ENCÍCLICA  LUMEN FIDEI

AS DECLINAÇÕES DO “NÓS”

 

 

 

 

Cardeal Marc Ouellet *

Prefeito da Congregação para os Bispos

 

 

À trilogia de Bento XVI sobre as virtudes teologais faltava um pilar. A Providência quis que o pilar que faltava fosse um dom do Papa emérito ao seu sucessor e, ao mesmo tempo, um símbolo de unidade, porque assumindo e completando a obra empreendida pelo seu predecessor, o Papa Francisco dá testemunho juntamente com ele da unidade da fé. Assim, a luz da fé é transmitida de um Pontífice para o outro, como nas corridas no estádio, graças «ao dom da sucessão apostólica», mediante a qual «é garantida a continuidade da memória da Igreja», assim como a «certeza de beber na nascente pura da qual brota a fé» (n. 49).

Por conseguinte, nós sentimos uma alegria particular ao receber a encíclica Lumen fidei, cuja modalidade compartilhada de transmissão explica de maneira extraordinária o aspecto mais fundamental e original por ela desenvolvido, a dimensão da comunhão na fé. Na realidade, esta encíclica fala expressando-se num “nós” que não é maiestatis, mas sim de comunhão. Ela fala da fé como de uma experiência de comunhão, de dilatação do eu e de solidariedade no caminho da Igreja com Cristo, para a salvação da humanidade. Limitar-me-ei a explicar este ponto de vista.

A encíclica apresenta verdadeiramente a fé cristã como uma luz proveniente da escuta da Palavra de Deus na história. Uma luz que mostra o amor de Deus em acção para estabelecer uma aliança com a humanidade. Esta luz já se deixa entrever nas obras do Criador, mas resplandece como amor na vida, na morte e na ressurreição de Jesus Cristo. Nele, a luz do Amor irrompe na história e oferece aos homens uma esperança que infunde a coragem de caminharmos juntos rumo a um futuro de plena comunhão. «Cristo é aquele que, tendo suportado o sofrimento, “dá origem à fé, levando-a ao seu cumprimento” (Heb 12, 2)», como nos diz a Carta aos Hebreus, amplamente citada na encíclica (n. 57).

Objectivamente, a luz da fé orienta o sentido da vida, traz conforto e consolação aos corações inquietos e abatidos, mas também compromete os fiéis a porem-se ao serviço do bem comum da humanidade através do anúncio e da partilha autêntica da graça recebida de Deus. Por conseguinte, é a fé que chama os crentes a abraçar o sofrimento do mundo, como são Francisco e a beata Madre Teresa, com a finalidade de propagar nele a luz de Cristo. «A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho», afirma a encíclica (n. 57).

Subjectivamente, a fé é uma abertura ao Amor de Cristo, um acolher, o entrar numa relação que dilata o «eu» até alcançar as dimensões de um «nós» que não é somente humano, na Igreja, mas que é propriamente divino, ou seja, uma participação autêntica no «Nós» do Pai e do Filho no Espírito Santo. A encíclica insiste sobre este fundamento trinitário que constitui a fé como realidade pessoal e ao mesmo tempo também eclesial: «Esta abertura ao “nós” eclesial realiza-se de acordo com a abertura própria do amor de Deus, que não é apenas relação entre o Pai e o Filho, entre “eu” e “tu” mas, no Espírito, é também um “nós”, uma comunhão de pessoas» (n. 39).

Nesta luz cristológica, trinitária e eclesial, a confissão da fé adquire a sua expressão concreta mediante a celebração dos sacramentos do baptismo, da confirmação e da Eucaristia, na qual «o crente afirma que o centro do ser, o segredo mais profundo de todas as coisas, é a comunhão divina» (n. 45). Então, encontra-se «implicado na verdade que ele mesmo confessa» e por isso é transformado e «introduzido numa história de amor que o abraça, que dilata o seu ser tornando-o parte de uma grande comunhão», que é a Igreja (n. 45).

A partir deste «Nós» trinitário que se prolonga no «nós» eclesial, a encíclica passa de maneira total­mente natural ao «nós» da família, que é o lugar por excelência de transmissão da fé (cf. n. 43). Por um lado, isto é bem claro na experiência do baptismo das crianças, quando os pais, o padrinho e a madrinha confessam a fé em nome da criança, acolhendo-a desta forma na fé da Igreja que sempre nos precede. Por outro lado – recorda ainda a encíclica –, subsistem profundas afinidades entre a fé e o amor sem fim que se prometem o homem e a mulher que se unem em matrimónio. «Prometer um amor que dure para sem­pre é possível quando se descobre um desígnio maior que os próprios projectos, que nos sustenta e permite doar o futuro inteiro à pessoa amada» (n. 52). Assim, graças à fé, o amor dos esposos tem mais garantias de perdurar e de unir as gerações na alegria da fidelidade e do serviço da vida. «A fé não é um refúgio para gente sem coragem, mas a dilatação da vida», conclui a encíclica, que vê a família como «o primeiro âmbito da cidade dos homens iluminado pela fé» (nn. 53 e 52).

A encíclica acrescenta um desenvolvimento considerável em relação à pertinência da fé para a vida social, para a edificação da cidade na justiça e na paz, graças ao respeito por cada pessoa e pela sua liberdade, graças aos recursos de compaixão e de reconciliação por ela oferecidos para o conforto dos sofrimentos e a resolução dos conflitos. «Por isso, a fé é um bem para todos, um bem comum» (n. 51). A tendência a confinar a fé na esfera da vida particular encontra-se aqui rejeitada com tons pacatos, mas de maneira decisiva.

Muitos aspectos precedentemente desenvolvidos pelas encíclicas sobre a caridade e a esperança encontram o seu complemento nesta evidência da fé como comunhão e serviço ao bem comum. «As mãos da fé levantam-se para o céu, mas fazem-no ao mesmo tempo que edificam, na caridade, uma cidade construída sobre relações que têm como alicerce o amor de Deus» (n. 51). «Se tiramos a fé em Deus das nossas cidades, enfraquecer-se-á a confiança entre nós» (n. 55). Em síntese, mediante a fé Deus quer «tornar firmes as relações entre os homens», e espera que deste modo se realize a «grandeza da vida comum que Ele torna possível» através da graça da sua presença (n. 55).

Ao concluir, a encíclica contempla Maria, a figura por excelência da fé, aquela que ouviu a Palavra e que a ponderou no seu coração, aquela que seguiu Jesus e que se deixou transformar «entrando no olhar próprio do Filho de Deus encarnado» (n. 58). No final, o Papa Francisco confirma juntamente com o seu predecessor uma verdade da fé deixada de lado e às vezes em determinados ambientes até posta em dúvida: «Na concepção virginal de Maria, temos um sinal claro da filiação divina de Cristo: a origem eterna de Cristo está no Pai – Ele é o Filho em sentido total e único e por isso nasce, no tempo, sem a intervenção do homem» (n. 59).

Portanto, acolhamos com grande alegria e gratidão esta profissão de fé integral, sob a forma de catequese a quatro mãos dos sucessores de Pedro. Juntos, eles expõem a fé da Igreja na sua beleza, que «é professada partindo do corpo de Cristo, como comunhão concreta dos crentes» (n. 22).

 

 

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial