DOCUMENTAÇÃO

PAPA FRANCISCO

 

ENTREVISTA AO JORNAL CORRIERE DELLA SERA

 

 

O diário italiano “Il Corriere della Sera” publicou no passado dia 5 de Março uma entrevista ao Papa Francisco, por ocasião do primeiro ano do seu pontificado, realizada pelo director Ferruccio De Bortoli.

Pelo interesse que tem, damos aos nossos leitores um apanhado de algumas questões, tomado de “L'Osservatore Romano”, ed. port., de 13/III/2014.

 

 

Corriere della Sera: As relações com o seu antecessor. Nunca pediu algum conselho a Bento XVI?

 

 Papa Francisco: Sim. O Papa emérito não é uma estátua num museu. É uma instituição. Não estávamos habituados. Há sessenta ou setenta anos, o bispo emérito não existia. Depois veio o Concílio. Hoje é uma instituição. Tem de acontecer o mesmo com o Papa emérito. Bento XVI é o primeiro, e talvez haverá outros. Não sabemos. Ele é discreto, humilde, não quer incomodar. Falámos disto e decidimos juntos que seria melhor que ele visse pessoas, saísse e participasse na vida da Igreja. Uma vez veio aqui para a bênção da estátua de São Miguel Arcanjo, depois ao almoço em Santa Marta e, depois do Natal, convidei-o a participar no Consistório e ele aceitou. A sua sabedoria é um dom de Deus. Alguns teriam gostado que ele se retirasse para uma abadia beneditina longe do Vaticano. Eu pensei nos avós que, com a sua sabedoria, os seus conselhos, dão força à família e não merecem acabar numa casa de repouso.

 

Para nós, o seu modo de governar a Igreja parece assim: ouve todos e decide sozinho. Um pouco como o geral dos jesuítas. O Papa é um homem sozinho?

 

Sim e não. Compreendo o que pretende dizer-me. O Papa não está sozinho no seu trabalho, porque está acompanhado e é aconselhado por muitos. E seria um homem sozinho se decidisse sem ouvir ou fazendo de contas que ouve. Mas há um momento, quando se trata de decidir, de assinar, no qual está sozinho com o seu sentido de responsabilidade.

 

O Senhor inovou, criticou algumas atitudes do clero, sacudiu a Cúria. Com alguma resistência, alguma oposição. A Igreja já mudou como teria querido há um ano?

 

Em Março passado, eu não tinha nenhum projecto de mudança da Igreja. Não esperava esta transferência de diocese, digamos assim. Comecei a governar procurando pôr em prática o que tinha emergido no debate entre os cardeais nas várias congregações. Espero que o Senhor me dê a inspiração para o meu modo de agir. Dou-lhe um exemplo. Tinha-se falado do cuidado espiritual das pessoas que trabalham na Cúria, e começaram-se a fazer retiros espirituais. Devia-se dar mais importância aos Exercícios Espirituais anuais: todos têm o direito de passar cinco dias em silêncio e meditação, enquanto antes, na Cúria, se ouviam três pregações por dia e depois alguns continuavam a trabalhar.

 

O Senhor disse que a franciscomania não durará muito. Há alguma coisa na sua imagem pública que não lhe agrada?

 

Eu gosto de estar no meio das pessoas, junto de quem sofre, ir às paróquias. Não me agradam as interpretações ideológicas, uma certa mitologia do Papa Francisco. Quando se diz, por exemplo, que sai de noite do Vaticano para ir dar de comer aos sem-abrigo na via Ottaviano. Nunca me passou pela cabeça. Sigmund Freud dizia, se não me engano, que em toda a idealização há uma agressão. Pintar o Papa como uma espécie de super-homem, uma espécie de estrela, parece-me ofensivo. O Papa é um homem que ri, chora, dorme tranquilo e tem amigos, como todos. Uma pessoa normal.

 

O tema da família é central na actividade do Conselho dos oito cardeais. Desde a exortação «Familiaris consortio», de João Paulo II, muitas coisas mudaram. Estão programados dois sínodos. Esperam-se grandes novidades. O senhor disse acerca dos divorciados: não devem ser condenados, devem ser ajudados.

