DOCUMENTAÇÃO

PAPA FRANCISCO

 

IGREJA POBRE PARA OS POBRES

 

 

No dia 25 de Fevereiro passado foi apresentado em Roma o livro “Povera per i poveri. La missione della Chiesa” (Cidade do Vaticano, Liberia Editrice Vaticana, 312 págs.), do cardeal Gerhard Muller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. O livro contém também alguns escritos do padre Gustavo Gutiérrez, um dos pais da Teologia da libertação. Do Papa Francisco é o Prefácio – que oferecemos aos nossos leitores, tomado de L’Osservatore Romano, ed. port., de 27-II-2014.

 

 

Quem de nós não se sente constrangido diante da simples palavra «pobreza»? Existem muitas formas de pobreza: física, económica, espiritual, social, moral. O mundo ocidental identifica a pobreza acima de tudo com a ausência de poder económico e ressalta negativamente este status. O seu governo, de facto, funda-se essencialmente no enorme poder que o dinheiro adquiriu hoje, um poder aparentemente superior a qualquer outro. Por isso, uma ausência de poder económico significa irrelevância a nível político, social e até humano. Quem não possui dinheiro é considerado apenas na medida em que pode servir a outros fins. Existem muitas pobrezas, mas a pobreza económica é a que é vista com maior horror.

Nisto há uma grande verdade. O dinheiro é um instrumento que, de algum modo – como a propriedade – prolonga e aumenta as capacidades da liberdade humana, permitindo-lhe actuar no mundo, agir, dar fruto. Por si só, é um instrumento bom, como quase todas as coisas de que o homem dispõe: é um meio que amplia as nossas possibilidades. Contudo, este meio pode virar-se contra o homem. O dinheiro e o poder económico, de facto, podem ser um meio que afasta o homem do homem, confinando-o num horizonte egocêntrico e egoísta. A própria palavra aramaica que Jesus utiliza no Evangelho – mamona, isto é, tesouro escondido (cf. Mt 6, 24; Lc 16, 13) – no-lo dá a entender: quando o poder económico é um instrumento que produz tesouros que se têm apenas para si, escondendo-os aos outros, ele produz iniquidade, perde o seu valor positivo originário. Também o termo grego usado por São Paulo na Carta aos Filipenses (cf. Flp 2, 6) – arpagmós – remete a um bem guardado ciosamente para si, ou até para o fruto daquilo que se roubou aos outros. Isto acontece quando os bens são utilizados por homens que conhecem a solidariedade somente para o círculo – pequeno ou grande – dos seus conhecidos, ou quando se trata de a receber, mas não quando se trata de a oferecer. Isso acontece quando o homem, tendo perdido a esperança num horizonte transcendente, perdeu também o gosto da gratuidade, o gosto de fazer o bem pela simples beleza de o fazer (cf. Lc 6, 33 ss.).

Quando o homem, pelo contrário, é educado para reconhecer a fundamental solidariedade que o une a todos os outros homens – como no-lo recorda a Doutrina social da Igreja –, então sabe bem que não pode guardar para si os bens de que dispõe. Quando vive habitualmente em solidariedade, o homem sabe que o que ele nega aos outros e guarda para si, mais cedo ou mais tarde, vira-se contra ele. No fundo, é a isto que Jesus alude no Evangelho, quando se refere à ferrugem ou à traça que destroem as riquezas possuídas de modo egoísta (cf. Mt 6, 19-20; Lc 12, 33).

Pelo contrário, quando os bens de que se dispõe são utilizados não apenas para as próprias necessidades, ao difundirem-se, multiplicam-se e muitas vezes dão um fruto inesperado. De facto, existe um laço original entre lucro e solidariedade, uma circularidade fecunda entre lucro e dom, que o pecado tende a romper e ofuscar. Tarefa dos cristãos é redescobrir, viver e anunciar a todos esta preciosa e originária unidade entre lucro e solidariedade. Quanto o mundo contemporâneo necessita de redescobrir esta bela verdade! Quanto mais aceitar ter isto em conta, tanto mais diminuirão também as pobrezas económicas que tanto nos afligem.

