A PALAVRA DO PAPA

O SACERDOTE EM TEMPO DA MISERICÓRDIA [*]


 

 

 

Quando, juntamente com o Cardeal Vigário, pensámos neste encontro, eu disse-lhe que poderia dar-vos uma meditação sobre o tema da misericórdia. No início da Quaresma, faz-nos bem reflectir juntos, como sacerdotes, sobre a misericórdia. E também para os fiéis, porque como pastores devemos ter muita misericórdia, muita!

O trecho do Evangelho de Mateus que escutámos faz-nos dirigir o olhar para Jesus que caminha pelas cidades e aldeias. E isto é curioso! Qual é o lugar onde Jesus estava mais frequentemente, onde era possível encontrá-lo com maior facilidade? Nas estradas. Podia parecer que era um sem-abrigo, porque estava sempre na estrada. A vida de Jesus era na estrada. Isto ajuda-nos, sobretudo, a compreender a profundidade do seu coração, aquilo que Ele sente pelas multidões, pela gente que encontra: aquela atitude interior de “compaixão”; vendo as multidões, sentia compaixão. Porque vê as pessoas “cansadas e exaustas, como ovelhas sem pastor”. Ouvimos tantas vezes estas palavras, que talvez não nos impressionam com força. Contudo, são fortes! Um pouco como tantas pessoas que encontrais hoje pelas ruas dos vossos bairros... Depois, o horizonte amplia-se, e vemos que estas cidades e estas aldeias não são só Roma e a Itália, mas o mundo inteiro... e aquelas multidões exaustas são populações de tantos países que estão a sofrer situações ainda mais difíceis...

Então, compreendemos que nós não estamos aqui para fazer um belo exercício espiritual no início da Quaresma, mas para ouvir a voz do Espírito que fala a toda a Igreja neste nosso tempo, que é precisamente o tempo da misericórdia. Disto estou convencido! Não se trata apenas da Quaresma; nós estamos a viver num tempo de misericórdia, desde há trinta anos ou mais, até hoje.

 

1. Em toda a Igreja é tempo da misericórdia

 

Esta foi uma intuição do beato João Paulo II. Ele teve o “olfacto” de que este era o tempo da misericórdia. Pensemos na beatificação e canonização da Irmã Faustina Kowalska; depois, introduziu a festa da Divina Misericórdia. Pouco a pouco foi avançando, foi para a frente com isto.

Na homilia para a canonização, que teve lugar em 2000, João Paulo II realçou que a mensagem de Jesus Cristo à Irmã Faustina se situa no tempo entre as duas guerras mundiais e está muito ligada à história do século XX. E, olhando para o futuro, disse: «O que nos trarão os anos que estão diante de nós? Como será o futuro do homem sobre a terra? A nós não é dado sabê-lo. Contudo, é certo que, ao lado de novos progressos, infelizmente não faltarão experiências dolorosas. Mas a luz da divina misericórdia, que o Senhor quis como que entregar de novo ao mundo através do carisma da Irmã Faustina, iluminará o caminho dos homens do terceiro milénio». É claro! Em 2000 tornou-se explícito, mas era algo que no seu coração já ia amadurecendo havia tempo. Na sua oração, ele teve esta intuição.

Hoje esquecemo-nos demasiado depressa de tudo, até do Magistério da Igreja! Em parte, é inevitável, mas não podemos esquecer os grandes conteúdos, as grandes intuições e os legados deixados ao Povo de Deus. E o da divina misericórdia é um deles. É um legado que ele nos deixou, mas que vem do alto. Compete a nós, como ministros da Igreja, manter viva esta mensagem, sobretudo na pregação e nos gestos, nos sinais, nas opções pastorais, por exemplo a opção de restituir a prioridade ao sacramento da Reconciliação e, ao mesmo tempo, às obras de misericórdia. Reconciliar, trazer a paz mediante o Sacramento, e também com as palavras e com as obras de misericórdia.

 

2. O que significa misericórdia para os sacerdotes?

 

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Interroguemo-nos sobre o que significa misericórdia para um sacerdote, permiti-me dizê-lo para nós, sacerdotes. Para nós, para todos nós! Os sacerdotes comovem-se diante das ovelhas, como Jesus, quando via as pessoas cansadas e exaustas, como ovelhas sem pastor. Jesus tem as “entranhas” de Deus, Isaías fala muito disto: está cheio de ternura pelas pessoas, especialmente pelas pessoas excluídas, isto é, pelos pecadores, pelos doentes dos quais ninguém se ocupa... Assim, à imagem do Bom Pastor, o sacerdote é um homem de misericórdia e de compaixão, próximo do seu povo e servidor de todos. Este é um critério pastoral que gostaria de realçar muito: a proximidade! A proximidade e o serviço, mas proximidade! ... Quem quer que se encontre ferido na sua vida, de qualquer modo, pode encontrar nele atenção e escuta... Em particular, o sacerdote demonstra entranhas de misericórdia ao administrar o sacramento da Reconciliação; demonstra-o em todas as suas atitudes, no modo de acolher, de escutar, de aconselhar, de absolver... Mas isto deriva de como ele próprio vive o sacramento em primeira pessoa, de como se deixa abraçar por Deus Pai na Confissão, e permanece dentro deste abraço... Se vive isto em si, no seu próprio coração, pode também dá-lo aos outros no ministério. E deixo-vos uma pergunta: Como me confesso? Deixo-me abraçar? Vem-me ao pensamento um grande sacerdote de Buenos Aires, tem menos anos do que eu, terá 72 anos... Uma vez veio ter comigo. É um grande confessor: para ele há sempre fila... A maioria dos sacerdotes vai confessar-se com ele... É um grande confessor! E uma vez veio ter comigo: “Mas Padre...”, “Diz-me”, “Eu tenho um pouco de escrúpulo, porque sei que perdoo demasiado!”; «Reza... se tu perdoas demasiado...”. E falámos da misericórdia. A certa altura ele disse-me: “Sabes, quando sinto que este escrúpulo é forte, vou à capela, diante do Tabernáculo, e digo-lhe: Perdoa-me, Tu tens a culpa, porque me deste o mau exemplo! E vou-me embora tranquilo...”. É uma bonita prece de misericórdia! Se, na Confissão, se vive isto dentro de si, no próprio coração, pode também dá-lo aos outros.

