1º Domingo da Quaresma

9 de Março de 2014

 

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Perdoa ao teu povo, Az. Oliveira, NRMS 105

Salmo 90, 15-16

Antífona de entrada: Quando me invocar, hei-de atendê-lo; hei-de libertá-lo e dar-lhe glória. Favorecê-lo-ei com longa vida e lhe mostrarei a minha salvação.

 

Não se diz o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Na passada quarta-feira a Igreja iniciou o habitual tempo penitencial que prepara, na vida dos crentes, a contemplação e celebração do mistério pascal. Com o ritual da imposição das cinzas a liturgia recorda ao homem a sua própria condição e remete-o para a sua própria realidade. Ultrapassando uma ideia errada que se tem da Quaresma enquanto tempo de negação do homem, é importante salientar que a Quaresma que ora se inicia é o redimensionar do homem na realidade e no realismo da sua própria existência.

Assim sendo, o primeiro domingo da Quaresma tem uma importância decisiva na concretização do compromisso de conversão no aqui e no agora, sem que se prorrogue o que é urgente na vida de fé. Procuremos, então, celebrar e santificar este domingo, para que não seja especial apenas por ser o Dia do Senhor, mas porque acresce a este dia um tempo favorável de encontro com Deus e, consequentemente, um encontro com os irmãos.

 

Oração colecta: Concedei-nos, Deus omnipotente, que, pela observância quaresmal, alcancemos maior compreensão do mistério de Cristo e a nossa vida seja um digno testemunho. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: O relato do Livro do Génesis que iremos escutar remonta-nos para o momento da criação do homem e para a beleza do paraíso. O belo e o bem é, então, hipotecado pela cedência do Homem à astúcia do mal, tornando-se consequência e consequente em toda a condição humana.

 

Génesis 2, 7-9; 3, 1-7

 

7O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, insuflou em suas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivo. 8Depois, o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, a oriente, e nele colocou o homem que tinha formado. 9Fez nascer na terra toda a espécie de árvores, de frutos agradáveis à vista e bons para comer, entre as quais a árvore da vida, no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal. 1Ora, a serpente era o mais astucioso de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha feito. Ela disse à mulher: «É verdade que Deus vos disse: ‘Não podeis comer o fruto de nenhuma árvore do jardim’?» 2A mulher respondeu: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; 3mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus avisou-nos: ‘Não podeis comer dele nem tocar-lhe, senão morrereis’». 4A serpente replicou à mulher: «De maneira nenhuma! Não morrereis. 5Mas Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como deuses, ficando a conhecer o bem e o mal». 6A mulher viu então que o fruto da árvore era bom para comer e agradável à vista, e precioso para esclarecer a inteligência. Colheu o fruto e comeu-o; depois deu-o ao marido, que estava junto dela, e ele também comeu. 7Abriram-se então os seus olhos e compreenderam que estavam despidos. Por isso, entrelaçaram folhas de figueira e cingiram os rins com elas.

 

O «relato» bíblico das origens, de que hoje se lêem alguns vv., não pode ser lido ingenuamente como um relato histórico daquilo que sucedeu no início do Universo e do ser humano, «porque, não se trata de saber quando e como surgiu materialmente o cosmos, nem quando é que apareceu o homem; mas, sobretudo, de descobrir qual o sentido de tal origem: se foi determinada pelo acaso, por um destino cego ou uma fatalidade anónima, ou, antes, por um Ser transcendente, inteligente e bom, que é Deus. E, se o mundo provém da sabedoria e da bondade de Deus, qual a razão do mal? De onde vem o mal? Quem é responsável pelo mal? E será que existe uma libertação do mesmo?» (Catecismo da Igreja Católica, nº 284). 

7 «Pó da terra… sopro de vida»: a narrativa tem como ponto de referência não só o facto de que, pela sua corporeidade, o homem pertence à terra e, ao morrer, se reduz a pó, mas também o facto de que, na língua hebraica, «homem» (adam) se diz com o mesmo vocábulo com que se designa a terra avermelhada (adamáh); mas, ao mesmo tempo, o homem está animado por um princípio («sopro») de vida, que não vem da terra. A representação de Deus como «oleiro», independentemente das notáveis semelhanças com outros relatos extra-bíblicos, parece sugerir que o homem está nas mãos de Deus como o barro nas mãos do oleiro (cf. Is 29, 16; Jer 18, 6; Rom 9, 20-21; Job 34, 14-15).

2, 8-9 Um jardim. Nos LXX lê-se «parádeisos»; daqui a habitual designação de «paraíso (terrestre)». O jardim de «delícias» (éden) permite que o leitor pense, mais que num lugar geográfico, num estado de felicidade original e de comunhão com Deus; a «árvore da vida» simboliza a vida em plenitude e a imortalidade (cf. Gn 3, 22); «a árvore da ciência do bem e do mal» é o símbolo da fonte do recto actuar moral, o projecto do Criador, que o homem não pode manipular nem alterar a seu bel-prazer sem cavar a sua ruína.

3, 1-7 Num relato simbólico, numa linguagem cheia de imagens muito expressivas, seja qual for a origem literária destas figuras, deixa-se ver que os males de que o ser humano padece não procedem de Deus, mas do pecado, que, desde a origem, destruiu a harmonia do homem com Deus, consigo próprio e com a criação, com consequências desastrosas que afectam toda a humanidade (cf. a 2ª leitura de hoje: Rom 5, 12-19). Note-se, porém, que uma interpretação literal fundamentalista desta narrativa corre o perigo de levar ao absurdo de considerar a lei moral como algo caprichoso e extrínseco à natureza humana.

1 «A serpente», um símbolo do demónio, cf. Apoc 12, 9, onde se fala da «serpente antiga», o inimigo de Deus e dos amigos de Deus, que aqui aparece também como «caluniador» (este é o significado do seu nome grego, «diábolos»), ao apresentar a ordem divina como má, uma prepotência da parte de Deus (v. 5). Note-se a profunda observação psicológica posta na encenação do processo da tentação: estão aqui representadas as tentações de sempre; primeiro, uma insinuação inocente – «é verdade que Deus vos proibiu...», a que se segue o efeito de começar a prestar atenção àquele a quem não se pode dar ouvidos; finalmente, uma vez aberto o diálogo, no momento preciso, o tentador entra a matar, mentindo descaradamente (cf. Jo 8, 44) – «de maneira nenhuma! Não morrereis! Mas Deus sabe que...» (v. 5). A Escritura e a Tradição da Igreja vêem no demónio, satanás, ou diabo, um anjo criado bom por Deus, mas que se tornou mau.

5 «Sereis como deuses, ficando a conhecer o bem e o mal»: Isto não significa alcançar a omnisciência divina, nem adquirir o poder de discernir o bem do mal. Este «conhecer o bem e o mal» corresponde a decidir por si o que é bem e o que é mal; trata-se, portanto, de encenar uma tentação de soberba pela qual a criatura não se conforma com a sua condição de criatura, e não aceita o supremo domínio de Deus.

6 «Fruto… para esclarecer a inteligência». Sendo-nos desconhecido em que consistiu o pecado das origens, porque Deus não no-lo revelou, alguns exegetas procuram então averiguar qual é o tipo de pecado que o hagiógrafo aqui descreve, e vêem nesta linguagem um colorido de magia e feitiçaria (um conhecimento oculto), ou até mesmo uma alusão ao culto das serpentes para a fertilidade, de que o hagiógrafo pretenderia afastar os seus contemporâneos tão atreitos a estes desvios religiosos.

7 «Compreenderam que estavam despidos». Note-se a fina ironia latente no contraste com a promessa sedutora: «abrir-se-ão os vossos olhos» (v. 6); os olhos abrem-se, sim, mas para contemplarem a própria nudez. Assim fica simbolizado o desgosto e a frustração que se segue ao gosto do pecado, e também a noção teológica da ruptura da harmonia primordial, nomeadamente entre o homem e a mulher (cf. 2, 25).

