CANONIZAÇÕES

AS RECENTES CANONIZAÇÕES EQUIPOLENTES

 

 

 

 

Cardeal Angelo Amato

Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos

 

 

 

Recentemente, Bento XVI e o Papa Francisco procederam a algumas “canonizações equipolentes” (sobre “canonização equipolente”, ver “Celebração Litúrgica”,  43 [2011/12], 5, pp. 1234-1236).

Damos a seguir a entrevista realizada por Nicola Gori ao Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, Cardeal Angelo Amato, sobre a figura e a mensagem de Angela de Foligno, publicada no “L’Osservatore Romano”, ed. port., de 9-I-2014.

Através da entrevista, o leitor pode ver como se procede às canonizações equipolentes.

Caso diferente é o do Papa João XXIII: o Papa Francisco só dispensou o milagre para a cerimónia da sua canonização, que vai realizar em 27 de Abril próximo, juntamente com a do Papa João Paulo II.

 

 

A 9 de Outubro de 2013 o Papa Francisco alargou à Igreja universal o culto litúrgico em honra de Angela de Foligno (1248-1309) *. Na vigília da festa litúrgica, pedimos ao cardeal Angelo Amato, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, que repercorresse o iter que levou à canonização equipolente da grande mística umbra e recordasse os traços salientes da sua santidade.

 

‒ Sete séculos depois da morte, foi reconhecida universalmente a santidade de Angela de Foligno. Como se obteve este importante pronunciamento?

Depois da sua beatificação equipolente isto é, depois do reconhecimento oficial do culto litúrgico, ocorrido no século XVIII ‒, acumularam-se ao longo dos anos as petições aos Pontífices pela sua canonização. Recordamos só algumas que chegaram a Pio XII nos anos quarenta do século passado: do bispo de Moulins, do bispo de Arras (que recorda a grande estima pela beata de personalidades ilustres, como São Francisco de Sales, Santo Alfonso Maria de Liguori, Papa Bento XIV, Jacques Bénigne Bossuet), do arcebispo de Sens, do bispo de Orléans, do arcebispo de Mans, do bispo de Nantes. Estas súplicas não foram atendidas por parte da Santa Sé. Todavia, nas últimas décadas, tanto João Paulo II como Bento XVI deram elogiosas provas de apreço pela santidade e sabedoria evangélica de Angela.

 

‒ Em que sentido?

Por exemplo, a Via-Sacra no Coliseu em 1983 continha meditações sobre textos da beata, e nos três anos precedentes foram utilizados excertos da Regra beneditina, de Santa Catarina de Sena e de São Boaventura. O próprio Papa Wojtyla, durante a sua viagem a Foligno de 20 de Junho de l993, na homilia da missa classificou Angela «mestra dos teólogos». No mesmo dia dirigiu-lhe uma oração, diante da urna que contém os seus despojos, chamando-a filha da paz, filha da divina sabedoria, que pela divina misericórdia foi guiada no caminho da Cruz, até ao ápice do heroísmo e da santidade. Depois disto, o capítulo geral dos conventuais, a 5 de Junho de 1995, renovou ao Papa a súplica pela canonização. Mas também desta vez, como as precedentes, não foi atendida.

 

‒ O que suscitou a decisão do Papa Francisco?

Creio que um momento importante tenha sido a catequese pronunciada por Bento XVI na praça de São Pedro a 13 de Outubro de 2010, na qual celebrou a figura, a obra, a santidade e a actualidade da beata, citando-a também com o apelativo de santa. Certamente encorajado por estes apreços e pela canonização equipolente de outra grande mística medieval, Santa Hildegarda de Bingen, realizada a 10 de Maio de 2012, a Conferência episcopal da Úmbria e os cinco superiores-mores da família franciscana estes últimos num documento conjunto de 8 de Dezembro de 2012 renovaram ao Papa Ratzinger a súplica pela canonização da beata Angela. Considerando estas petições, o Santo Padre, na audiência que me concedeu a 20 de Dezembro de 2012, autorizou a preparação da Positio para a canonização equipolente.