 

É um longo caminho que a Igreja deve percorrer. Um processo querido pelo Senhor. Três meses depois da minha eleição, foram-me submetidos os temas para o Sínodo, propôs-se debater sobre qual era a contribuição de Jesus ao homem contemporâneo. Mas, por fim, por etapas graduais – que para mim foram sinais da vontade de Deus –, escolheu-se debater sobre a família, que atravessa uma crise muito séria. É difícil formá-la. Os jovens casam-se pouco. Há muitas famílias separadas, nas quais o projecto de vida comum fracassou. Os filhos sofrem muito. Devemos dar uma resposta. Mas, para isso, é preciso reflectir muito profundamente. É o que o Consistório e o Sínodo estão a fazer. É preciso evitar ficar à superfície. A tentação de resolver todos os problemas com a casuística é um erro, uma simplificação de coisas profundas, como faziam os fariseus, uma teologia muito superficial. É à luz da reflexão profunda que se poderão enfrentar seriamente as situações particulares, mesmo a dos divorciados, com profundidade pastoral.

 

Por que motivo a conferência do cardeal Walter Kasper no último Consistório (um abismo entre doutrina sobre o matrimónio e a família e a vida real de muitos cristãos) dividiu tanto os cardeais? Como pensa que a Igreja possa percorrer estes dois anos de árduo caminho chegando a um amplo e sereno consenso? Se a doutrina é sólida, por que é necessário o debate?

  

O cardeal Kasper fez uma belíssima e profunda apresentação, que em breve será publicada em alemão, e abordou cinco pontos, o quinto era o dos segundos matrimónios. Eu ficaria preocupado se, no Consistório, não tivesse havido uma discussão intensa, não teria servido para nada. Os cardeais sabiam que podiam dizer o que queriam, e apresentaram muitos pontos de vista diferentes, que enriquecem. Os confrontos fraternos e abertos fazem crescer o pensamento teológico e pastoral. Disto não tenho medo, aliás, é o que procuro.

 

Como será promovido o papel da mulher na Igreja?

 

Também aqui a casuística não ajuda. É verdade que a mulher pode e deve estar mais presente nos lugares de decisão da Igreja. Mas a isto eu chamaria uma promoção de tipo funcional. Só assim não se anda muito em frente. Pelo contrário, é preciso pensar que a Igreja tem o artigo feminino “a”: é feminina desde as suas origens. O grande teólogo Urs von Balthasar trabalhou muito sobre este tema: o princípio mariano guia a Igreja ao lado do petrino. A Virgem Maria é mais importante do que qualquer bispo e de qualquer apóstolo. O aprofundamento teologal está em andamento. O cardeal Rylko, com o Conselho dos Leigos, está a trabalhar nesta direcção com muitas mulheres peritas em várias matérias.

 

Meio século depois da «Humanae vitae» de Paulo VI, a Igreja pode retomar o tema do controle dos nascimentos? O cardeal Martini, seu confrade, considerava que já tinha chegado o momento.

 

Tudo depende de como é interpretada a Humanae vitae. O próprio Paulo VI, no fim, recomendava aos confessores muita misericórdia, atenção às situações concretas. Mas a sua genialidade foi profética, teve a coragem de declarar-se contra a maioria, de defender a disciplina moral, de exercer um freio cultural, de se opor ao neomalthusianismo presente e futuro. A questão não é mudar a doutrina, mas ir em profundidade e fazer com que a pastoral tenha em conta as situações e do que é possível fazer pelas pessoas. Também disto se falará no caminho do Sínodo.

 

A ciência evolui e redesenha os confins da vida. Tem sentido prolongar artificialmente a vida em estado vegetativo? O testamento biológico pode ser uma solução?

 

Eu não sou um especialista nos assuntos bioéticos. E temo que cada frase minha possa ser equivocada. A doutrina tradicional da Igreja diz que ninguém é obrigado a usar meios extraordinários quando se sabe que está numa fase terminal. Na minha pastoral, nestes casos, sempre aconselhei os cuidados paliativos. Em casos mais específicos, é bom recorrer, se necessário, ao conselho dos especialistas.

 

 

 

 

 


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