Contudo, não podemos esquecer que não existem apenas as pobrezas ligadas à economia. É o próprio Jesus que no-lo recorda, advertindo-nos que a nossa vida não depende somente «dos nossos bens» (Lc 12, 15). Origináriamente, o homem é pobre, é necessitado e indigente. Quando nascemos, para viver precisamos dos cuidados dos nossos pais e, assim, em cada época e etapa da vida, cada um de nós nunca conseguirá libertar-se totalmente da necessidade e da ajuda de outrem, nunca conseguirá eliminar de si o limite da impotência diante de alguém ou de algo. Também esta é uma condição que caracteriza o nosso ser «criaturas»: não nos fizemos a nós mesmos, e sozinhos não podemos conseguir tudo aquilo de que precisamos. O leal reconhecimento desta verdade convida-nos a permanecer humildes e a praticar com coragem a solidariedade, como uma virtude indispensável ao próprio viver.

Em todo o caso, dependemos de alguém ou de algo. Podemos viver isto como uma debilitação do viver, ou como uma possibilidade, um recurso, para ter em conta um mundo em que ninguém pode viver sem o outro, um mundo em que todos somos úteis e preciosos para todos, cada um ao seu modo. Não há como descobrir isto que impele a uma praxe responsável e responsabilizante, em vista de um bem que é então, deveras, inseparavelmente pessoal e comum. É evidente que esta praxe só pode nascer de uma nova mentalidade, da conversão a um novo modo de nos olharmos uns aos outros! Somente quando o homem se concebe, não como um mundo à parte, mas como alguém que, por sua natureza, está ligado a todos os outros, sentindo-se origináriamente «irmãos», é possível uma praxe social em que o bem comum não permanece como palavra vazia e abstracta!

Quando o homem se concebe assim e se educa para viver assim, a originária pobreza criatural já não é sentida como uma deficiência, mas sim como um recurso, em que o que enriquece a um e livremente é doado, é um bem e um dom que, depois, vão em benefício de todos. Esta é a luz positiva com que o Evangelho também nos convida a considerar a pobreza. Precisamente esta luz ajuda-nos, portanto, a compreender por que Jesus transforma esta condição numa autêntica «bem-aventurança»: «Bem-aventurados os pobres!» (Lc 6, 20).

Então, mesmo fazendo tudo o que podemos e evitando toda a forma de irresponsável cedência às próprias debilidades, não tenhamos medo de nos reconhecermos necessitados e incapazes de conseguir tudo aquilo de que precisamos, porque, sozinhos e unicamente com as nossas forças, não conseguimos vencer todos os limites. Não temamos este reconhecimento, porque o próprio Deus, em Jesus, se rebaixou (cf. Flp 2, 8) e se rebaixa perante nós e as nossas pobrezas, para nos ajudar e para nos dar aqueles bens que, sozinhos, nunca poderemos ter.

Por isso, Jesus elogia os «pobres em espírito» (Mt 5, 3), isto é, aqueles que olham assim para as próprias necessidades e, necessitados como são, confiam em Deus, não temendo depender d'Ele (cf. Mt 6, 26). Com efeito, de Deus podemos receber aquele Bem que nenhum limite pode deter, porque Ele é mais poderoso do que qualquer limite e no-lo demonstrou quando venceu a morte! Deus, sendo rico, fez-se pobre (2 Cor 8, 9) para nos enriquecer com os seus dons! Ele ama-nos, cada fibra do nosso ser lhe é preciosa, aos seus olhos cada um de nós é único e tem um valor imenso: «Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados... valeis mais do que muitos pássaros» (Lc 12, 7).

Por isso, estou grato a Sua Eminência o Senhor Cardeal Gerhard Ludwig Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que com o presente livro quis chamar a nossa atenção para esta realidade. Estou convencido de que quantos vierem a ler estas páginas se deixarão tocar no coração de algum modo e sentirão brotar dentro de si mesmos a exigência de uma renovação de vida. Pois bem, amigos leitores, sabei que nesta exigência e neste itinerário haveis de encontrar-me desde já ao vosso lado, como irmão e sincero companheiro de caminho.

 


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