Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo

 

Missa da Meia-noite

25 de Dezembro de 2013

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Exultemos de alegria, M. Luis, Cânticos de Entrada e Comunhão I, pág. 44

Salmo 2, 7

Antífona de entrada: O Senhor disse-me: Tu és meu filho, Eu hoje te gerei.

 

Ou

Exultemos de alegria no Senhor, porque nasceu na terra o nosso Salvador. Hoje desceu do Céu sobre nós a verdadeira paz.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A celebração do Natal distribui-se por quatro missas com textos diferentes: a da vigília acentua o nascimento de Jesus como realização da promessa feita aos antigos patriarcas hebreus; as três deste dia são chamadas a «Missa dos Anjos», a «Missa dos pastores» e a «Missa do dia».

Nesta noite vamos concentrar a atenção no presépio e celebrar com os Anjos o Nascimento de Jesus Cristo, Filho de Deus e luz do mundo.

 

Acto penitencial e de louvor

 

Toda a celebração cristã exige humildade e arrependimento, e essas atitudes são especialmente necessárias nesta celebração. A esses sentimentos acrescentaremos o louvor e a gratidão que vamos exprimir no canto do Glória

 

Senhor que fostes enviado pelo Pai a realizar o plano eterno de salvação,

Perdoai a banalidade do nosso pensamento:

Senhor, tende piedade de nós.

Cristo, que quisestes nascer na humildade e na pobreza,

Perdoai a nossa indiferença pelos vossos gestos:

Cristo, tende piedade de nós.

Senhor, que pela Páscoa sublimastes o vosso amor ao mundo,

Perdoai o nosso alheamento ao vosso amor:

Senhor, tende piedade de nós.

2. Glória

 

Oração colecta: Senhor nosso Deus, que fizestes resplandecer esta santíssima noite com o nascimento de Cristo, verdadeira luz do mundo, concedei-nos que, tendo conhecido na terra o mistério desta luz, possamos gozar no Céu o esplendor da sua glória. Por Nosso Senhor...

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: O profeta Isaías anuncia o Messias como descendente do rei David e construtor de um reino de paz sem fim. O profeta recorre à linguagem da luz para exprimir a missão do Messias prometido, que afastará as trevas do erro e do mal.

Essa linguagem torna-se particularmente expressiva nesta celebração.

 

Isaías 9, 1-6

2«O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz começou a brilhar. 3Multiplicastes a sua alegria, aumentastes o seu contentamento. Rejubilam na vossa presença, como os que se alegram no tempo da colheita, como exultam os que repartem despojos. 4Vós quebrastes, como no dia de Madiã, o jugo que pesava sobre o povo, o madeiro que ele tinha sobre os ombros e o bastão do opressor. 5Todo o calçado ruidoso da guerra e toda a veste manchada de sangue serão lançados ao fogo e tornar-se-ão pasto das chamas. 6Porque um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado. Tem o poder sobre os ombros e será chamado Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz». 7O seu poder será engrandecido numa paz sem fim, sobre o trono de David e sobre o seu reino, para o estabelecer e consolidar por meio do direito e da justiça, agora e para sempre. Assim o fará o Senhor do Universo.

 

Este belíssimo texto é um trecho do chamado livro do Emanuel (Is 7 – 12), onde, em face da iminência de várias guerras, se abrem horizontes de esperança que se projectam em tempos vindouros, muito para além das soluções empíricas e imediatas: é a utopia messiânica de paz e alegria que veio a ter o seu pleno cumprimento com a vinda de Cristo ao mundo. Enquadra-se às mil maravilhas na noite de Natal, em que «uma luz começou a brilhar». Esta luz é o «Menino» (v. 5) que nasce para nós nesta noite, «luz do mundo» (Jo 8, 12; 1, 5.9).

4 «Como no dia de Madiã». Referência à grande vitória de Gedeão sobre os madianitas (Jz 7).

