DOCUMENTAÇÃO

PAPA FRANCISCO

 

ENCONTRO DO PAPA COM JORNALISTAS

no voo de regresso do Rio de Janeiro

 

 

No domingo 28 de Julho, no avião de regresso a Roma, depois da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, o Papa Francisco esteve disponível um bom espaço de tempo para responder às perguntas dos jornalistas, de várias regiões e línguas.

Damos a seguir as respostas do Papa a algumas das questões que lhe colocaram, tomadas do site www.vatican.va.

 

 

Juan de Lara: Santidade, boa noite. Em nome de todos os colegas, quero agradecer-lhe por estes dias que nos presenteou no Rio de Janeiro, pelo trabalho que fez e o esforço que investiu. E também, em nome de todos os jornalistas espanhóis, queremos agradecer-lhe as orações e os gestos pelas vítimas do incidente ferroviário de Santiago de Compostela. Muitíssimo obrigado! A primeira questão tem pouco a ver com a viagem; mas, aproveitando esta oportunidade que me é dada, queria perguntar-lhe: Santidade, nestes quatro meses de Pontificado, vimos que criou várias Comissões para a reforma da Cúria. Queria saber: que tipo de reforma tem em mente, contempla a possibilidade de suprimir o IOR, o chamado Banco do Vaticano? Obrigado!

 

Papa Francisco: Os passos que fiz nestes quatro meses e meio derivam de duas vertentes: o conteúdo daquilo que se devia fazer, tudo, vem da vertente das Congregações Gerais dos Cardeais. Eram coisas que nós, Cardeais, tínhamos pedido àquele que haveria de tornar-se o novo Papa. Eu me lembro que pedi muitas coisas, pensando que seria outro... Pedíamos, por exemplo, para se fazer isso: a Comissão de oito Cardeais; sabemos que é importante ter um Organismo Consultivo externo, não os organismos consultivos que já existem, mas de fora. Isso põe-se cada vez na linha – aqui eu faço como que uma abstração, pensando, mas faço-o para explicá-lo – na linha do amadurecimento da relação entre sinodalidade e primado. Ou seja, estes oito Cardeais favorecem a sinodalidade, ajudam os diversos episcopados do mundo para se expressarem no próprio governo da Igreja. Há muitas propostas que foram feitas, mas que ainda não foram postas em prática, tais como a reforma da Secretaria do Sínodo, na metodologia; que a Comissão pós-Sinodal tenha caráter permanente de consulta; os Consistórios cardinalícios, com temáticas menos formais como, por exemplo, a canonização, mas também outras temáticas, etc. Ora bem, a vertente dos conteúdos vem de lá!

A segunda vertente é a oportunidade. Confesso-lhes que para mim não me custou ver como primeiro ponto, no primeiro mês de Pontificado, organizar a Comissão dos oito Cardeais. A parte económica, pensava tratá-la no próximo ano, porque não é a coisa mais importante que havia necessidade de tratar. Mas a agenda mudou por causa das circunstâncias que vocês conhecem e são de domínio público; surgiram problemas que tinham de ser enfrentados. O primeiro: o problema do IOR, ou seja, como orientá-lo, como delineá-lo, como reformulá-lo, como sanar aquilo que há para sanar. E aqui aparece a primeira Comissão de Referência – este é o seu nome. Vocês conhecem o Quirógrafo: o que se lhe pede, aqueles que a integram, tudo. Depois, tivemos a reunião da Comissão dos 15 Cardeais que se ocupam dos aspectos económicos da Santa Sé. Eles provêm de todas as partes do mundo. E foi lá, ao preparar este encontro, que se viu a necessidade de fazer uma única Comissão de Referência para toda a economia da Santa Sé. Isto é, foi enfrentado o problema económico que estava fora da Agenda. São coisas que acontecem: quando na função de governo um vai para um lado, mas atiram-lhe a bola do outro lado, deve agarrá-la. Não é assim? Por conseguinte, a vida é assim, mas também isso faz a beleza da vida. …

Relativamente à pergunta que me fazia sobre o IOR, eu não sei como vai ficar o IOR. Alguns dizem que é melhor talvez que seja um banco, outros que seja um fundo de ajuda, outros dizem para fechá-lo. Bem! Ouvem-se essas vozes. Eu não sei. Eu tenho confiança no trabalho das pessoas do IOR que estão trabalhando sobre isso, incluindo a Comissão. O Presidente do IOR continua o mesmo que era antes, enquanto o Diretor e o Vice-Diretor pediram a demissão. Mas sobre isso, eu não saberei dizer-lhe como vai acabar essa história; e também isto é bom, porque se procura, se encontra; nós somos humanos nisto; devemos encontrar o melhor. Entretanto não há dúvida que as características do IOR – seja ele banco, seja fundo de ajuda ou qualquer outra coisa que seja – hão de ser transparência e honestidade. Assim ele deve ser. Obrigado!

