TEMAS LITÚRGICOS

AS CERIMÓNIAS DO PAPA FRANCISCO

 

 

 

Juan José Silvestre

Professor de Teologia Litúrgica

Universidade Pontifícia da Santa Cruz (Roma)

 

 

 

No seguimento do artigo publicado no número anterior da CL, “O legado litúrgico de Bento XVI”, damos a conhecer outro artigo do mesmo autor, publicado na revista Palabra (Madrid, Agosto-Setembro de 2013), a cujo Director agradecemos de novo a autorização.

 

 

Passados uns meses da eleição do Papa Francisco, podem-se destacar duas tonalidades que caracterizam as celebrações litúrgicas do novo Pontífice: o seu tom de oração e a sua nobre simplicidade. Hoje queria fixar-me nesta segunda exigência ou categoria fundamental da reforma, a que se refere Sacrosanctum concilium, n 34: “Brilhem os ritos pela sua nobre simplicidade, sejam claros na brevidade e evitem repetições inúteis; devem adaptar-se à capacidade de compreensão dos fiéis, e não precisar, em geral, de muitas explicações”.

O fundamento desta nobre simplicidade encontramo-lo na própria origem da liturgia cristã: nasce no Cenáculo, onde o Mistério pascal da morte e ressurreição do Senhor se antecipa e se abre à actualização cultual. A simplicidade dos gestos daquela hora suprema é evidente, mas, ao mesmo tempo, “a Eucaristia está longe de ser uma simples refeição, porque custou uma morte, e a majestade da morte está presente nela. Quando nós a celebramos, temos de considerar a seriedade de tal mistério, o terror perante o mistério da morte, que se torna presente entre nós. Certamente, também se torna presente o facto de que a morte foi vencida por meio da ressurreição e que nós, portanto, podemos celebrar esta morte como a festa da vida, como a transformação do mundo" (Cardeal Ratzinger). A simplicidade do gesto do Cenáculo vai acompanhada da profundidade e imensidade da hora de Jesus.

Neste contexto, o acto simples de partir o pão e de oferecer o cálice é um acto verdadeiramente sagrado: antecipa e supõe a reconciliação entre Deus e o mundo no amor do Filho. A estrutura litúrgica, os diferentes sinais, actos e palavras que conformam a liturgia, devem permitir que este núcleo seja transparente e devem remeter para a simplicidade do Deus infinito. Simplicidade, para tornar mais transparente o Mistério que se torna presente e quer transformar-nos.

Como recordava o beato João Paulo II na encíclica Ecclesia de Eucharistía: “A Eucaristia […] abarca e impregna toda a criação. O Filho de Deus [...], o sumo e eterno Sacerdote, entrando no santuário, mediante o sangue da sua Cruz, devolve ao Criador e Pai toda a criação redimida. Fá-lo através do ministério sacerdotal da Igreja e para glória da Santíssima Trindade. Verdadeiramente este é o mysterium fidei (mistério da fé) que se realiza na Eucaristia: o mundo nascido das mãos de Deus criador retorna para Ele redimido por Cristo”.

Neste sentido, o brilho da nobre simplicidade supõe que a grandiosidade e a solenidade não sejam autónomas, mas que sirvam humildemente para sublinhar a verdadeira festa: o sim “sofredor” de Deus ao mundo e a cada um de nós. Nesta mesma linha, o Papa Francisco recordava na sua homilia da Missa Crismal: “A beleza do litúrgico, que não é puro adorno e gosto pelos trapos, mas presença da glória do nosso Deus resplandecente no seu povo vivo e consolado”.

Eis aqui o significado, a presença da beleza na celebração litúrgica. Nesta última, resplandece o Mistério Pascal. Na liturgia, “o esplendor da glória de Deus supera toda a beleza mundana. A verdadeira beleza é o amor de Deus que se revelou definitivamente no Mistério pascal. A beleza da liturgia é parte deste mistério; é expressão excelsa da glória de Deus e, em certo sentido, o céu que desce à terra. […]. A beleza, portanto, não é um factor decorativo da acção litúrgica; é antes um elemento constitutivo, enquanto atributo do próprio Deus e da sua revelação” (Sacramentum caritatis, 35).

Podemos concluir com Bento XVI que, falando em Notre Dame de Paris, recordava: “As liturgias da terra, ordenadas todas elas à celebração de um Acto único da história, jamais alcançarão expressar totalmente a sua infinita densidade. Com efeito, a beleza dos ritos nunca será suficientemente esmerada, suficientemente cuidada, elaborada, porque nada é demasiado belo para Deus, que é a Formosura infinita. As nossas liturgias da terra não poderão ser mais que um pálido reflexo da liturgia, que se celebra na Jerusalém do alto, meta da nossa peregrinação na terra. Que as nossas celebrações, contudo, se pareçam com ela tanto quanto possível e a façam pressentir”.

 

 

 

 

 

 


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