7 O «poder» e a «paz sem fim» serão garantidos para o trono de David pelo Menino de predicados divinos verdadeiramente surpreendentes (v. 5) que, embora expressos em termos semelhantes aos dos soberanos egípcios e assírios, suplantam os predicados de qualquer rei empírico e correspondem ao mistério de Jesus, Deus feito homem.

 

Salmo Responsorial    Salmo 95 (96), 1-2a.2b-3.11-12.13 (R. Lc 2, 11)

 

Monição: Ao nascer em Belém, terra do rei David, Jesus realiza a promessa feita pelo profeta, mas vai muito para além do que os homens pensavam: Ele é o Filho de Deus, é o «Senhor», Jesus Cristo Senhor.

 

Refrão:        Hoje nasceu o nosso salvador, Jesus Cristo, Senhor.

 

Cantai ao Senhor um cântico novo,

cantai ao Senhor, terra inteira,

cantai ao Senhor, bendizei o seu nome.

 

Anunciai dia a dia a sua salvação,

publicai entre as nações a sua glória,

em todos os povos as suas maravilhas.

 

Alegrem-se os céus, exulte a terra,

ressoe o mar e tudo o que ele contém,

exultem os campos e quanto neles existe,

alegrem-se as árvores das florestas.

 

Diante do Senhor que vem,

que vem para julgar a terra:

julgará o mundo com justiça

e os povos com fidelidade.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Nesta carta, S. Paulo apresenta Jesus com títulos pascais: «é o nosso Grande Deus e Salvador», aquele que «se entregou por nós» e que se há-de «manifestar» na parusia. Deste modo, a luz da Páscoa acrescenta-se á luz do Natal.

 

Tito 2, 11-14

Caríssimo: 11Manifestou-se a graça de Deus, fonte de salvação para todos os homens, 12ensinando-nos a renunciar à impiedade e aos desejos mundanos para vivermos, no tempo presente, com temperança, justiça e piedade, 13aguardando a ditosa esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, 14Jesus Cristo, que Se entregou por nós, para nos resgatar de toda a iniquidade e preparar para Si mesmo um povo purificado, zeloso das boas obras.

 

Este breve texto é tirado da 2ª parte da breve carta a Tito. Depois de lhe dar orientações pastorais para a organização da Igreja em Creta (cap. 1), o autor passa a desenvolver o tema das exigências da vida cristã (cap. 2 e 3). Da leitura queremos fazer ressaltar o v. 13, que foi adoptado pela liturgia da Missa (final do embolismo) e o v. 14 que é uma síntese da soteriologia paulina.

11 A Vulgata tinha traduzido este versículo incorrectamente: «Apparuit gratia Dei Salvatoris», um texto já corrigido na Nova Vulgata: «gratia Dei salutaris»: «Manifestou-se a graça de Deus, fonte de salvação». Esta manifestação é expressa por um termo próprio relativo à manifestação de Cristo (cf. 2 Tim 1, 10), epifáneia, o mesmo que se usava no mundo helenístico para falar da vinda dos reis. O Rei, agora Jesus recém-nascido, é a grande graça em ordem à «salvação para todos os homens».

12 «Ensinando-nos a renunciar»: a graça recebida no Baptismo mete-nos no caminho da «renúncia» – recordem-se as renúncias do ritual do Baptismo –, pois sem renúncia e sacrifício não se pode seguir a Cristo (cf. Lc 9, 23). S. Bernardo diz que, no Corpo de Cristo que é a Igreja, se deve ter vergonha de ser um membro regalado sob uma cabeça coroada de espinhos: «Pudeat sub spinato capite membrum fieri delicatum» (Na Festa de Todos os Santos, IV, 9).

13 «Nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo». É uma das mais categóricas afirmações da divindade de Jesus Cristo em todo o N. T. Com efeito, como no original grego há um só artigo para «Deus e Salvador», estas duas designações, Deus e Salvador, referem-se à mesma pessoa, Jesus Cristo.

