Anunciação do Senhor

4 de Abril de 2005

 

Solenidade

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Acolhe, Virgem piedosa, M. Carneiro, NRMS 101

Hebr 10, 5.7

Antífona de entrada: Ao entrar no mundo, o Senhor disse: Eu venho, meu Deus, para fazer a vossa vontade.

 

Diz–se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

O mistério da Redenção que tem o seu ponto máximo na Páscoa tem o início na Anunciação. O espírito de pureza de Maria afirmado pelo Anjo na saudação aparece como um motivo para pedir perdão.

 

Oração colecta: Deus, Pai santo, que na vossa benigna providência quisestes que o vosso Verbo assumisse verdadeira carne humana no seio da Virgem Maria concedei–nos que, celebrando o nosso Redentor como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, mereçamos também participar da sua natureza divina.

Por Nosso Senhor...

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Nesta declaração de Isaías estamos perante uma profecia. Ele prevê o nascimento virginal de Jesus que será Deus connosco. A vinda de Deus ao mundo acontecerá por intermédio de uma virgem.

 

Isaías 7, 10-14 8, 10

Naqueles dias, 10o Senhor mandou ao rei Acaz a seguinte mensagem: 11»Pede um sinal ao Senhor teu Deus, quer nas profundezas do abismo, quer lá em cima nas alturas». 12Acaz respondeu: «Não pedirei, não porei o Senhor à prova». 13Então Isaías disse: «Escutai, casa de David: Não vos basta que andeis a molestar os homens para quererdes também molestar o meu Deus? 14Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: a virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será ‘Emanuel’, porque Deus está connosco».

 

Este célebre texto messiânico é extraído do início do «Livro do Emanuel», assim chamado pela misteriosa figura central do Immánu-El (Deus connosco), um «menino» descrito com traços que excedem tudo o que a história da monarquia hebraica regista (Is 7, 1 – 12, 6), daí o seu carácter messiânico, em quem os cristãos vêem uma figura do Salvador.

10-13 Como prova de que o rei Acaz não virá a ser destronado e substituído pelo filho de Tabel, estranho à linhagem davídica (estamos na conjura siro-efraimita contra o rei de Judá), o profeta Isaías propõe ao rei que peça um sinal divino, o mais extraordinário que seja (cf. v. 11). O rei, com hipócrita religiosidade, nega-se a pedir esse sinal, porque não acredita em sinais, em coisas sobrenaturais. Foi por esta ocasião (o que não quer dizer exactamente o mesmo momento) em que o Profeta, dirigindo-se à linhagem (casa) de David, anunciou que o Senhor dará um sinal verdadeiramente extraordinário e que o trono de David se consolidará eternamente (cf. 2 Sam 7, 16).

14 Esse «sinal» é a virgem que concebe. Muito se tem discutido e escrito sobre este sinal. Uma coisa é certa, é que o crente não pode prescindir de algum sentido messiânico (directo ou indirecto) desta célebre passagem isaiana. De facto, a própria exegese bíblica mostra que estamos no chamado «Livro do Imanuel» (Is 7 – 12), uma secção de carácter vincadamente messiânico por apontar para um descendente de David em quem se concentram as promessas da salvação de Deus, o Imanuel (o Deus connosco); embora, em primeiro plano, possa ser visado o próprio filho do rei Acaz, Ezequias, ele é considerado uma figura ou tipo do Messias. A tradução grega dos LXX (inspirada por Deus?) utilizou um termo específico para designar a virgindade desta mãe, chamando-a parthénos, quando o termo hebraico original não designa mais que a sua idade juvenil: ‘almáh. A célebre tradução grega em que se apoiavam os primeiros apologistas cristãos para demonstrarem aos judeus que Jesus é o Messias prometido, veio a ser rejeitada pelos judeus, que a substituíram por outras versões (ou antes adaptações gregas, Áquila, Símaco e Teodocião) e o dia festivo para comemorar a tradução dos LXX passou a ser um dia de luto. A interpretação mais tradicional defende o sentido literal (não se contentando com o sentido chamado típico ou pleno, suficientes para se garantir o sentido messiânico da passagem) e faz finca-pé em que Deus tinha oferecido pelo Profeta um sinal prodigioso, e eis que o dá; ora esse sinal só é prodigioso se a concepção e o nascimento do Menino acontece sem destruir a virgindade da Mãe; aliás é ela a pôr o nome ao filho, coisa que pertence sempre ao pai (que aqui não aparece). O próprio nome do filho insinua a sua divindade, «Deus connosco»: é a mesma personagem extraordinária anunciada em Is 9, 5-6: «Deus forte, príncipe da paz...».

