Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo

Missa da Vigília

24 de Dezembro de 2013

 

Esta Missa diz-se na tarde do dia 24 de Dezembro, antes ou depois das Vésperas I do Natal.

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Vem depressa, Senhor, M. Simões, NRMS 64

cf. Ex 16, 6-7

Antífona de entrada: Hoje sabereis que o Senhor vem salvar-nos. Amanhã vereis a sua glória.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Nesta vigília da esperança, vigília do Natal, acompanhamos em espírito José e Maria que ultimam os preparativos para o nascimento de Jesus Menino em Belém.

Participamos das suas canseiras e queremos imitá-los na preparação para o nascimento de Jesus Cristo em cada um de nós e nas outras pessoas das nossas relações.

Quando muitas famílias se preparam já para se sentarem à mesa de convívio, familiar, nós queremos antes participara das mesas da Palavra e da Eucaristia a que o Senhor nos convida.

 

Acto penitencial

 

Acolhamos, mais uma vez, o perdão que o Senhor nos oferece, para que possamos acolher em nós Deus que vem ao nosso encontro.

Reparemos atentamente nas manchas que há em nosso coração e aceitemos o perdão que o Deus misericordioso nos oferece.

 

(Tempo de silêncio. Apresentamos, como alternativa, elementos para o esquema C)

 

•   Senhor Jesus: Perdoai-nos a frieza e indiferença que sentimos,

    ao reconhecer-Vos abandonado em muitas pessoas humildes.

    Senhor, tende piedade de nós!

 

    Senhor, tende piedade de nós!

 

•   Cristo: Reconhecemos que temos pecado muitas vezes na vida

    e esperamos confiantes a Vossa misericórdia que tudo perdoa.

    Cristo, tende piedade de nós!

 

    Cristo, tende piedade de nós!

 

•   Senhor Jesus: Sentimo-nos afastados do Presépio pela preguiça,

    falta de amor e dependência das coisas criadas que nos confiastes.

    Senhor, tende piedade de nós!

   

    Senhor, tende piedade de nós!

 

Deus todo poderoso tenha compaixão de nós,

perdoe os nossos pecados e nos conduza à vida eterna.

 

Oração colecta: Senhor nosso Deus, que todos os anos nos alegrais com a esperança da salvação, concedei-nos a graça de vermos sem temor vir um dia como Juiz Aquele que em alegria recebemos como Redentor, Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: O profeta Isaías entoa um hino em honra da cidade de Jerusalém, identificando-a com Sião, e renova a promessa do Salvador que há resplandecer nela «como facho ardente».

Jerusalém é a figura da Igreja na qual brilha o rosto de Cristo, como nos recorda o Concílio Vaticano II.

A ela se aplicam as palavras do profeta: «Tal como o jovem desposa uma virgem, o teu Construtor te desposará; e como a esposa é a alegria do marido, tu serás a alegria do teu Deus.»

 

Isaías 62, 1-5

2Por amor de Sião não me calarei, por amor de Jerusalém não terei repouso, enquanto a sua justiça não despontar como a aurora e a sua salvação não resplandecer como facho ardente. 2Os povos hão-de ver a tua justiça e todos os reis da terra a tua glória. Receberás um nome novo, que a boca do Senhor designará. 3Serás coroa esplendorosa nas mãos do Senhor, diadema real nas mãos do teu Deus. 4Não mais te chamarão «Abandonada», nem à tua terra «Deserta»; mas hão-de chamar-te «Predilecta» e à tua terra «Desposada», porque serás a predilecta do Senhor e a tua terra terá um esposo. 5Tal como o jovem desposa uma virgem, o teu Construtor te desposará; e como a esposa é a alegria do marido, tu serás a alegria do teu Deus.

 

Neste trecho, extraído da parte central do Terceiro Isaías (Is 56, 1 – 66, 24), em que se anuncia uma salvação universal a parir de Jerusalém, temos aqui um belo canto a esta cidade (Sião), que o Profeta anseia por ver renovada após a prova do exílio de Babilónia.

