SÍNODO DOS BISPOS

FAMÍLIA EM QUESTÃO

 

D. António Vitalino*

Bispo de Beja

 

1. Questões sobre a família

Nos últimos dias a comunicação social tem posto na praça pública muitas questões sobre o pensamento da Igreja católica acerca da família. Primeiro, ao tomar conhecimento do questionário enviado de Roma para preparar o Sínodo dos Bispos, convocado pelo Papa Francisco para 2014 e 2015 e que versará sobre esta temática. Depois ao saber da carta pastoral acerca da ideologia do género, publicada pela conferência episcopal portuguesa a 14 de novembro.

Mas, afinal, vai haver ou houve mudanças substanciais no pensamento da Igreja acerca da família? Ou apenas mudança de sensibilidade e atitude na relação com as famílias e pessoas que não vivem de acordo com a doutrina tradicional da Igreja católica?

Em primeiro lugar, convém desfazer alguns mal entendidos. Sempre foi costume fazer anteceder os sínodos com muitas questões acerca do tema escolhido. Desta vez, talvez também por vontade expressa do Papa Francisco, o questionário sobre a família deve ser respondido não apenas por membros do clero, mas também pelos leigos. Além disso, há perguntas sobre atitudes expressamente contrárias à doutrina tradicional da Igreja sobre o casamento e a família. O Sínodo quer saber a sensibilidade dos católicos a esse respeito, com frontalidade, sem subterfúgios. Isso não significa que tenciona mudar a doutrina da Igreja, que assenta na revelação bíblica e na antropologia judaico-cristã.

Sem querer antecipar as respostas ou influenciar a liberdade dos membros do Sínodo, representantes dos bispos de todo o mundo, e, quem sabe, talvez também de leigos, pelo menos como ouvintes e consultores, destina-se esta breve nota a tranquilizar os católicos, pelo menos os diocesanos de Beja, pedindo-lhes para responder às questões, sem preconceitos ou temor, fazendo-se intérpretes da real situação e sensibilidade das famílias, pois só assim a Igreja poderá encontrar respostas a problemas reais e desenvolver práticas pastorais que ajudem verdadeiramente as famílias, cujo bem nos deve preocupar sempre, sobretudo as mais fragilizadas por problemas de vária ordem.

 

2. Famílias heróicas

Apesar de nos devermos preocupar com as famílias afetadas pelo mais diverso tipo de crises, gostaria de aqui deixar o meu apreço por tantos casais e famílias que conseguem crescer na comunhão e amor do casamento entre homem e mulher, mantendo-se fiéis e sendo generosos na transmissão da vida a novas gerações, contribuindo assim para a construção do bem comum da sociedade, sobretudo a europeia, que já não consegue renovar as gerações, e vai envelhecendo galopantemente. E nem a imigração de gente nova no ativo consegue contrariar. Mesmo a nível económico a situação vai degradando. Mas sobre isso muito se tem escrito.

Esta visão da Igreja sobre o casamento não vai mudar. A carta pastoral dos bispos portugueses sobre a ideologia do género, mostrando as implicações e consequências da sua aceitação em muitos países e a nível da comunidade europeia, reafirma essa visão e fundamenta a mesma na antropologia judaico-cristã, no bem comum e no desenvolvimento integral da nossa sociedade. A ideologia do género implica uma mutação cultural, com graves consequências para o mundo, muitas delas ainda pouco refletidas.

Mas pode sim haver alguma alteração na atitude da Igreja para com aqueles que não conseguem realizar e viver na perfeição este ideal de vida cristã. Digo dos que não conseguem e não dos que não querem. Por isso é importante ouvir das pessoas implicadas a sua sensibilidade e realidade concreta, para encontrarmos essas atitudes pastorais, à semelhança de Jesus, o bom pastor, que se compadecia das multidões e dos pecadores.

Como bispo diocesano peço a todos que respondam às questões formuladas. Quem não tiver acesso à internet, pode dirigir-se aos párocos e movimentos católicos e pedir o elenco das perguntas enviadas pelo secretariado do Sínodo. Como são muito complexas, o Patriarcado de Lisboa desdobrou-as em questões que podem ser respondidas com uma simples cruz. Também este formulário está acessível on-line na página do Patriarcado ou pode ser pedido aos párocos. Não deixem de refletir e responder, se possível até dia 15 de dezembro, entregando as respostas aos párocos ou enviando-as para a diocese, pois é também uma maneira de vivermos o nosso sínodo diocesano, em que desejamos caminhar mais unidos, na fé, na esperança e no amor.

 

 

 



* Nota semanal, publicada em Notícias de Beja, 28-XI-2013.


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