TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

MATRIMÓNIO CRISTÃO E CELIBATO PELO REINO DE DEUS *

 

 

 

João Paulo Pimentel

 

 

Relações de complementaridade entre matrimónio e celibato pelo Reino de Deus

 

Antes de oferecer uma explicação da excelência do celibato recordemos a complementaridade dos dois tipos de vocação na vida da comunidade cristã, o matrimónio e o celibato pelo Reino. Ambas se iluminam mutuamente [1].

Que luz oferece o matrimónio aos que vivem o celibato? Por um lado, recorda-nos que há um amor em certo sentido exclusivo que orienta a vida; e esse amor está chamado a prolongar-se no tempo, para além do casal, nos filhos gerados [2]. Os que vivem o celibato podem e devem contemplar o amor fiel dos casais, onde os cônjuges se amam de verdade e vivem um para o outro, e sentir-se interpelados por esse amor: o meu amor a Cristo é assim? Também eu faço tudo com Ele, interesso-me pelo que Jesus gosta ou não gosta? Quando descanso, descanso sem d’Ele me afastar?

Quando quem vive o celibato vê o cuidado que os pais têm por cada um dos filhos, como os conhecem com todo o pormenor, como se ocupam de cada um, etc., não pode deixar de se perguntar pelo seu desejo de fecundidade espiritual e pela entrega de todos os que lhe estão confiados. Seria ridículo que, por exemplo, um sacerdote se queixasse da velhinha que vai ter com ele pela milésima vez, quando tem ao lado uma mãe de família que não pode afastar-se de um filho que é doente e requisita permanentemente a sua atenção.

Em sentido inverso, o celibato ajuda a recordar aos que estão casados que o mais essencial da fecundidade humana é gerar filhos em Cristo e assim esmerar-se-ão ainda mais na educação cristã dos filhos [3].

Além disso, o celibato torna mais explícito aos casados que a sua vocação é expressão da liberdade do dom [4]. Detenhamo-nos neste último aspecto.

Há correntes que pretendem explicar o matrimónio com a categoria do instinto sexual. Seria um modo de organizar esse instinto de forma socialmente aceite. Em linguagem freudiana, o matrimónio seria uma sublimação do instinto sexual. João Paulo II reafirma que uma tal visão naturalista deforma e empequenece o matrimónio. A categoria que permite entender a fundo o matrimónio é a liberdade do dom, isto é, a capacidade humana de se poder doar. A consciência do significado esponsal do corpo traduz essa liberdade [5]. Por isso, para que duas pessoas se casem, a motivação chave deve ser a de querer entregar-se ao outro sem reservas e aceitar que o outro entre plenamente na sua vida. Trata-se de partir para o casamento com a clara consciência da entrega, incluída a disposição de se sacrificar pelo outro. Nunca com a ideia de adquirir uma espécie de carta-branca para uma mútua instrumentalização, ou com a ideia egoísta de cada um ser feliz à custa do outro. Ora, o celibato pelo Reino, ao tornar mais evidente que a vocação para amar exige, neste mundo, a disposição de se sacrificar por Quem se ama, pode facilitar uma maior consciência vocacional nos que se casam. A prova de que assim sucede encontramo-la na exortação de São Paulo aos maridos cristãos. Qual é o modelo que São Paulo pede que olhem? Cristo! “Maridos, amai as vossas mulheres, como também Cristo amou a Igreja e Se entregou a Si mesmo por Ela” (Ef 5, 25). Em resumo: um dos contributos do celibato pelo Reino para a vida dos casais pode ser, precisamente, a de acentuar e tornar mais presente que a pessoa casa-se para se entregar ao outro. Este aspecto poderia estar presente nas homilias da celebração matrimonial.

 

 

A superioridade do celibato pelo Reino de Deus

 

Sempre foi tradicional na Igreja afirmar essa superioridade, tal como recorda a Familiaris Consortio: “a Igreja, durante toda a sua história, defendeu sempre a superioridade deste carisma no confronto com o do matrimónio, em razão do laço singular que ele tem com o Reino de Deus” [6].

Trata-se, como é óbvio, de uma superioridade objectiva, que não compara as pessoas nem o seu grau de união a Deus, mas apenas as condições em que as pessoas vivem a sua opção vocacional.