 

Aura Miguel: Santidade, eu queria perguntar-lhe por que motivo pede com tanta insistência para rezarmos por Si. Não é normal, usual, ouvir um Papa pedir assim tanto para rezar por ele…

Papa Francisco: Eu sempre pedi isso. Quando era presbítero, pedia isso, mas não com tanta frequência; comecei a pedi-lo com uma certa frequência no trabalho de bispo, porque eu sinto que, se não é o Senhor a sustentar neste trabalho de ajudar o povo de Deus a avançar, uma pessoa não consegue… Eu me sinto verdadeiramente com muitas limitações, com muitos problemas, sinto-me também pecador – vocês sabem disso! – e devo pedir isso. Isso me vem de dentro! Também peço a Nossa Senhora que reze por mim ao Senhor. É um hábito, mas é um hábito que me vem do coração e também pela necessidade que tenho para o meu trabalho. Eu sinto que devo pedir... Eu não sei, é assim…

 

Philip Pullella: Santidade, em nome do grupo inglês, obrigado pela sua disponibilidade. O colega Juan de Lara já fez a pergunta que queríamos colocar; então eu continuo um pouco naquela linha… mas só um pouco: Santidade, ao procurar fazer essas mudanças, eu lembro-me que disse ao grupo da América Latina que há muitos santos que trabalham no Vaticano, mas também pessoas que são um pouco menos santas, não? O Santo Padre encontrou resistências a esse seu desejo de mudar as coisas no Vaticano? Encontrou resistências? A segunda pergunta é: O Senhor vive de modo muito austero, ficou em Santa Marta, etc... Vossa Santidade quer que seus colaboradores, mesmo os Cardeais, sigam esse exemplo e vivam, quem sabe, em comunidade, ou é algo apenas para o Senhor?

 

Papa Francisco: As mudanças... as mudanças derivam também de duas vertentes: daquilo que nós, cardeais, pedimos, e daquilo que vem da minha personalidade. O senhor falava do fato de eu ter ficado em Santa Marta: mas eu não poderia viver sozinho no Palácio, que não é luxuoso. O apartamento pontifício não é muito luxuoso! É espaçoso, é grande, mas não é luxuoso. Mas eu não posso viver sozinho ou com um pequenino grupo! Preciso de gente, encontrar pessoas, falar com as pessoas... E por isso, quando os alunos das escolas jesuítas me fizeram a pergunta: «Por que faz isso? Por austeridade, por pobreza?», eu respondi: Não, não. É simplesmente por motivos psiquiátricos: psicologicamente, eu não posso. Cada um deve levar por diante sua vida, com seu jeito de viver, de ser. Os cardeais que trabalham na Cúria não vivem como pessoas ricas e sumptuosas: eles vivem em um pequeno apartamento, são austeros, eles são austeros. Aqueles que conheço; estes apartamentos que a APSA dá aos cardeais.

Depois parece-me que há outra coisa que eu queria dizer. Cada um deve viver como o Senhor lhe pediu para viver. Mas a austeridade – uma austeridade geral –, eu acho que é necessária para todos nós que trabalhamos ao serviço da Igreja. Existem tantos matizes relativos à austeridade... cada um deve procurar o seu caminho.

Quanto a santos, é verdade que existem santos: cardeais, padres, bispos, religiosas, leigos; pessoas que rezm, pessoas que trabalham muito, e que visitam também os pobres em segredo. Eu conheço alguns que se preocupam com dar de comer aos pobres, ou depois, no seu tempo livre, vão para o ministério em uma igreja ou em outra... Eles são sacerdotes. Há santos na Cúria. E também há alguns que não são tão santos, e esses são os que fazem mais barulho. Vocês sabem que faz mais barulho uma árvore que cai do que uma floresta que cresce. E isso me faz sofrer, quando se dão essas coisas. Há alguns que dão escândalo, alguns. Nós temos esse Monsenhor na cadeia; eu acho que ele ainda continua na cadeia; e não foi parar à cadeia porque se parecesse precisamente com a Beata Imelda; não era um Santo. São estes escândalos que fazem sofrer.

