Baptismo do Senhor

12 de Janeiro de 2014

 

Festa

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Abriram-se os céus, Az. Oliveira, NRMS 80

cf Mt 3, 16-17

Antífona de entrada: Depois do Baptismo do Senhor, abriram-se os Céus. Sobre Ele desceu o Espirito Santo em figura de pomba e fez-Se ouvir a voz do Pai: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus as minhas complacências».

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Celebramos neste domingo a festa do Baptismo do Senhor a qual encerra o ciclo iniciado com a solenidade do Natal. Com o seu Baptismo Jesus dá início à sua vida pública e revela-se o filho de Deus, que veio ao mundo enviado pelo Pai, com a missão de salvar e libertar os homens.

Nesta festa é-nos apresentada a realidade da Santíssima Trindade, pois o Pai dá testemunho do Filho e o Espírito Santo desce sobre Jesus, em gesto de consagração, como ouviremos nas leituras da Palavra que nos são propostas para este dia.

Jesus quis colocar-Se ao lado dos pecadores desde o início da sua vida pública, aceitando ser como escravo, a fim de percorrer junto com eles a senda que conduz à liberdade.

Como, decerto, nem sempre nos deixámos conduzir por esta solidariedade demonstrada por Jesus, peçamos perdão a Deus, nosso Pai.

 

Oração colecta: Deus eterno e omnipotente, que proclamastes solenemente a Cristo como vosso amado Filho quando era baptizado nas águas do rio Jordão e o Espírito Santo descia sobre Ele, concedei aos vossos filhos adoptivos, renascidos pela água e pelo Espírito Santo, a graça de permanecerem sempre no vosso amor. Por Nosso Senhor...

ou

Deus omnipotente, cujo Filho Unigénito Se manifestou aos homens na realidade da nossa natureza, concedei-nos que, reconhecendo-O exteriormente semelhante a nós, sejamos por Ele interiormente renovados. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Após a morte de Jesus, os discípulos confusos e desconcertados, procuram na Sagrada Escritura algo que justifique tal acontecimento. Deparam-se com o texto de Isaías, que ouviremos, e percebem que tudo o que nele se relata se realizou plenamente em Jesus de Nazaré, verdadeira luz para todas as nações.

 

Isaías 42, 1-4.6-7

Diz o Senhor: 1«Eis o meu servo, a quem Eu protejo, o meu eleito, enlevo da minha alma. Sobre ele fiz repousar o meu espírito, para que leve a justiça às nações. 2Não gritará, nem levantará a voz, nem se fará ouvir nas praças; 3não quebrará a cana fendida, nem apagará a torcida que ainda fumega: 4proclamará fielmente a justiça. Não desfalecerá nem desistirá, enquanto não estabelecer a justiça na terra, a doutrina que as ilhas longínquas esperam. 6Fui Eu, o Senhor, que te chamei segundo a justiça; tomei-te pela mão, formei-te e fiz de ti a aliança do povo e a luz das nações, 7para abrires os olhos aos cegos, tirares do cárcere os prisioneiros e da prisão os que habitam nas trevas».

 

Este texto pertence ao primeiro dos quatro «cantos do Servo de Yahwéh», dispersos pelo Segundo Isaías (Is 40 – 55), mas que, na origem; talvez fizessem parte de um único poema.

«Eis o meu servo». Trata-se de um mediador através do qual Deus levará a cabo o seu plano de salvação. Torna-se difícil determinar quem é designado em primeiro plano, se é uma personalidade individual (um rei de Judá, o profeta, ou o messias), ou uma colectividade (todo o povo de Israel ou parte dele), ou um indivíduo como símbolo de todo o povo. O nosso texto deixa ver uma personagem deveras misteriosa, humilde (vv. 2-3) e poderosa (v. 4.7), escolhido por Deus e com uma missão universal (v. 1.6). Pondo de parte a complexa e discutida questão da personalidade originária deste magnífico poema, o certo é que o Novo Testamento está cheio de ressonâncias deste texto, vendo mesmo nesta figura singular um anúncio do Messias, com pleno cumprimento na pessoa de Jesus (v. 1: cf. Mt 3, 17 e Lc 9, 35; vv. 2-4: cf. Mt 12, 15-21; v. 6: Lc 1, 78-79 e 2, 32 e Jo 8, 12 e 9, 5; v. 7: Mt 11, 4-6 e Lc 7, 18-22). É evidente que foi escolhida esta leitura para hoje porque, assim Deus, pelo Profeta, apresenta o seu servo «enlevo da minha alma», sobre quem «fiz repousar o meu espírito»; é assim que também no Jordão Jesus é apresentado (cf. Evangelho de hoje e paralelos).

 

Salmo Responsorial    Salmo 28 (29), 1a.2.3ac-4.3b.9b-10 (R. 11b)

 

Monição: Ao proclamarmos o salmo 28 somos convidados a pensar na manifestação divina que acompanhou o Baptismo de Cristo e a aclamar a glória do Senhor que abençoa o seu povo na paz.

 

Refrão:        O Senhor abençoará o seu povo na paz.

 

Tributai ao Senhor, filhos de Deus,

tributai ao Senhor glória e poder.

Tributai ao Senhor a glória do seu nome,

adorai o Senhor com ornamentos sagrados.

 

A voz do Senhor ressoa sobre as nuvens,

o Senhor está sobre a vastidão das águas.

A voz do Senhor é poderosa,

a voz do Senhor é majestosa.

 

A majestade de Deus faz ecoar o seu trovão

e no seu templo todos clamam: Glória!

Sobre as águas do dilúvio senta-Se o Senhor,

o Senhor senta-Se como Rei eterno.

 

 

Segunda Leitura

 

Monição: Pedro, ao dar testemunho de Jesus, evoca o baptismo do Senhor e sublinha o significado da presença do Espírito Santo como sinal de toda a acção futura de Jesus, o qual passou fazendo o bem.

 

Actos dos Apóstolos 10, 34-38

Naqueles dias, 34Pedro tomou a palavra e disse: «Na verdade, eu reconheço que Deus não faz acepção de pessoas, 35mas, em qualquer nação, aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável. 36Ele enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando a paz por Jesus Cristo, que é o Senhor de todos. 37Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou: 38Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque Deus estava com Ele».

 

Temos aqui uma pequenina parte do discurso de Pedro em casa do centurião Cornélio em Cesareia, quando recebeu directamente na Igreja os primeiros gentios, sem serem obrigados a judaizar. É surpreendente que um discurso dirigido a não judeus contenha alusões (não citações explícitas) ao Antigo Testamento: v. 34 – «Deus não faz acepção de pessoas» (cf. Dt 10, 17); v. 36 – «Ele enviou a sua palavra aos filhos de Israel» (cf. Salm 107, 20); «anunciando a paz» (cf. Is 52, 7); v. 38 «Deus ungiu com… Espírito Santo» (cf. Is 61, 1). Isto corresponde a que se está num ponto crucial da vida da Igreja, em que ela entra decididamente pelos caminhos da sua universalidade intrínseca, em confronto com o nacionalismo judaico. Por isso era importante recorrer àquelas passagens do A. T. que se opõem a qualquer espécie de privilégio de raça ou cultura: «a palavra aos filhos de Israel» deixa ver como Deus é o «Senhor de todos», imparcial, «não faz acepção de pessoas», e que a «paz» – a súmula de todos os bens messiânicos – Deus a destina a toda a humanidade. O discurso tem um carácter kerigmático evidente. E Lucas – o historiador-teólogo –, ao redigi-lo, quaisquer que possam ter sido as fontes utilizadas, terá em vista, mais ainda do que a situação concreta em que foi pronunciado, o efeito a produzir nos seus leitores. Convém notar que, no entanto, ao redigir os discursos – o grande recurso de Actos –, Lucas não os inventa; embora não sejam uma reprodução literal, considera-se que correspondem aos temas da pregação primitiva.

38 «Ungiu do Espírito Santo». Estamos aqui em face de uma expressão simbólica tipicamente hebraica, alusiva à união misteriosa com o Espírito Santo (algo que pertence ao mistério trinitário, o verdadeiro ser e missão de Jesus, que se torna visível na sua Humanidade, na teofania do Jordão). É clara a referência a textos do A. T. de grande densidade messiânica, como Is 11, 2; 61, 1 (cf. Lc 2, 18). Ver supra nota à 1ª leitura do 3º Domingo do Advento (nota ao v. 26).

 

Aclamação ao Evangelho        Mc 9, 6

 

Monição: A voz de Deus mostra que Jesus é a única autoridade e todos os que ouvem o seu convite e seguem Jesus até ao fim, começam desde já a participar da sua vitória final.

 

Aleluia

 

Cântico: F da Silva, 73-74

 

Abriram-se os céus e ouviu-se a voz do Pai:

«Este é o meu Filho muito amado: escutai-O».

 

 

Evangelho

 

São Mateus 3, 13-17

Naquele tempo, 13Jesus chegou da Galileia e veio ter com João Baptista ao Jordão, para ser baptizado por ele. 14Mas João opunha-se, dizendo: «Eu é que preciso de ser baptizado por Ti e Tu vens ter comigo?» 15Jesus respondeu-lhe: «Deixa por agora; convém que assim cumpramos toda a justiça». João deixou então que Ele Se aproximasse. 16Logo que Jesus foi baptizado, saiu da água. Então, abriram-se os céus e Jesus viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e pousar sobre Ele. 17E uma voz vinda do céu dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência».

 

Este breve relato, com que se inicia o ministério público de Jesus, não é uma invenção literária para transmitir uma ideia sobre Jesus: é algo que se encontra na tradição primitiva, bem documentado no N. T.: Act 1, 21-22; 4, 27; 10, 38; Jo 1, 26-34; Mt 3, 13-17; Mc 1, 9-11; Lc 3, 21-22. O facto de o baptismo de Jesus ser uma coisa difícil de compreender pelas primeiras comunidades abona a favor do seu valor histórico.

14 «Eu é que preciso…» Assim fica bem clara a absoluta superioridade de Jesus em frente da excepcional figura de João.

15 «Convém que assim cumpramos toda a justiça», isto é, todo o plano estabelecido por Deus em ordem à salvação do homem. Jesus, ao querer ser baptizado por João, não pretende tornar-se seu discípulo, nem converter-se; no relato, Jesus não aparece apenas como um exemplo de humildade e de acatamento da sua missão de singular enviado de Deus, mas sobretudo aparece a realizar uma espécie de «acção simbólica», à maneira dos antigos Profetas. Assim, Ele – que era a Vida (Jo 1, 4; 14, 6) – entra em contacto com a água para indicar que lhe dava força vivificante e a tornava matéria do seu futuro Baptismo. Esta foi a ocasião escolhida por Deus para, logo no início da vida pública de Jesus, nos ser dado um sinal da sua divindade. Foi, por assim dizer, a sua apresentação pública como Messias e Filho de Deus, credenciado pelo Espírito Santo (v. 16: «como uma pomba») e pelo Pai (v. 17: «a voz vinda dos Céus» – a bat qol –, um grande motivo de credibilidade na época. A Liturgia quer fazer-nos lembrar que a SS.ma Trindade que se manifesta no Baptismo do Senhor toma posse da nossa alma no nosso Baptismo.

16 «Como uma pomba». Eis o comentário de Bento XVI na sua recente obra, Jesus de Nazaré: «A imagem da pomba pode ser uma recordação do adejar do Espírito sobre as águas de que fala o relato da criação (Gn 1,2); aparece também a palavrinha ‘como’, como sendo uma comparação para aquilo que em rigor não pode ser descrito…»

Pode-se notar que o Baptismo de Jesus é descrito com elementos do género apocalíptico, que ainda continuam a ser expressivos para nós, como sinais da inauguração da absolutamente nova relação de Deus com a Humanidade, numa nova Criação. Assim: «o Céu abriu-se», numa imagem a partir da ideia de então de que o firmamento era como uma superfície esférica de cristal compacto, a separar a terra do céu; por isso, para o Espírito descer, o céu tinha que se abrir. Mas já S. Jerónimo (in Math I, 3) advertia que «não são os elementos que se abrem, mas sim os olhos do espírito»; este «abrir dos Céus» é o prelúdio da nova relação de Deus com o homem. Dizer que «o Espírito Santo desceu… como uma pomba» pressupõe a concepção do A. T. e do Antigo Médio Oriente segundo a qual a pomba sempre foi associada ao mundo divino, um símbolo bem adequado para indicar a inauguração dos novos tempos; o relato não quer dizer-nos que antes o Espírito Santo estaria ausente de Jesus, mas quer revelar-nos quem é Jesus, por isso, «fez-se ouvir uma voz…», que identifica quem é Jesus: Ele é o Filho de Deus, em quem está presente o Espírito Santo. Desde a exegese patrística até a autores modernos, tem-se visto, no Baptismo de Jesus, uma revelação do mistério trinitário.

Esta narrativa é um convite para reconhecer quem é Jesus e para avaliar o valor do Baptismo, semelhante ao de Jesus, mas diferente do de João; tenha-se em conta o paralelismo desta perícope com a fórmula baptismal trinitária do final de Mateus (28, 18). No Baptismo de Cristo podemos apreciar como actua em nós o Sacramento, pois para nós se abrem os Céus fechados pelo pecado; desce o Espírito Santo com a sua graça, que nos renova e torna templos seus; ficamos a ser filhos de Deus muito amados.

Bento XVI, na citada obra, termina o capítulo dedicado ao Baptismo de Jesus com uma oportuna observação crítica, de que aqui nos apraz transcrever o início: «Numa vasta corrente da investigação liberal, o Baptismo de Jesus foi interpretado como uma experiência de vocação: aqui, Ele, que até então teria levado uma vida perfeitamente normal na província da Galileia, teria feito uma experiência radical; aqui teria tomado consciência duma especial relação com Deus e da sua missão religiosa, a qual teria resultado do tema das experiências dominantes então em Israel e que adquiriram uma nova forma através de João Baptista, bem como da sua comoção pessoal durante o próprio decorrer do Baptismo. Mas sobre isto não se encontra nada nos textos. Por mais erudita que esta concepção possa parecer, ela deve ser muito mais incluída no género dos romances sobre Jesus do que no de uma real explicação dos textos…»

 

Sugestões para a homilia

 

A actividade pública de Jesus começa com o seu Baptismo

O Antigo Testamento já alude ao «Servo» sofredor

Que é apontado como o «Servo» fiel ao Pai

 

A actividade pública de Jesus começa com o seu Baptismo

 

No tempo de Jesus havia muitas seitas religiosas que praticavam um baptismo chamado de purificação e que consistia na imersão em água. Esse rito queria significar que toda a vida passada devia desaparecer, como se fosse levada pela corrente. Aquele que saía da água era considerado como homem novo, como se tivesse nascido nesse momento. João Baptista servia-se desse rito como sinal de mudança de vida na preparação da pessoa para a chegada do Messias. A condição para receber este baptismo era a própria aceitação da sua condição de pecador.

Jesus, ao iniciar a sua vida pública, dirigiu-Se a João Baptista solicitando que o baptizasse. João não compreendeu a razão por que Jesus pedia tal baptismo, uma vez que Ele não precisava de mudar de vida.

Então, poderemos perguntar-nos por que razão Jesus pediu para ser baptizado?

Ele pretendeu com este gesto colocar-Se ao lado dos pecadores, fazer-Se um deles sem o ser, aceitar receber o baptismo de penitência de que não precisava. Sabe de onde vem e sabe que a obediência é o lugar supremo da revelação para a salvação de toda a humanidade.

O Baptismo de Jesus, como ouvimos ler no Evangelho, foi acompanhado por três acontecimentos, referidos por Mateus como relevantes para explicar aos seus leitores quem de facto é Jesus.

O primeiro: abriram-se os céus, relata Mateus. Com isto quer significar que o início da actividade pública de Jesus marcou a oportunidade de reconciliação entre o céu e a terra, isto é, entre Deus e os homens, pois há cerca de 300 anos que havia morrido o último profeta e o Senhor não mais se manifestara ao povo.

A imagem da pomba, símbolo do Espírito, relembra o tempo do dilúvio em que a pomba que apareceu com o ramo de oliveira no bico indicava que a paz havia sido restabelecida entre Deus e os homens. Essa força do Espírito era comunicada aos reis, aos profetas e aos grandes libertadores a quem infundia coragem e poder de salvação. Ora, ao enviar o seu Espírito sobre Jesus, Deus mostra que voltou a falar aos homens e que Jesus recebeu esta consagração e esta energia para efectuar a sua missão.

A voz do céu significa que Deus declarou com toda a solenidade que Jesus é o «Servo», seu «Filho muito amado» fiel e predilecto «no qual pôs toda a sua complacência», embora apareça aos olhos dos homens como um ser fraco, até como um pecador.