 

Salmo Responsorial    Sl 50 (51), 3-4.5-6a.12-13.14.17 (R. cf. 3a)

 

Monição: Em resposta à leitura do primeiro livro bíblico, respondamos então, na nossa condição de filhos de Adão, através do Salmo 50, o qual implora de Deus a misericórdia que nos redime da culpa.

 

Refrão:        Pecámos, Senhor: tende compaixão de nós.

 

Ou:               Tende compaixão de nós, Senhor,

                porque somos pecadores.

 

Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,

pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados.

Lavai-me de toda a iniquidade

e purificai-me de todas as faltas.

 

Porque eu reconheço os meus pecados

e tenho sempre diante de mim as minhas culpas.

Pequei contra Vós, só contra Vós,

e fiz o mal diante dos vossos olhos.

 

Criai em mim, ó Deus, um coração puro

e fazei nascer dentro de mim um espírito firme.

Não queirais repelir-me da vossa presença

e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.

 

Dai-me de novo a alegria da vossa salvação

e sustentai-me com espírito generoso.

Abri, Senhor, os meus lábios

e a minha boca cantará o vosso louvor.

 

 

Segunda Leitura

 

Monição: Na Epístola que escreve aos cristãos de Roma, S. Paulo expõe claramente o que significa o Pecado Original. Embora o pecado de Adão tenha corrompido consequentemente a humanidade, o Apóstolo revela como Jesus, o novo Adão, resgata a humanidade culpada e condenada. A graça operada em Cristo supera a culpa contraída em Adão. E aqui se fundamenta a justificação do homem.

 

Forma longa: Romanos 5, 12-19;        forma breve: Romanos 5, 12.17-19

 

Irmãos: 12Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim também a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram. [13De facto, até à Lei, existia o pecado no mundo. Mas o pecado não é levado em conta, se não houver lei. 14Entretanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo para aqueles que não tinham pecado por uma transgressão à semelhança de Adão, que é figura d’Aquele que havia de vir. 15Mas o dom gratuito não é como a falta. Se pelo pecado de um só pereceram muitos, com muito mais razão a graça de Deus, dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo, se concedeu com abundância a muitos homens. 16E esse dom não é como o pecado de um só: o julgamento que resultou desse único pecado levou à condenação, ao passo que o dom gratuito, que veio depois de muitas faltas, leva à justificação.] 17Se a morte reinou pelo pecado de um só homem, com muito mais razão, aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça, reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo. 18Porque, assim como pelo pecado de um só, veio para todos os homens a condenação, assim também, pela obra de justiça de um só, virá para todos a justificação que dá a vida. 19De facto, como pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, muitos se tornarão justos.

 

Estamos diante dum texto da máxima importância para a Teologia e para a vida cristã. As controvérsias doutrinais contribuíram para que o ponto central das afirmações de Paulo se tenha feito deslocar da justificação pela graça para o pecado, e da obra salvadora de Cristo para a obra demolidora de Adão. É certo que não faria sentido falar da libertação por Cristo do pecado, da condenação e da morte, sem que estes males tivessem entrado de forma poderosa no mundo. Mas Adão não passa duma figura, por antítese, de Cristo, em virtude duma argumentação a fortiori de tipo rabínico (o chamado qal wa-hómer). Mas, ainda que, como pensam muitos exegetas, Paulo não trate directa e expressamente do tema do pecado original (só indirectamente), este texto não deixa de oferecer uma base legítima e sólida para a doutrina proposta pelo Magistério da Igreja, assim resumida no Catecismo da Igreja Católica, nº 403: «Depois de S. Paulo, a Igreja sempre ensinou que a imensa miséria que oprime os homens, e a sua inclinação para o mal e para a morte não se compreendem sem a ligação com o pecado de Adão e o facto de ele nos transmitir um pecado de que todos nascemos infectados e que é a ‘morte da alma’. A partir desta certeza de fé, a Igreja confessa o Baptismo para a remissão dos pecados, mesmo às crianças que não cometeram qualquer pecado pessoal».