1 «A sua justiça», ao aparecer paralela a «a sua salvação» (1b) e a «a tua glória» (v. 2), vê-se que se trata duma justiça que visa mais a acção de Deus que salva e glorifica Jerusalém, do que o simples restabelecimento dos direitos espezinhados. Esta «justiça que desponta como a aurora» é o prenúncio e a figura da vinda de Jesus Cristo à terra, o «Sol da Justiça» (cf. Mal 3, 20). A Vulgata (já não assim a Nova Vulgata) tinha personificado (na linha da Septuaginta) esta «justiça» e esta «salvação», traduzindo por «justo» e «salvador» (iustus eius et salvator eius). Se o profeta, em primeira intenção, visa a restauração de Jerusalém após o exílio, a profecia tem o seu pleno cumprimento com a vinda do Messias.

4-5 «Abandonada»: Jerusalém, durante o exílio, é comparada a uma esposa abandonada. Este anúncio feliz tem um cumprimento imediato e imperfeito com o regresso do cativeiro de Babilónia, mas o seu pleno cumprimento dá-se na Igreja, a nova Jerusalém (cf. Apoc 21, 2), a fiel «Esposa» de Cristo, «santa e imaculada» (Ef 5, 27). «O teu Construtor te desposará»: a Nova Vulgata, contra o que seria de esperar, manteve a tradução da Vulgata: «os teus filhos te desposarão», mas não assim as traduções modernas em geral (apesar da pontuação massorética); a confusão deve-se a que as mesmas consoantes hebraicas de bnyk, podem traduzir-se das duas maneiras, conforme as vogais adoptadas; a tradução grega dos LXX optou pela versão que fazia mais sentido, «o teu construtor», na linha tradicional de apresentar Deus como esposo do seu povo.

 

Salmo Responsorial    Salmo 88 (89), 4-5.16-17, 27 e 29 (R. 2a)

 

Monição: O salmo que a Liturgia nos propõe é uma súplica ao Senhor misericordioso e fiel às Suas promessas, para que não abandone a cidade santa – figura da Igreja – e continue a ser misericordioso para connosco.

Façamos dele a nossa oração confiante, nestes momentos que antecedem o Natal de Jesus Cristo.

 

Refrão: Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor.

 

Concluí uma aliança com o meu eleito,

fiz um juramento a David meu servo:

Conservarei a tua descendência para sempre,

estabelecerei o teu trono por todas as gerações.

 

Feliz o povo que sabe aclamar-Vos

e caminha, Senhor, à luz do vosso rosto.

Todos os dias aclama o vosso nome

e se gloria com a vossa justiça.

 

Ele me invocará: «Vós sois meu Pai,

meu Deus, meu Salvador».

Assegurar-lhe-ei para sempre o meu favor,

a minha aliança com ele será irrevogável.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Paulo, em Antioquia da Pisídia, faz aos seus ouvintes judeus um resumo da história de Israel, para lhes recordar que Jesus é o Messias prometido ao longo do Antigo Testamento.

É com esta mesma certeza que nos dá a fé que nos encontramos aqui, preparando a celebração do Seu nascimento.

 

Actos 13, 16-17.22-25

Naqueles dias, 16Paulo chegou a Antioquia da Pisídia. Uma vez em que ele estava na sinagoga, levantou-se, fez sinal com a mão e disse: «Homens de Israel e vós que temeis a Deus, escutai: 17O Deus deste povo de Israel escolheu os nossos pais e fez deles um grande povo, quando viviam como estrangeiros na terra do Egipto. 22Depois, com seu braço poderoso, tirou-os de lá. Por fim, suscitou-lhes David como rei, de quem deu este testemunho: ‘Encontrei David, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará sempre a minha vontade’. 23Da sua descendência, Deus fez nascer, segundo a sua promessa, um Salvador, Jesus. 24João tinha proclamado, antes da sua vinda, um baptismo de penitência a todo o povo de Israel. 25Prestes a terminar a sua carreira, João dizia: ‘Eu não sou quem julgais; mas depois de mim, vai chegar Alguém, a quem eu não sou digno de desatar as sandálias dos seus pés’».

 

Temos aqui um pequeno extracto do primeiro discurso de Paulo em Actos: uma breve síntese da história da salvação, que culmina em Jesus Cristo. Foi seleccionada a parte do texto que põe em evidência que, de acordo com as promessas de Deus, «Jesus, é o Salvador de Israel», sendo «da descendência de David» (v. 23); o último elo da corrente profética que prepara a sua vinda é João.