14 «Um povo especialmente seu», isto é, a Igreja, povo que Jesus Cristo conquista, não pelo poder das armas, mas pelo resgate do seu sangue redentor. A Igreja é o novo povo de Deus.

 

Aclamação ao Evangelho        Lc 2, 10-11

 

Monição: S. Lucas fornece alguns dados históricos sobre o Nascimento de Jesus e as circunstâncias que identificam Jesus com o Messias prometido por Isaías. Os primeiros adoradores são os Anjos, cuja presença deu o nome a esta Missa da meia-noite.

 

Aleluia

 

Cântico: Az. Oliveira, NRMS 36

 

Anuncio-vos uma grande alegria:

Hoje nasceu o nosso salvador, Jesus Cristo, Senhor.

 

 

Evangelho

 

São Lucas 2, 1-14

1Naqueles dias, saiu um decreto de César Augusto, para ser recenseada toda a terra. 2Este primeiro recenseamento efectuou-se quando Quirino era governador da Síria. 3Todos se foram recensear, cada um à sua cidade. 4José subiu também da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e da descendência de David, 5a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que estava para ser mãe. 6Enquanto ali se encontravam, chegou o dia de ela dar à luz 7e teve o seu Filho primogénito. Envolveu-O em panos e deitou-O numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria. 8Havia naquela região uns pastores que viviam nos campos e guardavam de noite os rebanhos. 9O Anjo do Senhor aproximou-se deles e a glória do Senhor cercou-os de luz; e eles tiveram grande medo. 10Disse-lhes o Anjo: «Não temais, porque vos anuncio uma grande alegria para todo o povo: 11nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor. 12Isto vos servirá de sinal: encontrareis um Menino recém-nascido, envolto em panos e deitado numa manjedoura». 13Imediatamente, juntou-se ao Anjo uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus, dizendo: 14«Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados».

 

A narrativa do nascimento do Filho eterno de Deus – nunca houve nem haverá Menino como este! – é deveras encantadora na sua simplicidade. O teólogo Lucas, dotado de génio de historiador nada precisa de inventar, para a sua peculiar teologia. Dispondo provavelmente de não muitos dados, como bom historiador, começa por situar o acontecimento no tempo e no lugar.

Ainda ninguém apresentou nenhuma razão convincente para pôr em dúvida o lugar do nascimento de «Jesus de Nazaré» em Belém (a pari, todo o mundo fala de Santo António de Pádua e a verdade é que nasceu em Lisboa!). Por outro lado, as referências do nosso historiador ao tempo não são contaminadas pela sua preocupação teológica de apresentar o nascimento do Salvador, em contraste com o César romano, Augusto, que se ufanava do título de salvador da humanidade. Embora o recenseamento geral na época de Quirino como governador da Síria – que está bem documentado – seja bastante posterior (no ano 6 da era cristã), a verdade é que houve muitos outros censos; Lucas poderia não dispor de dados muito precisos, mas o historiador teólogo não precisava de mais pormenor para que o nascimento de Jesus ficasse enquadrado na História geral. De qualquer modo, a história profana documenta-nos vários recenseamentos a que na época se procedeu; papiros descobertos no Egipto falam de censos ali feitos, em que se obrigavam também as mulheres casadas a acompanharem os seus maridos (para se garantir a verdade das declarações), e a apresentarem-se ante o recenseador ou seu delegado para a prestação das declarações tributárias; assim se explica que Maria tivesse de acompanhar a José numa viagem tão incómoda (cerca de 150 Km). Da escassa documentação romana depreende-se que com Quirino se poderia mesmo ter iniciado um recenseamento durante a sua primeira missão (militar, não como governador) na Síria, entre os anos 10 a 6 a. C.. Dado que o nascimento de Jesus se deu uns seis ou sete anos a. C., em virtude do erro cometido por Dionísio, o Exíguo, quando no séc. VI fez as contas para a adopção da era cristã, a época referida por Lucas concorda substancialmente com os dados da história profana.