 

Salmo Responsorial    Sl 39 (40), 7–8a.8b–9.10.11 (R. 8a.9a)

 

Monição: Fazer a vontade do Senhor não é apenas um desejo piedoso, é estar continuamente atento à voz de Deus para a seguir docilmente.

 

Refrão:        Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade.

 

Não Vos agradaram sacrifícios nem oblações,

mas abristes-me os ouvidos

não pedistes holocaustos nem expiações,

então clamei: «Aqui estou».

 

De mim está escrito no livro da Lei

que faça a vossa vontade.

Assim o quero, ó meu Deus,

a vossa lei está no meu coração».

 

Proclamei a justiça na grande assembleia,

não fechei os meus lábios, Senhor, bem o sabeis.

 

Não escondi a vossa justiça no fundo do coração,

proclamei a vossa fidelidade e salvação.

Não ocultei a vossa bondade e fidelidade

no meio da grande assembleia.

 

Segunda Leitura

 

Monição: São inefáveis os desígnios de Deus. Os homens podem oferecer muitos sacrifícios. Mas há um sacerdote eterno que assume a natureza humana e cujo sacrifício oferecido de uma vez para sempre supera todos os sacrifícios do culto antigo.

 

Hebreus 10, 4-10

Irmãos: 4É impossível que o sangue de touros e cabritos perdoe os pecados. 5Por isso, ao entrar no mundo, Cristo disse: «Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas formaste-Me um corpo. 6Não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado. 7Então Eu disse: ‘Eis-Me aqui no livro sagrado está escrito a meu respeito: Eu venho, meu Deus, para fazer a tua vontade’». 8Primeiro disse: «Não quiseste sacrifícios nem oblações, não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado». E no entanto, eles são oferecidos segundo a Lei. 9Depois acrescenta: «Eis-Me aqui: Eu venho para fazer a tua vontade». Assim aboliu o primeiro culto para estabelecer o segundo. 10É em virtude dessa vontade que nós somos santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita de uma vez para sempre.

 

O autor de Hebreus está no final da primeira parte da obra, precisamente quando discorre sobre a superioridade do sacrifício de Cristo relativamente a todos os sacrifícios da Lei Antiga (8, 1 – 10, 18), sob o ponte de vista da eficácia, argumentando, à boa maneira rabínica, a partir dos Salmos 40, 7-9 e 110, 1. Perante a ineficácia dos sacrifícios da Antiga Lei, o próprio Deus decide vir à Terra, na pessoa do Filho para poder oferecer, da parte da humanidade (Cristo é perfeito homem), um sacrifício de eficácia infinita (Cristo é perfeito Deus), oferecido de uma vez para sempre (v. 10), e assim aboliu o primeiro culto, o levítico (v. 9). Recorde-se que o Sacrifício do Calvário é único pelo seu infinito valor, o Sacrifício da Missa não é outro sacrifício diferente, mas o mesmo sacrifício que se torna presente sacramentalmente a todos os tempos nos nossos altares, aplicando-nos os méritos da Cruz.

7 «Eis-me aqui». Palavras do Salmo 40 (39) que o autor inspirado aplica a Jesus, e que a Liturgia hoje põe no coração do Filho de Deus, ao incarnar no seio da Santíssima Virgem.

 

Aclamação ao Evangelho       Jo 1, 14ab

 

Monição: A Encarnação do Verbo é motivo de júbilo para todos os fiéis.

 

Aleluia

 

Cântico: M. Faria, NRMS10 (II)

 

O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós

e nós vimos a sua glória.

 

 

 

Evangelho

 

São Lucas 1, 26-38

Naquele tempo, 26o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. 27O nome da Virgem era Maria. 28Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». 29Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». 34Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?». 35O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 36E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril 37porque a Deus nada é impossível». 38Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra».

 

A narrativa da Anunciação reveste-se de uma densidade tal que cada palavra encerra uma riqueza e profundidade impressionante, o que condiz bem com o acontecimento mais transcendente da História, o preciso momento em que, com o sim da Virgem Maria, o Eterno entra no tempo, o Criador se faz criatura.

