ANUNCIAÇÃO DO SENHOR

25 de Março de 2014

 

 

Solenidade

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: O Senhor do Universo, F. da Silva, NRMS 21

Hebr 10, 5.7

Antífona de entrada: Ao entrar no mundo, o Senhor disse: Eu venho, meu Deus, para fazer a vossa vontade.

 

Diz–se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Sempre que nos reunimos em assembleia, sabemos que o Senhor está presente. Por isso nos alegramos, por isso fazemos festa. A festa eucarística de hoje reveste-se de maior solenidade porque recordamos a hora da salvação. Graças ao “sim” de Maria, o Verbo encarnou; graças a esse “sim” corajoso, o Espírito Santo pôde atuar em Maria e transformar a história da humanidade.

 

Ato penitencial

 

Recordando esse momento singular, sentimos que nem sempre fomos capazes de dizer “sim” ao Senhor, nem ser fiéis aos “sins” que assumimos ao longo da vida. Confiantes, pois, no amor de Deus, que nos olha com compaixão e ternura, reconheçamos a nossa pequenez e a Sua bondade.

 

    Senhor, que existis desde toda a eternidade

    e que Vos fizestes nosso irmão,

    Senhor, tende piedade de nós.

   

Senhor, tende piedade de nós.

   

    Cristo, que, pela ação do Espírito Santo,

    fostes gerado no seio imaculado de Maria,

    Cristo, tende piedade de nós.

   

Cristo, tende piedade de nós.

 

    Senhor, que nos mostrais que a Vossa misericórdia nos perdoa

todas as vezes que não aceitamos nem vivemos a Vossa mensagem,

    Senhor, tende piedade de nós.

   

Senhor, tende piedade de nós.

 

Oração colecta: Deus, Pai santo, que na vossa benigna providência quisestes que o vosso Verbo assumisse verdadeira carne humana no seio da Virgem Maria concedei–nos que, celebrando o nosso Redentor como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, mereçamos também participar da sua natureza divina.

Por Nosso Senhor...

 

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: O rei Acaz recebe um sinal de Deus: o nascimento de uma criança de uma mulher jovem, que asseguraria a continuação do reino de David. A Igreja vê nesta passagem o anúncio do Messias Salvador.

 

Isaías 7, 10-14 8, 10

 

Naqueles dias, 10o Senhor mandou ao rei Acaz a seguinte mensagem: 11“Pede um sinal ao Senhor teu Deus, quer nas profundezas do abismo, quer lá em cima nas alturas”. 12Acaz respondeu: “Não pedirei, não porei o Senhor à prova”. 13Então Isaías disse: “Escutai, casa de David: Não vos basta que andeis a molestar os homens para quererdes também molestar o meu Deus? 14Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: a virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será ‘Emanuel’, porque Deus está connosco”.

 

Este célebre texto messiânico é extraído do início do “Livro do Emanuel”, assim chamado pela misteriosa figura central do Immánu-El (Deus connosco), um “menino” descrito com traços que excedem tudo o que a história da monarquia hebraica regista (Is 7, 1 – 12, 6), daí o seu carácter messiânico, em quem os cristãos vêem uma figura do Salvador.

10-13 Como prova de que o rei Acaz não virá a ser destronado e substituído pelo filho de Tabel, estranho à linhagem davídica (estamos na conjura siro-efraimita contra o rei de Judá), o profeta Isaías propõe ao rei que peça um sinal divino, o mais extraordinário que seja (cf. v. 11). O rei, com hipócrita religiosidade, nega-se a pedir esse sinal, porque não acredita em sinais, em coisas sobrenaturais. Foi por esta ocasião (o que não quer dizer exactamente o mesmo momento) em que o Profeta, dirigindo-se à linhagem (casa) de David, anunciou que o Senhor dará um sinal verdadei­ra­­mente extraordinário e que o trono de David se consolidará eternamente (cf. 2 Sam 7, 16).