16 Os «tementes a Deus» eram os gentios simpatizantes do judaísmo, que aderiam ao seu monoteísmo e esperança messiânica; embora não se sujeitassem às práticas da lei judaica, frequentavam a liturgia sinagogal.

 

Aclamação ao Evangelho       

 

Monição: Ao proclamar a genealogia de Jesus Cristo, mostrando que Ele pertence inteiramente à família humana, o Evangelho enche-nos de esperança de salvação.

Aclamemos o Evangelho que nos enche de alegria com a Boa Nova.

 

Aleluia

 

Cântico: F. da Silva, NRMS 35

 

Amanhã cessará a malícia na terra

e reinará sobre nós o Salvador do mundo.

 

 

Evangelho *

 

* O texto entre parêntesis pertence à forma longa e pode ser omitido.

 

Forma longa São Mateus 1, 1-25       Forma breve: São Mateus 1, 18-25

[1Genealogia de Jesus Cristo, Filho de David, Filho de Abraão: 2Abraão gerou Isaac; Isaac gerou Jacob; Jacob gerou Judá e seus irmãos. 3Judá gerou, de Tamar, Farés e Zara; Farés gerou Esrom; Esrom gerou Arão; 4Arão gerou Aminadab; Aminadab gerou Naásson; Naásson gerou Sálmon; Sálmon gerou, de Raab, Booz; 5Booz gerou, de Rute, Obed; Obed gerou Jessé; Jessé gerou o rei David. 6David, da mulher de Urias, gerou Salomão; 7Salomão gerou Roboão; Roboão gerou Abias; Abias gerou Asa; 8Asa gerou Josafat; Josafat gerou Jorão; Jorão gerou Ozias; 9Ozias gerou Joatão; Joatão gerou Acaz; Acaz gerou Ezequias; 10Ezequias gerou Manassés; Manassés gerou Amon; Amon gerou Josias; 11Josias gerou Jeconias e seus irmãos, durante o desterro de Babilónia. 12Depois do desterro de Babilónia, Jeconias gerou Salatiel; Salatiel gerou Zorobabel; 13Zorobabel gerou Abiud; Abiud gerou Eliacim; Eliacim gerou Azor; 4Azor gerou Sadoc; Sadoc gerou Aquim; Aquim gerou Eliud; 15Eliud gerou Eleazar; Eleazar gerou Matã; Matã gerou Jacob; 16Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo. 17Assim, todas estas gerações são: de Abraão a David, catorze gerações; de David ao desterro de Babilónia, catorze gerações; do desterro de Babilónia até Cristo, catorze gerações].

18O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. 19Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. 20Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados». 22Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor anunciara por meio do profeta, que diz: 23«A Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será chamado ‘Emanuel’, que quer dizer ‘Deus connosco’». 24Quando despertou do sono, José fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu sua esposa. 25E não a tinha conhecido, quando Ela deu à luz um filho, a quem ele pôs o nome de Jesus.

 

S. Mateus centra o seu relato do nascimento de Jesus na figura de S. José (S. Lucas na de Maria), com uma clara intencionalidade teológica de apresentar Jesus como o Messias, anunciado como descendente de David. Isto é posto em evidência logo de início: «Genealogia de Jesus Cristo (=Messias), Filho de David» (v. 1). Como a linha genealógica passava pela linha do esposo, é a de José que é apresentada. Os elos são seleccionados para que apareçam três séries de 14 nomes. Pensa-se que isto obedece a uma técnica rabínica, chamada gematriáh, ou recurso ao valor alfabético dos números; assim, o número 14, ao ser reforçado pela sua tripla repetição – «catorze gerações» – (no v. 17), sugere o nome de David, que em hebraico se escreve com três consoantes (em hebraico não se escrevem as vogais) que dão o número catorze ([D=4]+[V=6]+[D=4]=14). A concepção virginal antes de ser explicada e justificada pelo cumprimento das Escrituras (vv. 18-25), é já aludida na genealogia, apresentada na 1ª parte (facultativa) da leitura de hoje, pois para todos os seus elos se diz «gerou», quando para o último elo não se diz que José gerou, mas, pelo contrário: «José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus» (v. 16, à letra «da qual Jesus foi gerado» – entenda-se – por Deus).

