JOÃO pAULO ii

GIGANTE DA FÉ *

 

 

 

Cardeal Stanislaw Dziwisz

Arcebispo de Cracóvia (Polónia)  

 

Vivi quase quarenta anos ao lado de um santo, trabalhando com ele em Cracóvia e no Vaticano. Por vezes, perguntaram-me quando é que João Paulo II se tinha tornado santo. Penso que desde a juventude. Karol Wojtyla era um jovem normal, inteligente e sensível, cheio de energia e de alegria de viver. Mas desde o início havia nele algo «mais».

Não é fácil decifrar este mistério, mas não há dúvida de que o centro da existência de Karol Wojtyla era Deus. Jesus Cristo foi o seu primeiro e supremo amor. E ele permaneceu-lhe fiel até ao fim. Até ao último suspiro. A fidelidade no amor manifestava-se na oração e no serviço. Karol Wojtyla mantinha um diálogo com o seu Criador e Redentor. Encontrava-se com Ele sobretudo no santuário do seu coração. Procurava-o também na criação, na beleza da Natureza, mas especialmente nos homens. Foram lendárias as suas férias com os jovens, passadas nos lagos ou nas montanhas.

A profundidade da contemplação do futuro Papa deu como fruto o seu zelo no serviço em prol da Igreja. Tinha-se posto à disposição de Jesus. E Jesus, conhecendo as suas qualidades de mente e coração, confiou-lhe responsabilidades cada vez maiores, até ao memorável dia do mês de Outubro de 1978. A partir daquele dia, a santidade do bispo de Roma e do pastor da Igreja universal começou a tornar-se visível ao mundo inteiro.

João Paulo II teve que ampliar as dimensões do seu coração, para que todas as nações, culturas e lín­guas pudessem encontrar lugar nele. Todos puderam vê-lo compenetrado na oração, proclamar com fervor a oração de Deus, celebrar a Eucaristia com grandíssima devoção, enriquecer a Igreja com os seus ensinamentos, ir em peregrinação aos confins mais longínquos da terra. As pessoas amavam João Paulo II. Ficavam fascinadas com a sua personalidade e humanidade. Viam nele a presença de Deus.

Também os jovens sensíveis à beleza, bondade e verdade, viam em João Paulo II um mestre. Ensi­nava-lhes a autenticidade da vida. Era um mestre exigente porque exigia em primeiro lugar de si mesmo. As suas metas na vida eram altas e, por isso, tinha a coragem de propor aos outros os ideais elevados do amor e do serviço. O ideal da santidade.

A santidade de João Paulo II manifestou-se também através do sofrimento. Deus submeteu-o à prova como o ouro no crisol. Ele aceitou o sofrimento com humildade e submissão à vontade de Deus. Compartilhou com a Igreja a experiência do sofrimento pessoal, vivido no espírito de fé. As suas palavras sobre o sentido do sofrimento, sobre a sua dimensão salvífica, eram palavras autênticas, experimentadas por ele mesmo. Em 13 de Maio de 1981, na praça de São Pedro, chegou quase ao martírio. Deus salvou-lhe a vida, para que introduzisse a Igreja no terceiro milénio do cristianismo, para que ajudasse a todos nós a «fazer-se ao largo».

Vivi ao lado de João Paulo II a maior parte do meu serviço sacerdotal na Igreja. Todos os dias fui testemunha da sua oração e do seu tra­balho, do seu repouso e do seu sofrimento, das suas viagens e dos seus inúmeros encontros com as pessoas. A santidade de João Paulo II era simples, humilde, serviçal. Ele vivia de Deus e levava os outros para Deus. Milhões de pessoas olhavam para ele e escutavam-no; todo o mundo falava sobre ele, foi louvado e criticado, tornando-se sinal de contradição como defensor da vida e da dignidade do homem.

Contribuiu para a queda dos sistemas totalitários e para a abertura de muitas portas a Cristo. Fê-lo com uma força de gigante. Foi um gigante da fé. Um espírito poderoso.

Estamos gratos a Bento XVI por ter iniciado, poucos meses depois da sua morte, o processo de beatificação e de canonização de João Paulo II. Estamos gratos pela sua beatificação de há dois anos. Hoje agradecemos ao Santo Padre Francisco pela sua decisão de canonizar o beato João Paulo II. Isto será o último selo da autenticidade da santidade deste Papa, que chegou a Roma da Polónia, «de uma terra distante».

Durante as exéquias de João Paulo II, em 8 de Abril de 2005, para mim o momento mais difícil foi cobrir com um pano o rosto do defunto Pontífice. Aquele rosto tão familiar, tão amigo, tão humano. Hoje, estou feliz porque doravante toda a Igreja olhará para o rosto de um novo santo, de São João Paulo II.