26 «O Anjo Gabriel». O mesmo que anunciou a Zacarias o nascimento de João. Já era conhecido o seu nome no A.T. (Dan 8, 16-26; 9, 21-27). O seu nome significa «homem de Deus» ou também «força de Deus».

28 Coadunando-se com a transcendência da mensagem, a tripla saudação a Maria é absolutamente inaudita:

«Ave»: Vulgarizou-se esta tradução, correspondente a uma saudação comum (como ao nosso «bom dia»; cf. Mt 26, 49), mas que não parece ser a mais exacta, pois Lucas, para a saudação comum usa o semítico «paz a ti» (cf. Lc 10, 5); a melhor tradução é «alegra-te» – a tradução literal do imperativo grego khaire –, de acordo com o contexto lucano de alegria e com a interpretação patrística grega, não faltando mesmo autores modernos que vêm na saudação uma alusão aos convites proféticos à alegria da «Filha de Sião» (Sof 3, 14; Jl 2, 21-23; Zac 9, 9).

Ó «cheia de graça»: Esta designação tem muita força expressiva, pois está em vez do nome próprio, por isso define o que Maria é na realidade. A expressão portuguesa traduz um particípio perfeito passivo que não tem tradução literal possível na nossa língua: designa Aquela que está cumulada de graça, de modo permanente; mais ainda, a forma passiva parece corresponder ao chamado passivo divino, o que evidencia a acção gratuita, amorosa, criadora e transformante de Deus em Maria: «ó Tu a quem Deus cumulou dos seus favores». De facto, Maria é a criatura mais plenamente ornada de graça, em função do papel a que Deus A chama: Mãe do próprio Autor da Graça, Imaculada, concebida sem pecado original, doutro modo não seria, em toda a plenitude, a «cheia de graça», como o próprio texto original indica.

«O Senhor está contigo»: a expressão é muito mais rica do que parece à primeira vista; pelas ressonâncias bíblicas que encerra, Maria é posta à altura das grandes figuras do Antigo Testamento, como Jacob (Gn 28, 15), Moisés (Ex 3, 12) e Gedeão (Jz 6, 12), que não são apenas sujeitos passivos da protecção de Deus, mas recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão confiada por Ele.

Chamamos a atenção para o facto de na última edição litúrgica ter sido suprimido o inciso «Bendita es tu entre as mulheres», pois este não aparece nos melhores manuscritos e pensa-se que veio aqui parar por arrasto do v. 42 (saudação de Isabel). A Neovulgata, ao corrigir a Vulgata, passou a omiti-lo.

29 «Perturbou-se», ferida na sua humildade e recato, mas sobretudo experimentando o natural temor de quem sente a proximidade de Deus que vem para tomar posse da sua vida (a vocação divina). Esta reacção psicológica é diferente da do medo de Zacarias (cf. Lc 1, 12), pois é expressa por outro verbo grego; Maria não se fecha no refúgio dos seus medos, pois nela não há qualquer espécie de considerações egoístas, deixando-nos o exemplo de abertura generosa às exigências de Deus, perguntando ao mensageiro divino apenas o que precisa de saber, sem exigir mais sinais e garantias como Zacarias (cf. Lc 1, 18).

32-33 «Encontraste graça diante de Deus»: «encontrar graça» é um semitismo para indicar o bom acolhimento da parte dum superior (cf. 1 Sam 1, 18), mas a expressão «encontrar graça diante de Deus» só se diz no A. T. de grandes figuras, Noé (Gn 6, 8) e Moisés (Ex 33, 12.17). O que o Anjo anuncia é tão grandioso e expressivo que põe em evidência a maternidade messiânica e divina de Maria (cf. 2 Sam 7, 8-16; Salm 2, 7; 88, 27; Is 9, 6; Jer 23, 5; Miq 4, 7; Dan 7, 14).