Uma coisa – nunca o disse, mas tenho notado isto –: acho que a Cúria tem decaído um pouco do nível que possuía outrora, daqueles veteranos curiais... o perfil do veterano curial, fiel, que fazia o seu trabalho. Precisamos dessas pessoas. Eu acho que... ainda existem, mas não são tantos como outrora. O perfil do veterano curial: eu diria assim. Destes devemos ter mais.

Se eu encontro resistências? Bem! Se há resistências, eu ainda não as vi. É verdade que eu não fiz muitas coisas; mas pode-se dizer que encontrei, isso sim, eu encontrei ajuda, e também encontrei pessoas leais. Por exemplo, eu gosto quando alguém me diz: «Eu não estou de acordo», e isto eu encontrei. «Isto não me parece, não estou de acordo; eu digo-o, mas o Senhor faça como melhor lhe parecer». Este é um verdadeiro colaborador. E eu encontrei isto na Cúria. E isso é bom. Mas, quando há aqueles que dizem: «Ah, que bom, que bom, que bom», e, em seguida, dizem o contrário por trás... Eu ainda não notei. Sim, talvez existam alguns, mas eu não notei. As resistências: em quatro meses, não se pode encontrar muito…

 

Patrícia Zorzan: Estou falando em nome dos brasileiros. A sociedade mudou, os jovens mudaram; e, no Brasil, se vêem tantos jovens. Vossa Santidade não falou sobre o aborto, sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. No Brasil, foi aprovada uma lei que alarga o direito ao aborto e permitiu o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Por que não falou sobre isso?

 

Papa Francisco: A Igreja já se pronunciou perfeitamente sobre isso. Não era necessário voltar, como também não falei da fraude, da mentira ou de outras coisas sobre as quais a Igreja tem uma doutrina clara!

 

Patrícia Zorzan: Mas é um assunto que interessa aos jovens…

Papa Francisco: Sim, contudo não havia necessidade de falar sobre isso, mas das coisas positivas que abrem o caminho aos jovens. Não é verdade? Além disso, os jovens sabem perfeitamente qual é a posição da Igreja!

 

Patrícia Zorzan: Qual é a posição de Vossa Santidade? No-la pode dizer?

Papa Francisco: A da Igreja. Sou filho da Igreja!

 

Salvatore Mazza: Eu não posso sequer me levantar. Peço desculpa, não consigo sequer pôr-me de pé por causa de todos os fios que tenho debaixo de meus pés. Nós vimos o Senhor nos últimos dias: vimo-lo cheio de energia, mesmo já noite caída. Agora nós o estamos vendo com o avião que dança e vemos que o Senhor está calmamente em pé, sem um momento de hesitação. Nós queríamos perguntar-lhe: Fala-se muito de próximas viagens; fala-se de viagem à Ásia, a Jerusalém, à Argentina. O Senhor já tem um calendário mais ou menos definido para o próximo ano, ou está tudo ainda por decidir? 

 

Papa Francisco: Definido, definido, não há nada. Mas posso dizer-lhe algumas coisas que se estão pensando. Está definido – desculpe – o dia 22 de setembro, em Cagliari; depois, a 4 de outubro, em Assis. Tenho em mente, na Itália, ir visitar os meus familiares; só um dia: tomar o avião de manhã e voltar com outro à noite, porque eles, coitados, me chamam e temos um bom relacionamento; mas tudo em um dia. Fora da Itália: o Patriarca Bartolomeu I quer fazer um encontro para comemorar os 50 anos do encontro entre Atenágoras e Paulo VI em Jerusalém. O próprio governo israelita fez-me um convite especial para ir a Jerusalém. Acho que o mesmo fez o governo da Autoridade palestina. Nisso se está pensando: não se sabe ao certo se se vai lá ou não... Depois, na América Latina, acho que não há possibilidade alguma de voltar, porque o Papa é latino-americano, porque seria a primeira viagem à América Latina... com esta, adeus! Temos que esperar um pouco! Creio que se possa ir à Ásia, mas isso está tudo no ar. Tive um convite para ir ao Sri Lanka e também às Filipinas. Mas, à Ásia, tem que se ir… Porque o Papa Bento XVI não teve tempo para ir à Ásia, e é importante. Ele foi à Austrália e também esteve na Europa e na América, mas a Ásia... Quanto à ida à Argentina: neste momento, eu acho que pode esperar um pouco, porque todas estas viagens têm uma certa prioridade. Eu queria ir a Constantinopla, em 30 de setembro [novembro], para fazer uma visita a Bartolomeu I, mas não é possível, não é possível por causa da minha agenda. O nosso encontro, vamos fazê-lo em Jerusalém.