 

Aclamação ao Evangelho        Mt 4, 4b

 

Monição: As leituras que temos escutado fazem-nos perceber como o mistério da iniquidade continuamente ameaça o homem. A redenção operada por Cristo não é algo que surge do nada ou que tenha sido operado sem esforço ou mérito. Ao invés, Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, ao assumir esta mesma humanidade, assume também a sua fraqueza e expõe-se à tentação. A vitória de Cristo sobre a tentação é expressão da esperança que a humanidade tem na luta pela santidade.

 

 

Cântico: Não só de pão vive o homem, M. Luis, NCT 106

 

Nem só de pão vive o homem,

mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.

 

 

Evangelho

 

São Mateus 4, 1-11

 

1Naquele tempo, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Demónio. 2Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome. 3O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães». 4Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’». 5Então o Demónio conduziu-O à cidade santa, levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe: 6«Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’». 7Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’». 8De novo o Demónio O levou consigo a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, 9e disse-Lhe: «Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares». 10Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’». 11Então o Demónio deixou-O e logo os Anjos se aproximaram e serviram Jesus.

 

Antes de mais, convém advertir que as tentações de Jesus não aparecem como uma tentação ocasional qualquer, nem sequer um ataque mais violento, mas como um duelo mortal e decisivo entre dois inimigos irredutíveis. Com efeito, não se trata de umas tentações dirigidas a fazer com que Jesus caia em meras faltas pessoais (gula, orgulho, avareza), mas têm o carácter de um ataque frontal para desvirtuar toda a obra de Jesus, desviando-a da vontade do Pai. Com efeito, «as tentações acompanham todo o caminho de Jesus, e a narração das tentações apresenta-se… uma antecipação, na qual se condensa a luta de todo o caminho. […] Os 40 dias de jejum abrangem o drama da história, que Jesus assume em Si mesmo e suporta até ao fundo». (Bento xvi, Jesus de Nazaré, pp. 57.60).

Uma consideração superficial desta passagem evangélica poderia levar-nos a encarar estas tentações até como ridículas, absurdas ou míticas. Vale pena ver o belo e profundo comentário do Papa na referida obra. Mas vejamos brevemente o enorme alcance de cada uma das três tentações:

3-4 Na primeira tentação, trata-se de fazer enveredar a Jesus pelo caminho das esperanças materialistas do povo que esperava um Messias que lhe trouxesse bem-estar, riqueza, prosperidade, fertilidade, pão e prazer.

5-7 Na segunda tentação, aquele «lança-te daqui abaixo», constitui um apelo à esperança judaica num messias a descer espectacularmente do céu, à vista do povo. Mas Jesus renuncia decididamente à fácil tentação de ser um messias milagreiro e espectacular, dizendo um decidido não a um actuar à base do triunfo pessoal, do êxito humano.

8-10 Na terceira tentação, aparece diante de Jesus a sedução de se mover na linha da esperança popular num messianismo político, vitorioso, dominador dos Romanos e do mundo inteiro, a tentação de reduzir a instauração do Reino de Deus à instauração dum reino temporal.

Ninguém foi testemunha destas tentações, mas Jesus, ao falar aos Apóstolos do Reino de Deus, não deixa de os prevenir contra umas tentações que haveriam de vir a sentir também os seus discípulos ao longo da história. Também assim Jesus «se tornava em tudo semelhante aos seus irmãos, para se tornar um Sumo Sacerdote misericordioso» (Hebr 2, 17). E Jesus aparece a ensinar-nos a resistir, sem dar ouvidos, como Eva, aos enganos do mafarrico, sem entrar em diálogo com ele, mas apoiando-nos sempre na certeza e na luz da Palavra de Deus e na sua graça, que Jesus ensinou a pedir no «Pai-Nosso»: «não nos deixeis cair em tentação» e «livrai-nos do Maligno» (Mt 6, 13).