34 «Como será isto, se Eu não conheço homem?» Segundo a interpretação tradicional desde Santo Agostinho até aos nossos dias, tem-se observado que a pergunta de Maria careceria de sentido, se Ela não tivesse antes decidido firmemente guardar a virgindade perpétua, uma vez que já era noiva, com os desposórios ou esponsais (erusim) já celebrados (v. 27). Alguns entendem a pergunta como um artifício literário e também «não conheço» no sentido de «não devo conhecer», como compete à Mãe do Messias (cf. Is 7, 14). Pensamos que a forma do verbo, no presente, «não conheço», indica uma vontade permanente que abrange tanto o presente como o futuro. Também a segurança com que Maria aparece a falar faz supor que José já teria aceitado, pela sua parte, um matrimónio virginal, dando-se mutuamente os direitos de esposos e renunciando a consumar a união; mas nem todos os estudiosos assim pensam, como também se vê no recente e interessante filme Figlia del suo Figlio.

35 «O Espírito Santo virá sobre ti…». Este versículo é o cume do relato e a chave do mistério: o Espírito, a fonte da vida, «virá sobre ti», com a sua força criadora (cf. Gn 1, 2; Salm 104, 30) e santificadora (cf. Act 2, 3-4); «e sobre ti a força do Altíssimo estenderá a sua sombra» (a tradução litúrgica «cobrirá» seria de evitar por equívoca e pobre; é melhor a da Nova Bíblia dos Capuchinhos): o verbo grego (ensombrar) é usado no A. T. para a nuvem que cobria a tenda da reunião, onde a glória de Deus estabelecia a sua morada (Ex 40, 34-36); aqui é a presença de Deus no ser que Maria vai gerar (pode ver-se nesta passagem o fundamento bíblico para o título de Maria, «Arca da Aliança»).

«O Santo que vai nascer…». O texto admite várias traduções legítimas; a litúrgica, afasta-se tanto da da Vulgata, como da da Neovulgata; uma tradução na linha da Vulgata parece-nos mais equilibrada e expressiva: «por isso também aquele que nascerá santo será chamado Filho de Deus». I. de la Potterie chega a ver aqui uma alusão ao parto virginal de Maria: «nascerá santo», isto é, não manchado de sangue, como num parto normal. «Será chamado» (entenda-se, «por Deus» – passivum divinum) «Filho de Deus», isto é, será realmente Filho de Deus, pois o que Deus chama tem realidade objectiva (cf. Salm 2, 7).

38 «Eis a escrava do Senhor…». A palavra escolhida na tradução, «escrava» talvez queira sublinhar a entrega total de Maria ao plano divino. Maria diz o seu sim a Deus, chamando-se «serva do Senhor»; é a primeira e única vez que na história bíblica se aplica a uma mulher este apelativo, como que evocando toda uma história maravilhosa de outros «servos» chamados por Deus que puseram a sua vida ao seu serviço: Abraão, Jacob, Moisés, David… É o terceiro nome com que Ela aparece neste relato: «Maria», o nome que lhe fora dado pelos homens, «cheia de graça», o nome dado por Deus, «serva do Senhor», o nome que Ela se dá a si mesma.

«Faça-se…». O «sim» de Maria é expresso com o verbo grego no modo optativo (génoito, quando o normal seria o uso do modo imperativo génesthô), o que põe em evidência a sua opção radical e definitiva, o seu vivo desejo (matizado de alegria) de ver realizado o desígnio de Deus.

 

Sugestões para a homilia

 

Salvé, cheia de graça

Hás-de conceber e dar à luz um filho

As lições do mistério da Anunciação

 

A voz do Senhor rei do universo manifesta-se no tom familiar e terno da mensagem trazida pelo anjo, nas palavras submissas de Cristo, tal como se refere na epístola aos Hebreus.

Salvé cheia de graça!

A situação de Maria, a presença do mensageiro celeste, o diálogo com a Virgem de Nazaré harmonizam-se com o plano divino.

Estar em contacto com o mistério de Deus é um dom singular que o texto evangélico realça. A preparação para a aceitação deste projecto divino devia ser uma preparação singular. A condição de Maria era única. Por isso o anjo A saudou cheia de graça. O anjo faz o elogio de Maria.

Nada falta em Nossa Senhora: a pureza de vida marcada pela santidade mais perfeita, a verdade e a santidade no grau mais elevado, justificavam esta saudação. O espírito de fé para as realidades singulares para as quais estava vocacionada, o zelo pela glória de Deus que era todo o objectivo da Sua vida, a caridade para com o próximo, aliada à sensibilidade a tudo o que mais agrada ao Senhor pode ser tido em conta por Maria para o bem da humanidade.

O texto de Isaías ganha aqui nova dimensão quando acontece aquilo que antes não passava de uma promessa: a virgem conceberá e dará à luz um filho...

