto leva-me a rezar, precisamente por estas pessoas.

 

 


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