TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

A FÉ, UMA RELAÇÃO PESSOAL COM O DEUS VIVO

 

 

Jorge Margarido Correia

 

 

«descobrir novamente os conteúdos da

fé professada, celebrada, vivida e rezada

e reflectir sobre o próprio acto com que crê,

é um compromisso que cada crente deve assumir,

sobretudo neste Ano da fé»

(BENTO XVI, Carta Apostólica Porta fidei, 9)

 

 

Depois de termos vivido o Ano da fé, será interessante interrogarmo-nos sobre o modo de dar continuidade aos seus frutos. A frase citada da Carta Apostólica com que Bento XVI convocou esse Ano, e que aponta para os objectivos desejados, pode-nos servir de roteiro.

 

Uma fé...

Tal frase aparece claramente inspirada no texto com que o Catecismo da Igreja Católica inicia a 4ª Parte, sobre a Oração:

“«Mistério admirável da nossa fé!». A Igreja professa-o no Símbolo dos Apóstolos e celebra-o na liturgia sacramental, para que a vida dos fiéis seja configurada com Cristo no Espírito Santo para glória de Deus Pai. Este mistério exige, portanto, que os fiéis nele creiam, o celebrem e dele vivam, numa relação viva e pessoal com o Deus vivo e verdadeiro. Esta relação é a oração [1].

Com isto, o Catecismo não se limita a acrescentar às 3 partes anteriores uma mais, mas a indicar que esta 4ª Parte é o modo como as outras três devem ser vividas pelo cristão.

Importante a noção de relação “viva e pessoal” com o “Deus vivo e verdadeiro”. E é fácil de ver que o centro dessa relação é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade: Jesus Cristo. Como dizia João Paulo II, a propósito do Ano Jubilar de 2000, que nos abriu o terceiro milénio:

“No cristianismo, o ponto de partida está na Encarnação do Verbo. Aqui não é apenas o homem a procurar Deus, mas é Deus que vem em pessoa falar de si ao homem e mostrar-lhe o caminho por onde é possível atingi-Lo. O Verbo Encarnado é, por conseguinte, o cumprimento do anelo presente em todas as religiões da humanidade: este cumprimento é obra de Deus e ultrapassa toda a expectativa humana. É mistério da graça. Em Cristo, a religião deixa de ser um procurar Deus como que às apalpadelas (At 17, 22-32), para se tornar resposta da fé a Deus que Se revela: resposta na qual o homem fala a Deus como seu Criador e Pai; resposta feita possível por aquele Homem único, que ao mesmo tempo é o Verbo consubstancial ao Pai, no qual Deus fala a cada homem, e cada homem se torna capaz de responder a Deus” [2].

 

... professada

     A história da Salvação é, ao mesmo tempo, a história da revelação de um Deus pessoal, portanto relacional:

Deus revelou-Se ao seu povo Israel, dando-lhe a conhecer o seu nome. O nome exprime a essência, a identidade da pessoa e o sentido da sua vida. Deus tem um nome. Não é uma força anónima. Dizer o seu nome é dar-Se a conhecer aos outros; é, de certo modo, entregar-Se a Si próprio, tornando-Se acessível, capaz de ser conhecido mais intimamente e de ser invocado pessoalmente.... Do meio duma sarça que arde sem se consumir, Deus chama por Moisés. E diz-lhe: «Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob» (Ex 3, 6). Deus é o Deus dos antepassados, Aquele que tinha chamado e guiado os patriarcas nas suas peregrinações (Deus dos vivos). É o Deus fiel e compassivo, que se lembra deles e das promessas que lhes fez” [3].

     Com a Encarnação do Verbo, a fé passou a ser uma relação com o evento de uma pessoa, a do Verbo Encarnado:

Nós cremos e confessamos que Jesus de Nazaré, judeu nascido duma filha de Israel, em Belém, no tempo do rei Herodes o Grande e do imperador César Augusto, carpinteiro de profissão, morto crucificado em Jerusalém sob o procurador Pôncio Pilatos no reinado do imperador Tibério, é o Filho eterno de Deus feito homem; que Ele «saiu de Deus» (Jo 13, 3), «desceu do céu» (Jo 3, 13; 6, 33) e «veio na carne», porque o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós (Jo 1, 14, 16)” [4].

