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«ADORO  TE  DEVOTE»

 

 

 

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

Se bem repararmos, o piedoso hino de S. Tomás de Aquino, aparentemente composto de sete quadras soltas, possui uma estrutura cronológica muito clara e simples: a da vida terrena do nosso Salvador (as primeiras quatro), seguida da sua presença eucarística nas duas espécies (as duas seguintes) e, por fim, no Céu, à nossa espera. Reconhecendo facilmente na quarta estrofe a consideração do mistério da Cruz e na quinta a da Ressurreição, logo se percebe que na segunda se refere à «vida pública», de pregação («Credo quidquid dixit Dei Filius»…), e na primeira, portanto, a Jesus Menino. O que nos pode ajudar neste Natal.

De facto, uma vez compenetrados com o santo, compreendemos o que pretende dizer-nos, quando afirma «Tibi se cor meum totum deficit / Quia te contemplans totum deficit»: que nos comovamos diante do Presépio.

Como gostaríamos de que o nosso coração sempre acompanhasse a nossa fé! O amor não é mero sentimento e manifesta-se acima de tudo nas obras, no cumprimento fiel da vontade de Deus. Ou, como costuma dizer-se, é mais importante o amor «efectivo» do que o «afectivo». Aprendemos isso desde crianças, quando a mãe nos dizia que deixássemos de «beijocas» e fizéssemos mas era o que nos mandava… Mas como lhe doeria que lhe obedecêssemos rigorosamente, sem qualquer manifestação de carinho!

Todos os santos sofreram e sofrem, por longas vezes, de «secura espiritual», mas sofrem: sentem imensa pena de que o coração não vibre como devia, e pedem a Nosso Senhor que realmente lhes tire o «coração de pedra» e lhes dê um «coração de carne», como Ele merece. Pois bem, S. Tomás aponta-nos um remédio: olha para o Menino Jesus, deitado numas palhinhas! Quem não se comove com o olhar inocente de uma criança? Até um bandido se perturba quando algum menino lhe sorri, confiante, carinhoso. 

Saber que Deus se fez um minúsculo embrião no seio bendito de Maria; que secreta e humildemente já está no meio de nós; que se prepara para que O recebamos sem espanto nem susto, como outro menino qualquer; que vai nascer no último sítio que alguém possa invejar; que se abandonará realmente nas mãos de Maria e José; que se deixará abraçar por qualquer de nós, por mais rudes que sejamos; que desejará aprender a ser homem do próprio homem que criou; e que depois, com as suas próprias mãos, nos servirá como carpinteiro… Se o nosso coração não reage, é porque estamos mortos!

Vale a pena fazer o presépio com aquelas figurinhas desproporcionadas, como é «desproporcionada» toda a nossa vida.

 

 

 

 


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