DOCUMENTAÇÃO

COMISSÃO TEOLÓGICA INTERNACIONAL

 

O MONOTEISMO CRISTÃO CONTRA A VIOLÊNCIA

Apresentação

 

 

No quinquénio 2009-2014, a Comissão Teológica Internacional levou a cabo um estudo acerca de alguns aspectos do discurso cristão sobre Deus, defrontando-se sobretudo com a tese segundo a qual haveria uma relação necessária entre monoteísmo e violência.

O presente texto, com o título “Deus Trindade, unidade dos homens. O monoteísmo cristão contra a violência", foi aprovado pela Comissão "em forma específica" em 6 de Dezembro de 2013, e entregue, em seguida ao seu Presidente, o arcebispo Gerhard L. Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que autorizou a sua publicação.

Damos a conhecer a Apresentação introdutória do documento, cujo original italiano se encontra em www.vatican.va .

 

 

O texto de reflexão teológica que apresentamos propõe-se evidenciar alguns aspectos do discurso cristão sobre Deus que, no contexto actual, requerem uma clarificação teológica específica. A ocasião imediata desta clarificação é a teoria, exposta com diversos argumentos, segundo a qual existe uma relação necessária entre o monoteísmo e as guerras de religião. A discussão em torno desta ligação revelou muitos motivos de mal-entendimento da doutrina religiosa, a ponto de obscurecer o autêntico pensamento cristão do único Deus.

Poderíamos resumir o objectivo do nosso discurso numa dupla pergunta: (a) Como é que a teologia católica pode confrontar-se criticamente com a opinião cultural e política que estabelece uma relação intrínseca entre monoteísmo e violência? (b) Como é que a pureza religiosa da fé no único Deus pode ser reconhecida como princípio e fonte do amor entre os homens?

A nossa reflexão pretende apresentar-se em chave de testemunho argumentado, e não de contraposição apologética. A fé cristã, com efeito, reconhece na excitação à violência em nome de Deus a máxima corrupção da religião. O cristianismo alcança esta convicção a partir da revelação da própria intimidade de Deus, que nos chega através de Jesus Cristo. A Igreja dos crentes é consciente do facto de que o testemunho desta fé requer ser honrado por uma atitude de conversão permanente: que implica também a "parresía" (isto é, a corajosa franqueza) da necessária autocrítica.

No Capítulo I, propusemo-nos clarificar o tema do "monoteísmo" religioso na acepção que recebe em algumas orientações da hodierna filosofia política. Estamos conscientes de que tal evolução apresenta, hoje, um espectro muito diferenciado de posições teóricas, que vão desde o fundo clássico do ateísmo dito humanista até às formas mais recentes do agnosticismo religioso e do laicismo político. A nossa reflexão desejaria, antes de mais, precisar que a noção de monoteísmo, não destituída de significado para a história da nossa cultura, permanece ainda demasiado genérica, quando se utiliza como cifra de equivalência das religiões históricas que professam a unicidade de Deus (identificadas como Judaísmo, Islamismo, Cristianismo). Em segundo lugar, formulamos a nossa reserva crítica em face de uma simplificação cultural que reduz a alternativa à escolha entre um monoteísmo necessariamente violento e um politeísmo supostamente tolerante.

De qualquer forma, nesta reflexão sustém-nos a convicção – de que temos motivo para considerar partilhada por muitíssimos contemporâneos nossos, crentes e não-crentes – de que as guerras interreligiosas, como também a guerra contra a religião, são de todo insensatas.

Em seguida, como teólogos católicos, procurámos depois ilustrar, a partir da verdade de Jesus Cristo, a relação entre revelação de Deus e humanismo não-violento. Fizemo-lo mediante a reexposição de algumas implicações da doutrina particularmente idónea para iluminar o debate hodierno: quer quanto à autêntica compreensão da confissão trinitária do Deus único, quer quanto diz respeito à abertura da revelação cristológica para a recuperação do vínculo entre os homens.

No Capítulo II, indagamos o horizonte da fé bíblica, com especial atenção ao tema das suas "páginas difíceis": isto é, aquelas em que a revelação de Deus se encontra envolvida nas formas da violência entre os homens. Tentamos identificar os pontos de referência que a própria tradição escriturística realça – no seu seio – para a interpretação da Palavra de Deus. Com base neste reconhecimento, oferecemos um primeiro esboço de enquadramento antropológico e cristológico dos desenvolvimentos da interpretação do tema, requeridos pela condição histórica actual.

No Capítulo III, propomos um aprofundamento do evento da morte e da ressurreição de Jesus, na chave da reconciliação entre os homens. A oikonomia é aqui essencial à determinação da theologia. A revelação inscrita no evento de Jesus Cristo, que torna universalmente relevante a manifestação do amor de Deus, permite neutralizar a justificação religiosa da violência com base na verdade cristológica e trinitária de Deus.

No Capítulo IV, a nossa reflexão empenha-se na ilustração das aproximações e das implicações filosóficas do pensamento de Deus. Abordam-se aqui, antes de mais, os pontos de discussão com o ateísmo hodierno, largamente concentrado nas teses de um naturalismo antropológico radical. Por fim – também em prol do confronto interreligioso sobre o monoteísmo – propomos uma espécie de meditação filosófico- teológica sobre a integração entre a revelação da íntima disposição relacional de Deus e a concepção tradicional da sua absoluta simplicidade.

Por último, no Capítulo V, resumimos os elementos da especificidade cristã que definem o empenho do testemunho eclesial na reconciliação dos homens com Deus e entre eles. A revelação cristã purifica a religião, no próprio momento em que lhe restitui o seu significado fundamental para a experiência humana do sentido. Por isso, no nosso convite à reflexão temos bem presente a necessidade especial – sobretudo no hodierno horizonte cultural – de tratar sempre conjuntamente o conteúdo teológico e o desenvolvimento histórico da revelação cristã de Deus.

 

 


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