 

‒ No caso da beata de Foligno surgiu uma pergunta, se se pretende canonizar uma mulher concreta ou um Livro, o das suas visões. O que responde?

Respondo dizendo que nestas últimas décadas teve lugar uma rigorosa revisitação da tradição biográfica e literária de Angela, considerando também esta objecção. A conclusão é que existem numerosos e indiscutíveis traços históricos, que nos permitem delinear com certeza e exactidão os elementos fundamentais da sua vida. Referimo-nos, por exemplo, ao manuscrito 342 da biblioteca municipal de Assis, actualmente conservado no Sagrado Convento, que contém quase todo o corpus de Angela; às relíquias dos seus despojos, desde o início atentamente monitorados pelas autoridades civis e religiosas, como demonstram os documentos antigos e recentes; à descoberta recente de uma carta de Angela, anterior a 1309, enviada a um seu discípulo, cuja cópia manuscrita ainda não era do conhecimento dos editores que em 1985 publicaram a edição crítica do Liber. Além disso, no Arbor vitae crucifixae Iesu Christi, de 1305, Ubertino da Casale, que certamente não é um inventor de fábulas, fala de Angela, que então ainda vivia, e do seu encontro com ela. Concluindo, a canonização diz respeito a uma mulher concreta dotada de excepcionais dotes místicos e sapienciais. Qualquer elucubração ou negação encontra o seu limite na história. A rica tradição da santa não se funda em areia movediça do nada, mas encontra o seu fulcro, significado e valor na terra firme da história.

 

‒ Recentemente, a propósito de Pedro Favre, canonizado pelo Papa Francisco a 17 de Dezembro passado *, Vossa Eminência falou sobre o valor da canonização equipolente, que significa extensão do culto de um beato à Igreja universal. Quais são os aspectos salientes da vida e da figura da nova santa indicada como modelo a todos os fiéis?

Angela nasceu em Foligno em 1248 numa família abastada. Ao ficar órfã de pai, viveu uma juventude mundana, amante das alegrias efémeras e cometendo inclusive faltas até gravíssimas. Por volta de 1270 casou com um abastado senhor de Foligno, com o qual teve vários filhos. A sua conversão ocorreu em 1285. Comovida pela graça, depois de uma aparição de São Francisco de Assis, fez uma confissão geral ao franciscano Arnaldo de Foligno – é o nome do Frate A. do Liber – que a fez renascer para uma existência intensamente cristã. Em 1288, após a morte da mãe, do marido e dos filhos, vendeu todos os seus bens e distribuiu o valor obtido aos pobres. Em 1291 entrou na Ordem Terceira de São Francisco, confiando-se à direcção espiritual do frade Arnaldo. No mesmo ano realizou uma peregrinação a Assis, durante a qual, na basílica superior de São Francisco, teve uma comovedora experiência mística, com um êxtase diante do vitral historiado de Cristo que abraça Francisco: era a imagem de como o Senhor a teria abraçado. Faleceu em Foligno a 4 de Janeiro de 1309.

 

‒ Como teve origem o seu famoso «Liber»?

Em 1292, na igreja de são Francisco em Foligno, inicia com o frade Arnaldo o diálogo-revelação das suas experiências místicas. Tudo o que está referido no Liber, chamado também Livro da beata Angela ou Liber Lelle ou Memorial, foi redigido num latim simples e límpido por Arnaldo, ditado por ela. Nesta obra foi reunida a experiência espiritual de Angela, desde o momento da sua conversão até 1296, quando o documento foi aprovado por oito teólogos da ordem franciscana e mais tarde também pelo cardeal Giacomo Colonna. Depois da redacção do Liber, Angela desenvolveu uma especial maternidade espiritual, que a tornou particularmente conhecida no mundo franciscano. De facto, reuniu ao seu redor numerosos discípulos – entre os quais Ubertino da Casale –  provenientes de várias partes da Itália e também do estrangeiro, prontos a receber os seus ensinamentos e conselhos espirituais. Merece particular atenção a sua obra moderadora apta a dissuadir os «frades de espírito livre» e os «irmãozinhos» da intransigência das acções e dos extremismos espirituais.