O sacerdote é chamado a aprender isto, a ter um coração que se comove. Os sacerdotes – permito-me a palavra – “ascetas”, os “de laboratório”, completamente limpos e bonitos, não ajudam a Igreja. Hoje podemos pensar a Igreja como um “hospital de campo”. Isto, desculpai-me, repito-o, porque vejo assim, sinto assim: um “hospital de campo”. É necessário curar as feridas, tantas feridas! Tantas feridas! Há muitas pessoas feridas, por problemas materiais, por escândalos, também na Igreja... Pessoas feridas pelas ilusões do mundo... Nós, sacerdotes, devemos estar ali, próximos destas pessoas. Misericórdia significa, antes de tudo, curar as feridas. Quando alguém está ferido, tem necessidade imediata disto, não de análises, como os valores do colesterol, da glicémia... Mas há a ferida, cura a ferida, e depois veremos as análises. Depois far-se-ão os tratamentos especializados, mas antes é necessário curar as feridas abertas. Para mim, neste momento, isto é mais importante. E existem também feridas escondidas, porque há pessoas que se afastam, para que não se lhes vejam as feridas... Vem-me ao pensamento o costume, pela lei mosaica, dos leprosos no tempo de Jesus, que eram sempre afastados, para não contagiarem... Há pessoas que se afastam por vergonha, pela vergonha de não mostrarem as feridas... E afastam-se talvez um pouco melindradas com a Igreja, mas no fundo, lá dentro, há uma ferida... Querem uma caricia! E vós, queridos irmãos – pergunto-vos –, conheceis as feridas dos vossos paroquianos? Conseguis intuí-las? Estais próximos deles? É a única pergunta...

 

3. Misericórdia significa nem mãos-largas nem rigor

 

Voltemos ao sacramento da Reconciliação. Sucede frequentemente connosco, sacerdotes, ouvir a experiência dos nossos fiéis, que nos contam ter encontrado na Confissão um sacerdote muito “estrito”, ou então muito “liberal”, rigorista ou laxista. E isto não está bem. Que entre os confessores haja diferenças de estilo, é normal, mas estas diferenças não podem referir-se à substância, isto é, à sã doutrina moral e à misericórdia. Nem o laxista nem o rigorista dão testemunho de Jesus Cristo, porque nem um nem outro se interessa pela pessoa que encontra. O rigorista lava as mãos: com efeito, prega-a à lei entendida de modo frio e rígido; também o laxista lava as mãos: só aparentemente é misericordioso, mas na realidade não toma a sério o problema daquela consciência, minimizando o pecado. A verdadeira misericórdia interessa-se pela pessoa, escuta-a atentamente, aproxima-se com respeito e com verdade à sua situação, e acompanha-a no caminho da reconciliação. Isto é cansativo, sim, não há dúvida. O sacerdote verdadeiramente misericordioso comporta-se como o Bom Samaritano... mas por que o faz? Porque o seu coração é capaz de compaixão, é o Coração de Cristo!

Sabemos bem que nem o laxismo nem o rigorismo fazem crescer a santidade. Talvez alguns rigoristas possam parecer santos, santos... Mas pensai em Pelágio, e depois poderemos falar... Não santificam o sacerdote e não santificam o fiel, nem o laxismo, nem o rigorismo! Pelo contrário, a misericórdia acompanha o caminho da santidade, acompanha-a e fá-la crescer... É demasiado trabalho para um pároco? É verdade, é demasiado trabalho! E de que modo ele acompanha e faz crescer o caminho da santidade? Através do sofrimento pastoral, que é uma forma da misericórdia. O que significa sofrimento pastoral? Quer dizer sofrer pelas pessoas e com as pessoas. E isto não é fácil! Sofrer como um pai e uma mãe sofrem pelos seus filhos; permito-me dizer, até com ansiedade...

 

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* Excerto da meditação do Papa Francisco aos párocos de Roma, na Sala Paulo VI, no início da Quaresma (6-III-2014).

Título da Redacção de CL.


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