«César Augusto», o imperador Octávio, que reinou dos anos 27 a. C. a 14 d. C.

«Belém», em hebraico bet-léhem, significa casa do pão; ali nasce o «Pão da vida». Fica a uns 8 Km a sul de Jerusalém. Deduz-se que S. José ali teria a sua origem próxima, ou alguma propriedade ou condomínio. Pensa-se mesmo que ele se teria deslocado da sua Belém natal para Nazaré, participando na campanha de expansão religiosa do judaísmo na Galileia dos Gentios, que já se vinha promovendo desde o século II a. C.; não abundando o trabalho neste pequeno lugar, daqui poderia muito bem ir trabalhar nas obras da importante cidade de Séforis, apenas a 5 Km a Noroeste de Nazaré.

6 «Enquanto ali se encontravam». O texto deixa ver, como é compreensível, que estiveram em Belém durante algum tempo antes de o Menino nascer. De facto é inverosímil a aventura de empreenderem uma viagem de cerca de 150 Km nas vésperas do parto.

7 «Filho primogénito». Ao chamar-se Jesus «primogénito» não se faz referência a outros filhos que depois a Santíssima Virgem de facto não veio a ter, mas sim aos direitos e deveres do filho varão que uma mãe dava à luz pela primeira vez (pertencia a Deus, tinha que ser resgatado, etc.). Também parece que «primogénito» era uma designação corrente para o primeiro filho independentemente de que fosse o único, segundo se depreende de uma inscrição egípcia da época, encontrada em 1922 perto do Tell-el-Jeduiyeh, onde se diz que uma tal Arsinoe morreu com as dores do parto do seu filho primogénito.

«Manjedoira». A palavra grega, fátnê, também pode significar curral. Seja como for, fica patente a extrema humildade em que quis nascer o Senhor do mundo. Segundo uma tradição que vem do séc. II (S. Justino, palestino nascido em Nablus), Jesus nasceu numa gruta natural, já fora de Belém. Ali Santa Helena, mãe de Constantino, nos princípios do séc. IV, ergueu uma basílica de cinco naves que, depois de várias modificações, chegou até nós, sendo, por isso, a mais antiga igreja de toda a Cristandade. A confirmar a tradição da gruta, temos vários testemunhos que falam da profanação desta nos tempos do imperador Adriano, que ali erigiu uma estátua de Adónis. Isto confirma que se tratava de um lugar de culto dos primeiros cristãos.

«Hospedaria». A palavra grega, katályma, oferece alguma dificuldade de tradução devido ao facto de tanto poder significar «hospedaria» (o kan que existia em muitas povoações), como «sala de cima» (cf. Lc 22, 11; Mc 14, 14), o aposento superior ao rés-do-chão, que tanto podia servir de salão como de dormitório. É estranho que, em qualquer dos casos, não coubessem mais duas pessoas, dada a boa hospitalidade oriental. Mas, para a hora do parto, não haveria o mínimo de condições de privacidade, por isso se recolhem para uma gruta ou curral. Um relato destes não se inventa, pois não era este o lugar digno para o Messias glorioso que se esperava. É impressionante verificar que para o «Senhor» de toda a Criação não havia na terra um sítio digno!

8 «Pastores». É significativo que os primeiros a quem o Messias se manifesta seja gente desprezada e sem valor aos olhos da sociedade judaica, que os incluía entre os «publicanos e pecadores», pois a sua ignorância religiosa levava-os a constantemente infringirem as inúmeras prescrições legais. O facto de guardarem o gado de noite não significa que não fosse inverno, embora não saibamos nem o dia nem sequer o mês em que Jesus nasceu, o que se compreende, pois então só se celebrava o aniversário natalício dos filhos dos reis e pouco mais. Só tardiamente se começou a celebrar o nascimento de Jesus (em Roma já se celebrava no séc. IV a 25 de Dezembro). Ao chegar a noite, os pastores reuniam o gado numa vedação campestre (redil) e eles abrigavam-se da inclemência do tempo nalguma cabana feita de ramos, mesmo durante o inverno.

