Solenidade de Todos os Santos

1 de Novembro de 2013

 

Solenidade

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: O Senhor deu aos Santos a glória eterna, M. Carvalho, NRMS 59

 

Antífona de entrada: Exultemos de alegria no Senhor, celebrando este dia de festa em honra de Todos os Santos. Nesta solenidade alegram-se os Anjos e cantam louvores ao Filho de Deus.

 

Diz-se o Glória

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Na Antífona de Entrada deste dia, nós dizemos exultar de alegria ao celebrar a festa em honra de Todos os Santos.

Santo significa que se é o contrário daquilo que é defeituoso, fraco, contingente. Neste sentido apenas Deus é realmente Santo. Porém, também nós nos podemos elevar a Ele e participar na sua santidade. Cada discípulo de Cristo começou este caminho de aproximação à santidade de Deus, como poderemos apreender depois de ouvirmos as leituras desta solenidade.

Hoje é a festa de toda a família cristã na terra como no céu, mas como em todas as famílias, muitas vezes não nos teremos portado, aqui na terra, tão bem quanto o dom recebido de Deus. Por isso, peçamos perdão ao Senhor e a todos os irmãos, confessando os nossos pecados.

 

Oração colecta: Deus eterno e omnipotente, que nos concedeis a graça de honrar numa única solenidade os méritos de Todos os Santos, dignai-Vos derramar sobre nós, em atenção a tão numerosos intercessores, a desejada abundância da vossa misericórdia. Por Nosso Senhor...

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Nesta leitura do Livro do Apocalipse é apresentado um livro, fechado com sete selos, e que ninguém conseguia abrir. O texto de hoje relata o que acontece depois de quebrado o sexto selo.

 

Apocalipse 7, 2-4.9-14

2Eu, João, vi um Anjo que subia do Nascente, trazendo o selo do Deus vivo. Ele clamou em alta voz aos quatro Anjos a quem foi dado o poder de causar dano à terra e ao mar: 3«Não causeis dano à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus». 4E ouvi o número dos que foram marcados: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel. 9Depois disto, vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé, diante do trono e na presença do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão. 10E clamavam em alta voz: «A salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro». 11Todos os Anjos formavam círculo em volta do trono, dos Anciãos e dos quatro Seres Vivos. Prostraram-se diante do trono, de rosto por terra, e adoraram a Deus, dizendo: 12«Amen! A bênção e a glória, a sabedoria e a acção de graças, a honra, o poder e a força ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Amen!». 13Um dos Anciãos tomou a palavra e disse-me: «Esses que estão vestidos de túnicas brancas, quem são e de onde vieram?». 14Eu respondi-lhe: «Meu Senhor, vós é que o sabeis». Ele disse-me: «São os que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro».

 

Numa grandiosa visão, o vidente de Patmos deixa ver que no meio de tantas desgraças e ainda antes que cheguem as piores, as que correspondem à abertura do 7º selo (cap.8), os cristãos, que formam uma imensa multidão, estão sob a protecção de Deus, mesmo quando perseguidos e sujeitos ao martírio.

2-4 «O selo (o sinete de marcar) do Deus vivo». Alusão ao timbre então usado pelos monarcas para imprimir o sinal de propriedade ou autenticidade: por vezes os escravos e soldados eram marcados na pele com um ferro em brasa. O símbolo está tomado destes costumes da época e sobretudo da profecia de Ezequiel (Ez 9, 4-6), por isso alguns Padres viram nesta marca, em forma de cruz (pela alusão ao tav de Ezequiel, a última consoante hebraica), o carácter baptismal. «Cento e quarenta e quatro mil» é um número simbólico; com efeito, os números do Apocalipse são habitualmente simbólicos, o que neste caso é evidente por se tratar de um jogo de números: 12 x 12000 (doze mil por cada uma das doze tribos de Israel). Estes 144.000, segundo uns, «representam toda a Igreja sem restrição» (Santo Agostinho), pois esta é o novo Israel de Deus (cf. Gal 6, 16) e são a mesma «multidão imensa que ninguém podia contar» (v. 9). Segundo outros, estes 144.000 são os cristãos procedentes do judaísmo, muito particularmente os que foram poupados das calamidades que assolaram a Palestina, por ocasião da destruição da nação judaica no ano 70.