18 «Antes de terem vivido em comum»: Maria e José já tinham celebrado os esponsais (erusim), que tinham valor jurídico de um matrimónio, mas ainda não tinham feito as bodas solenes (nissuim ou liqquhim), em que o noivo trazia festivamente a noiva para sua casa, o que costumava ser cerca de um ano depois.

«Encontrava-se grávida por virtude do Espírito Santo»: isto conta-se em pormenor no Evangelho de S. Lucas (1, 26-38), lido na festa da Imaculada Conceição (ver comentário então feito). Ao dizer-se «por virtude do Espírito Santo», não se quer dizer que o Espírito Santo desempenhou o papel de pai, pois Ele é puro espírito. Também isto nada tem que ver com os relatos mitológicos dos semideuses, filhos dum deus e duma mulher. Além do mais, é evidente o carácter semítico e o substrato judaico e vétero-testamentário das narrativas da infância de Jesus em Mateus e Lucas; ora, nas línguas semíticas a palavra «espírito» (rúah) não é masculina, mas sim feminina. Isto chegava para fazer afastar toda a suspeita de dependência do relato relativamente aos mitos pagãos. Por outro lado, na Sagrada Escritura, Deus nunca intervém na geração à maneira humana, pois é espiritual e transcendente: Deus não gera criaturas, Deus cria-as. As narrativas de Mateus e Lucas têm tal originalidade que excluem qualquer dependência dos mitos.

19 «Mas José, seu esposo…». Partindo do facto real e indiscutível da concepção virginal de Jesus, aqui apresentamos uma das muitas explicações dadas para o que se passou. A verdade é que não dispomos da crónica dos factos, pois a intenção do Evangelista era primordialmente teológica, embora sem inventar histórias, pois em face dos dados das suas fontes nem sequer disso precisava. Do texto parece depreender-se que Maria nada tinha revelado a José do mistério que nela se passava. José vem a saber da gravidez de Maria por si mesmo ou pelas felicitações do paraninfo (o «amigo do esposo»), e aquilo que deveria ser para José uma grande alegria tornou-se o mais cruel tormento. Em circunstâncias idênticas, qualquer outro homem teria actuado drasticamente, denunciando a noiva ao tribunal como adúltera. Mas José era um santo, «justo», por isso, não condenava ninguém sem ter as provas evidentes da culpa. E aqui não as tinha e, conhecendo a santidade singular de Maria, não admite a mais leve suspeita, mas pressente que está perante o sobrenatural, já sentido por Isabel… Então só lhe restava deixar Maria, para não se intrometer num mistério em que julga não lhe competir ter parte alguma. É assim que «resolveu repudiá-la em segredo», evitando, assim, «difamá-la» (colocá-la numa situação infamante), ou simplesmente «tornar público» o mistério da sua maternidade. Mas podemos perguntar: porque não interrogava antes Maria para ser ela a esclarecer o assunto? Mas pedir uma explicação já seria mostrar dúvida, ofendendo Maria; a sua delicadeza extrema levá-lo-ia a não a humilhar ou deixar embaraçada. E porque razão é que Maria não falou, se José tinha direito de saber do sucedido? Mas como é que Maria podia falar de coisas tão colossalmente extraordinárias e inauditas?! Como podia provar a José a Anunciação do Anjo? Maria calava, sofria e punha nas mãos de Deus a sua honra e as angústias por que José iria passar por sua causa; e Deus, que tinha revelado já a Isabel o mistério da concepção de Jesus, poderia igualmente vir a revelá-lo a José. De tudo isto fica para nós o exemplo de Maria e de José: não admitir suspeitas temerárias e confiar sempre em Deus.