14 Esse “sinal” é a virgem que concebe. Muito se tem discutido e escrito sobre este sinal. Uma coisa é certa, é que o crente não pode prescindir de algum sentido messiânico (directo ou indirecto) desta célebre passagem isaiana. De facto, a própria exegese bíblica mostra que estamos no chamado “Livro do Imanuel” (Is 7 – 12), uma secção de carácter vincadamente messiânico por apontar para um descendente de David em quem se concentram as promessas da salvação de Deus, o Imanuel (o Deus connosco); embora, em primeiro plano, possa ser visado o próprio filho do rei Acaz, Ezequias, ele é considerado uma figura ou tipo do Messias. A tradução grega dos LXX (inspirada por Deus?) utilizou um termo específico para designar a virgindade desta mãe, chamando-a parthénos, quando o termo hebraico original não designa mais que a sua idade juvenil: ‘almáh. A célebre tradução grega em que se apoiavam os primeiros apologistas cristãos para demonstrarem aos judeus que Jesus é o Messias prometido, veio a ser rejeitada pelos judeus, que a substituíram por outras versões (ou antes adaptações gregas, Áquila, Símaco e Teodocião) e o dia festivo para comemorar a tradução dos LXX passou a ser um dia de luto. A interpretação mais tradicional defende o sentido literal (não se contentando com o sentido chamado típico ou pleno, suficientes para se garantir o sentido messiânico da passagem) e faz finca-pé em que Deus tinha oferecido pelo Profeta um sinal prodigioso, e eis que o dá; ora esse sinal só é prodigioso se a concepção e o nascimento do Menino acontece sem destruir a virgindade da Mãe; aliás é ela a pôr o nome ao filho, coisa que pertence sempre ao pai (que aqui não aparece). O próprio nome do filho insinua a sua divindade, “Deus connosco”«Deus_connosco»: é a mesma personagem extraordinária anunciada em Is 9, 5-6: “Deus forte, príncipe da paz...”.

 

Salmo Responsorial    Sl 39 (40), 7–8a.8b–9.10.11 (R. 8a.9a)

 

Monição: Animados pelo Espírito Santo, cantemos o salmo, louvando o Senhor nos nossos corações, sempre e por tudo dando graças a Deus (Cf. Ef 5,19-20).

 

Refrão:        Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade.

 

Não Vos agradaram sacrifícios nem oblações,

mas abristes-me os ouvidos

não pedistes holocaustos nem expiações,

então clamei: «Aqui estou».

 

De mim está escrito no livro da Lei

que faça a vossa vontade.

Assim o quero, ó meu Deus,

a vossa lei está no meu coração».

 

Proclamei a justiça na grande assembleia,

não fechei os meus lábios, Senhor, bem o sabeis.

 

Não escondi a vossa justiça no fundo do coração,

proclamei a vossa fidelidade e salvação.

Não ocultei a vossa bondade e fidelidade

no meio da grande assembleia.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Celebramos a festa da Anunciação como memória do “fiat” salvador do Verbo Encarnado, que entrando no mundo disse: “Eis que venho, ó Deus, para fazer a Tua vontade” (Hb 10,7). Recordemos a passagem da Epístola aos Hebreus.

 

Hebreus 10, 4-10

 

Irmãos: 4É impossível que o sangue de touros e cabritos perdoe os pecados. 5Por isso, ao entrar no mundo, Cristo disse: “Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas formaste-Me um corpo. 6Não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado. 7Então Eu disse: ‘Eis-Me aqui no livro sagrado está escrito a meu respeito: Eu venho, meu Deus, para fazer a tua vontade’”. 8Primeiro disse: “Não quiseste sacrifícios nem oblações, não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado”. E no entanto, eles são oferecidos segundo a Lei. 9Depois acrescenta: “Eis-Me aqui: Eu venho para fazer a tua vontade”. Assim aboliu o primeiro culto para estabelecer o segundo. 10É em virtude dessa vontade que nós somos santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita de uma vez para sempre.