 

Sugestões para a homilia

 

1.     O tempo quaresmal, muito conhecido pelas três grandes dimensões ascéticas da oração, da penitência e da caridade, é um tempo fortalecido pela graça de Deus no sentido de reajustar a compreensão que cada pessoa tem de si mesmo e da realidade que a envolve. O tempo de oração mais intensificado leva a alma crente a saborear o que verdadeiramente a sacia, sobretudo do ponto de vista do reconhecimento da omnipotência de Deus. Reconhecendo o lugar de Deus através da oração, o homem descobre-se a si mesmo a partir da penitência, nomeadamente o jejum; renunciando ao que lhe é agradável e às pequenas e grandes paixões, o ser humano potencializa a sua capacidade de controlar os instintos e permitir que o todo o seu ser se centre na busca do essencial. Por fim, a caridade é um compromisso que ultrapassa a boa vontade; sondar o coração amoroso de Deus na oração e compreendendo pela penitência que a vida está revestida de muita superficialidade, o cristão desperta para a realidade do irmão, sensibilizando os seus sentidos para o sofrer físico e espiritual de quem o rodeia.

2.     Tal como acabámos de referir, a ascética quaresmal reveste-se de enorme significado na vida do cristão. Estando intimamente ligada à narração evangélica que escutámos, a ascética quaresmal pretende, também ela, transportar cada cristão para o deserto da existência. O deserto, enquanto lugar vazio, árido e sem água, é o ambiente em que, por excelência, o crente pode buscar o essencial, porque aí a ausência do que é essencial faz desejar o que escassa. O frenesim da vida leva-nos muitas vezes a não tomarmos consciência da riqueza da nossa vida de fé, a centralidade que ela tem na nossa vida ou até mesmo de que forma estamos despertos para o seu conteúdo essencial! Deste modo, à imagem de Jesus e aludindo já ao tempo em que o Povo de Deus saiu do Egipto, também esta Quaresma é o tempo da saída do que é corriqueiro, do que é cómodo, do que nos prende e do que nos limita na resposta sincera e disponível a Deus. Para Deus é necessário que muitas das vezes rejeitemos os adornos da vida, as jóias que nos seduzem, os armários e departamentos estanques que bloqueiam o espaço e a visão de um horizonte que olhe apenas para o Oriente, para a Luz nascente que celebraremos na Páscoa.

3.     As três tentações tocam no centro das grandes ambições humanas e denunciam estas escravidões que interditam o homem à resposta generosa a Deus. A incarnação de Cristo expõe o Senhor às fragilidades humanas, ainda que a tentação não tenha vencido a fortaleza do Filho de Deus. A vitória de Cristo sobre o tentador é a última derrota daquele que durante toda a História da Salvação pretende aniquilar a soberania de Deus e a amizade da criatura em relação ao seu Criador. Assim sendo, a vitória de Cristo protagoniza desde então a vitória de todo o baptizado, o qual é revestido de Cristo para a luta espiritual contra os falsos deuses que podem seduzir e corromper o espírito humano.

4.     A leitura que se faz da vida e os sinais de Deus que interpretamos na nossa vida devem de ser sempre levadas à oração. Só de uma procura sincera da vontade de Deus e um esvaziamento de caprichos pessoais se poderá chegar a uma vida orientada com cunho sobrenatural. Para isso é necessário requerer a graça divina e enveredar num esforço pessoal de continuamente procurar a presença de Deus, para que a tentação não sufoque ou silencie o querer do Senhor. Tal como nos revela o Evangelho, o próprio demónio cita a Sagrada Escritura, em total deturpação egocêntrica, para que a aparência de bem leva à opção pelo mal. Deste modo, a abertura de coração passa por um querer ousado de romper com os caprichos pessoais ou envolventes e querer apenas determinar a vida com o olhar de Deus.

 

Fala o Santo Padre

 

«Perante o mal moral, a atitude de Deus consiste

em opor-se ao pecado e salvar o pecador.»

