TEOLOGIA E MAGISTÉRIO
O DESAFIO DO ANÚNCIO DO EVANGELHO NA
“EVANGELII GAUDIUM”
Mons. Claudio Maria Celli
Presidente do
Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais
No passado dia 26-XI-2013, foi apresentada no Vaticano a Exortação Apostólica “Evangelii gaudium” do Papa Francisco sobre o anúncio do Evangelho no mundo actual, na sequência do último Sínodo dos Bispos de 2012.
Oferecemos a seguir o texto da intervenção do arcebispo Claudio Maria Celli, Presidente do Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais, traduzido do original italiano no site www.vatican.va.
Título da Redacção da CL.
Foi-me pedido que apresentasse este Documento pontifício, no que diz respeito à sua dimensão comunicativa e na medida em que a comunicação entra na temática da nova evangelização. A minha intervenção toma em conta dois pontos fundamentais.
I. O estilo do documento
Trata-se de uma Exortação Apostólica e, como tal, tem um estilo e uma linguagem próprios. Gostaria de salientar que o tom é coloquial, com a característica própria de uma profunda inspiração pastoral. Como diz o Papa Francisco: “Desejo dirigir-me aos fiéis cristãos, para os convidar para uma nova etapa evangelizadora”. Lendo o texto, percebe-se que nos encontramos diante de um pastor que está em colóquio meditativo com os fiéis.
Ressalta uma característica própria: o Papa usa uma linguagem serena, cordial, directa, em sintonia com o estilo manifestado nestes meses de pontificado.
II. O papel da comunicação nesta nova etapa evangelizadora, pois o Papa quer “indicar vias para o caminho da Igreja nos próximos anos”.
Ressalta sobretudo a consciência do Papa acerca do que está a acontecer no mundo de hoje, especialmente no campo da saúde, da educação e da comunicação. O Papa está consciente dos progressos/êxitos do homem nestes três campos e faz referência às evidentes inovações tecnológicas: “Estamos na era do conhecimento e da informação, fonte de novas formas de um poder muitas vezes anónimo” (n.52).
Sem dúvida trata-se de progresso e de êxitos, mas o Papa é plenamente consciente de que a actual sociedade da informação nos satura indiscriminadamente de dados, todos ao mesmo nível, e que acabam por levar-nos a uma tremenda superficialidade na altura de se levantarem questões morais. Por este motivo, o Papa sublinha que é necessária uma verdadeira educação que ensine a pensar criticamente e ofereça um adequado percurso de amadurecimento de valores (n.64).
O documento reconhece também que as maiores possibilidades actuais de comunicação podem traduzir-se em possibilidades mais amplas de encontro entre todos. Daí a exigência de descobrir e transmitir a mística de vivermos juntos, de nos misturarmos, de nos encontrarmos (n.87).
Ressalta também a consciência de que “novas culturas continuam a formar-se nestas enormes geografias humanas onde o cristão já não costuma ser promotor ou gerador de sentido, mas recebe delas outras linguagens, símbolos, mensagens e paradigmas que oferecem novas orientações de vida, muitas vezes em contraste com o Evangelho de Jesus”. O Papa sublinha até que uma “cultura inédita palpita e está em elaboração na cidade” ( n.73 ).
Não falta também uma menção sobre a atitude da cultura mediática em relação à mensagem da Igreja. No número 79, o Papa sublinha que “a cultura mediática e alguns ambientes intelectuais transmitem, às vezes, uma acentuada desconfiança quanto à mensagem da Igreja, e um certo desencanto”.
Como era previsível, uma grande parte está dedicada a analisar como é comunicada a mensagem. Não faltam algumas observações sobre este tema. O Papa está ciente da velocidade da comunicação moderna e de como, às vezes, os media fazem uma selecção interesseira dos vários conteúdos. Por esta razão, existe o risco de que a mensagem possa aparecer mutilada e reduzida a aspectos secundários. Há o risco de que algumas questões do ensinamento moral da Igreja fiquem fora do contexto que lhes dá sentido, ou que às vezes a mensagem pareça identificar-se com aqueles aspectos secundários que não manifestam o autêntico coração da mensagem de Jesus Cristo.
Perante estes riscos, o Papa considera que se deve ser realistas, ou seja, não dar por suposto que os interlocutores conhecem a fundo o que dizemos, ou que podem conectar o nosso discurso com o núcleo essencial do Evangelho que lhe dá sentido, beleza e atractivo (n.34).
Por este motivo, o Papa sublinha que “uma pastoral em chave missionária não está obsessionada pela transmissão desarticulada de uma imensidade de doutrinas que se tentam impor à força de insistir” (n.35).
O anúncio deve concentrar-se no essencial, no que é mais belo, maior, mais atraente e ao mesmo tempo mais necessário. Portanto, a proposta deve simplificar-se, sem perder por isso profundidade e verdade, e tornar-se assim mais convincente e radiosa.