Deus confia tarefa muito elevada, mas prepara e exige condições de êxito.

A resposta de Maria não é precipitada ou inconsciente. Ela está pautada pela obediência da fé. O Catecismo da Igreja Católica (n.º 148) diz que a Virgem realiza, do modo mais perfeito, a «obediência da Fé». Na fé, Maria acolheu o anúncio e a promessa trazidos pelo anjo Gabriel, acreditando que «a Deus nada é impossível» e dando o seu assentimento: –«Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra».

Hás-de conceber e dar à luz um filho

A mensagem continua: –hás-de conceber e dar à luz um filho.

Maria pensa. interroga, escuta e responde. Os apóstolos haviam de ser postos perante uma questão: –E vós quem dizeis que Eu sou?

Maria também foi posta perante uma questão: –Conceberás. Os apóstolos responderam numa adesão pessoal, numa opção fundamental por Cristo.

Maria vai responder numa opção fundamental pela obediência esclarecida. A opção vital por Cristo no momento da Anunciação torna-se opção no momento da Encarnação.

E o Verbo de Deus encarnou!

Jesus Cristo, o Filho do Altíssimo

Estamos a oito dias da Páscoa do Senhor e, ao mesmo tempo, a celebrar a Anunciação. Neste tempo pascal em que a Igreja vive a vitória da ressurreição podemos rever o início da redenção recordando os grandes passos da vida do Redentor: o mistério da Encarnação no momento da Anunciação, o Natal e a Circuncisão, a Epifania e a Vida Pública, o anúncio do Reino e a subida a Jerusalém, a paixão e o mistério pascal.

Afinal tudo começa na Anunciação. Como se lê no Catecismo da Igreja Católica: «Dando o seu consentimento à palavra de Deus, Maria tornou-se Mãe de Jesus. E aceitando de todo o coração a vontade divina da salvação, entregou-se totalmente à pessoa e à obra de seu Filho para servir, na dependência d'Ele e com Ele, pela graça de Deus, o mistério da redenção» (n.° 494).

Eu venho meu Deus para fazer a tua vontade!

Como acabamos de ler nos textos litúrgicos, Isaías declara: a Virgem conceberá e dará à luz um Filho. E na epístola o Jesus anunciado exerce um sacerdócio novo que passa pela própria oblação de Si mesmo ao Pai. A obediência de Maria reflecte-se na obediência do Filho feito sacerdote para o novo sacrifício de oblação e obediência, conforme a vontade do Pai. Graças à obediência de Maria Jesus recebe um corpo que será oferecido em oblação: «Eis-Me aqui...».

 

Animados com a palavra de Cristo podemos dirigir uma súplica: –Senhor Jesus, infunde nova vida nos corações dos homens, ajudai-nos a levar a luz da fé, a atitude da obediência a todos os lugares. Que a nossa docilidade à mensagem brilhe para os homens de todas as condições. Que cada um de nós seja portador de paz e possamos exprimir com a mesma sinceridade a palavra de Maria.

Quantas coisas haverá a corrigir, não só para celebrar com proveito o mistério da Anunciação, mas para viver com verdade a graça da redenção.

As lições do mistério da Anunciação

O espírito evangélico que decorre da resposta de Maria leva-nos a dizer o que pensamos e fazer o que devemos. Com efeito, todos temos deveres para com os nossos irmãos. Nem o egoísmo, nem o individualismo, nem a recusa podem fazer parte do comportamento cristão. Antes a doação a boa vontade, o espírito de serviço, o acolhimento, a resposta compreensiva são as atitudes que dignificam o homem.

A confiança e o optimismo estão aliados à fé e à caridade dos verdadeiros discípulos. A linguagem do diálogo e do acolhimento hão-de substituir o anátema e a condenação. O prefácio desta missa refere o mensageiro, a mensagem e a resposta da fé que não podem ser esquecidas. Ela tem aqui um lugar de relevo que não podemos ignorar.

A anunciação do Senhor e a Encarnação do Verbo são o cumprimento de uma promessa que não se pode esquecer.

Recordemos um anjo, uma cidade, uma virgem, uma mensagem, uma dúvida, uma resposta, uma perturbação e uma questão. Então Maria dá a resposta final. E o mistério da Encarnação acontece.

O Verbo de Deus encarnou, e habitou entre nós.