 

O Antigo Testamento já alude ao «Servo» sofredor

 

A este «Servo» se refere já o Antigo Testamento, como lemos na primeira leitura, pois não Se comportará como os dominadores deste mundo: «não gritará, nem levantará a voz, nem se fará ouvir nas praças; não quebrará a cana fendida, nem apagará a torcida que ainda fumega; proclamará fielmente a justiça não desfalecerá nem desistirá.». E, mais adiante no texto, acrescenta o profeta Isaías: será «luz das nações, para abrir os olhos aos cegos, tirar do cárcere os prisioneiros e da prisão os que habitam nas trevas». Tudo isto tem relação evidente com o que nos é relatado nos Evangelhos em plena correspondência com a vida de Jesus. Ele é, pois, o «Servo» fiel ao Pai.

 

Que é apontado como o «Servo» fiel ao Pai

 

Os Apóstolos após a Paixão e Morte de Jesus viveram momentos de inegável angústia e desespero, pois não compreendiam o que se passara, mesmo depois da Ressurreição de Jesus. Recorrendo às Escrituras e sobretudo a Isaías, começaram a compreender o significado e a abrangência da sua missão evangelizadora.

 Por isso, no início da sua actividade de evangelização, Pedro se manifestou contrário ao baptismo dos pagãos. Mas, iluminado pelo Espírito Santo começou a compreender que o Senhor não faz acepção de pessoas. Foi preciso muito tempo para que compreendesse plenamente a novidade estabelecida por Deus.

Porém, em casa de Cornélio, em Cesareia, já tendo compreendido essa mudança - inexplicável para os judeus daquela época -, ao proclamar a Boa Nova da salvação, evoca o Baptismo do Senhor e sublinha a presença do Espírito Santo em toda a obra realizada por Jesus.

Assim, no breve resumo que faz da vida do Senhor Jesus alude ao baptismo realizado por João, como sinal da obediência ao Pai, a fim de cumprir cabalmente a sua dura e difícil acção entre os homens. Deus estava com Ele e manifestara-Se através da presença do Espírito Santo. Ele "passou pelo mundo fazendo o bem" e libertando os oprimidos. Essa é também a Missão fundamental dos discípulos.

A dificuldade inicial de Pedro talvez seja actualmente também a nossa: custa-nos compreender que o Senhor está presente na vida das nossas comunidades, da nossa terra e em todos os homens de boa vontade, desmorona os nossos insignificantes planos; e faz tombar todos os obstáculos que são erguidos entre as pessoas. Talvez como Pedro nós O aceitemos por fases, mas é imperioso que o compreendamos e, ao menos, que «comecemos» a aceitar que Ele está presente a todos, que está connosco, que é o Emanuel e que nos envia em missão, nos compromete a servir Deus com fidelidade, como membros vivos e atuantes no Povo de Deus.

O Baptismo de Jesus recorda-nos que precisamos da força de Deus para estar no mundo. Que é bom reconhecermo-nos como frágeis e pecadores, para podermos criar relações de igualdade e de compreensão com todas as pessoas, mesmo com aquelas que, aos nossos maus olhos, mais se afastaram daquelas que nós consideramos ser as «boas práticas».

 

Fala o Santo Padre

 

«O Baptismo é o início da vida espiritual,

que encontra a sua plenitude por meio da Igreja.»

Queridos irmãos e irmãs!

