CANTAI COMIGO...!

A HOMENAGEM DE CELEBRAÇÃO LITÚRGICA

AO P. HENRIQUE FERREIRA DE FARIA

 

À semelhança do sol que lentamente mergulha no horizonte distante, emitindo, como despedida, um último raio de luz, assim vimos partir o Padre Henrique Ferreira de Faria ao findar do dia 10 de Março.

Tinha nascido a 9 do mesmo mês, em 1929, na paróquia de S. Tiago de Areias, concelho de Santo Tirso e Diocese de Braga onde recebeu o Baptismo; foi ordenado presbítero em 15 de Agosto de 1952, na Sé de Braga. Foi nomeado pároco de Gualtar, Braga (1952-1956); permaneceu alguns meses no Santuário do Sameiro, ajudando o reitor, Monsenhor Abílio Araújo na paroquialidade de Espinho e nos trabalhos do mesmo Santuário. Terá sido Mons. Abílio, natural daquela paróquia, que o indicou para pároco de Ribeirão, arciprestado de V. N. Famalicão em 1956.

Em Ribeirão preparou cuidadosamente o seu sucessor e saiu para S. Cosme do Vale, do mesmo Arciprestado em Setembro de 1978; a saúde não lhe permitiu continuar lá muito tempo, pelo que foi nomeado Professor de música do Seminário de Nossa Senhora da Conceição e professor de Liturgia da Faculdade de Teologia de Braga. Quando as forças se negaram a continuar, recolheu à Casa Sacerdotal.

Mesmo já num regime de descanso, entregou-se a actividades que a sua pouca saúde lhe permitia: ensaiou e dirigiu o coro litúrgico de Maximinos e preparou para publicação um caderno com algumas das suas composições: A caminho (2010). Mais tarde publicou Cantares de Peregrino (2012).

Era admirado por todos, como referência pastoral. Incrementou a Catequese, adaptando-a às novas exigências pedagógicas, fundou várias associações de fiéis e organizou um notável coro litúrgico. Cuidou a formação intensa dos paroquianos com a organização de retiros, encontros de formação e várias outras actividades

Quis o Senhor que ele colhesse abundantes frutos deste zelo: conduziu à ordenação sacerdotal vários paroquianos, orientou vocações para várias congregações e institutos de vida religiosa e de santificação no mundo.

Marcou especialmente a vida do P. Henrique a descoberta do Opus Dei como caminho de santificação também para os sacerdotes diocesanos. Conheceu a Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz (Opus Dei) por meio de sacerdotes amigos com quem convivia habitualmente.

Captou, desde o primeiro momento, a santidade de S. Josemaria, manifestando para com ele uma grande devoção logo após a sua ida para o Céu. Empenhou-se na distribuição dos Boletins informativos, estampas, inscrições de assinantes, etc.

Era um sacerdote respeitado e acarinhado por todo o presbitério que entrava em contacto com ele.

Desenvolveu intensas relações de amizade com o presbitério em que estava inserido, conseguindo um ambiente de sã amizade, alegria e zelo pastoral. Sobressaiu como pároco animado pelo zelo das coisas de Deus. Primeiro, em Gualtar; Braga (4 anos) e depois em Ribeirão e S. Cosme do Vale, de Vila Nova de Famalicão. Não se deixava levar por entusiasmos fáceis.

Em 1969, pouco depois do encerramento do Concílio Vaticano II, toda a Igreja se viu a braços com uma reforma litúrgica, a partir dos ensinamentos do Concílio Vaticano II.

Esta reforma foi iniciada em Portugal sem livros litúrgicos nem qualquer ajuda para preparar a Mesa da Palavra.

Numa recolecção para sacerdotes, na Quinta de Enxomil, surgiu a ideia de uma entreajuda sacerdotal neste campo. Imediatamente foi distribuída uma circular anunciando essa mesma ajuda corporizada na revista Celebração Litúrgica. O P. Faria foi um dos 4 que subscreveram a circular. Fornecer-se-iam os textos litúrgicos e algumas pistas para a preparação da homilia, além de sugestões de cânticos.

Ele foi um dos “guerreiros” da primeira hora. Num primeiro tempo, houve meses em que esta colaboração foi sustentada exclusivamente por ele e por outro colaborador. Estava-se no verão de 1970. Pôs à disposição da equipa todos os meios de que dispunha: máquinas de escrever,  impressora a ciclostil, etc. Como se isto não bastasse, adaptava ou compunha refrães de salmos para que o salmo responsorial pudesse ser cantando.

Se tivermos em conta o ingente e cansativo trabalho de uma grande paróquia, compreenderemos que o P Faria foi também neste particular um herói desconhecido.