 

Pergunta de alguém: Fátima?

Papa Francisco: Fátima, também há um convite para Fátima, é verdade, é verdade. Há um convite para ir a Fátima.

 

Pablo Ordaz: Gostaríamos de saber como é sua relação de trabalho, e não só de amizade e colaboração, com Bento XVI – nunca antes houve uma situação semelhante –, saber se o Senhor tem contatos frequentes e se ele lhe está ajudando neste trabalho. Muito obrigado!

 

Papa Francisco: Creio que a última vez que houve dois Papas, ou três Papas, eles não se falavam; eles estavam brigando entre si para ver quem era o verdadeiro. Chegaram a ser três, durante o Cisma do Ocidente. Há uma coisa que qualifica a minha relação com Bento: eu estimo-o muito. Sempre o estimei. Para mim, ele é um homem de Deus, um homem humilde, um homem que reza. Fiquei tão feliz, quando ele foi eleito Papa. Mesmo quando renunciou, foi para mim um exemplo de grandeza! Um grande. Só um grande faz isso! Um homem de Deus e um homem de oração. Agora ele vive no Vaticano, e alguns me dizem: Como é possível chegar a isto? Dois Papas, no Vaticano! Mas ele não o estorva? Ele não provoca uma revolução contra si? Enfim, todas essas coisas que dizem, não? Eu encontrei uma frase para explicar isto: «É como ter o avô em casa», mas um avô sábio. É como, numa família, quando o avô está em casa, quando é venerado, amado, escutado. Ele é um homem de grande prudência! Não se intromete. Eu disse-lhe muitas vezes: «Santidade, receba, faça a sua vida, venha connosco». Ele veio para a inauguração e a bênção da estátua de São Miguel. Bem, aquela frase diz tudo. Para mim, é como ter o avô em casa: o meu pai. Se eu tivesse uma dificuldade ou uma coisa que não entendesse, telefonaria: «Mas – diga-me – eu posso fazer assim, isso?». E quando fui para falar sobre aquele problema sério de Vatileaks, ele contou-me tudo com uma grande simplicidade... como se estivesse ao serviço. Há uma coisa que não sei se sabem, eu acho que sim, mas não tenho a certeza: quando ele nos falou, no discurso de despedida, em 28 de fevereiro, disse-nos: «Entre vós, está o próximo Papa: eu prometo-lhe obediência». Mas é um grande; ele é um grande!

 

Anna Ferreira: Santo Padre, boa noite. Obrigado. Eu gostaria de dizer «obrigado» muitas vezes: obrigado porque trouxe tanta alegria para o Brasil, e obrigado também por responder às nossas perguntas. Nós, jornalistas, gostamos muito de fazer perguntas. Queria saber o motivo por que ontem falou aos bispos brasileiros sobre a participação das mulheres em nossa Igreja. Eu queria entender melhor: como deve ser esta participação de nós, mulheres, na Igreja? O que acha também da ordenação das mulheres? Qual deve ser a nossa posição na Igreja?

 

Papa Francisco: Eu queria explicar um pouco mais o que disse sobre a participação das mulheres na Igreja: não pode ser limitada ao fato que seja acólita ou a presidente da Caritas, a catequista... Não! Deve ser mais, mas profundamente mais, inclusive misticamente mais, juntamente com aquilo que já disse da teologia da mulher. E, quanto à ordenação das mulheres, a Igreja falou e disse: «Não». Disse isso João Paulo II, mas com uma formulação definitiva. Aquela porta está fechada. Mas, a propósito disso, eu quero dizer-lhe uma coisa. Eu já disse isso, mas repito. Nossa Senhora, Maria, era mais importante que os Apóstolos, os bispos, os diáconos e os presbíteros. A mulher, na Igreja, é mais importante que os bispos e os presbíteros; o como é que devemos procurar explicitar melhor, porque eu acho que falta uma explicação teológica disso. Obrigado.