Hoje a Igreja celebra o Baptismo do Senhor, festa que conclui o tempo litúrgico do Natal. Este mistério da vida de Cristo mostra visivelmente que a sua vinda na carne é o acto sublime de amor das Três Pessoas divinas. Podemos dizer que deste acontecimento solene a acção criadora, redentora e santificadora da Santíssima Trindade será cada vez mais explícita na missão pública de Jesus, no seu ensinamento, nos milagres, na sua paixão, morte e ressurreição. De facto, lemos no Evangelho segundo Mateus que «uma vez baptizado, Jesus saiu da água e eis que os céus se Lhe abriram e viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e vir sobre Ele. E uma voz vinda do céu, dizia: “Este é o Meu Filho muito amado, no Qual pus toda a Minha complacência”» (3, 16-17). O Espírito Santo «habita» no Filho e testemunha a sua divindade, enquanto a voz do Pai, proveniente do céu, expressa a comunhão de amor. «A conclusão da cena do baptismo diz-nos que Jesus recebeu esta “unção” autêntica, que Ele é o Ungido esperado» (Jesus de Nazaré, 2007, 47-48), como confirmação da profecia de Isaías: «Eis o Meu servo, que eu amparo, o meu eleito, no qual a Minha alma se deleita» (42, 1). É verdadeiramente o Messias, o Filho do Altíssimo que, saindo das águas do Jordão, estabelece a regeneração no Espírito e dá a possibilidade, a quantos o quiserem, de se tornarem filhos de Deus. De facto, não é por acaso que cada baptizado adquire o carácter de filho a partir do nome cristão, sinal inconfundível de que o Espírito Santo faz nascer «de novo» o homem do seio da Igreja. O beato Antonio Rosmini afirma que «no baptizado se realiza uma acção secreta mas muito poderosa, mediante a qual ele é elevado à ordem sobrenatural, é posto em comunicação com Deus» (Del principio supremo della metodica..., Turim, 1857, n. 331). […]

Queridos amigos, o Baptismo é o início da vida espiritual, que encontra a sua plenitude por meio da Igreja. No momento propício do Sacramento, enquanto a Comunidade eclesial reza e confia a Deus um novo filho, os pais e os padrinhos comprometem-se a acolher o recém-baptizado apoiando-o na formação e na educação cristã. Esta é uma grande responsabilidade, que deriva de um grande dom! Por isso, desejo encorajar todos os fiéis a redescobrir a beleza de ser baptizados e a dar jubiloso testemunho da própria fé, para que esta fé gere frutos de bem e de concórdia.

Pedimo-lo por intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, Ajuda dos cristãos, à qual confiamos os pais que se estão a preparar para o Baptismo dos seus filhos, assim como os catequistas. Toda a comunidade participe da alegria do renascimento na água e no Espírito Santo!

Bento XVI, Angelus na Praça de São Pedro a 9 de Janeiro de 2011

 

Oração Universal

 

Caríssimos:

tomando consciência de que o novo lugar da presença de Deus

é o seu Filho, não o Templo, nem a Lei,

e que a obediência e o compromisso

são o  lugar supremo de toda a Revelação,

oremos a Deus nosso Pai, dizendo:

   

    Senhor, enviai sobre nós o vosso Espírito.

 

1.     Oremos pelo Santo Padre, Bispos, Presbíteros e Diáconos,

para que sejam exemplo de escuta da Boa Nova    

e do compromisso de obediência à voz de Deus,

oremos, irmãos.

 

2.     Oremos pela Santa Igreja de Deus,

constituída por todos os baptizados,

mas pecadora em cada um de nós,

para que seja purificada pela acção do Espírito Santo,

oremos irmãos.

 

3.     Oremos pelos cristãos de todo o mundo,

para que passando pela água baptismal

de purificação das suas fragilidades

confiem a Deus toda a sua história pessoal,

oremos, irmãos.

 

4.     Oremos pela comunidade aqui presente nesta celebração,

para que agradeça o grande dom do seu Baptismo

e saiba acompanhar com toda a atenção pessoal    

a todos e a cada um, à semelhança do Senhor Jesus,

oremos, irmãos.

 

5.     Oremos por todas as comunidades cristãs,

para que consigam ultrapassar injustiças,

saibam reconhecer as suas fraquezas

e olhem com caridade e amor para as debilidades dos demais,

oremos, irmãos.

 

6.     Oremos por todos nós,

a fim de que saibamos mergulhar na água baptismal,

como entrega pessoal comprometida

de abertura do nosso coração,

para a construção de um mundo novo,

oremos, irmãos.

 

 

Senhor nosso Deus,

derramai sobre todos nós a graça do Espírito Santo,

que infundistes no Baptismo do vosso amado Filho,

para que consigamos acolher os mais fragilizados,

lembrados de que todos nós somos pecadores

e necessitados de purificação interior.

Isto vos pedimos por intermédio de Jesus Cristo, nosso Senhor...

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Todos vós que fostes baptizados, B. Sousa, NCT 373

 

Oração sobre as oblatas: Aceitai, Senhor, os dons que a Igreja Vos oferece, ao celebrar a manifestação de Cristo vosso Filho, para que a oblação dos vossos fiéis se transforme naquele sacrifício perfeito que lavou o mundo de todo o pecado. Por Nosso Senhor...