 

Prezados irmãos e irmãs

Este é o primeiro Domingo da Quaresma, o Tempo litúrgico de quarenta dias que constitui na Igreja um itinerário espiritual de preparação para a Páscoa. Em síntese, trata-se de seguir Jesus que se dirige decididamente rumo à Cruz, auge da sua missão de salvação. Se nos interrogamos: qual o motivo da Quaresma? e da Cruz?; a resposta em termos radicais é a seguinte: porque existe o mal, aliás o pecado, que segundo as Escrituras é a causa profunda de todo o mal. Mas esta afirmação não é de modo algum evidente, e muitos não aceitam a própria palavra «pecado», porque ela pressupõe uma visão religiosa do mundo e do homem. Com efeito, é verdade: se se elimina Deus do horizonte do mundo, não se pode falar de pecado. Como quando o sol se esconde, desaparecem as sombras; a sombra só aparece quando há o sol; assim, o eclipse de Deus comporta necessariamente o eclipse do pecado. Por isso, o sentido do pecado — que é diverso do «sentido de culpa», como o entende a psicologia — adquire-se, redescobrindo o sentido de Deus. Manifesta-o o Salmo Miserere, atribuído ao rei David, por ocasião do seu dúplice pecado, de adultério e de homicídio: «Só contra Vós pequei» — afirma David, dirigindo-se a Deus (Sl 51 [50], 6).

Perante o mal moral, a atitude de Deus consiste em opor-se ao pecado e salvar o pecador. Deus não tolera o mal, porque é Amor, Justiça e Fidelidade; e precisamente por isso não deseja a morte do pecador, mas que ele se converta e viva. Deus intervém para salvar a humanidade: vemo-lo em toda a história do povo judeu, a partir da libertação do Egipto. Deus está determinado a libertar os seus filhos da escravidão, para os conduzir à liberdade. E a escravidão mais grave e mais profunda é precisamente a do pecado. Foi por isso que Deus enviou o seu Filho ao mundo: para libertar os homens do domínio de Satanás, «origem e causa de todo o pecado». Enviou-o à nossa carne mortal, para que se tornasse vítima de expiação, morrendo por nós na cruz. Contra este plano de salvação definitivo e universal, o Diabo opôs-se com todas as forças, como demonstra de modo particular o Evangelho das tentações de Jesus no deserto, que é proclamado todos os anos no primeiro Domingo da Quaresma. Com efeito, entrar neste Tempo litúrgico significa aliar-se sempre com Cristo, contra o pecado, enfrentar — quer como indivíduo, quer como Igreja — o combate espiritual contra o espírito do mal (Quarta-Feira de Cinzas, Oração da Colecta).

Por isso, invoquemos a ajuda maternal de Maria Santíssima para o caminho quaresmal que há pouco teve início, a fim de que seja rico de frutos de conversão. Peço uma recordação especial na oração, para mim e para os meus colaboradores na Cúria romana, que esta tarde começaremos a semana de Exercícios espirituais.

 

Papa Bento XVI, Angelus na Praça de São Pedro, 13 de Março de 2011

 

Oração Universal

 

 

Irmãos e irmãs:

Oremos por todos aqueles

que se preparam para celebrar a Páscoa,

conduzidos pela Palavra e pelo Espírito,

dizendo (ou: cantando):

R. Kýrie, eléison.

Ou: Renovai, Senhor, o vosso povo.

Ou: Senhor, tende piedade de nós.

 

1. Pela santa Igreja, pelos seus fiéis e catecúmenos,

para que a vitória de Jesus sobre o Maligno

lhes dê a graça de vencer as tentações,

oremos, irmãos.

 

2. Pelos homens e mulheres de todo o mundo,

para que saibam descobrir a dignidade que Deus lhes deu,

ao criá-los à sua imagem e semelhança,

oremos, irmãos.

 

3. Por aqueles que o Demónio tenta enganar,

para que encontrem nas palavras de Jesus

a força para escolher sempre a vontade de Deus,

oremos, irmãos.

 

4. Pelos que não têm paz ou estão doentes,

para que os discípulos de Jesus sejam para eles

testemunhas diligentes do Evangelho,

oremos, irmãos.