 

O autor de Hebreus está no final da primeira parte da obra, precisamente quando discorre sobre a superioridade do sacrifício de Cristo relativamente a todos os sacrifícios da Lei Antiga (8, 1 – 10, 18), sob o ponte de vista da eficácia, argumentando, à boa maneira rabínica, a partir dos Salmos 40, 7-9 e 110, 1. Perante a ineficácia dos sacrifícios da Antiga Lei, o próprio Deus decide vir à Terra, na pessoa do Filho para poder oferecer, da parte da humanidade (Cristo é perfeito homem), um sacrifício de eficácia infinita (Cristo é perfeito Deus), oferecido de uma vez para sempre (v. 10), e assim aboliu o primeiro culto, o levítico (v. 9). Recorde-se que o Sacrifício do Calvário é único pelo seu infinito valor, o Sacrifício da Missa não é outro sacrifício diferente, mas o mesmo sacrifício que se torna presente sacramentalmente a todos os tempos nos nossos altares, aplicando-nos os méritos da Cruz.

7 “Eis-me aqui”. Palavras do Salmo 40 (39) que o autor inspirado aplica a Jesus, e que a Liturgia hoje põe no coração do Filho de Deus, ao incarnar no seio da Santíssima Virgem, que diz também “eis aqui a serva do Senhor” (Lc 1, 38).

 

Aclamação ao Evangelho        Jo 1, 14ab

 

Monição: O Evangelho de hoje contém o anúncio do anjo do Senhor a Maria. Cumpre-se assim a profecia messiânica de Isaías lida na primeira leitura. O cumprimento das promessas divinas, deve criar em nós um sentido de gratidão e de esperança: nunca mais estaremos sós porque Jesus, nosso Salvador, já chegou.

 

Cântico: M. Simões, NRMS 1 (I)

 

O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós

e nós vimos a sua glória.

 

 

Evangelho

 

Lucas 1, 26-38

 

Naquele tempo, 26o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. 27O nome da Virgem era Maria. 28Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: “Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo”. 29Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: “Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim”. 34Maria disse ao Anjo: “Como será isto, se eu não conheço homem?”. 35O Anjo respondeu-lhe: “O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 36E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril 37porque a Deus nada é impossível”. 38Maria disse então: “Eis a escrava do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra”.

 

A narrativa da Anunciação reveste-se de uma densidade tal, que cada palavra encerra uma riqueza e profundidade impressionante, o que condiz bem com o acontecimento mais transcendente da História, o preciso momento em que, com o sim da Virgem Maria, o Eterno entra no tempo, o Criador se faz criatura.

26 “O Anjo Gabriel”. O mesmo que anunciou a Zacarias o nascimento de João. Já era conhecido o seu nome no A.T. (Dan 8, 16-26; 9, 21-27). O seu nome significa “homem de Deus” ou também “força de Deus”.

28 Coadunando-se com a transcendência da mensagem, a tripla saudação a Maria é absolutamente inaudita:

“Ave”: Vulgarizou-se esta tradução, correspondente a uma saudação comum (como ao nosso “bom dia”; cf. Mt 26, 49), mas que não parece ser a mais exacta, pois Lucas, para a saudação comum usa o semítico “paz a ti” (cf. Lc 10, 5); a melhor tradução é “alegra-te” – a tradução literal do imperativo grego khaire –, de acordo com o contexto lucano de alegria e com a interpretação patrística grega, não faltando mesmo autores modernos que vêm na saudação uma alusão aos convites proféticos à alegria da “Filha de Sião” (Sof 3, 14; Jl 2, 21-23; Zac 9, 9).