 

Prefácio

 

O Baptismo do Senhor

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai Santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte:

Nas águas do rio Jordão, realizastes prodígios admiráveis, para manifestar o mistério do novo Baptismo: do Céu fizestes ouvir uma voz, para que o mundo acreditasse que o vosso Verbo estava no meio dos homens; pelo Espírito Santo, que desceu em figura de pomba, consagrastes Cristo vosso Servo com o óleo da alegria, para que os homens O reconhecessem como o Messias enviado a anunciar a boa nova aos pobres.

Por isso, com os Anjos e os Santos do Céu, proclamamos na terra a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo: «Da Missa de festa», Az. Oliveira, NRMS 50-51

 

Monição da Comunhão

 

O Corpo do Senhor Jesus que vamos receber nos ajude a continuar, no meio dos homens, a actividade missionária iniciada por Jesus após o seu Baptismo.

 

Cântico da Comunhão: O Espírito de Deus repousou sobre mim, Az. Oliveira, NRMS 58

Jo 1, 32.34

Antífona da comunhão: Eis Aquele de quem João dizia: Eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus.

 

Cântico de acção de graças: Vós que fostes baptizados, F. dos Santos, NCT 371

 

Oração depois da comunhão: Senhor, que nos alimentais com este dom sagrado, ouvi benignamente as nossas súplicas e concedei-nos a graça de ouvirmos com fé a palavra do vosso Filho Unigénito para nos chamarmos e sermos realmente vossos filhos. Por Nosso Senhor.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Evocando a manifestação do Pai e do Espírito Santo, no Baptismo de Jesus, continuemos na vida esta celebração; sejamos dóceis à escuta da Palavra de seu Filho muito amado; sejamos verdadeiras testemunhas de filhos de Deus na fidelidade à sua Revelação; continuemos atentos, mas compreensivos com as fragilidades dos nossos irmãos; estejamos conscientes de que todos somos frágeis e necessitados de purificação e renovação permanente; e continuemos pedindo forças para sermos fiéis ao compromisso assumido com o nosso próprio baptismo.

 

Cântico final: Louvemos a Santíssima Trindade, J. Santos, NRMS 80

 

 

Homilias Feriais

 

TEMPO COMUM

 

1ª SEMANA

 

2ª Feira, 13-I: Implantação na terra do reino dos Céus.

1 Sam 1, 1-8 / Mc 1, 12-20

Ao passar ao longo do mar da Galileia, viu Simão e seu irmão André. Disse-lhes Jesus: Vinde após mim e farei de vós pescadores de homens.

A missão de Nª Senhora foi preparada, ao longo do Antigo Testamento, pela missão de santas mulheres, entre as quais se conta Ana: «Contra toda a esperança humana, Deus escolheu o que era tido por incapaz e fraco, para mostrar a sua fidelidade à promessa feita: Ana, mãe de Samuel (Leit.), Débora, Rute...» (CIC, 489).

Para ajudar na sua missão, Jesus escolhe igualmente para Apóstolos os que são tidos como incapazes e fracos (Ev.). Assim começa a implantação na terra do reino dos Céus, para «elevar os homens à participação na vida divina. E o Pai fá-lo reunindo os homens em torno do seu Filho, Jesus Cristo. Esta reunião é a Igreja, a qual é na terra o 'germe e o princípio do reino de Deus» (CIC, 541).

 

3ª Feira, 14-I: Colaboração na obra da Redenção.

1 Sam 1, 9-20 / Mc 1, 21-28

Ana orou ao Senhor: Se vos dignardes conceder-me um filho varão, eu hei-de consagrá-lo ao serviço do Senhor por toda a vida.

Conforme prometera, Ana consagrou o seu filho Samuel ao Senhor, colocando-o no Templo ao serviço do sacerdote Eli.

Também Jesus coloca toda a sua vida ao serviço da Redenção. «Este mistério está actuante em toda a vida de Cristo: já na sua Encarnação; na vida oculta; na palavra que purifica os seus ouvintes, nas curas e expulsões dos demónios (Ev.), pelas quais toma sobre si as nossas enfermidades e carrega com as nossas doenças; na ressurreição, pela qual nos justifica» (CIC, 517). Todos devemos igualmente colaborar na obra da Redenção com a nossa vida de trabalho e oração, os nossos sofrimentos e sacrifícios, etc.