Porque este era o seu lema: fazer o bem, o que era preciso, e desaparecer. Nunca o ouvimos gloriar-se da ajuda imprescindível à revista, embora esta tenha continuado toda a sua vida, com textos, sugestões, palavras de ânimo, etc.

Hoje compreendemos que era movido pelo seu grande amor à liturgia e espírito de serviço aos colegas sacerdotes.

Se quisermos encontrar uma nota fundamental na sua vida veremos que foi simples e humilde, ao mesmo tempo que temperava tudo isto com um fino sentido de humor.

Marcou toda a sua vida a devoção à Santíssima Eucaristia e a Nossa Senhora. A tornar visível esta afirmação estão as numerosas composições dele que hoje são cantadas onde quer que se encontre um punhado de portugueses. João Paulo II, aquando da visita pastoral ao Luxemburgo, ao ouvir os emigrantes portugueses cantar o cântico Eucarístico de Acção de graças Cantai comigo, povos da terra e anjos do Céu, uniu a sua voz sonora à da multidão.

Foi também o gosto pela liturgia, desde os tempos do Seminário, que o levou a ser um apreciado compositor musical. Já nos tempos de seminarista era um exímio executante de órgão, enchendo a capela de Teologia, nas celebrações, de acordes festivos.

Escreveu sobre ele um jornalista do Correio do Minho: «O padre Henrique Faria deixa-nos uma belíssima herança musical, pautada pelas necessidades pastorais, especialmente através de composições para os mais pequenos e os menos dotados de conhecimentos musicais. [...] o padre Henrique Faria mostra-se um homem com um ouvido fantástico e uma capacidade invulgar para organizar e pôr um grupo coral a cantar bem.[...]

As suas composições destacavam-se por um lirismo religioso distinto e uma simplicidade cativantes para os iniciados na arte dos sons. O padre Henrique Faria é um dos representantes de uma geração ímpar da música sacra de Braga [...]».

Viveu a sério a santificação pelo trabalho, eixo da espiritualidade do Opus Dei. Nunca estava satisfeito com uma composição e, se era possível procurava melhorá-la sempre. Impressionava o cuidado meticuloso com que preparava as aulas de liturgia, mesmo depois de leccionar há vários anos. Nunca estava contente com o trabalho realizado.

Há vários meses que se encontrava acamado, na Casa Sacerdotal S. Martinho de Dume, da Arquidiocese Braga, para descansar de uma longa e generosa vida de trabalho ao serviço da Igreja. A forma como foi acompanhado pelos seus amigos sacerdotes não passou desapercebida. Efectivamente, desde há vários anos que o visitavam com pontual assiduidade (nos últimos meses era quase diária), e ele agradecia sinceramente essas atenções. Raramente se queixava e, normalmente, demonstrava o seu fino sentido de humor. De tal modo que as visitas se tornavam muito agradáveis. Ajudavam-no a rezar, a fazer algum acto de piedade e a rezar a Liturgia das Horas. Por vezes, cantavam com ele alguma das suas composições, ou alguma outra canção ou cântico. A véspera da sua morte coincidiu com o seu dia de aniversário. Foi uma data redonda, oitenta e cinco anos. Para o celebrar, alguns sacerdotes amigos foram visitá-lo e cantaram-lhe canções. Embora tivesse passado o dia muito apagado, nesse momento, reagiu e viveu aqueles momentos com interesse.

Foi um momento bonito. Uma religiosa que entrou no quarto durante um momento referiu-se depois a ele como «uma despedida». Ficara emocionada com o carinho e com a forma como ele tinha vivido tudo aquilo depois de um dia tão apagado.

Quando a saúde se começou a debilitar pediu espontaneamente para que lhe administrassem a unção dos doentes. Como bom liturgista que era, viveu-a com muita piedade e rigor. Preparou-se e fez sugestões concretas e até quis que se cantasse um ou dois cânticos.

Penso que a última composição musical que escreveu foi Senhora do Manto Lindo. Encontrou o poema numa revista e ia trauteando a melodia e escrevendo as notas num papel que trazia sempre consigo.

Sem se combinarem uns com os outros, em vários locais este cântico foi cantado na Missa dominical, depois de conhecida a notícia da sua morte.

Vimo-lo no último adeus a esta vida. Mantinha o rosto sereno de paz que sempre lhe vimos, e um leve sorriso com que terá entrado as portas do Céu. Deixou à entrada do paraíso, mas mãos do primeiro anjo que saiu a acolhê-lo, o lápis e o papel que sempre trazia consigo, para que nenhuma inspiração se perdesse.

 

Divino Salvador de Joane, 20 de Março, de 2014.

FS


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial