TEMAS LITÚRGICOS

DEUS EM PRIMEIRO LUGAR

 

 

 

Juan José Silvestre

Professor de Teologia Litúrgica

Universidade Pontifícia da Santa Cruz (Roma)

 

 

 

 

Oferecemos aos nossos leitores este artigo publicado na revista “Palabra” (Madrid, Janeiro de 2014), a cujo Director agradecemos a autorização.

 

    

"Não ficou sem fruto a discussão difícil e intrincada, pois um dos temas – o primeiro a ser examinado e o primeiro, em certo sentido, na excelência intrínseca e na importância para a vida da Igreja –, o da sagrada Liturgia, foi felizmente concluído e é hoje por Nós solenemente promulgado. Exulta o Nosso espírito com este resultado. Vemos que se respeitou nele a escala dos valores e dos deveres: Deus, em primeiro lugar; a oração, a nossa primeira obrigação; a Liturgia, fonte primeira da vida divina que nos é comunicada, primeira escola da nossa vida espiritual, primeiro dom que podemos oferecer ao povo cristão que junto a nós crê e ora, e primeiro convite dirigido ao mundo para que solte a sua língua muda em oração feliz e autêntica e sinta a inefável força regeneradora, ao cantar connosco os divinos louvores e as esperanças humanas, por Cristo Nosso Senhor e no Espírito Santo" (Paulo VI, Alocução no encerramento da 2ª Sessão do Concílio Vaticano II, 04-XII-1963).

     Estas palavras foram pronunciadas pelo Papa Paulo VI ao terminar a segunda sessão do Concílio Vaticano II e ao promulgar o seu primeiro documento: a Constituição Sacrosanctum Concilium. Colocam-nos perante um tema que tem sido constante no magistério pontifício destes cinquenta anos: recuperar o primado de Deus. De facto, como tem recordado anos mais tarde Bento XVI, referindo-se ao Concílio Vaticano II: "Por meio deste começo com o tema da liturgia, punha-se de manifesto inequivocamente o primado de Deus e o primado do tema de Deus: Primeiro Deus, é o que nos diz o começar pela Liturgia" (Bento XVI, Prefácio, Obras completas, vol. 11).

     Na nossa opinião, poder-se-ia afirmar que o Vaticano II começando pela liturgia deu ao Concílio uma arquitectura precisa: o primado da adoração, porque o primeiro é Deus. Assim colocava-se na linha da Regra beneditina: "Operi Dei nihil proponatur", que nada se anteponha à obra de Deus. Por sua vez, a Constituição Lumen gentium, sobre a Igreja, estaria essencialmente ligada à anterior. A Igreja deixar-se-ia guiar pela oração, pela missão de glorificar a Deus. Neste sentido, parece lógico que a terceira Constituição – Dei verbum – fale da Palavra de Deus que em todo tempo convoca e renova a Igreja. Finalmente, a quarta Constituição – Gaudium et spes – mostraria como tem lugar a glorificação de Deus na vida activa: levando ao mundo a luz recebida de Deus, o mundo transforma-se e converte-se plenamente na glorificação de Deus. A glória de Deus é o homem vivente (cf. 1 Co 10, 31). E a vida do homem é a visão de Deus, como dizia Santo Ireneu.

     Recuperar este "primado" de Deus era um objectivo fundamental do Concílio Vaticano II. E continua a sê-lo. João Paulo II recordou-o aos 25 anos da Sacrosanctum Concilium, e agora o Papa Francisco continua a recordar essa necessidade de dar a Deus o primeiro lugar: "Não é útil dispersar-se em muitas coisas secundárias ou supérfluas, mas concentrar-se na realidade fundamental que é o encontro com Cristo, com a sua misericórdia, o seu amor, e em amar os irmãos como Ele nos amou. Um encontro com Cristo que também é adoração, palavra pouco usada: adorar a Cristo (Discurso ao Conselho Pontifício para a promoção da Nova Evangelização, 14-X-2013).

     Com a sua linguagem directa, o Bispo de Roma pergunta: "Tu, eu, adoramos o Senhor? Vamos ter com Deus só para pedir, para agradecer, ou vamos até Ele também para O adorar? Mas então que significa adorar a Deus? Significa aprender a estar com Ele, demorar-se em diálogo com Ele, sentindo a sua presença como a mais verdadeira, a melhor, a mais importante de todas" (Papa Francisco, Homilia na Missa em S. Paulo Extramuros, 14-IV-2013).

     Este significado de adoração, que apresenta o Papa Francisco, tem consequências práticas imediatas que se referem aos edifícios de culto e às celebrações litúrgicas. Concluímos com as suas palavras concretas e directas que movem ao exame e a pôr-se em caminho: "O templo é o lugar onde a comunidade acorre para rezar, louvar o Senhor, agradecer. De facto, no templo adora-se o Senhor. Este é o ponto mais importante. E esta verdade vale para todo o templo e para toda a cerimónia litúrgica onde aquilo que é mais importante é a adoração, não os cânticos ou ritos, embora sejam belos. Toda a comunidade reunida olha para o altar onde se celebra o sacrifício e adora. Humildemente creio que nós os cristãos talvez tenhamos perdido um pouco o sentido da adoração. Pensamos: vamos ao templo, reunimo-nos como irmãos, e isto é bom, é belo. Mas o centro está ali onde está Deus. Nós adoramos a Deus” (Homilia, Casa de Santa Marta, 22-XI-2013).

 


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