 

5. Por nós próprios e pela nossa comunidade (paroquial),

para que o caminho de conversão que iniciámos

nos conduza à vida em Cristo e à sua Páscoa,

oremos, irmãos.

 

Senhor, nosso Deus e nosso Pai,

que nos ensinastes pela palavra de Jesus

que o homem não vive só de pão,

conduzi-nos pelo Espírito ao deserto,

para escutarmos sempre mais a sua voz.

Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Caminho pelo deserto, J. Santos, NRMS 69

 

Oração sobre as oblatas: Fazei que a nossa vida, Senhor, corresponda à oferta das nossas mãos, com a qual damos início à celebração do tempo santo da Quaresma. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

As tentações do Senhor

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor.

Jejuando durante quarenta dias, Ele santificou a observância quaresmal e, triunfando das insídias da antiga serpente, ensinou-nos a vencer as tentações do pecado, para que, celebrando dignamente o mistério pascal, passemos um dia à Páscoa eterna.

Por isso, com os Anjos e os Santos, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo: M. Simões, NRMS 50-51

 

Monição da Comunhão

 

Na resposta que dá ao tentador ao dizer que “nem só de pão vive o homem”, Jesus é muito claro sobre o que deverão ser as verdadeiras necessidades da humanidade e a sua verdadeira fome. O Pão do Céu, que é Ele mesmo, deverá ser a atracção do coração de cada homem. Contemplar, Adorar e Comungar o próprio Deus; ver, tocar e saborear a eternidade é algo que transcende a própria existência humana. Daí que, ao abeirarmo-nos da comunhão, é necessário compreender que não é apenas Cristo que participa da nossa temporalidade, mas que o Homem também é, pela mesma comunhão, participante da eternidade de modo a desejar o que já, de antemão, alcança.

 

Cântico da Comunhão: Nem só de pão vive o homem, F. da Silva, NRMS 29

Mt 4, 4

Antífona da comunhão: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que vem da boca de Deus.

 

ou

Salmo 90, 4

O Senhor te cobrirá com as suas penas, debaixo das suas asas encontrarás abrigo.

 

Cântico de acção de graças: A toda a hora bendirei o Senhor, M. Valença, NRMS 60

 

Oração depois da comunhão: Saciados com o pão do Céu, que alimenta a fé, confirma a esperança e fortalece a caridade, nós Vos pedimos, Senhor: ensinai-nos a ter fome de Cristo, o verdadeiro pão da vida, e a alimentar-nos de toda a palavra que da vossa boca nos vem. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

O Evangelho que escutámos nesta celebração termina dizendo que os Anjos serviram o Senhor. Sair da Igreja após a Eucaristia exige da nossa parte um compromisso de serviço, tal como o dos Anjos. Em início de quaresma, o primeiro compromisso e o primeiro serviço que temos é o da renovação e da conversão, algo que não pode ser apenas espiritualista, mas que se traduza em gestos, expressões e atitudes próprias de quem vive, nas palavras do Papa Francisco, a alegria do Evangelho.

 

Cântico final: É dura a caminhada, M. Faria, NRMS 6 (II)

 

Homilias Feriais

 

1ª SEMANA

 

2ª Feira, 10-III:Os caminhos da salvação.

1 Lev 19, 1-2. 11-18 / Mt 25, 31-46

Vinde benditos de meu Pai, recebei como herança o reino, que vos está preparado desde a criação do mundo.

Quem quiser receber a herança do Reino, há-de viver os mandamentos (Leit.). «O Decálogo, as 'dez palavras' indicam as condições duma vida liberta da escravidão do pecado. O Decálogo  é um caminho de vida» (CIC, 2057).

A segunda parte do Decálogo refere-se ao amor ao próximo (Leit. e Ev.), que se pode concretizar nas obras de misericórdia. Durante a Quaresma procuremos viver melhor as obras espirituais (instruir, aconselhar, consolar, confortar...) e também as corporais (dar de comer a quem tem fome, cuidar dos doentes...).

 

3ª Feira, 11-III: A vontade de Deus e o perdão.