14 Com o nascimento de Jesus, Deus é glorificado – «glória a Deus» e advém para os homens a síntese de todos os bens – «a paz». O texto original grego pode ter uma dupla tradução, qual delas a mais rica: «homens de boa vontade» (que possuem boa vontade, segundo a interpretação tradicional), ou «os homens que são objecto de boa vontade» (ou da benevolência divina)». Os textos litúrgicos preferiram a segunda, mais de acordo com a visão universalista de Lucas. Segundo uma variante textual (menos provável) teríamos uma frase com três membros: «glória a Deus.., paz na terra, benevolência divina entre os homens», e é assim que aparece mo Messias de Haendel.

 

Sugestões para a homilia

 

1. Esta Missa da meia-noite, que o povo antigamente chamava missa do galo e que melhor se chamará «Missa dos Anjos», anda conexa com a Missa do dia. São como que as duas faces da mesma moeda: nesta Missa acentua-se que Jesus é verdadeiro homem, que nasceu verdadeiramente de Maria, e numa data histórica e num lugar real. Jesus é uma pessoa histórica, e não um sonho; a presença dos Anjos e a Missa do dia acentuam que Jesus é o verdadeiro Filho de Deus, que existia deste toda a eternidade.

O presépio tem um papel central nesta celebração, torna visível a humildade do Filho de Deus. Os Anjos são os adoradores que nos convidam ao agradecimento pela vinda do Filho de Deus ao mundo. A gratidão é o sentimento fundamental nesta noite.

S. Paulo une o Natal ao mistério da Páscoa: ao fazer-se homem Jesus humilhou-se, mas essa humildade foi ainda maior ao morrer e ser sepultado. É por isso que, mesmo no dia de Natal, celebramos a Missa que é, por sua natureza, o mistério da Páscoa. De modo diferente mas real, tanto no presépio como na Eucaristia, Jesus está realmente connosco.

É necessário recordar estas verdades centrais da fé cristã, antes de passarmos às consequências sociais e culturais do Natal (Bento XVI- Bula «Porta da fé»,

 

2. Nesta noite, deixemos o nosso coração inundar-se pela surpresa de Deus. Ajoelhemos admirados e agradecidos diante do presépio, e professemos a nossa fé em Jesus Cristo. É um acontecimento único na história do mundo. O presépio é a primeira grande manifestação da bondade e da humidade de Deus, só superada pela bondade e humilhação posterior na cruz.

É de tal modo surpreendente que nem os antigos hebreus, apesar das promessas dos profetas, aceitaram esta manifestação. Muitos dos nossos contemporâneos caem na mesma atitude, julgando-a impossível.

 

3. Foi o mistério do presépio que fez nascer os grandes santos apaixonados pela causa dos pobres. Aproximemo-nos também dos carenciados, dos doentes, das crianças, dos maltratados. A pobreza e a carência não são por si mesmas virtuosas. Podem tornar-se aceites e amadas pela força e luz que sobre elas projeta o presépio do Senhor.

 

4. Para a vida:

a) Interiorizemos os gestos de adoração durante a celebração da Eucaristia. Os gestos de ajoelhar são dois (na consagração e na comunhão), mas devem fazer-se com sentido adorante e grandeza de alma. 

b) Vivamos os sinais visíveis dos sacramentos. Esses sinais são o prolongamento daquilo que em Jesus era corporal e sensível (S. Leão Magno)

c) Renovemos o amor à Igreja e às suas estruturas. Há sempre a tentação de fugir à Igreja visível para amar uma Igreja sonhada, repetindo a tentação dos antigos de deixar o presépio e amar um salvador idealizado

d) Neste tempo de tantas carências sociais, prolonguemos nos pobres o nosso amor a Jesus Cristo, de quem eles são as imagens dolorosas.