 

 

Diz-se o Credo.

Às palavras «e encarnou ...», ajoelha-se.

 

Oração Universal

 

1.  Pelo Santo Padre, Bispos e sacerdotes:

para que, à imitação de Maria, o Senhor os encontre em oração,

atentos e dispostos a um sim generoso e total,

oremos ao Senhor.

 

2.  Pelos nossos governantes:

para que, na acção cívica que desenvolvem,

não esqueçam os direitos cristãos dos súbditos,

oremos ao Senhor.

 

3.  Pelos religiosos, pelos consagrados e pelos jovens em preparação vocacional:

para que eles possam vencer os obstáculos

e ver com clareza a vontade Deus na sua vida,

oremos ao Senhor.

 

4.  Pelos pais e mães de família, por vezes em dificuldade no diálogo com os filhos:

para que o mistério da Anunciação os torne capazes de uma atenção mútua,

oremos ao Senhor.

 

5.  Pelos educadores em geral:

para que sejam prudentes e esclarecidos na orientação da juventude,

nos momentos chave da tomada de uma decisão,

oremos ao Senhor.

 

6.  Por todos aqueles que sentem na vida um chamamento à generosidade:

para que saibam ser decididos na resposta ao apelo divino, oremos ao Senhor.

 

7.  Por todos nós aqui presentes:

para que o Verbo Encarnado seja em todos os momentos

a força e o guia para o nosso agir no seguimento de Cristo,

oremos ao Senhor.

 

8.  Por todos quantos celebraram na alegria e na paz a Páscoa do senhor:

para que na sua vida todos experimentem sempre a bênção do Ressuscitado,

oremos ao Senhor.

 

 

Ó Deus, que nos reunistes a celebrar o mistério da Anunciação do Verbo:

ajuda-nos a trabalhar com decisão na salvação do mundo,

e dai-nos as graças de que precisamos.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo...

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Eu venho, Senhor, Az. Oliveira, NRMS 62

 

Oração sobre as oblatas: Recebei, Senhor, os dons da vossa Igreja, que reconhece a sua origem na Encarnação do vosso Filho e fazei-lhe sentir a alegria de celebrar nesta solenidade os mistérios do seu Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Prefácio

 

O mistério da Encarnação

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor. Pela Anunciação do mensageiro celeste, a Virgem Imaculada acolheu com fé a vossa Palavra e pela acção admirável do Espírito Santo trouxe em seu ventre com amor inefável o Primogénito da nova humanidade, que vinha cumprir as promessas feitas a Israel e revelar-Se ao mundo como a esperança de todos os povos.

Por isso com os Anjos, que adoram a vossa majestade e exulta eternamente na vossa presença, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

Santo, Santo, Santo...

 

Santo: M. Simões, NRMS 50-51

 

Saudação da Paz

 

A paz é um anseio profundo da humanidade. Está aliada aos sentimentos mais nobres do ser humano. Valorizemos hoje este sentimento ao trocar com cada irmão o gesto de paz e amizade.

 

Monição da Comunhão

 

Ao abeirarmo-nos da Eucaristia vamos comungar Aquele que anjo anunciou como o Filho do Altíssimo e que irá nascer em Belém.

 

Cântico da Comunhão: O meu espírito exulta, C. Silva, NRMS 38

Is 7, 14

Antífona da comunhão: A Virgem conceberá e dará à luz um Filho e o seu nome será Emanuel, Deus connosco.

 

Cântico de acção de graças: Minha Senhora e minha Mãe, H. Faria, NRMS 33-34

 

Oração depois da comunhão: Confirmai em nós, Senhor, os mistérios da verdadeira fé, para que, tendo proclamado que Jesus Cristo, concebido da Virgem Maria, é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, cheguemos, pelo poder da sua ressurreição, às alegrias da vida eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

A saudação do anjo foi para Maria uma feliz surpresa.

A concluir esta celebração pedimos a Maria que nos acompanhe e nos ensine a compreender a mensagem celeste, a escutar a voz de Deus e a responder com generosidade e prudência.

 

Cântico final: Avé Maria Senhora, F. da Silva, NRMS 81

 

 

Homilias Feriais

 

TEMPO PASCAL

 

2ª SEMANA

 

3ª feira, 5-IV: Tempo Pascal: tempo de partilha

Act 4, 32-37 / Jo. 3, 7-15

Naqueles dias a multidão dos que haviam abraçado a fé tinham um só coração e uma só alma.

O tempo Pascal pede-nos uma renovação: «Vós tendes que nascer de novo» (Ev.).

E a renovação exige viver como viveram os primeiros cristãos: «Em cada santa Missa, somos chamados a confrontar-nos com o ideal de comunhão que o livro dos Actos dos Apóstolos esboça como modelo para a Igreja de sempre. É a Igreja congregada ao redor dos Apóstolos, convocada pela Palavra de Deus, capaz de uma partilha que inclui não só os bens espirituais, mas também os materiais (cf. Leit. do dia). Neste Ano da Eucaristia, o Senhor convida-nos a aproximarmo-nos o mais possível deste ideal» (Mane nobiscum (MN), 22).

 

4ª feira, 6-IV: As palavras de vida

Act. 5, 17-26 / Jo. 3, 16-21

O Anjo do Senhor abriu as portas da prisão, levou-os para fora e disse-lhes: Ide...anunciar ao povo todas estas palavras de vida.

Deus não permite que se perca uma só das suas palavras, porque são palavras de vida (cf. Leit.).

Na celebração eucarística, as leituras da Sagrada Escritura são igualmente palavras de vida, porque «as suas palavras (Cristo), fazem arder os corações dos discípulos, tiram-nos da obscuridade, da tristeza e do desânimo; suscitam neles o desejo de permanecer com Ele: ‘Fica connosco, Senhor’» (MN, 12). E, além disso, porque através dessas leituras Deus nos interpela: «a escuta devota, com o silêncio meditativo, são necessários para que a Palavra de Deus nos toque a vida e a ilumine» (MN, 13).

 

5ª feira, 7-IV: O projecto eucarístico na vida quotidiana.

Act. 5, 27-33 / Jo. 3, 31-36

(O Sumo Sacerdote): Já vos demos a ordem formal de não ensinar em nome de Jesus. E vós enchestes Jerusalém da vossa doutrina.

Hoje em dia é «a cultura secularizada, que respira o olvido de Deus» (MN, 26), que pretende impor-nos o mesmo silêncio.

Mas é preciso viver o projecto de missão: «Encarnar o projecto eucarístico na vida quotidiana, nos lugares onde se trabalha e se vive – na família, na escola, na fábrica, nas mais diversas condições de vida – significa, para além do mais, testemunhar que a realidade humana não se justifica sem a referência ao Criador: ‘Sem o Criador, a criatura não subsiste’» (MN, 26).

 

6ª feira, 8-IV: A participação no banquete eucarístico.

Act. 5, 34-42 / Jo. 6, 1-15

Jesus tomou os pães, deu graças e distribui-os aos convivas. E fez o mesmo com os peixes, tantos quantos eles quiseram.

Jesus tem compaixão de uma enorme multidão que está esfomeada e precisa de novas forças (cf. Ev.). Este milagre da multiplicação dos pães «prefigura a superabundância do pão único da sagrada Eucaristia» (CIC, 1335).

Na celebração eucarística Jesus convida-nos a tomar parte no banquete eucarístico. Como podemos vivê-lo melhor? «Quando na terra se recebem pessoas muito importantes há luzes, música, trajes de gala. Para albergar Cristo na nossa alma, como devemos preparar-nos? Já teremos, por acaso, pensado como nos comportaríamos se só se pudesse comungar uma só vez na vida?» (Cristo que passa, 91).

 

Sábado, 9-IV: A nossa protecção está no Sacrário.

Act. 6, 1-7 / Jo.16-21

Viram Jesus andar sobre o mar e aproximar-se do barco. E tiveram medo. Mas Jesus disse-lhes: Sou eu, não temais!

Apesar de terem já visto muitos milagres, realizados pelo Senhor, a fé dos Apóstolos fraqueja perante uma pequena tempestade no lago (cf. Ev.).Quando a fé diminui, as dificuldades agigantam-se: juntam-se as tempestades da nossa alma com as do ambiente.

Mas Jesus não deixará de proteger-nos. No Sacrário Jesus está atento ao nosso caminhar e aos perigos que se avizinham: «Que mais queremos ter ao lado que um Amigo tão bom, que não nos abandonará nos trabalhos e tribulações?» (S. Teresa de Ávila).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:          José Valentim Vilar

Nota Exegética:                     Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha


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