20 «Não temas receber Maria, tua esposa». O Anjo não diz: «não desconfies», mas: «não temas». Segundo a explicação anterior, José deveria andar amedrontado com algo de divino e misterioso que pressentia: julga-se indigno de Maria e decide não se imiscuir num mistério que o transcende. Na mesma linha de S- Jerónimo, S. Bernardo diz que S. José «foi tomado dum assombro sagrado perante a novidade de tão grande milagre, perante a proximidade de tão grande mistério, que a quis deixar ocultamente... José tinha-se, por indigno...». O texto sagrado poderia mesmo traduzir-se assim, com X. Léon-Dufour e outros: «porque sem dúvida (gar) o que foi gerado nela é obra do Espírito Santo, mas (dè) Ela dará à luz um filho ao qual porás o nome de Jesus» (exercendo assim para Ele a missão de pai). Assim, o Anjo não só elucida José, como também lhe diz que ele tem uma missão a cumprir no mistério da Incarnação, a missão e a dignidade de pai do Salvador. Comenta Santo Agostinho: «A José não só se lhe deve o nome de pai, mas este é-lhe devido mais do que a qualquer outro. Como era pai? Tanto mais profundamente pai, quanto mais casta foi a sua paternidade... O Senhor não nasceu do germe de José. Mas à piedade e amor de José nasceu um filho da Virgem Maria, que era Filho de Deus».

23 «Será chamado Emanuel». No original hebraico de Isaías 7, 14, temos o verbo no singular (forma aramaica para a 3ª pessoa do singular feminino: weqara’t referido a virgem, que é a que põe o nome = «e ela chamará»). Mateus, porém, usa o plural, que não aparece na tradução litúrgica, (kai kalésousin: «e chamarão»), um plural de generalização, a fim de que o texto possa ser aplicado a S. José, para pôr em evidência a missão de S. José, como pai «legal» de Jesus. Mateus, em face do papel providen­cial desempenhado por S. José, não receia adaptar o texto à realidade maravilhosa muito mais rica do que a letra do anúncio profético. Contudo, esta técnica do Evangelista para «actualizar» um texto antigo (chamada deraxe) não é arbitrária, pois baseia-se na regra hermenêutica rabínica chamada al-tiqrey («não leias»), a qual consiste em não ler um texto consonântico com umas vogais, mas com outras (o hebraico escrevia-se sem vogais). Neste caso, trata-se de «não ler» as consoantes do verbo (wqrt) com as vogais que correspondem à forma feminina (tanto da 3ª pessoa do singular na forma aramaica, como da 2ª pessoa do singular da tradução dos LXX: weqara’t «e tu chamarás»), mas de ler com as vogais que correspondem à 2ª pessoa do singular masculino (weqara’ta «e tu chamarás» – em hebraico há diferentes formas masculina e feminina para as 2ª e 3ª pessoas dos verbos). Como pensa Alexandre Díez Macho, «com este deraxe oculto, mas real, Mateus confirma as palavras do anjo do Senhor no v. 21: «e (tu, José) o chamarás».

Eis, a propósito, o maravilhoso comentário de S. João Crisóstomo, apresentando Deus a falar a José: «Não penses que, por ser a concepção de Cristo obra do Espírito Santo, tu és alheio ao serviço desta divina economia; porque, se é certo que não tens nenhuma parte na geração e a Virgem permanece intacta, não obstante, tudo o que pertence ao ofício de pai, sem atentar contra a dignidade da virgindade, tudo to entrego a ti, o pôr o nome ao filho. (...) Tu lhe farás as vezes de pai, por isso, começando pela imposição do nome, Eu te uno intimamente com Aquele que vai nascer» (Homil. in Mt, 4).

25 «E não a tinha conhecido...». S. Mateus pretende realçar que Jesus nasceu sem prévias relações conjugais, mas por um milagre de Deus. Quanto à posterior virgindade, o Evangelista não só não a nega, como até a parece insinuar no original grego, ao usar o imperfeito de duração («não a conhecia») em vez do chamado aoristo complexivo como seria de esperar, caso quisesse abranger apenas o tempo até ao parto (Zerwick). De qualquer modo, esta afirmação não significa que depois já não se verificasse o que até este momento acontecera, como é o caso de Jo 9, 18.

 

Sugestões para a homilia

 

• Deus vem ao nosso encontro

Deus é fiel às Suas promessas

Dá-nos a filiação divina (nome novo)

Somos, em Cristo, a alegria de Deus

• Ele tornou-Se da nossa família humana

O mistério da Incarnação

A grandeza e fidelidade de S. José

Filho de Maria sempre Virgem

 

1. Deus vem ao nosso encontro

 

Jerusalém, a cidade santa do Povo de Deus, foi destruída com o seu templo majestoso, por Nabucodonosor II. Jeoiaquim, Rei de Judá, torna-se seu vassalo em 604 a.C., mas pouco depois rebela-se. Em 598 a.C., os exércitos babilónicos cercaram a cidade. Jeoiaquim morre, sendo sucedido pelo seu filho, Joaquim ou Jeconias, como Rei de Judá. Jeoiaquim rende-se voluntariamente e parte para o Exílio em Babilónia.