Ó “cheia de graça”: Esta designação tem muita força expressiva, pois está em vez do nome próprio, por isso define o que Maria é na realidade. A expressão portuguesa traduz um particípio perfeito passivo que não tem tradução literal possível na nossa língua: designa Aquela que está cumulada de graça, de modo permanente; mais ainda, a forma passiva parece corresponder ao chamado passivo divino, o que evidencia a acção gratuita, amorosa, criadora e transformante de Deus em Maria: “ó Tu a quem Deus cumulou dos seus favores”. De facto, Maria é a criatura mais plenamente ornada de graça, em função do papel a que Deus A chama: Mãe do próprio Autor da Graça, Imaculada, concebida sem pecado original, doutro modo não seria, em toda a plenitude, a “cheia de graça”, como o próprio texto original indica.

“O Senhor está contigo”: a expressão é muito mais rica do que parece à primeira vista; pelas ressonâncias bíblicas que encerra, Maria é posta à altura das grandes figuras do Antigo Testamento, como Jacob (Gn 28, 15), Moisés (Ex 3, 12) e Gedeão (Jz 6, 12), que não são apenas sujeitos passivos da protecção de Deus, mas recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão confiada por Ele.

Chamamos a atenção para o facto de na última edição litúrgica ter sido suprimido o inciso “Bendita es tu entre as mulheres”, pois este não aparece nos melhores manuscritos e pensa-se que veio aqui parar por arrasto do v. 42 (saudação de Isabel). A Neovulgata, ao corrigir a Vulgata, passou a omiti-lo.

29 “Perturbou-se”, ferida na sua humildade e recato, mas sobretudo experimentando o natural temor de quem sente a proximidade de Deus que vem para tomar posse da sua vida (a vocação divina). Esta reacção psicológica é diferente da do medo de Zacarias (cf. Lc 1, 12), pois é expressa por outro verbo grego; Maria não se fecha no refúgio dos seus medos, pois nela não há qualquer espécie de considerações egoístas, deixando-nos o exemplo de abertura generosa às exigências de Deus, perguntando ao mensageiro divino apenas o que precisa de saber, sem exigir mais sinais e garantias como Zacarias (cf. Lc 1, 18).

32-33 “Encontraste graça diante de Deus”: “encontrar graça” é um semitismo para indicar o bom acolhimento da parte dum superior (cf. 1 Sam 1, 18), mas a expressão “encontrar graça diante de Deus” só se diz no A. T. de grandes figuras, Noé (Gn 6, 8) e Moisés (Ex 33, 12.17). O que o Anjo anuncia é tão grandioso e expressivo que põe em evidência a maternidade messiânica e divina de Maria (cf. 2 Sam 7, 8-16; Salm 2, 7; 88, 27; Is 9, 6; Jer 23, 5; Miq 4, 7; Dan 7, 14).

34 “Como será isto, se Eu não conheço homem?” Segundo a interpretação tradicional desde Santo Agostinho até aos nossos dias, tem-se observado que a pergunta de Maria careceria de sentido, se Ela não tivesse antes decidido firmemente guardar a virgindade perpétua, uma vez que já era noiva, com os desposórios ou esponsais (erusim) já celebrados (v. 27). Alguns entendem a pergunta como um artifício literário e também “não conheço” no sentido de “não devo conhecer”, como compete à Mãe do Messias (cf. Is 7, 14). Pensamos que a forma do verbo, no presente, “não conheço”, indica uma vontade permanente que abrange tanto o presente como o futuro. Também a segurança com que Maria aparece a falar faz supor que José já teria aceitado, pela sua parte, um matrimónio virginal, dando-se mutuamente os direitos de esposos e renunciando a consumar a união; mas nem todos os estudiosos assim pensam, como também se vê no recente e interessante filme Figlia del suo Figlio.

35 “O Espírito Santo virá sobre ti…”. Este versículo é o cume do relato e a chave do mistério: o Espírito, a fonte da vida, “virá sobre ti”, com a sua força criadora (cf. Gn 1, 2; Salm 104, 30) e santificadora (cf. Act 2, 3-4); “e sobre ti a força do Altíssimo estenderá a sua sombra” (a tradução litúrgica “cobrirá” seria de evitar por equívoca e pobre; é melhor a da Nova Bíblia dos Capuchinhos): o verbo grego (ensombrar) é usado no A. T. para a nuvem que cobria a tenda da reunião, onde a glória de Deus estabelecia a sua morada (Ex 40, 34-36); aqui é a presença de Deus no ser que Maria vai gerar (pode ver-se nesta passagem o fundamento bíblico para o título de Maria, “Arca da Aliança”).