Is 55, 10-11 / Mt 6, 7-15

Orai, pois, deste modo: Pai nosso, que estais nos Céus...

Devemos rezar confiadamente a oração que o Senhor nos ensinou, o Pai nosso  (Ev.), que contém tudo o que podemos pedir a Deus, e que é verdadeiramente o resumo de todo o Evangelho (CIC, 2761).

As Leituras têm duas petições: A primeira, 'seja feita a vossa vontade', exige que recebamos a palavra que sai da boca de Deus e que a ponhamos em prática, sem nada perder (Leit.); a segunda 'perdoai-nos as nossas ofensas' (Ev.). «O perdão é a condição fundamental da reconciliação dos filhos de Deus com o seu Pai e dos homens entre si» (CIC, 2844).

 

4ª Feira, 12-III: Realização sacramental do apelo à conversão.

Jon 3, 1-10 / Lc 11, 29-32

Ergue-te e vai à cidade de Nínive e proclama-lhe a mensagem que te direi.

Os habitantes da cidade de Nínive aceitaram bem o pedido de conversão que lhes foi dirigido pelo Senhor, através do profeta Jonas (Leit. e Ev.).

Há um sacramento que renova o apelo de Jesus à conversão: «É o chamado sacramento da conversão, porque realiza sacramentalmente o apelo de Jesus à conversão e o esforço por regressar à casa do Pai, da qual o pecador se afastou pelo pecado. É chamado sacramento da Penitência, porque consagra uma caminhada pessoal e eclesial de conversão, de arrependimento e de satisfação por parte do cristão pecador» (CIC, 1423).

 

5ª Feira, 13-III: A conversão e a oração.

Est. 14, 1. 3-5. 12-14 / Mt 7, 7-12

Pedi, e dar-vos-ão. Procurai, e achareis. Batei, e hão-de abrir-vos.

A oração é uma das formas de vivermos a penitência quaresmal, juntamente com o jejum e a esmola». O coração, assim decidido a converter-se aprende a orar na fé. Ele (Jesus) pode pedir-nos que 'procuremos' e 'batamos à porta' (Ev.), porque Ele próprio é a porta e o caminho» (CIC,2609).

A rainha Ester é o melhor exemplo desta oração: «Vinde socorrer-me, que eu estou só e só em vós tenho auxílio, pois sinto ao alcance da mão o perigo que me espreita» (Leit.). Na oração peçamos ao Senhor que nos socorra nas tentações (Leit.).

 

6ª Feira, 14-III: A paz com Deus e com os irmãos.

Ez 18 21-28 / Mt 5, 20-26

Se o pecador se arrepender de todas as faltas que tiver cometido há-de viver e não morrerá.

A Quaresma é um tempo de conversão, de arrependimento, um caminho para a vida (Leit.).A conversão do coração tem muito que ver com a caridade, pois devemos reconciliar-nos com o irmão antes de apresentarmos a nossa oferta no altar (Ev.).

E também devemos empenhar-nos por introduzir, nas instituições e condições de vida, as correcções convenientes, quando induzem ao pecado, para que estejam conformes com as normas da justiça e favorecerem  o bem em vez de se lhe oporem (CIC, 1888). Assim também a sociedade se irá reconciliando com Deus.

 

Sábado, 15-III: Heroicidade na caridade.

Deut 26, 16-19 / Mt 5, 43-48

Pois eu digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus.

Moisés lembrava ao povo que deveria pôr em prática os preceitos e sentenças do Senhor, cumprindo-os com todo o coração e com toda a alma (Leit.).

Entre os preceitos de Jesus está o amor ao próximo, levado até às últimas consequências: amar os inimigos e rezar por eles (Ev.). Exige heroicidade, mas foi isso que Ele próprio viveu: quando o foram prender não permitiu que Pedro usasse a espada; na Cruz perdoou a quem o ofendeu e maltratou. Façamos o mesmo, pois o perdão testemunha também que, no nosso mundo, o amor é mais forte do que o pecado (CIC, 2844).

 

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Ricardo Cardoso

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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