Amplo espaço é destinado a reflectir sobre um tema que me é particularmente caro, que é o tema da linguagem. O Papa, referindo-se às actuais, rápidas e enormes transformações culturais, recorda que se deve prestar uma “constante atenção ao tentar exprimir as verdades de sempre numa linguagem que permita reconhecer a sua permanente novidade” (n.41).
A este respeito, o Papa recorda que, “por vezes, mesmo ouvindo uma linguagem totalmente ortodoxa, aquilo que os fiéis recebem, devido à linguagem que eles mesmos utilizam e compreendem, é algo que não corresponde ao verdadeiro Evangelho de Jesus Cristo”; e neste sentido o Papa insiste sublinhando como “com a santa intenção de lhes comunicar a verdade sobre Deus e o ser humano, nalgumas ocasiões damos-lhes um falso deus ou um ideal humano que não é verdadeiramente cristão. Deste modo, somos fiéis a uma formulação, mas não transmitimos a substância” (n.41).
O tema da linguagem é certamente um grande desafio para a Igreja hoje. Um desafio que deve ser acolhido conscientemente e com decisão, com coragem e sabedoria, como recordava Paulo VI em Evangelii nuntiandi.
O Papa Francisco salienta ao mesmo tempo: “não poderemos jamais tornar os ensinamentos da Igreja uma realidade facilmente compreensível e felizmente apreciada por todos; a fé conserva sempre um aspecto de cruz, certa obscuridade que não tira firmeza à sua adesão”; e recorda a todos nós que “há coisas que se compreendem e apreciam só a partir desta adesão que é irmã do amor, para além da clareza com que se possam compreender as razões e os argumentos” (n.42).
Do que foi dito até aqui, verifica-se que a tarefa evangelizadora “se move por entre as limitações da linguagem e das circunstâncias”. Deve-se anunciar “cada vez melhor a verdade do Evangelho num contexto determinado, sem renunciar à verdade, ao bem e à luz que pode dar, quando a perfeição não é possível” (n.45).
E o Papa continua: um coração missionário “nunca se fecha, nunca se refugia nas próprias seguranças, nunca opta pela rigidez autodefensiva”. Cabe-lhe crescer na compreensão do Evangelho, no discernimento das sendas do Espírito, não renunciar ao bem possível, “ainda que corra o risco de se sujar com a lama da estrada” (n.45).
Neste contexto, o Papa – como era de prever – dá uma particular atenção à homilia, e conforme o dito até aqui, reconhece que o problema não é somente saber o que se deve dizer, mas não descuidar o “como”, o modo concreto de desenvolver uma pregação (n.157).
Conhecendo o estilo comunicativo do Papa Francisco, não surpreende que, neste contexto, sublinhe o facto de que um dos esforços mais necessários é o de aprender a usar imagens na pregação, “isto é, a falar por imagens” (n.157), e precisamente nesta exortação descobrimos que na origem do seu estilo comunicativo está o ensinamento que um seu velho mestre tinha dado ao jovem Bergoglio: “Uma boa homilia deve conter «uma ideia, um sentimento, uma imagem»” (n.157).
Continuando com o tema da linguagem, o Papa recorda que a simplicidade tem a ver com a linguagem utilizada. Deve ser a linguagem que os destinatários compreendam, para não correr o risco de falar ao vento (n.158).
Neste sentido, o Papa sublinha pastoralmente que “o maior risco de um pregador é habituar-se à sua própria linguagem e pensar que todos os outros a usam e compreendem espontaneamente” (n.158).
Portanto, poderíamos dizer que o caminho é o de uma simplicidade, de uma clareza e de uma dimensão positiva. Com efeito, “uma pregação positiva oferece sempre esperança, orienta para o futuro, não nos deixa prisioneiros da negatividade” (n. 159).
Gostaria de dedicar a última chamada de atenção desta minha intervenção ao tema da via da beleza, “via pulchritudinis” (propositio 20): “Anunciar Cristo significa mostrar que crer n’Ele e segui-Lo não é algo apenas verdadeiro e justo, mas também belo, capaz de cumular a vida dum novo esplendor e duma alegria profunda” (n.167).
Todas as expressões de verdadeira beleza – diz o Papa – podem ser reconhecidas como uma vereda que ajuda a encontrar-se com o Senhor Jesus; e recorda a todos nós que a estima da beleza é necessária para poder chegar ao coração do homem e fazer resplandecer nele a verdade e a bondade do Ressuscitado. Recorda-se, portanto, o uso da arte na obra evangelizadora da Igreja, e o Papa não hesita em falar de uma nova “linguagem parabólica”.
Termino esta minha intervenção com uma ulterior citação prospectiva do Papa Francisco que dá sentido à nossa atividade comunicativa na Igreja: “É preciso ter a coragem de encontrar os novos sinais, os novos símbolos, uma nova carne para a transmissão da Palavra, as diversas formas de beleza que se manifestam em diferentes âmbitos culturais”.
Este é o desafio que o Papa Francisco coloca a todos nós e, no que me diz respeito, desafio que o Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais quer assumir plenamente e responder positivamente.