 

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(Excertos da homilia de Bento XVI na Missa de beatificação de João Paulo II, em 1 de Maio de 2011 (pode-se ver a homilia na íntegra em Celebração Litúrgica, 2010/2011, 4, ou em www.vatican.va)

 

Estamos no segundo domingo de Páscoa, que o Beato João Paulo II quis intitular Domingo da Divina Misericórdia. Por isso, se escolheu esta data para a presente celebração, porque o meu Predecessor, por um desígnio providencial, entregou o seu espírito a Deus justamente ao anoitecer da vigília de tal ocorrência. Além disso, hoje tem início o mês de Maio, o mês de Maria; e neste dia celebra-se também a memória de São José operário. Todos estes elementos concorrem para enriquecer a nossa oração; servem-nos de ajuda, a nós que ainda peregrinamos no tempo e no espaço; no Céu, a festa entre os Anjos e os Santos é muito diferente! E todavia Deus é um só, e um só é Cristo Senhor que, como uma ponte, une a terra e o Céu, e neste momento sentimo-lo muito perto, sentimo-nos quase participantes da liturgia celeste.

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Queridos irmãos e irmãs, hoje diante dos nossos olhos brilha, na plena luz de Cristo ressuscitado, a amada e venerada figura de João Paulo II. Hoje, o seu nome junta-se à série dos Santos e Beatos que ele mesmo proclamou durante os seus quase 27 anos de pontificado, lembrando com vigor a vocação universal à medida alta da vida cristã, à santidade, como afirma a Constituição conciliar Lumen gentium sobre a Igreja. Os membros do Povo de Deus – bispos, sacerdotes, diáconos, fiéis leigos, religiosos e religiosas – todos nós estamos a caminho da Pátria celeste, tendo-nos precedido a Virgem Maria, associada de modo singular e perfeito ao mistério de Cristo e da Igreja. Karol Wojtyła, primeiro como Bispo Auxiliar e depois como Arcebispo de Cracóvia, participou no Concílio Vaticano II e bem sabia que dedicar a Maria o último capítulo da Constituição sobre a Igreja significava colocar a Mãe do Redentor como imagem e modelo de santidade para todo o cristão e para a Igreja inteira. Foi esta visão teológica que o Beato João Paulo II descobriu na sua juventude, tendo-a depois conservado e aprofundado durante toda a vida; uma visão, que se resume no ícone bíblico de Cristo crucificado com Maria ao pé da Cruz. Um ícone que se encontra no Evangelho de João (19, 25-27) e está sintetizado nas armas episcopais e, depois, papais de Karol Wojtyła: uma cruz de ouro, um «M» na parte inferior direita e o lema «Totus tuus», que corresponde à conhecida frase de São Luís Maria Grignion de Monfort, na qual Karol Wojtyła encontrou um princípio fundamental para a sua vida: «Totus tuus ego sum et omnia mea tua sunt. Accipio Te in mea omnia. Praebe mihi cor tuum, Maria – Sou todo vosso e tudo o que possuo é vosso. Tomo-vos como toda a minha riqueza. Dai-me o vosso coração, ó Maria» (Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 266).

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Karol Wojtyła subiu ao sólio de Pedro trazendo consigo a sua reflexão profunda sobre a confrontação entre o marxismo e o cristianismo, centrada no homem. A sua mensagem foi esta: o homem é o caminho da Igreja, e Cristo é o caminho do homem. Com esta mensagem, que é a grande herança do Concílio Vaticano II e do seu «timoneiro» – o Servo de Deus Papa Paulo VI –, João Paulo II foi o guia do Povo de Deus ao cruzar o limiar do Terceiro Milénio, que ele pôde, justamente graças a Cristo, chamar «limiar da esperança». Na verdade, através do longo caminho de preparação para o Grande Jubileu, ele conferiu ao cristianismo uma renovada orientação para o futuro, o futuro de Deus, que é transcendente relativamente à história, mas incide na história. Aquela carga de esperança que de certo modo fora cedida ao marxismo e à ideologia do progresso, João Paulo II legitimamente reivindicou-a para o cristianismo, restituindo-lhe a fisionomia autêntica da esperança, que se deve viver na história com um espírito de «advento», numa existência pessoal e comunitária orientada para Cristo, plenitude do homem e realização das suas expectativas de justiça e de paz.

Por fim, quero agradecer a Deus também a experiência de colaboração pessoal que me concedeu ter longamente com o Beato Papa João Paulo II. Se antes já tinha tido possibilidades de o conhecer e estimar, desde 1982, quando me chamou a Roma como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, pude durante 23 anos permanecer junto dele crescendo sempre mais a minha veneração pela sua pessoa. O meu serviço foi sustentado pela sua profundidade espiritual, pela riqueza das suas intuições. Sempre me impressionou e edificou o exemplo da sua oração: entranhava-se no encontro com Deus, inclusive no meio das mais variadas incumbências do seu ministério. E, depois, impressionou-me o seu testemunho no sofrimento: pouco a pouco o Senhor foi-o despojando de tudo, mas permaneceu sempre uma «rocha», como Cristo o quis. A sua humildade profunda, enraizada na união íntima com Cristo, permitiu-lhe continuar a guiar a Igreja e a dar ao mundo uma mensagem ainda mais eloquente, justamente no período em que as forças físicas definhavam. Assim, realizou de maneira extraordinária a vocação de todo o sacerdote e bispo: tornar-se um só com aquele Jesus que diariamente recebe e oferece na Igreja.

 

 

 



* In L’Osservatore Romano, ed. port., 14-VII-2013. Com o mesmo título, foi publicada anteriormente uma entrevista ao Cardeal na Celebração Litúrgica, 2012-2013, 3, pp. 740-741.


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