... celebrada

Essa relação transcende o espaço e o tempo e actualiza-se para cada homem nos sacramentos que a Igreja custódia e administra:

“«Sentado à direita do Pai» e derramando o Espírito Santo sobre o seu corpo que é a Igreja, Cristo age agora pelos sacramentos, que instituiu para comunicar a sua graça. Os sacramentos são sinais sensíveis (palavras e acções), acessíveis à nossa humanidade actual. Realizam eficazmente a graça que significam, em virtude da acção de Cristo e pelo poder do Espírito Santo» [5].

O Catecismo dá-nos uma bela e profunda explicação dessa contemporaneidade com Cristo nos Sacramentos, especialmente na Eucaristia:

«Na liturgia da Igreja, Cristo significa e realiza principalmente o seu mistério pascal. Durante a sua vida terrena, Jesus anunciava pelo seu ensino e antecipava pelos seus actos o seu mistério pascal. Uma vez chegada a sua «Hora», Jesus vive o único acontecimento da história que não passa jamais: morre, é sepultado, ressuscita de entre os mortos e senta-Se à direita do Pai «uma vez por todas» (Rom 6, 10; Heb 7, 27; 9, 12). É um acontecimento real, ocorrido na nossa história, mas único; todos os outros acontecimentos da história acontecem uma vez e passam, devorados pelo passado. Pelo contrário, o mistério pascal de Cristo não pode ficar somente no passado, já que pela sua morte, Ele destruiu a morte; e tudo o que Cristo é, tudo o que fez e sofreu por todos os homens, participa da eternidade divina, e assim transcende todos os tempos e em todos se torna presente. O acontecimento da cruz e da ressurreição permanece e atrai tudo para a vida” [6].

 

... vivida

Mas para que seja uma relação “viva e pessoal”, a fé tem que impregnar toda a vida do cristão e dar-lhe o sentido do seu viver:

As bem-aventuranças respondem ao desejo natural de felicidade. Este desejo é de origem divina; Deus pô-lo no coração do homem para o atrair a Si, o único que o pode satisfazer. (...)

“As bem-aventuranças descobrem a meta da existência humana, o fim último dos actos humanos: Deus chama-nos à sua própria felicidade. Esta vocação dirige-se a cada um, pessoalmente, mas também ao conjunto da Igreja, povo novo constituído por aqueles que acolheram a promessa e dela vivem na fé (consequências morais) ” [7].

Se a fé é viva, transforma a própria sociedade em que o cristão vive:

“«A vocação própria dos leigos consiste precisamente em procurar o Reino de Deus ocupando-se das realidades temporais e ordenando-as segundo Deus [...]. Pertence-lhes, de modo particular, iluminar e orientar todas as realidades temporais a que estão estreitamente ligados, de tal modo que elas sejam realizadas e prosperem constantemente segundo Cristo, para glória do Criador e Redentor».

“A iniciativa dos cristãos leigos é particularmente necessária quando se trata de descobrir, de inventar meios para impregnar, com as exigências da doutrina e da vida cristã, as realidades sociais, políticas e económicas. Tal iniciativa é um elemento normal da vida da Igreja: «Os fiéis leigos estão na linha mais avançada da vida da Igreja» (Pio XII)” [8].

 

... e rezada

Assim se compreende o lugar vital da oração na vida de fé do cristão:

“A oração cristã é uma relação de aliança entre Deus e o homem em Cristo. É acção de Deus e do homem; jorra do Espírito Santo e de nós, toda orientada para o Pai, em união com a vontade humana do Filho de Deus feito homem” [9].

     E termino com um belo texto do Catecismo que nos remete para o lugar do encontro, onde se estabelece essa “relação viva e pessoal com o Deus vivo e verdadeiro”:

“O coração é a morada onde estou, onde habito (e segundo a expressão semítica ou bíblica, aonde eu «desço»). É o nosso centro oculto, inapreensível, quer para a nossa razão quer para a dos outros: só o Espírito de Deus é que o pode sondar e conhecer. É o lugar da decisão, no mais profundo das nossas tendências psíquicas. É a sede da verdade, onde escolhemos a vida ou a morte. É o lugar do encontro, já que, à imagem de Deus, vivemos em relação: é o lugar da aliança[10].

 

 

Porto, 25-III-2014

Solenidade da Anunciação a Nossa Senhora

 

 

 



[1] Catecismo da Igreja Católica (CEC), n. 2558. O negrito é nosso.

[2] JOÃO PAULO II, Tertio millenio ineunte, n.6.

[3] CEC 203-205.

[4] CEC 423.

[5] CEC 1084.

[6] CEC 1085.

[7] CEC 1718-1719.

[8] CEC 898-899.

[9] CEC 2564.

[10] CEC 2563.


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