 

6. Credo. Ao recitar, façamos de modo consciente a genuflexão. 

 

Fala o Santo Padre

 

Em Si mesmo, Jesus oferece a humanidade a Deus,

unindo o homem e Deus de uma maneira tal que Deus seja tudo em todos. 

Amados irmãos e irmãs!

[…] «Maria deu à luz o seu filho primogénito» (Lc 2, 7). Com esta frase, São Lucas narra, de modo absolutamente sóbrio, o grande acontecimento que as palavras proféticas, na história de Israel, tinham com antecedência vislumbrado. Lucas designa o menino como «primogénito». Na linguagem que se foi formando na Sagrada Escritura da Antiga Aliança, «primogénito» não significa o primeiro de uma série de outros filhos. A palavra «primogénito» é um título de honra, independentemente do facto se depois se seguem outros irmãs e irmãs ou não. Assim, no Livro do Êxodo, Israel é chamado por Deus «o meu filho primogénito» (Ex 4, 22), exprimindo-se deste modo a sua eleição, a sua dignidade única, o particular amor de Deus Pai. A Igreja nascente sabia que esta palavra ganhara uma nova profundidade em Jesus; que n’Ele estão compendiadas as promessas feitas a Israel. Assim a Carta aos Hebreus chama Jesus «o primogénito» simplesmente para O qualificar, depois das preparações no Antigo Testamento, como o Filho que Deus manda ao mundo (cf. Heb1, 5-7). O primogénito pertence de maneira especial a Deus, e por isso – como sucede em muitas religiões – devia ser entregue de modo particular a Deus e resgatado com um sacrifício de substituição, como São Lucas narra no episódio da apresentação de Jesus no templo. O primogénito pertence a Deus de modo particular, é por assim dizer destinado ao sacrifício. No sacrifício de Jesus na cruz, realiza-se de uma forma única o destino do primogénito. Em Si mesmo, Jesus oferece a humanidade a Deus, unindo o homem e Deus de uma maneira tal que Deus seja tudo em todos. São Paulo, nas Cartas aos Colossenses e aos Efésios, ampliou e aprofundou a ideia de Jesus como primogénito: Jesus – dizem-nos as referidas Cartas – é o primogénito da criação, o verdadeiro arquétipo segundo o qual Deus formou a criatura-homem. O homem pode ser imagem de Deus, porque Jesus é Deus e Homem, a verdadeira imagem de Deus e do homem. Ele é o primogénito dos mortos: dizem-nos ainda aquelas Cartas. Na Ressurreição, atravessou o muro da morte por todos nós. Abriu ao homem a dimensão da vida eterna na comunhão com Deus. Por fim, é-nos dito: Ele é o primogénito de muitos irmãos. Sim, agora Ele também é o primeiro duma série de irmãos, isto é, o primeiro que inaugura para nós a vida em comunhão com Deus. Cria a verdadeira fraternidade: não a fraternidade, deturpada pelo pecado, de Caim e Abel, de Rómulo e Remo, mas a fraternidade nova na qual somos a própria família de Deus. Esta nova família de Deus começa no momento em que Maria envolve o «primogénito» em faixas e O reclina na manjedoura. Supliquemos-Lhe: Senhor Jesus, Vós que quisestes nascer como o primeiro de muitos irmãos, dai-nos a verdadeira fraternidade. Ajudai-nos a tornarmo-nos semelhantes a Vós. Ajudai-nos a reconhecer no outro que tem necessidade de mim, naqueles que sofrem ou estão abandonados, em todos os homens, o vosso rosto, e a viver, juntamente convosco, como irmãos e irmãs para nos tornarmos uma família, a vossa família.