É neste contexto, diante da cidade santa destruída que Isaías profetiza o aparecimento duma nova Jerusalém, Aludindo aos tempos da Nova Aliança.

 

a) Deus é fiel às Suas promessas. «Por amor de Sião não me calarei, [...] enquanto a sua justiça não despontar como a aurora [...].»

O Redentor do mundo fora prometido por Deus no Génesis, depois da queda dos nossos primeiros pais. A promessa foi renovada aos Patriarcas e os Profetas repetiram-na frequentemente.

Deus é fiel às Suas promessas. Rezamos no acto de esperança: «Meu Deus, porque sois omnipotente e infinitamente bom, espero que pelos merecimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo me dareis a salvação eterna e as graças necessárias para alcançá-la.» 

Deus mantém a Sua promessa, apesar das infidelidades dos homens, e dá-nos o maior dos dons – o Seu Filho Unigénito – que Se faz um de nós. Por Ele nos vieram e vêm todas as graças necessárias para alcançar a felicidade nesta vida presente e na que há-de vir, no Céu.

Pela nossa parte, temos de realizar apenas um pequeno gesto de aceitação dos Seus dons: professar, alimentar e proclamar a fé recebida no Baptismo, receber os sacramentos viver a caridade. Na verdade, na Igreja só é pobre da graça de Deus quem quer.

Vivemos cheios de confiança na fidelidade do nosso Pai do Céu, seguros de que Ele não desiste da promessa que nos fez.

A Celebração do Natal em cada ano aviva em nós esta verdade de fé: Deus não desiste de nos salvar, enquanto estivermos nesta vida.

 

b) Dá-nos a filiação divina (nome novo). «Receberás um nome novo, que a boca do Senhor designará. Serás coroa esplendorosa nas mãos do Senhor [...].»

Pelo Baptismo tornamo-nos filhos de Deus e som os chamados a uma intimidade crescente com o nosso Pai do Céu, até à comunhão plena com a Santíssima Trindade, começada na terra e continuada para sempre no Céu.

Por isso, num dos textos do Natal, S. Leão Magno exclama: «Reconhece, ó cristão, a tua dignidade. Uma vez constituído participante da natureza divina, não penses em voltar às antigas misérias da tua vida passada. Lembra-te de que cabeça e de que corpo és membro. Não te esqueças de que foste libertado do poder das trevas e transferido para a luz e para o Reino de Deus.» (São Leão Magno, Sermo 21, 3: CCL 138, 88 (PL 54, 192-193), cit em CIC, n.º 1691).

Pela filiação divina recebida com a graça santificante, tronamo-nos filhos de Maria, irmãos de todos os santos e herdeiros do Céu. Em jesus Cristo foram-nos concedidas todas as bênçãos.

Diante do Presépio, ao contemplar Deus que se faz Menino por nosso Amor, meditemos na grandeza da nossa vocação cristã recebida no Baptismo.

 

c) Somos, em Cristo, a alegria de Deus. «como a esposa é a alegria do marido, tu serás a alegria do teu Deus

A nossa vocação cristã encaminha-nos para nos tornarmos amigos íntimos de Deus. O Senhor fez-se um de nós, desceu à nossa pequenez, para nos desafiar à intimidade com Ele e, por Ele, no Espírito Santo, com a Santíssima Trindade.

O caminho normal para chegar a esta intimidade é a oração. Por isso Jesus nos ensina: «Quando orardes, dizei: Pai nosso que estais nos Céus.» (Mt 6, 9).

Não se trata, ao fazer oração, de dizer muitas palavras, mas, como Ele ensinou, de falar com Deus.

Pelo diálogo íntimo – como acontece no amor humano – os corações sentem-se cada vez mais perto. Encontrou-se o Principezito com a raposa. Ela pediu-lhe: Cativa-me! E quando ele lhe perguntou como se fazia isso, ela explicou-lhe: Vais-te colocando primeiro longe, depois cada vez mais perto, olhando-me pelo canto do olho. (Saint Exupéry).