“O Santo que vai nascer…”. O texto admite várias traduções legítimas; a litúrgica, afasta-se tanto da da Vulgata, como da da Neovulgata; uma tradução na linha da Vulgata parece-nos mais equilibrada e expressiva: “por isso também aquele que nascerá santo será chamado Filho de Deus”. I. de la Potterie chega a ver aqui uma alusão ao parto virginal de Maria: “nascerá santo”, isto é, não manchado de sangue, como num parto normal. “Será chamado” (entenda-se, “por Deus” – passivum divinum) “Filho de Deus”, isto é, será realmente Filho de Deus, pois o que Deus chama tem realidade objectiva (cf. Salm 2, 7).

38 “Eis a escrava do Senhor…”. A palavra escolhida na tradução, “escrava” talvez queira sublinhar a entrega total de Maria ao plano divino. Maria diz o seu sim a Deus, chamando-se “serva do Senhor”; é a primeira e única vez que na história bíblica se aplica a uma mulher este apelativo, como que evocando toda uma história maravilhosa de outros “servos” chamados por Deus que puseram a sua vida ao seu serviço: Abraão, Jacob, Moisés, David… É o terceiro nome com que Ela aparece neste relato: “Maria”, o nome que lhe fora dado pelos homens, “cheia de graça”, o nome dado por Deus, “serva do Senhor”, o nome que Ela se dá a si mesma.

“Faça-se…”. O “sim” de Maria é expresso com o verbo grego no modo optativo (génoito, quando o normal seria o uso do modo imperativo génesthô), o que põe em evidência a sua opção radical e definitiva, o seu vivo desejo (matizado de alegria) de ver realizado o desígnio de Deus.

 

Sugestões para a homilia

 

1. Como sucederá isso, se eu não conheço homem? (Lc 1, 34)

2. Tudo começou com Maria

 

 

1. Como sucederá isso, se eu não conheço homem? (Lc 1, 34)

 

Vivia Maria, na Galileia, numa pobre casa em Nazaré, uma aldeia encravada na encosta rochosa de uma colina, onde havia e ainda há uma fonte que motivara a concentração de habitantes naquele lugar. Era paragem obrigatória para peregrinos e caravanas com destino a Jerusalém. Maria, de origem pobre, vivia com os pais. Fora prometida e, recentemente, desposara José, um honrado e modesto carpinteiro da aldeia. José era de linhagem nobre e, como Maria, também procedia da cidade de Belém. Ambas as partes tinham prestado o juramento requerido e estavam unidos por direito, mas deveriam permanecer separados na casa dos pais por algum tempo, conforme era o costume. Nessa época, estava bastante viva junto ao povo israelita a promessa de Deus feita a Abraão sobre a vinda do Enviado do Senhor que protegeria Israel do jugo dos seus inimigos. Quando todas as jovens aspiravam ser a mãe do Enviado prometido, a virgem nazarena, na sua profunda humildade, não se preocupava com tal glória. A jovem e doce Maria entregara a sua juventude nas mãos de Deus. Por amor a Ele, permanecia virgem.

Foi a esta jovem que o arcanjo Gabriel dirigiu a palavra: “Salve, ó cheia de graça. O Senhor está contigo” (Lc 1,28). A saudação perturbou Maria pela sublimidade das palavras. “Não temas, Maria, porque achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um Filho a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande, e será chamado Filho do Altíssimo” (Lc 1,30). Disse Maria ao anjo: “Como sucederá isso, se eu não conheço homem?” (Lc 1, 34). Como poderia Maria gerar um filho se pretendia manter-se virgem conforme prometera a Deus? E essa promessa tinha certamente a concordância do seu esposo José. Como então deveria ela agir para cumprir a vontade de Deus e manter a promessa feita? Respondeu-lhe o anjo: “O Espirito Santo virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra” (Lc 1,35). Disse-lhe então Maria: “Eis aqui a escrava do Senhor: faça-se em mim conforme a tua palavra” (Lc 1, 38).