Interessa explicar então por que razão é bom que uma pessoa solteira pense seriamente se Deus a chama a um estilo de vida que o próprio Cristo adoptou, e que pode ser um modo de ela amar mais.

Para desenhar com precisão os contornos dessa superioridade é necessário pôr de parte algumas ideias erradas:

– O valor do celibato não deriva da mera abstenção. Diz S. Agostinho: “Não louvamos nas virgens o serem virgens, mas o facto de estarem consagradas a Deus, com piedosa continência. Porque - posso dizê-lo sem temeridade - a mulher casada parece-me mais feliz do que uma virgem com anseios de se casar[7].

– Pior ainda seria pensar que o valor do celibato deriva de um juízo negativo - maniqueísta - sobre o matrimónio, o corpo ou o sexo [8]. João Paulo II sublinha umas palavras da primeira carta aos Coríntios em que o Apóstolo afirma com clareza que, tanto o celibato como o matrimónio, são dons de Deus: “Quisera que todos os homens fossem como eu, mas cada qual recebe de Deus o seu próprio dom, este de uma maneira, aquele de outra» (1 Cor 7, 7) [9].

Por tudo isto, seria totalmente contrário aos ensinamentos da Igreja que, para fomentar as vocações ao celibato, se desvalorizasse o matrimónio. Agora ouvimos S. Ambrósio: “Não é possível haver virgens, se não houver quem as gere” [10]. Lógico! Mas não se trata apenas de uma necessidade diríamos “funcional” do matrimónio (para gerar filhos). O matrimónio é o caminho de santidade para a maioria das pessoas. Portanto, seria um erro apresentar o matrimónio como uma segunda opção para quem não consegue abraçar a primeira, o celibato. O facto é que o celibato não é para todos. Deus quer que a maioria dos homens e mulheres se casem e alcancem nessa vocação a mais alta união com Ele.

O próprio João Paulo II recordou com clareza que o grau de união a Deus deriva sobretudo da caridade e não apenas do celibato ou dos outros conselhos evangélicos: “A perfeição da vida cristã (…) é aferida pela regra da caridade. De onde se conclui que uma pessoa que não viva no «estado de perfeição» (…) pode, de facto, alcançar um grau superior de perfeição – cuja medida é a caridade – em comparação com a pessoa que viva no «estado de perfeição» com um menor grau de caridade” [11].

Também S. Josemaria Escrivá, para além de recordar sem ambiguidades a excelência do celibato como algo que forma parte da fé da Igreja [12], insistiu, desde os inícios da sua pregação, em que o matrimónio é um caminho vocacional. Nos anos 30 do século passado “havia a tendência – explicou – para promover a busca da perfeição cristã dos jovens fazendo-os apreciar unicamente o valor sobrenatural da virgindade e deixando na sombra o valor do matrimónio cristão como outro caminho de santidade”. E resumia: “O que sobretudo interessa é a correspondência de cada um à sua própria vocação. O mais perfeito para cada um – sempre e exclusivamente – é fazer a vontade de Deus” [13].

 

Feitos estes esclarecimentos, falemos das razões para a excelência objectiva do celibato. Tendo em conta que Jesus apresenta a necessidade do celibato pelo Reino - e Ele próprio a escolheu para a sua vida -, é porque a renúncia ao matrimónio, cuja bondade acaba de reafirmar no diálogo com os fariseus, pode oferecer um contributo maior para o Reino [14].

K Wojtyla, em Amor e Responsabilidade explicava: “A tendência para a união com Deus-Pessoa é aqui [na virgindade] mais pronunciada do que no matrimónio; a virgindade adianta-se, em certo sentido, a esta união no plano da existência temporal e física da pessoa humana. Nisto precisamente consiste o seu alto valor” [15].

A explicação mais profunda encontramo-la no comentário de João Paulo II ao capítulo 7 da primeira Carta aos Coríntios: “O que está sem mulher cuida das coisas que são do Senhor, como há-de agradar a Deus” (1 Cor 7, 32. Cfr. vv. 33-34). S. Paulo apresenta dois motivos para a excelência do celibato:

1) A pessoa não casada pode ocupar-se mais plenamente das coisas do Senhor; no fundo, da Igreja.