A comunhão de vida vai surgindo e crescendo a pouco e pouco. Deus partilha os nossos problemas e nós partilhamos os d‘Ele e aproximamo-nos cada vez mais do Seu coração divino.

Por isso, o Senhor diz-nos que nós somos a Sua alegria, como um filho o é dos seus pais, por muito limitado que seja.

 

 

2. Ele tornou-Se da nossa família humana

 

a) O mistério da Incarnação. «Estando já Maria, sua mãe, desposada com José, antes de coabitarem se achou ter ela concebido por obra do Espírito Santo

Este foi o plano de Deus para nós resgatar. O pecado de Adão e Eva abriu um fosso de largura infinita entre Deus e nós. A grandeza de uma falta mede-se pela distância entre o que ofende e o que é ofendido.

Sendo assim, nenhum homem podia pagar esta dívida infinita, porque os seus merecimentos são limitados.

Então, a Sabedoria divina encontrou uma solução para este problema. O Filho de Deus – a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade – fez-Se um de nós por Amor, sem deixar de ser Deus.

Deste modo, Jesus Cristo pode apresentar-Se como nosso representante, porque é da nossa família; e merece infinitamente, porque é Deus.

O desencadear desta revolução de Amor deu-se em Nazaré, quando o Arcanjo vem propor a Maria a aceitação da maternidade divina.

Perante a sua anuência à vontade do Altíssimo, o Verbo assumiu uma natureza humana no seio virginal de Maria.

Celebrámos o mistério da Anunciação em 25 de Março, e nove meses depois, o nascimento do Filho de Deus em Belém.

 

b) A grandeza e fidelidade de S. José. «E José seu esposo, como era justo, não querendo difamá-la, resolveu deixá-la secretamente

José estava noivo de Maria. Era um jovem com poucos anos mais do que Maria. Constatou que Maria estava grávida e tinha a certeza de que não era o pai de Jesus... mas também não podia duvidar da fidelidade de Maria.

Pensa então que é um intruso neste mistério e resolve retirar-se em segredo. Vão julgá-lo um homem sem coração que abandona Nossa Senhora no momento em que mais vai precisar dele; mas o que pretende é que o bom nome da sua noiva não seja beliscado.

Oferece a Deus o maior sacrifício da sua vida e dorme com tudo preparado para fugir durante a noite. Deste modo evitará perguntas curiosas e indiscretas.

É esta a grandeza do seu sacrifício de que nos fala o Evangelho desta vigília. Nele se afirmam estas duas verdades: Jesus é descendente do rei David e filho virginal de Maria.

Deus escolheu a melhor das mulheres para ser a Mãe do Seu Filho e o melhor dos homens para desempenhar o papel de pai daquela família.

Mais uma vez é fiel, apressando-se a receber Maria como esposa, e será uma presença fidelíssima nas circunstâncias difíceis do nascimento de Jesus: no nascimento em Belém, na fuga para o Egipto e na vida humilde em Nazaré.

 

c) Filho de Maria sempre Virgem. «Eis uma virgem conceberá e parirá um filho; e apelidá-lo-ão pelo nome de Emanuel, que quer dizer: Deus connosco

O Catecismo de la Iglesia Católica (nn. 484-511) afirma claramente a verdade de fé da virgindade perpétua de Maria. Jesus foi concebido por obra do Espírito Santo no seio virginal de Maria, como se afirma no Evangelho; o mesmo Jesus que saiu glorioso do sepulcro e atravessou as paredes sem que fosse necessário facultar-lhe qualquer abertura e entrou no Cenáculo estando fechadas as portas e janelas, por medo dos judeus; Maria guardou este tesouro da sua virgindade até à sua glorificação no Céu.

Estamos perante uma verdade de fé de que não se pode negar sem cair em heresia. Se nos dizem que não compreendem este mistério, também é verdade que há muitos outros na nossa fé que não compreendemos. Por isso mesmo são mistérios: Se Deus podia guardar a integridade do seu corpo santíssimo, por que não havia de fazê-lo?

No silêncio da noite, o nosso Deus invade o mundo, para o conquistar, libertando-nos da tirania do demónio e reconduzindo-nos ao reino do Amor.

A Santa Missa recorda-nos esta magnanimidade de Deus. Ama-nos tanto que Se entrega para nosso resgate no sacrifício da Cruz.