No fim, o Evangelho de Natal narra-nos que uma multidão de anjos do exército celeste louvava a Deus e dizia: «Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens que Ele ama» (Lc 2, 14). A Igreja ampliou, no hino «Glória...», este louvor que os anjos entoaram à vista do acontecimento da Noite Santa, fazendo dele um hino de júbilo sobre a glória de Deus. «Nós Vos damos graças por vossa imensa glória». Nós Vos damos graças pela beleza, pela grandeza, pela tua bondade, que, nesta noite, se tornam visíveis para nós. A manifestação da beleza, do belo, torna-nos felizes sem que devamos interrogar-nos sobre a sua utilidade. A glória de Deus, da qual provém toda a beleza, faz explodir em nós o deslumbramento e a alegria. Quem vislumbra Deus, sente alegria; e, nesta noite, vemos algo da sua luz. Mas a mensagem dos anjos na Noite Santa também fala dos homens: «Paz aos homens que Ele ama». A tradução latina desta frase, que usamos na Liturgia e remonta a São Jerónimo, interpreta diversamente: «Paz aos homens de boa vontade». Precisamente nos últimos decénios, esta expressão «os homens de boa vontade» entrou de modo particular no vocabulário da Igreja. Mas qual é a tradução justa? Devemos ler, juntas, as duas versões; só assim compreendemos rectamente a frase dos anjos. Seria errada uma interpretação que reconhecesse apenas o agir exclusivo de Deus, como se Ele não tivesse chamado o homem a uma resposta livre e amorosa. Mas seria errada também uma resposta moralizante, segundo a qual o homem com a sua boa vontade poder-se-ia, por assim dizer, redimir a si próprio. As duas coisas andam juntas: graça e liberdade; o amor de Deus, que nos precede e sem o qual não O poderemos amar, e a nossa resposta, que Ele espera e até no-la suplica no nascimento do seu Filho. O entrelaçamento de graça e liberdade, o entrelaçamento de apelo e resposta não podemos dividi-lo em partes separadas uma da outra. Ambas estão indivisivelmente entrançadas entre si. Assim esta frase é simultaneamente promessa e apelo. Deus precedeu-nos com o dom do seu Filho. E, sempre de novo e de forma inesperada, Deus nos precede. Não cessa de nos procurar, de nos levantar todas as vezes que o necessitamos. Não abandona a ovelha extraviada no deserto, onde se perdeu. Deus não se deixa confundir pelo nosso pecado. Sempre de novo recomeça connosco. Todavia espera que amemos juntamente com Ele. Ama-nos para que nos seja possível tornarmo-nos pessoas que amam juntamente com Ele e, assim, possa haver paz na terra.

Lucas não disse que os anjos cantaram. Muito sobriamente, escreve que o exército celeste louvava a Deus e dizia: «Glória a Deus nas alturas…» (Lc 2, 13-14). Mas desde sempre os homens souberam que o falar dos anjos é diverso do dos homens; e que, precisamente nesta noite da jubilosa mensagem, tal falar foi um canto no qual brilhou a glória sublime de Deus. Assim, desde o início, este canto dos anjos foi entendido como música vinda de Deus, mais ainda, como convite a unirmo-nos ao canto com o coração em júbilo pelo facto de sermos amados por Deus. Diz Santo Agostinho: Cantare amantis est – cantar é próprio de quem ama. Assim ao longo dos séculos, o canto dos anjos tornou-se sempre de novo um canto de amor e de júbilo, um canto daqueles que amam. Nesta hora, associemo-nos, cheios de gratidão, a este cantar de todos os séculos, que une céu e terra, anjos e homens. Sim, Senhor, nós Vos damos graças por vossa imensa glória. Nós Vos damos graças pelo vosso amor. Fazei que nos tornemos cada vez mais pessoas que amam juntamente convosco e, consequentemente, pessoas de paz. Amen.