 

4ª Feira, 15-I: Oração: dedicação e disponibilidade.

1 Sam 3, 1-10. 19-20 / Mc 1, 29-39

De manhãzinha, ainda muito escuro, Jesus levantou-se e saiu. Retirou-se para um sítio ermo e aí começou a orar.

«O pequeno Samuel teve de aprender de Ana, sua mãe, e do sacerdote Eli, como devia escutar a palavra de Deus: 'Falai, Senhor, que o vosso servo escuta!' (Leit.)» (CIC, 2578).

Jesus dá-nos exemplo de dedicação à oração, logo de manhãzinha cedo (Ev.). Vendo este exemplo do Mestre, peçamos-lhe que nos aumente o desejo de orar. Procuremos dedicar alguns momentos à oração logo de manhã, para falarmos com Deus dos nossos trabalhos e preocupações. E, como Samuel, manifestemos mais disponibilidade. Várias vezes se levantou de noite, sempre disposto a ouvir a Deus: «Aqui estou, pois chamaste por mim» (Leit.).

 

5ª Feira, 16-I: Os sinais da vitória e da cura.

1 Sam 4, 1-11 / Mc 1, 40-45

Vamos buscar a Silo a Arca da Aliança do Senhor: que ela venha para o meio de nós e nos salve das mãos dos inimigos.

«Já no Antigo Testamento Deus ordenou ou permitiu a instituição de imagens, que conduziriam simbolicamente à salvação pelo Verbo Encarnado: por exemplo, a serpente de bronze, a Arca da Aliança (Leit.) e os querubins» (CIC, 2130).

Do mesmo modo, têm igualmente o mesmo significado as curas operadas por Jesus (Ev.): «as curas que fazia eram sinais da vinda do reino de Deus. Anunciavam uma cura mais radical: a vitória sobre o pecado e sobre a morte, mediante a sua Páscoa» (CIC, 1505). Lembremos também os sinais sensíveis, os sacramentos, que operam a cura das nossas doenças, pela confissão, e nos revestem da santidade de Deus, pela Comunhão.

 

6ª Feira, 17-I: Cristo Rei e Médico divino.

1 Sam 8, 47. 10-22 / Mc 2, 1-12.

Que é mais fácil, dizer ao paralítico: 'os teus pecados são-te perdoados', ou dizer 'levanta-te, pega na tua enxerga e anda'?

Os anciãos de Israel manifestaram a Samuel o seu desejo de ter um rei: «o nosso rei é que há-de governar-nos; há-de marchar à frente e comandar-nos em nossos combates» (Leit.).

Jesus é igualmente Rei, pois as curas que vai realizando indicam que o reino de Deus está próximo. Ele veio curar o homem na sua totalidade, alma e corpo (Ev.): «Ele dirige-se pessoalmente a cada um dos pecadores: 'Meu filho os teus pecados são-te perdoados' (Ev.). Ele é o médico que se inclina sobre cada um dos doentes. A confissão pessoal é, pois, a forma mais significativa da reconciliação com Deus e com a Igreja» (CIC, 1484). Aproximemos os nossos amigos do Médico divino para que se confessem.

 

Sábado, 18-I: Oitavário pela unidade dos cristãos: A conversão para acabar com as divisões.

1 Sam 9, 1-4. 17-19; 10, 1 / Mc 2, 13-17

Samuel: Tu, Saul, é que hás-de reger o povo do Senhor e o salvarás da mão dos inimigos que o rodeiam.

Samuel ungiu Saul para uma missão de salvação dos inimigos. Cristo também é ungido para cumprir a sua missão divina: a salvação dos pecadores (Ev.). «Jesus convida os pecadores para a mesa do reino: 'Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores' (Ev.). Convida-os à conversão, sem a qual não se pode entrar no reino» (CIC, 545).

Começa hoje o Oitavário de orações pela unidade dos cristãos. Com as nossas orações pediremos ao Senhor que se acabe esta divisão dos cristãos, através das necessárias conversões. Além disso, todos recebemos uma unção no Baptismo, que ajuda à nossa salvação e à salvação dos outros. Pediremos pela conversão de cada um deles para que sigam o Senhor mais de perto (Ev.).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         António Elísio Portela

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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