11 «Os (24) Anciãos». Há grande variedade de opiniões para decifrar este símbolo, não se podendo sequer estabelecer se se trata de seres angélicos ou humanos. Santo Agostinho diz que «são a Igreja universal; os 24 anciãos são os superiores jerárquicos e o povo: 12 representam os Apóstolos e os bispos, e os outros 12 representam o restante da Igreja». «Os 4 Viventes» (à letra, «animais»), uma tradução preferível a: «os 4 animais», uma vez que o terceiro tem rosto humano (cf. Apoc 4, 7). A quem representam estes seres misteriosos, que reúnem características dos querubins de Ez 1 e dos serafins se Is 6? Podem muito bem simbolizar os quatro pontos cardeais, ou os quatro elementos do mundo (terra, fogo, água e ar), isto é, a totalidade do Universo. Deste modo, a presente «visão» apresenta-nos, unidos numa única adoração e louvor a Deus e a Cristo, os Anjos, a Humanidade resgatada e o próprio Universo material. A interpretação segundo a qual os Quatro Seres simbolizam os Quatro Evangelistas deve-se a Santo Ireneu e é uma acomodação espiritual do texto inspirado.

12 «Amen! Bênção, glória…»: Aqui, como ao longo de todo o Apocalipse, sente-se como a liturgia da Igreja faz eco à liturgia celeste, especialmente nas aclamações a Deus e ao Cordeiro.

14 «A grande tribulação». Tanto se pode tratar duma perseguição aos cristãos mais violenta no fim dos tempos, como das perseguições e das tribulações em geral no curso da história da Igreja. Mas é provável que o vidente de Patmos tenha presente em primeiro plano, as violentas perseguições de Nero e Domiciano, muito embora englobando nestas todas as outras.

«Lavaram as suas túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro». «Não se designam só os mártires, mas todo o povo da Igreja – comenta Santo Agostinho –, pois não disse que lavaram as suas túnicas no seu próprio sangue, mas no sangue do Cordeiro, isto é, na graça de Deus, por Jesus Cristo Nosso Senhor, conforme está escrito: e o seu sangue purifica-nos (1 Jo 1, 7)».

 

Salmo Responsorial     Sl 23 (24), 1-2.3-4ab.5-6 (R. cf. 6)

 

Monição: Neste salmo exprimimos a diligência divina pelos justos que, junto de Deus, encontram direcção e forças para enfrentar as situações mais diversas.

 

Refrão:        Esta é a geração dos que procuram o Senhor.

 

Do Senhor é a terra e o que nela existe,

o mundo e quantos nele habitam.

Ele a fundou sobre os mares

e a consolidou sobre as águas.

 

Quem poderá subir à montanha do Senhor?

Quem habitará no seu santuário?

O que tem as mãos inocentes e o coração puro,

o que não invocou o seu nome em vão.

 

Este será abençoado pelo Senhor

e recompensado por Deus, seu Salvador.

Esta é a geração dos que O procuram,

que procuram a face de Deus.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Deus não espera o dia da nossa morte para nos oferecer a vida divina, diz-nos S. Paulo. Ele no-la dá já hoje, mas esta realidade que existe em nós só se manifestará quando for retirado o véu constituído pela nossa condição terrena.

 

1 São João 3, 1-3

Caríssimos: 1Vede que admirável amor o Pai nos consagrou em nos chamar filhos de Deus. E somo-lo de facto. Se o mundo não nos conhece, é porque não O conheceu a Ele. 2Caríssimos, agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Mas sabemos que, na altura em que se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é. 3Todo aquele que tem n’Ele esta esperança purifica-se a si mesmo, para ser puro, como Ele é puro.

 

A leitura é um dos textos clássicos da filiação adoptiva divina, uma exigência constante de santidade.

1 «E somo-lo de facto». S. João não se contenta com dizer que somos chamados filhos de Deus, o que bastaria para que um semita entendesse, pois para ele ser chamado (por Deus) equivalia a ser. S. João quer falar para que todos entendamos esta realidade sobrenatural que «o mundo», sem fé, não pode captar nem apreciar.