 

 

2. Tudo começou com Maria

 

Os versículos da anunciação no Evangelho de Lucas revelam o livre arbítrio dado ao homem para escolher o que deseja. O Ser mais poderoso do universo, criador dos céus e da terra, o próprio Deus dependeu da concordância da sua serva mais humilde, para dar curso aos seus planos de se fazer homem aqui na terra.

Depois, com a aceitação, com o sim de Maria, tudo aconteceu: a viagem para Belém, o nascimento de Jesus, a apresentação no templo, a fuga para o Egipto, o retorno após a morte de Herodes, as preocupações dos pais com o jovem Jesus, o batismo no rio Jordão, a sua vida pública.

Maria acompanhou Jesus sempre, até ao desfecho final ao pé da cruz, quando Ele, morrendo, manifesta o desejo de que ela seja, para sempre, a Nossa Mãe. Maria recebeu o Espírito Santo com os Apóstolos e, levada aos céus, foi coroada Rainha.

Por isso, “sempre que olhamos para Maria, voltamos a acreditar na força revolucionária da ternura e do afeto. N’Ela, vemos que a humildade e a ternura não são virtudes dos fracos, mas dos fortes, que não precisam de maltratar os outros para se sentir importantes. Fixando-A, descobrimos que aquela que louvava a Deus porque «derrubou os poderosos de seus tronos» e «aos ricos despediu de mãos vazias» (Lc 1, 52.53) é mesma que assegura o aconchego dum lar à nossa busca de justiça. E é a mesma também que conserva cuidadosamente «todas estas coisas ponderando-as no seu coração» (Lc 2, 19). Maria sabe reconhecer os vestígios do Espírito de Deus tanto nos grandes acontecimentos como naqueles que parecem impercetíveis. É contemplativa do mistério de Deus no mundo, na história e na vida diária de cada um e de todos. É a mulher orante e trabalhadora em Nazaré, mas é também nossa Senhora da prontidão, a que sai «à pressa» (Lc1, 39) da sua povoação para ir ajudar os outros” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, 288).

 

3. Renovação

 

“Esta dinâmica de justiça e ternura, de contemplação e de caminho para os outros faz d’Ela um modelo eclesial para a evangelização” (EG 288). Pela sua disponibilidade em aceitar os novos desafios e as surpresas de Deus, Maria tornou-se a primeira missionária, trazendo Cristo aos homens de todos os tempos.

Celebrar esta festa é, por isso, uma excelente oportunidade para renovarmos o nosso compromisso missionário, acolhendo o desafio do Papa para uma renovação eclesial inadiável: “Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à auto-preservação. A reforma das estruturas, que a conversão pastoral exige, só se pode entender neste sentido: fazer com que todas elas se tornem mais missionárias, que a pastoral ordinária em todas as suas instâncias seja mais comunicativa e aberta, que coloque os agentes pastorais em atitude constante de «saída» e, assim, favoreça a resposta positiva de todos aqueles a quem Jesus oferece a sua amizade” (EG 27).

 

 

Diz-se o Credo.

Às palavras «e encarnou ...», ajoelha-se.

 

P. Credes em Deus, Pai Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra?

R. Sim, Creio.

 

P. Credes em Jesus Cristo, seu único Filho, Nosso Senhor, que nasceu da Virgem Maria, padeceu e foi sepultado, ressuscitou dos mortos e está à direita do Pai?