 

Gian Guido Vecchi: Santo Padre, também nesta viagem falou várias vezes de misericórdia. A propósito do acesso aos sacramentos para os divorciados que voltaram a casar, há possibilidades de que algo mude na disciplina da Igreja? Que esses sacramentos sejam uma ocasião para aproximar essas pessoas, em vez de uma barreira que os separa dos outros fiéis?

 

Papa Francisco: Este é um tema que sempre pedem. A misericórdia é maior do que aquele caso que o senhor põe. Eu creio que este seja o tempo da misericórdia. Esta mudança de época e também os muitos problemas da Igreja – como um testemunho não bom de alguns padres, problemas mesmo de corrupção na Igreja, também o problema do clericalismo, só para exemplificar – deixaram muitos feridos, muitos feridos. E a Igreja é Mãe: deve ir curar os feridos, com misericórdia. Mas, se o Senhor não se cansa de perdoar, nós não temos outra escolha além desta: em primeiro lugar, curar os feridos. É Mãe, a Igreja, e deve seguir por esse caminho de misericórdia. E encontrar uma misericórdia para todos. Mas eu acho que, quando o filho pródigo voltou para casa, o pai não lhe disse: «Mas tu, ouve, senta-te: o que fizeste com o dinheiro?» Não! Ele fez uma festa! Talvez depois, quando o filho quis falar, ele falou. A Igreja deve fazer assim. Quando há pessoas... não se limitar a esperar por elas, mas sair ao seu encontro! Esta é a misericórdia. E eu penso que este seja um kairós: este tempo é um kairós de misericórdia. Mas o primeiro que teve esta intuição foi João Paulo II: quando ele começou com Faustina Kowalska, com a Divina Misericórdia... tinha algo em mente, ele intuíra que era uma necessidade deste tempo.

Relativamente ao problema da Comunhão para as pessoas em segunda união – já que os divorciados podem ir à Comunhão, não há problema –, mas, quando eles vivem em segunda união, não podem. Eu acho que é necessário estudar isso na totalidade da pastoral do matrimónio. E por isso é um problema. Mas os próprios ortodoxos – e aqui abro um parêntese – têm uma prática diferente. Eles seguem a teologia da economia, como eles dizem, e dão uma segunda possibilidade, permitem-no. Mas eu acho que este problema – e fecho o parêntese – deve ser estudado no quadro da pastoral do matrimónio. E, para isso, temos duas coisas: primeira, um dos temas a consultar a estes oito cardeais do Conselho dos Cardeais, com quem nos reuniremos nos dias 1, 2 e 3 de outubro, é como avançar na pastoral do matrimónio, e este problema será lançado lá. E uma segunda coisa: esteve comigo, quinze dias atrás, o secretário do Sínodo dos Bispos, para ver o tema do próximo Sínodo. O tema seria antropológico, mas olhando-o de um lado e de outro, indo e vindo, encontramos este tema antropológico: a fé como ajuda na planificação da pessoa, mas na família, para se debruçar depois sobre a pastoral do matrimónio. Estamos a caminho de uma pastoral do matrimónio um pouco mais profunda. E este é um problema de todos, porque há muitos, não? Por exemplo – digo apenas um – o cardeal Quarracino, meu predecessor, dizia que para ele metade dos matrimónios são nulos. Mas dizia isso, porquê? Porque casam-se sem maturidade, casam-se sem notarem que é para toda a vida, ou casam-se porque socialmente se devem casar. E com isso tem a ver a própria pastoral do matrimónio. E também o problema judicial da nulidade dos matrimónios: isso deve ser revisto, porque os Tribunais eclesiásticos não são suficientes para isso. É complexo o problema da pastoral do matrimónio. Obrigado!

 

Elisabetta Piqué: Papa Francisco, antes de mais nada em nome dos cinquenta mil argentinos que encontrei lá e me disseram: «Tu vais viajar com o Papa; por favor, diz-lhe que ele foi fantástico, estupendo; pergunta-lhe quando virá...» Mas Vossa Santidade já disse que não irá. Por isso, faço-lhe uma pergunta mais difícil: Ficou assustado quando viu o informe sobre Vatileaks?