Bento XVI, Angelus na Basílica Vaticana a 24 de Dezembro de 2010

 

Oração Universal

 

Presidente: Diante do presépio e deste altar da redenção, elevemos ao Pai do céu, por meio de seu Filho feito homem, as nossas súplicas confiantes e jubilosas, dizendo:

   

Ass. Pela Encarnação redentora do vosso Filho, ouvi-nos, Senhor

 

1. Pela santa Igreja, a Igreja do Verbo Encarnado,

para que saiba acompanhar o mundo que avança,

e, ao mesmo tempo, desenvolva a intimidade com Deus,

Oremos irmãos.

 

2. Por todas as nações da terra, sempre referidos nas profecias do Messias,

Para que a acção dos governantes esteja atenta a todos os povos

e não somente à própria nação,

Oremos irmãos.

 

3. Pelos que não são cristãos ou se confessam indiferentes, 

para que neste Natal sintam a novidade de Jesus

que revela o mistério de Deus e o sentido do mundo,

Oremos irmãos

 

4. Pelos homens e instituições de cultura, da arte e da ciência,

para que encontrem em Jesus Cristo, o Verbo encarnado,

a Verdade que transcende as luzes humanas e lhes sentido pleno,

Oremos irmãos

 

5 Pelos doentes, idosos, carenciados e crianças abandonadas,

imagens vivas de Jesus pobre e humilde,

para que  neste Natal sintam o calor dos mais novos e saudáveis,

Oremos irmãos

 

6. Pelas nossas paróquias e por todas as comunidades cristãs,

Para que descubram em Jesus, pobre, humilde e ressuscitado,

a fonte da Vida, da Verdade e da Missão pastoral.

Oremos irmãos.

 

 

Presidente:

Deus eterno e misericordioso,

que em vosso Filho feito homem nos revelastes o vosso amor ao mundo,

ouvi as orações que neste dia de Natal vos dirigimos por toda a humanidade.

Por N.S.J.Cristo vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

A oferta que neste dia podemos fazer a Deus é a abertura do nosso coração para aceitar o dom de seu Filho feito homem. É quase só isso que temos de próprio.

 

Cântico do ofertório: Noite feliz, Melodia Popular, CT 288

 

Oração sobre as oblatas: Aceitai, Senhor, a nossa oblação nesta Santa noite de Natal e fazei que, pela admirável permuta destes dons, participemos na divindade do vosso Filho que a Vós uniu a nossa natureza humana, Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio do Natal: p. 457 [590-702] ou 458-459

 

No Cânone Romano, diz-se o Communicantes (Em comunhão com toda a Igreja) próprio. Também nas Orações Eucarísticas II e III se faz a comemoração própria.

 

Santo: Santo III, H. Faria, NRMS 103-104

 

Monição da Comunhão

 

Mesmo no Natal, é Jesus na plenitude da sua Páscoa que nos é dado na Comunhão, mas os sinais sacramentais aproximam-no da humildade da manjedoura onde esteve envolto em panos.

 

Cântico da Comunhão: A vida que estava junto do Pai, A. Cartageno, NRMS 56

Jo 1, 14

Antífona da comunhão: O Verbo fez-Se carne e nós vimos a sua glória.

 

Cântico de acção de graças: Meia-noite dada, M. Simões, NRMS 15

 

Oração depois da comunhão: Senhor nosso Deus, que nos dais a alegria de celebrar o nascimento do nosso Redentor, dai-nos também a graça de viver uma vida santa, a fim de podermos um dia participar da sua glória. Por Nosso Senhor...

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

A bênção final neste dia é feita com um texto próprio onde transparece a alegria da fé e a gratidão a Jesus Cristo, Deus e Homem verdadeiro.

Ao beijar a imagem de Jesus Menino professemos a fé na Igreja visível, humilde e pobre, e despertemos o entusiasmo da fé e o amor aos mais carenciados.

 

Cântico final: Chegou a hora mais alta, M. Faria, NRMS 44

 

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         D. Joaquim Gonçalves

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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