DOCUMENTAÇÃO

PAPA FRANCISCO

 

ENTREVISTA AO JORNAL LA STAMPA

 

O jornal italiano “La Stampa” publicou no passado dia 15 de Dezembro uma entrevista ao Papa Francisco a propósito do Natal, realizada por Andrea Tornielli.

Pelo grande interesse que tem, esclarecendo certas especulações que iam surgindo, damos aos nossos leitores um apanhado de algumas questões, tomado de “L'Osservatore Romano”, ed. port., de 19/26-XII-2013.

 

 

La Stampa: O que diz o Natal ao homem de hoje?

 

Papa Francisco: Fala-nos da ternura e da esperança. Encontrando-nos, Deus diz-nos duas coisas. A primeira é: tende esperança! Deus abre sempre as portas, nunca as fecha. Ele é o pai que nos abre as portas. Segunda: não tenhais medo da ternura! Quando os cristãos se esquecem da esperança e da ternura, tornam-se uma Igreja insensível, que não sabe para onde ir e se acomoda nas ideologias, nas atitudes mundanas. Enquanto a simplicidade de Deus te diz: vai em frente, eu sou um Pai que te acaricia. Tenho medo quando os cristãos perdem a esperança e a capacidade de abraçar e de acariciar. Talvez por este motivo, olhando para o futuro, eu falo com frequência das crianças e dos idosos, isto é, dos mais indefesos. Na minha vida de sacerdote, trabalhando na paróquia, sempre procurei transmitir esta ternura, principalmente às crianças e aos idosos. Isto faz-me bem, leva-me a pensar na ternura que Deus tem para connosco.

 

Em Janeiro, farão 50 anos da histórica viagem de Paulo VI à Terra Santa. O senhor pensa ir?

 

O Natal sempre nos faz pensar em Belém, e Belém é um ponto preciso, na Terra Santa onde Jesus viveu. Na noite de Natal, penso principalmente nos cristãos que ali vivem, naqueles que têm dificuldades, em muitos deles que tiveram de deixar aquela terra por vários problemas. Mas Belém continua a ser Belém. Deus veio a um ponto determinado, numa terra determinada, ali apareceu a ternura de Deus, a graça de Deus. Não podemos pensar no Natal sem pensar na Terra Santa. Há cinquenta anos, Paulo VI teve a coragem de sair para ir lá, e assim começou a época das viagens papais. Também eu desejo ir até lá, para encontrar o meu irmão Bartolomeu, patriarca de Constantinopla, e com ele comemorar este cinquentenário, renovando o abraço entre o Papa Montini e Atenágoras, ocorrido em Jerusalém em 1964. Estamos a preparar-nos para isso.

 

Alguns trechos da Evangelii gaudium atraíram sobre o senhor as acusações dos ultraconservadores norte-americanos. Que efeito faz a um Papa ouvir que é definido como "marxista"?

 

A ideologia marxista é errada. Mas, na minha vida, conheci muitos marxistas bons como pessoas e, por isso, não me sinto ofendido.

 

As palavras que mais impressionaram foram aquelas sobre a economia que «mata» …

 

Na Exortação, não há nada que não se encontre na Doutrina Social da Igreja. Não falei sob um ponto de vista técnico, mas procurei apresentar uma fotografia daquilo que acontece. A única citação específica foi sobre as teorias da «recaída favorável», segundo as quais todo o crescimento económico, favorecido pelo mercado livre, consegue produzir por si só uma maior equidade e inclusão social no mundo. Havia a promessa de que, quando o copo estivesse cheio, ele transbordaria e os pobres seriam beneficiados com isso. Acontece, pelo contrário, que, quando está cheio, o copo magicamente aumenta de tamanho, e assim nunca sobeja nada para os pobres. Esta foi a única referência a uma teoria específica. Repito, não falei como técnico, mas segundo a doutrina social da Igreja. E isto não significa ser marxista.

 

O senhor anunciou uma «conversão do papado». Os encontros com os patriarcas ortodoxos sugeriram-lhe algum caminho concreto?

