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SANTÍSSIMA TRINDADE

 

 

 

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

Se a teologia nasceu com a fé, por ser esta um acto do entendimento – «fides quaerens intelectum» - também é verdade o que dizia Newman num dos seus sermões: no princípio, a Igreja não precisava de teologia para crer e adorar Deus revelado aos homens como Pai, Filho e Espírito Santo, um só Deus.

Logo após o Pentecostes, comenta, «fez-se um silêncio de uma meia hora», na expressão do Apocalipse (8, 1). Embora já cercada de blasfémias desde o Calvário, «dentro da Igreja reinavam a luz e a paz, o temor, a alegria e a santa meditação. Nada de dúvidas ímpias, nada de especulações importunas, nada de raciocínios presunçosos. Uma devoção brotada do fundo do coração, uma devoção real ao Filho para sempre bendito, excluíam todas as dificuldades em matéria de fé e preservavam a Igreja da necessidade de falar» (1) (Entenda-se: de se «explicar» aos descrentes). A revelação da intimidade divina era claríssima na pregação apostólica. Só mais tarde «os cristãos foram obrigados a falar, contra a sua vontade, por receio de que os hereges falassem em lugar deles» (2), acrescenta.

Ainda que não fosse por isso, a teologia cristã havia de se desenvolver indefinidamente pela necessidade amorosa de aprofundar cada vez mais no conhecimento de Deus. Não há dúvida, porém, de que as heresias – bem ou mal intencionadas – constituíram motivo providencial de construir uma expressão correcta do Credo. Aliás, os primeiros «credos» surgiram precisamente como resposta breve às primeiras desvirtuações da fé.

A linguagem teológica foi-se organizando rapidamente, mas quem diria que o precioso termo «Trindade» só no século II começou a ser pronunciado – a «tríade» de S. Teófilo de Antioquia – e no século III, com Orígenes, adquiriu o seu rigoroso significado? A partir de então nunca mais a Igreja o dispensou nem a piedade do Povo de Deus.

Palavra bendita, com a qual podemos dirigir-nos ao nosso Criador, Redentor e Santificador, na confissão da sua absoluta Unicidade, Simplicidade e perfeitíssima Unidade e, ao mesmo tempo, distinguindo e tratando sem receio com cada Uma das Pessoas divinas! Palavra bendita que nos familiariza com Deus de tal maneira, que nos faz sentir a realidade da nossa filiação divina, de membros da sua «Casa» (Hebr 3, 6), dentro da gloriosa intimidade das «processões» divinas! Profundo mistério que, uma vez conhecido, nunca mais dele podemos afastar o coração e a inteligência, porque tudo se apagaria ao nosso redor, tudo perderia sentido e voltaria ao caos primitivo!

«Que nenhum afecto te prenda à Terra, além do desejo diviníssimo de dar glória a Cristo e, por Ele e com Ele e n’Ele, ao Pai e ao Espírito Santo» («Caminho», 786), pois, «se a vida não tivesse por fim dar glória a Deus, seria desprezível; mais ainda, detestável» («Caminho», 783).

 

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(1) «Le Christ», tradução francesa de 12 sermões do Card. J. H. Newman, Éd. De La Librerie de l’Université» - Friburgo, 1943, págs. 25-26. (2) Ibid., pág. 27.

 

 

 

 


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