 

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs:

Nesta hora em que todas as pessoas se preparam

para celebrar o nascimento do Salvador do mundo,

apresentemos-Lhe as necessidades de todos nós.

Oremos, (cantando):

 

    Vinde, Jesus, e não tardeis!

 

1. Pelo santo Padre, pelos Bispos e demais bons pastores

    que com ele anunciam um verdadeiro sentido do Natal,

    oremos, irmãos.

 

    Vinde, Jesus, e não tardeis!

 

2. Pelos que passam esta noite de Natal nos Hospitais,

    prisões ou abandonados dos seus familiares e amigos,

    oremos, irmãos.

 

    Vinde, Jesus, e não tardeis!

 

3. Pelos lares onde há dor por um falecimento recente,

    para que Jesus menino os conforte com a luz da fé,

    oremos, irmãos.

 

    Vinde, Jesus, e não tardeis!

 

4. Pelos que nesta noite  e Natal estão longe da família,

    para que sintam nesta hora a alegria de toda a Igreja,

    oremos, irmãos.

 

    Vinde, Jesus, e não tardeis!

 

5. Por todos nós, que celebramos este Natal de Jesus,

    para que o façamos com uma imensa gratidão e paz,

    oremos, irmãos.

 

    Vinde, Jesus, e não tardeis!

 

6. Pelos nossos fieis defuntos que o Senhor chamou,

    para que celebrem este Natal na felicidade do Céu,

    oremos, irmãos.

 

    Vinde, Jesus, e não tardeis!

 

Senhor, que vindas uma vez mais ao nosso encontro,

na celebração do mistério do nascimento de Cristo:

ajudai-nos a vivê-lo como Vós nos ensinais na Igreja,

para Vos contemplarmos no esplendor da Vossa glória.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho,

na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Introdução

 

Sem o mistério do nascimento do Salvador não poderíamos ter a Eucaristia.

Agora que tudo se prepara, depois da proclamação da Palavra, para consagrar o Corpo e Sangue do Senhor, pelo ministério do sacerdote, avivemos a nossa fé e mostremo-nos agradecidos por estes dons.

 

Cântico do ofertório: Sabei que o nosso Deus, M. Simões, NRMS 24

 

Oração sobre as oblatas: Concedei, Senhor, ao vosso povo a graça de celebrar com renovado fervor a vigília da grande solenidade, na qual nos revelais o princípio da nossa redenção. Por Nosso Senhor...

 

Prefácio do Natal: p. 457 [590-702] ou 458-459

 

No Cânone Romano, diz-se o Communicantes (Em comunhão com toda a Igreja) próprio. Também nas Orações Eucarísticas II e III se faz a comemoração própria: Reunidos na vossa presença.

 

Santo: F. da Silva, NRMS 38

 

Saudação da Paz

 

Os Anjos anunciam, em Belém, na noite do nascimento de Jesus, paz na terra aos homens de boa vontade.

Peçamos ao Senhor nos torne dignos de o sermos também, para nos tornarmos construtores da paz.

 

Saudai-vos na paz de Cristo!

 

Monição da Comunhão

 

Mais do que tomar em nossos braços Jesus menino recém-nascido, teremos a felicidade de O receber sacramentalmente em nosso coração.

Avivemos a nossa fé e procuremos recebê-l’O com toda a devoção.

 

Cântico da Comunhão: Anjos do Céu a cantar, M. Faria, 20 Cânticos para a Missa

cf. Is 40, 5

Antífona da comunhão: Brilhará a glória do Senhor e toda a terra verá a salvação de Deus.

 

Cântico de acção de graças: A minha alma louva o Senhor, M. Carneiro, NRMS 76

 

Oração depois da comunhão: Fortalecei, Senhor, os vossos fiéis na celebração do nascimento do vosso Filho Unigénito, que neste divino sacramento Se fez nossa comida e nossa bebida, Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Estejamos despertos para acolhermos o Salvador que vem até nós para nos tornar felizes.

Sejamos junto de cada pessoa um reflexo, embora longínquo, do amor de Deus por cada um de nós.

 

Cântico final: Desde o nascer do sol, M. Simões, NRMS 56

 

 

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Fernando Silva

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 

 


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