R. Sim, creio!

 

P. Credes no Espírito Santo, na Santa Igreja Católica, na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna?

R. Sim, creio!

 

P. Esta é a nossa fé, esta é a fé da Igreja que nos gloriamos de professar em Jesus Cristo, Nosso Senhor!

R. Ámen.

 

 

Oração Universal

 

Estimados irmãos,

a exemplo de Maria que aceitou a mensagem de Deus,

digamos também nós “sim”

para que Deus opere maravilhas no nosso mundo:

 

Senhor, faça-se em mim segundo a Vossa vontade.

 

1. Pelo Santo Padre,         que consagrou o seu pontificado à Virgem Santíssima,

para que sinta sempre a proteção maternal de Maria, oremos ao Senhor.

 

2. Pelos bispos, sacerdotes, diáconos e todos aqueles

que têm como missão anunciar a Palavra de Deus,

para que se empenhem com um novo ardor

no anúncio concreto da Nova Evangelização, oremos ao Senhor.

 

3. Pelos meios de comunicação social,

para que saibam sempre promover a dignidade humana

e possam contribuir para a geração duma sociedade mais justa e feliz, oremos ao Senhor.

 

4. Por todos nós, para que nos comprometamos a viver este ano

totalmente voltados para o Espírito Santo, oremos ao Senhor.

 

5. Pelos nossos defuntos, para que, pela proteção de Nossa Senhora,

gozem quanto antes a felicidade eterna, oremos ao Senhor.

 

Senhor, Pai Santo,

olhai misericordiosamente para estes vossos servos

e, por meio da bem-aventurada Virgem Maria,

ouvi as súplicas que, confiantes, Vos fazemos

e dai-nos o Divino Espírito Santo.

Por Nosso Senhor, Jesus Cristo, que é Deus convosco,

na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Eu venho, Senhor, Az. Oliveira, NRMS 62

 

Oração sobre as oblatas: Recebei, Senhor, os dons da vossa Igreja, que reconhece a sua origem na Encarnação do vosso Filho e fazei-lhe sentir a alegria de celebrar nesta solenidade os mistérios do seu Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Prefácio

 

O mistério da Encarnação

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor. Pela Anunciação do mensageiro celeste, a Virgem Imaculada acolheu com fé a vossa Palavra e pela acção admirável do Espírito Santo trouxe em seu ventre com amor inefável o Primogénito da nova humanidade, que vinha cumprir as promessas feitas a Israel e revelar-Se ao mundo como a esperança de todos os povos.

Por isso com os Anjos, que adoram a vossa majestade e exulta eternamente na vossa presença, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

Santo, Santo, Santo...

 

Santo: F. da Silva, NRMS 99-100

 

Monição da Comunhão

 

Também nós somos herdeiros e portadores dessa alegre e boa notícia de Deus trazida pelo Anjo: Cristo continua presente no meio de nós, agora sob as espécies sagradas do Pão e do Vinho. Convertidos ao Seu amor, digamos “sim” a este Senhor que, na comunhão, quer entrar na nossa vida, quer ficar no nosso coração.

 

Cântico da Comunhão: O Anjo do Senhor anunciou, M. Simões, NRMS 31

Is 7, 14

Antífona da comunhão: A Virgem conceberá e dará à luz um Filho e o seu nome será Emanuel, Deus connosco.

 

Cântico de acção de graças: Louvemos o Senhor, J. Santos, NRMS 81

 

Oração depois da comunhão: Confirmai em nós, Senhor, os mistérios da verdadeira fé, para que, tendo proclamado que Jesus Cristo, concebido da Virgem Maria, é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, cheguemos, pelo poder da sua ressurreição, às alegrias da vida eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Assim como o anjo Gabriel saudou a Maria “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!”, assim também Deus, ainda antes que o galo acorde a aurora, nos saúda em cada dia: “Alegrem-se, meus filhos, cheios de graça, Eu vos protegerei, amar-vos-ei com um amor eterno e vos darei a grande alegria de uma vida plena e feliz! Como Maria, vocês são meus e em vocês farei nascer, a cada dia, a graça do meu filho, Jesus!”.

