João XXIII

 

 

No Consistório de Cardeais de 30 de Setembro passado, o Santo Padre anunciou que, no dia 27 de Abril de 2014, Domingo da Divina Misericórdia, vai proceder à canonização dos seus dois predecessores: João Paulo II (1978-2005), beatificado no Domingo da Misericórdia dia 1 de Maio de 2011 e reconhecido o segundo milagre atribuído à sua intercessão em 5 de Julho passado; e João XXIII (1958-1963), beatificado juntamente com Pio IX em 3 de Setembro do ano jubilar 2000 e dispensado o segundo milagre pelo Papa Francisco também em 5 de Julho passado.

Apresentamos nesta Secção e na seguinte os comentários escritos pelos respectivos secretários particulares, publicados em L’Osservatore Romano, ed. port., de 14-VII-2013, bem como excertos das homilias da sua beatificação.

 

 

 

 

SIMPLICIDADE E PRUDÊNCIA

 

 

Mons. Loris Capovilla

 

 

É difícil escrever algumas palavras para expressar o turbilhão de sentimentos suscitados em mim pela decisão maravilhosa do Papa Francisco de unir na mesma canonização dois Pontífices, cuja santidade pude constatar pessoalmente. Vivi a do Papa João estando ao seu lado, quase respirando-a, no dia-a-dia da sua existência. Há um princípio expresso por São João Crisóstomo no qual Angelo Roncalli sempre se inspirou: isto é, simplicidade e prudência são o ápice da filosofia. Durante toda a sua vida procurou seguir este caminho.

Em relação ao Papa João Paulo II, recordo com grande emoção o nosso primeiro encontro depois da sua eleição. Convidou-me a ir à capela e rezamos por longo tempo. Depois, concluída a oração, perguntou-me se estava feliz por ter voltado àquele lugar no qual vivi momentos importantes. Eu, quase provocando-o, disse que naqueles lugares tinha vivido momentos difíceis e de sofrimento ao lado e com João XXIII. E ele pondo uma mão no meu ombro, disse-me: «Todos devemos sofrer. Consequentemente o Papa João, que era um profeta, devia sofrer pela sua fidelidade a Cristo. Mas, cedo ou tarde, dar-se-ão conta de que era um santo». O mesmo disse-me Paulo VI quando, nos aposentos onde o Papa Roncalli tinha falecido, me recebeu e me garantiu que tinha aceite com o coração aberto a vontade do Senhor exactamente para prosseguir a obra profética iniciada pelo Papa João.

Sinto-me feliz também pela coincidência da canonização do Papa Roncalli com o Ano da fé, o seu grande amor. Um dia, confidenciou-me: «Nunca tive dúvidas de fé. Estou sereno». E, contente, leu-me algumas notas da sua juventude sacerdotal: «O primeiro tesouro da minha alma é a fé, a fé santa, justa e simples, dos meus pais e dos meus avós. Serei escrupuloso e austero comigo até para que a pureza da minha fé não sofra de modo algum qualquer dano» (Diário da alma, 528). «As graves tarefas de professor do seminário, a mim impostas pelos superiores, obrigam-me não só a pensar em mim mesmo para a pure­za da minha fé, mas a prover também para que por todo o meu pensamento exposto aos jovens clérigos na escola, pelas minhas palavras, pelo meu comportamento, transpire todo o espírito de íntima união com a Igreja e com o Papa, que os edifique e eduque a pensar também assim. Por isso, serei delicadíssimo, cuidando de infundir nos alunos o espírito de humildade e de oração nos estudos sagrados, que torna o intelecto mais forte e o coração mais generoso» (ibid., 529).

E a quem me pergunta qual o momento do dia 11 de Outubro de 1962, inauguração do concílio Va­ticano II, que permaneceu mais impresso na minha memória, respondo sem hesitação: «A profissão de fé do Papa João diante da imensa assembleia ajoelhada e silenciosa: Ego Joannes, catholicae ecclesiae episcopus, credo in unum Deum Patrem omnipotentem. Ele reafirmou o pleno assentimento à Revelação, aos ensinamentos e aos documentos da Mãe a Igreja». Foi para todos um grande ensinamento e hoje somos chamados a professar a mesma fé que nos torna fortes e corajosos, e a repetir o que João XXIII afirmou no último colóquio com os cardeais na festa de são José, em 1963: «As notas evangélicas que nos falam dele concordam bem com as aplicações ascéticas que foram feitas no curso dos séculos: Quem tem fé não teme (cf. Isaías 28, 16), não precipita os eventos, não amedronta o seu próximo. Este traço particular da sua fisionomia é-me familiar e infunde-me coragem. A serenidade do meu ânimo de servo humilde do Senhor haure inspiração contínua disto; e não tem origem do não conhecimento dos homens e da história, e não fecha os olhos diante da realidade. É serenidade que vem de Deus, ordenador sapientíssimo das vicissitudes humanas, em referência ao facto extraordinário do Concílio, e ao ordinário e difícil serviço do governo universal da Igreja.

 

 

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(Excerto da homilia de João Paulo II na Missa de beatificação de Pio IX e João XXIII e outros três beatos, em 3-IX-2000)

 

“Tu és bom e generoso no perdão”" (Ant. de entrada). Contemplamos hoje na glória do Senhor outro Pontífice, João XXIII, o Papa que conquistou o mundo pela afabilidade dos seus modos, nos quais transparecia a singular bondade de ânimo. Os desígnios divinos quiseram que a beatificação unisse dois Papas que viveram em contextos históricos muito diferentes, mas relacionados, além das aparências, por não poucas semelhanças a nível humano e espiritual. É conhecida a profunda veneração que o Papa João tinha pelo Papa Pio IX, do qual desejava a beatificação. Durante um retiro espiritual, em 1959, escrevia no seu Diário: “Penso sempre em Pio IX de santa e gloriosa memória, e imitando-o nos seus sacrifícios, desejaria ser digno de celebrar a sua canonização” (Diário da Alma, Ed. São Paulo, 2000, p. 560).

Do Papa João permanece na memória de todos a imagem de um rosto sorridente e de dois braços abertos num abraço ao mundo inteiro. Quantas pessoas foram conquistadas pela simplicidade do seu ânimo, conjugada com uma ampla experiência de homens e de coisas! A rajada de novidade dada por ele não se referia decerto à doutrina, mas ao modo de a expor; era novo o estilo de falar e de agir, era nova a carga de simpatia com que se dirigia às pessoas comuns e aos poderosos da terra. Foi com este espírito que proclamou o Concílio Vaticano II, com o qual iniciou uma nova página na história da Igreja: os cristãos sentiram-se chamados a anunciar o Evangelho com renovada coragem e com uma atenção mais vigilante aos “sinais dos tempos”. O Concílio foi deveras uma intuição profética deste idoso Pontífice que inaugurou, no meio de não poucas dificuldades, uma nova era de esperança para os cristãos e para a humanidade.

Nos últimos momentos da sua existência terrena, ele confiou à Igreja o seu testamento: “O que tem mais valor na vida é Jesus Cristo bendito, a sua Santa Igreja, o seu Evangelho, a verdade e a bondade”. Também nós hoje queremos receber este testamento, enquanto damos graças a Deus por no-lo ter dado como Pastor.

 

 


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