 

João Paulo II tinha falado de modo ainda mais explícito de uma forma de exercício do primado, que se abra a uma situação nova. Mas não só do ponto de vista das relações ecuménicas, mas também nas relações com a Cúria e com as Igrejas locais. Nestes primeiros nove meses, recebi a visita de muitos irmãos ortodoxos, Bartolomeu, Hilarion, o teólogo Zizioullas, o copto Tawadros: este último é um místico, entrava na capela, tirava os sapatos e ia rezar. Senti-me irmão deles. Eles têm a sucessão apostólica, recebi-os como irmãos bispos. É uma dor ainda não poder celebrar a Eucaristia juntos, mas existe a amizade. Penso que o caminho é este: amizade, trabalho comum e orar pela unidade. Abençoamo-nos uns aos outros, um irmão abençoa o outro, um irmão chama-se Pedro e outro chama-se André, Marcos, Tomé...

 

Na Exortação, o senhor convidou a opções pastorais prudentes e audazes, em relação aos sacramentos. A que se referia?

 

Quando eu falo de prudência, não penso numa atitude paralisante, mas numa virtude de quem governa. A prudência é uma virtude de governo. Também a audácia o é. Deve-se governar com audácia e com prudência. Falei do baptismo, e da comunhão como alimento espiritual para ir em frente, que devem ser considerados um remédio e não um prémio. Alguns pensaram imediatamente nos sacramentos para os divorciados recasados, mas eu não desci a casos particulares: queria apenas indicar um princípio. Devemos procurar facilitar a fé das pessoas, mais do que controlá-la. No ano passado, na Argentina, tinha denunciado a atitude de alguns padres que não baptizavam os filhos das mães solteiras. É uma mentalidade doentia.

 

E quanto aos divorciados recasados?

 

A exclusão da comunhão para os divorciados que vivem uma segunda união não é uma sanção. É bom recordar isto. Mas não falei disto na Exortação.

 

O próximo Sínodo dos Bispos tratará disso?

 

A sinodalidade na Igreja é importante: do matrimónio, no seu conjunto, falaremos nas reuniões do consistório em Fevereiro. Depois, o tema será abordado no Sínodo extraordinário de Outubro de 2014 e, ainda, durante o Sínodo ordinário do ano seguinte. Nesses âmbitos, muitas coisas serão aprofundadas e esclarecidas.

 

Como se desenvolve o trabalho dos seus oito «conselheiros» para a reforma da Cúria?

 

O trabalho é longo. Quem queria apresentar propostas ou enviar ideias já o fez. O cardeal Bertello recolheu os pareceres de todos os dicastérios vaticanos. Recebemos sugestões dos bispos de todo o mundo. Na última reunião, os oito cardeais disseram que chegámos ao momento de apresentar propostas concretas, e no próximo encontro, em Fevereiro, entregar-me-ão as suas primeiras sugestões. Eu estou sempre presente nos encontros, excepto na manhã da quarta-feira, por causa da audiência. Mas não falo, apenas ouço, e isso faz-me bem. Um cardeal idoso, há alguns meses, disse-me: «O senhor já começou a reforma da Cúria com a missa diária em Santa Marta». Isto fez-me pensar: a reforma começa sempre com iniciativas espirituais e pastorais, mais do que com mudanças estruturais.

 

Posso perguntar-lhe se teremos mulheres cardeais?

 

É uma brincadeira que saiu não sei de onde. As mulheres na Igreja devem ser valorizadas, não «clericalizadas». Quem pensa nas mulheres cardeais sofre um pouco de clericalismo.

 

Há um ano, podia imaginar que celebraria o Natal de 2013 em São Pedro?

 

De modo nenhum.

 

Esperava ser eleito?

 

Não esperava. Não perdi a paz enquanto aumentavam os votos. Permaneci tranquilo. E aquela paz ainda existe agora, considero-a um dom do Senhor. Terminado o último escrutínio, levaram-me ao centro da Capela Sistina e perguntaram-me se eu aceitava. Respondi que sim, disse que me chamaria Francisco. Só então me afastei. Levaram-me para a sala ao lado, para mudar de hábito. Depois, pouco antes de me assomar, ajoelhei-me para rezar por alguns minutos, juntamente com os cardeais Vallini e Hummes, na Capela Paulina.

 


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