Aceitemos a palavra e o amor de Deus, para que o Espírito Santo continue a realizar maravilhas em nós e em todos aqueles que nos rodeiam. Só com o nosso consentimento Deus entra na nossa humanidade para a salvar. Que o nosso sim, como o “fiat” de Maria de Nazaré seja sinal de uma nova humanidade, redimida por Deus em Cristo Jesus.

 

Cântico final: Acolhe Virgem Piedosa, M. Carneiro, NRMS 101

 

 

Homilias Feriais

 

4ª Feira, 26-III: Benefícios do cumprimento da Lei.

Dt 4, 1. 5-9 / Mt 5, 17-19

Não penseis que Eu tenha vindo revogar a Lei ou os Profetas: não vim revogar, mas dar pelo cumprimento.

«A Lei Evangélica dá cumprimento aos mandamentos da Lei. Chega a reformar  a raiz dos actos, o coração onde se formam a fé, a esperança e a caridade. Assim, o Evangelho leva a Lei à sua plenitude, pela imitação da perfeição do Pai celeste, pelo perdão dos inimigos e pela oração pelos perseguidores, à maneira da generosidade divina» (CI, 1967).

Quem cumpre a Lei adquire sabedoria e entende melhor os acontecimentos. E, ao contrário do que muitos pensam, os preceitos da Lei são justos e muito melhores do que quaisquer outros. E finalmente, são a chave que abre a porta para a vida eterna (Leit.).

 

5ª Feira, 27-III: O segredo da felicidade e a escuta da palavra de Deus.

Jer 7, 23-28 / Lc 11, 14-23

Escutai a minha voz. Segui inteiramente o caminho que vou traçar-vos, a fim de serdes felizes.

Deus não se cansa de falar ao seu povo. Enviou os profetas, desde a saída do Egipto (Leit.) até ao aparecimento de Cristo, a quem compete proclamar a Boa Nova. O povo não escutava a voz de Deus e até se opunha a Cristo: 'quem não está comigo é contra mim' (Ev.).

Procuremos não fechar os nossos corações aos ensinamentos do Senhor (S. Resp.). Recebamos a Boa Nova, tal como a Igreja nos propõe. Assimilemos os ensinamentos para que se tornem vida da nossa vida. Guardemo-los nos nossos corações e transmitamo-los aos nossos familiares e amigos.

 

6ª Feira,28-III: Correspondência ao amor de Deus.

Os 14, 2-10 / Mc 12, 28-34

Eu hei-de curar-lhes a rebeldia, amá-los-ei generosamente, serei como o orvalho para Israel.

Apesar de todas as infidelidades do povo de Israel, Deus perdoa todas as ofensas e compromete-se a ajudar (Leit.).

Nunca conseguiremos imaginar o amor que Deus nos tem. Ele amou-nos até ao ponto de nos enviar o seu Filho Unigénito para nos salvar. Por isso, pede-nos que O amemos mais: «Amarás o Senhor teu Deus, com todo o teu coração, de toda a  tua alma, de toda tua mente e com todas as tuas forças. Para correspondermos cada vez melhor «procuremos ir olhando sempre para os seus favores, porque nos despertam para amá-lo» (S. Teresa de Ávila).

 

Sábado, 29-III: Os sacrifícios agradáveis a Deus.

Os 6, 1-6 / Lc 18, 9-14

Pois eu quero o amor e não os sacrifícios, o conhecimento de Deus mais do que os holocaustos.

Estas palavras de Oseias estão em perfeita sintonia com a parábola do fariseu e do publicano. O fariseu orgulhava-se de oferecer vários sacrifícios e o publicano manifestava humildemente o seu amor, através da contrição (Ev.).

Que agrada a Deus? «Todas as actividades dos leigos, orações, iniciativas apostólicas, a sua vida conjugal e familiar, o seu trabalho de cada dia, os seus lazeres do espírito e do corpo, se forem vividos no Espírito de Deus e até as provações da vida, se pacientemente suportadas, tudo se transforma em sacrifício agradável a Deus, por Cristo» (CIC, 901).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Nuno Westwood

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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