 

Papa Francisco: Não! Deixe-me contar-lhe uma história sobre o informe «Vatileaks». Quando fui ver o Papa Bento, depois de termos rezado na capela, fomos ao escritório dele e eu vi uma grande caixa e um envelope grande. E Bento disse-me: «Nesta caixa grande, estão todas as declarações, as coisas que disseram as testemunhas, está tudo ali. Mas o resumo e o julgamento final estão neste envelope. E aqui se diz isto..., isto... e isto...» Ele tinha tudo na cabeça! Mas que inteligência! Tudo na memória, tudo! Não me assustei, não. É um problema sério! Mas não me assustei.

 

Valentina Alazraki: Bem, a pergunta de todos os mexicanos seria: Quando vai a Guadalupe? Mas essa é dos mexicanos, a minha seria: Vossa Santidade irá canonizar dois grandes Papas, João XXIII e João Paulo II; eu queria saber qual é – a seu modo de ver – o modelo de santidade que sobressai num e noutro e qual é o impacto que eles tiveram na Igreja e em si.

 

Papa Francisco: João XXIII é um pouco a figura do «padre da aldeia», o padre que ama a cada um dos fiéis, que sabe cuidar dos fiéis e fez isso como bispo, como núncio. Se soubessem quantas certidões falsas de Batismo passou na Turquia a favor dos judeus! É um corajoso, um padre de aldeia bom, com um sentido de humorismo muito grande, muito grande, e uma grande santidade. Quando era núncio, havia alguns no Vaticano que não gostavam muito dele e quando ele chegava para trazer coisas ou pedir, em alguns serviços faziam-no esperar. Nunca se lamentou: rezava o terço, lia o Breviário…, nunca se lamentou! Um manso, um humilde, e também um que se preocupava com os pobres. Quando o Cardeal Casaroli voltou de uma missão na Hungria ou no território da Checoslováquia de então – não me lembro qual das duas –, foi ter com ele para explicar-lhe como andara a missão, naquele período da diplomacia dos «pequenos passos». E houve a audiência – João XXIII morria 20 dias depois – e quando Casaroli ia a sair, ele parou-o: «Ah Eminência – não, não era Eminência – Excelência, uma pergunta: o senhor continua a visitar aqueles adolescentes?» (é que Casaroli ia ao cárcere juvenil de Casal del Marmo e jogava com eles). E Casaroli disse: «Sim, sim!» «Nunca os abandone». Isso disse João XXIII a um diplomata, que acabava de fazer um périplo de diplomacia, uma viagem tão empenhativa: «O senhor nunca abandone aqueles adolescentes». É um grande, um grande! Depois o evento do Concílio: é um homem dócil à voz de Deus, porque aquilo lhe veio do Espírito Santo; lhe veio e ele foi dócil. Pio XII pensava em fazê-lo, mas as circunstâncias não estavam ainda maduras para isso. Eu acho que este [João XXIII] não pensara nas circunstâncias: ele sentia aquilo e fê-lo. Um homem que se deixava guiar pelo Senhor.

De João Paulo II, apetece-me chamar-lhe «o grande missionário da Igreja»: é um missionário, é um missionário, um homem que levou o Evangelho a toda a parte; sabem-no melhor vocês do que eu. Quantas viagens ele fez? Ia! Ele sentia este fogo de fazer avançar a Palavra do Senhor. É um Paulo, é um São Paulo, é um homem assim; e isso para mim é grande. E acho que fazer a cerimónia de canonização dos dois juntos será uma mensagem para a Igreja: estes dois são bons, eles são bons, são dois bons. Mas estão em curso as causas de Paulo VI e também do Papa Luciani: as causas destes dois estão em andamento. Uma coisa mais – creio que já a disse, mas não sei se aqui ou em outra parte –: a data de canonização. Pensava-se no dia 8 de dezembro deste ano, mas levanta-se um problema sério: aqueles que vêm da Polónia, os pobres – porque aqueles que têm meios podem vir de avião – mas os pobres que querem vir fazem-no de ómnibus; e, em Dezembro, as estradas já têm neve, acho que devemos repensar a data. Falei com o cardeal Dziwisz e ele sugeriu-me duas possibilidades: o Cristo Rei deste ano, ou o domingo da Misericórdia do próximo ano. Eu acho que é um tempo curto o Cristo Rei deste ano, porque o Consistório será em 30 de setembro e, até ao final de outubro, há pouco tempo. Não sei, tenho de falar com o cardeal Amato sobre isso. Mas penso que não vai ser em 8 de dezembro.

 

Pergunta: Mas serão canonizados juntos?

Papa Francisco: Os dois juntos, sim.

 


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