 

‒ O seu dote místico teve um efeito concreto também na caridade para com os necessitados?

Já mencionámos o facto de que Angela distribuiu aos pobres tudo o que obteve com a venda das casas, terrenos e jóias, vivendo depois de esmolas. Bem documentada é também a sua caridade para com os doentes. Cito só a sua corajosa assistência aos leprosos no hospital da cidade, seguindo o exemplo de São Francisco de Assis.

 

‒ Enfim, qual é hoje a mensagem dada pela canonização equipolente de Angela?

 

«Iluminada pela pregação da Palavra, purificada pelo sacramento da penitência, tu te tornaste exemplo fúlgido de virtudes evangélicas, mestra sábia de discernimento cristão, guia segura no caminho da perfeição». São algumas expressões contidas na oração de João Paulo II diante das relíquias de AngeIa. Também Bento XVI, na catequese já mencionada de 13 de Outubro de 2010, pôs em grande evidência a actualidade do seu exemplo e da sua mensagem: «Hoje todos corremos o perigo de viver como se Deus não existisse: parece tão distante da vida hodierna. Mas Deus tem mil maneiras, para cada um a sua, de se fazer presente na alma, de mostrar que existe, que me conhece e me ama. E a beata Angela deseja tornar-nos atentos a estes sinais com os quais o Senhor nos comove a alma, atentos à presença de Deus, para assim aprender o caminho com Deus e rumo a Deus, na comunhão com Cristo Crucificado». Angela é um exemplo de conversão total a Cristo e, como Francisco de Assis, uma testemunha privilegiada da primazia de Deus sobre os ídolos humanos. Para ela, Cristo é o mestre, o livro e a escola para nos tornarmos de novo «santos e imaculados» ao Pai, de cujo sopro criador nascemos. Ela aprende com Jesus que a via paupertatis in cognitione crucis é a expressão mais elevada da via caritatis. Com sensibilidade totalmente feminina, narra a sua profunda comunhão com Deus Trindade mediante o amor e a devoção a Jesus, filho de Deus encarnado, pobre, crucificado, eucarístico. A síntese da sua parábola mística tem origem na experiência da quarta-feira da semana santa de 1301, quando meditando sobre a morte do Filho de Deus encarnado, sentiu na sua alma o eco destas palavras divinas: «Não te amei por brincadeira».

 

 



* Assim diz o comunicado da Sala de Imprensa do Vaticano de 11-X-2013:

    “No dia 9 de Outubro, o Santo Padre Francisco, depois de receber a relação de sua Eminência Reverendíssima o Cardeal Angelo Amato, S.D.B., Prefeito da Congregação das Causas dos Santos, estendeu à Igreja Universal o Culto litúrgico em honra da Beata Angela de Foligno, da Ordem Secular de São Francisco, nascida em Foligno (Itália) por volta de 1248 e aí falecida em 4 de Janeiro de 1309, inscrevendo-a no catálogo dos Santos”. (NR)

* Assim diz o comunicado da Sala de Imprensa do Vaticano de 17-XII-2013:

   “Na tarde de hoje, 17 de Dezembro de 2013, o Santo Padre Francisco recebeu em audiência privada o Cardeal Angelo Amato, S.D.B., Prefeito da Congregação das Causas dos Santos. No decurso da audiência, o Sumo Pontífice, depois de receber a relação do Emmo. Prefeito, estendeu à Igreja Universal o culto litúrgico em honra do Beato Pietro Favre, Sacerdote professo da Companhia de Jesus, nascido em Le Villaret (Alta Sabóia, França) em 13 de Abril de 1506 e falecido em Roma em 1 de Agosto de 1546, inscrevendo-o no catálogo dos Santos”. (NR)


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