2) A pessoa que abraça o celibato tem no coração o desejo exclusivo de agradar o Senhor. S. Paulo aplica ao celibato o padrão nupcial. O homem ou a mulher celibatários devem ter com Deus uma orientação da sua vida semelhante à que os casados têm com o cônjuge [16]. O celibato pelo reino mostra de modo eloquente que a vida cristã, o Reino dos Céus, é sobretudo uma relação da pessoa com Deus.

João Paulo II afirma que os dois motivos estão ligados: ao ocupar-me das coisas do Senhor estou a agradar o Senhor e ao amá-Lo a Ele, abro-me a tudo o que Ele ama  [17].

A superioridade do celibato deriva portanto e sobretudo da vincada possibilidade de configurar a relação com o Senhor de modo nupcial: o coração de quem assim vive deve dirigir-se directamente para o Senhor; Deus deve ocupar, de modo proeminente, os seus pensamentos e afectos. O corpo, mediante a perfeita continência, manifestará a sua total pertença a Deus. Mesmo tendo em conta que a fundamental condição de um baptizado é a de ser filho de Deus, em quem assume o celibato, acrescentam-se no relacionamento com Cristo elementos de tipo esponsal.

A pessoa celibatária por amor de Deus deve, portanto, velar constantemente pelo seu coração, perguntando-se com frequência: sou e vivo como uma pessoa enamorada de Deus? Os meus melhores afectos são para o Senhor? E também: Quando algum outro amor se insinua furtivamente, no meu coração, dou-me rapidamente conta de que aquele “lugar” do coração já está definitivamente ocupado pelo Senhor?

Um outro elemento para entender uma certa primazia do celibato deve-se a que torna mais perceptível que para Deus os nossos corpos não são indiferentes. Deus também quer que O amemos através do corpo (a que dá suma importância). A ressurreição dos corpos confirma que, no mundo escatológico, Deus quer que O amemos também com o corpo.

No mesmo capítulo da Carta aos Coríntios, S. Paulo refere ainda a caducidade deste mundo (cfr. 1 Cor 7, 32). Mesmo que o matrimónio possa e deva ser vivido com vistas ao chamamento escatológico, a verdade é que se trata de uma realidade imersa no âmbito deste mundo. Sem negar o valor do matrimónio, a verdade é que o celibato traz a este mundo a condição para a qual todos tendem. Esse é também outro motivo da sua superioridade [18].

 

 

 



* Excerto da conferência pronunciada no Congresso Internacional sobre a Teologia do Corpo, realizado em Fátima, de 13 a 16 de Junho de 2013.

Toda a conferência pode ser seguida em http://vimeo.com/71457471.

[1] Cfr. JOÃO PAULO II, Discurso na audiência geral da quarta-feira, 14-4-1982, n. 2.

[2] Cfr. Ibidem, n. 5.

[3] Ibidem.

[4] Cfr. JOÃO PAULO II, Discurso na audiência geral da quarta-feira, 28-4-1982, nn. 3-4.

[5] Cfr. Ibidem, nn. 3-5.

[6] JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica Familiaris Consortio (22-XI-1981), n. 16.

[7] SANTO AGOSTINHO, A Santa Virgindade, 10, 11.

[8] Cfr. JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica Familiaris Consortio, n. 16 e Discurso na audiência geral da quarta-feira, 7-4-1982, n. 6.

[9] Cfr. JOÃO PAULO II, Discurso na audiência geral da quarta-feira, 7-7-1982, n. 8.

[10] S. AMBRÓSIO, A Virgindade, VII, 35.

[11] JOÃO PAULO II, Discurso na audiência geral da quarta-feira, 14-4-1982, n. 3.

[12] Cfr. S. JOSEMARIA ESCRIVÁ, Temas Actuais do Cristianismo, n. 92.

[13] Ibidem, 92.

[14] Cfr. JOÃO PAULO II, Discurso na audiência geral da quarta-feira, 21-4-1982, n. 3:

[15] KAROL WOJTYLA, Amor e Responsabilidade, Ed. Rei dos Livros, Lisboa 1999, p. 244.

[16] Cfr. JOÃO PAULO II, Discurso na audiência geral da quarta-feira, 7-7-1982, n.1.

[17] Cfr. JOÃO PAULO II, Discurso na audiência geral da quarta-feira, 30-6-1982, nn. 8-10.

[18] Cfr. JOÃO PAULO II, Discurso na audiência geral da quarta-feira, 14-7-1982, n. 2.


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