2 A filiação divina capacita-nos para a glória do Céu, pois não é uma mera adopção legal e extrínseca, como a adopção humana de um filho. A adopção divina implica uma participação da natureza divina (cf. 2 Pe 1, 4) pela graça. «Semelhantes a Deus», desde já; mas só na glória celeste se tornará patente o que já «agora somos». «O veremos tal como Ele é». Esta é a melhor definição da infinda felicidade do Céu, de que gozam todos os Santos que hoje festejamos: contemplar a Deus tal qual Ele é, não apenas as suas obras, mas a Ele próprio, «face a face» (cf. 1 Cor 13, 12).

3 «Purifica-se a si mesmo». A certeza da filiação divina conduz-nos à purificação e à imitação de Cristo, o Filho de Deus por natureza: «como Ele é puro»; efectivamente, os puros de coração hão-de ver a Deus (cf. Evangelho de hoje: Mt 5, 8).

 

Aclamação ao Evangelho       

 

Monição: Jesus Cristo veio retirar-nos a carga pesada com que os sábios e inteligentes deste mundo nos sobrecarregaram. Ele traz-nos um novo modo de viver na justiça e na misericórdia.

 

Aleluia

 

Cântico: J. Duque, NRMS 21

 

Vinde a Mim, vós todos os que andais cansados

e oprimidos e Eu vos aliviarei, diz o Senhor.

 

 

Evangelho

 

São Mateus 5, 1-12ª

 

Naquele tempo, 1ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se. Rodearam-n’O os discípulos 2e Ele começou a ensiná-los, dizendo: 3«Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus. 4Bem-aventurados os humildes, porque possuirão a terra. 5Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. 6Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus. 11Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. 12aAlegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa».

 

As oito bem-aventuranças, a que se junta uma nona (v. 11) a reforçar a oitava, são como o frontispício do Sermão da Montanha (Mt 5 – 7), «a expressão mais perfeita da mensagem evangélica, um dos mais altos cumes do pensamento humano, talvez o mais elevado» (G. Danieli); com razão disse Gandhi: «foi o discurso da montanha que me reconciliou com o cristianismo». As bem-aventuranças, expressas na terceira pessoa do plural, têm em Mateus um carácter solene e universal, dirigidas a todas as pessoas e a todos os tempos, não apenas aos ouvintes imediatos. Elas condensam a grande novidade do Evangelho, em contraste flagrante com o próprio pensamento religioso judaico então vigente, para já não falarmos do espírito mundano e hedonista do paganismo de então e do de agora. Elas não são a expressão de qualquer espécie de «ressentimento» dos pobres e desafortunados em face dos poderosos, dos ricos e satisfeitos, mas são antes um grito de protesto e de provocação lançado ao conceito de felicidade baseada na posse das riquezas, no gozo dos prazeres, na força, no poder e na fama. De modo nenhum elas são uma «ética para uso dos débeis», mas são um ideal de vida para almas fortes e generosas, uma ética que, quando vivida a sério, é capaz de renovar as pessoas e a sociedade; como o demonstra a vida dos santos. Chamamos a atenção para a motivação da felicidade em cada uma das bem-aventuranças: «porque…»: a felicidade não está na pobreza, na aflição, na perseguição, mas no seguimento de Jesus, pobre, aflito, manso, faminto e sedento, misericordioso, puro, pacificador, perseguido, o que dá direito ao gozo das promessas de Cristo. Assim se exprime Bento XVI em Jesus de Nazaré: «As bem-aventuranças são a transposição da Cruz e da Ressurreição para a existência dos discípulos» (p. 110); e ainda: «Quem lê o texto com atenção nota que as bem-aventuranças são como que uma biografia interior oculta de Jesus, um retrato da sua figura […]. Nas bem-aventuranças aparece o mistério do próprio Cristo, chamando-nos à comunhão com Ele» (p. 111).

3 «Bem-aventurados». Esta tradução (em vez de «felizes») vinca a ideia de que o Senhor promete a felicidade na bem-aventurança eterna e, ao mesmo tempo, já nesta vida, ao dizê-la do presente: «deles é» (não diz «deles será»). Mas não se trata de uma felicidade qualquer: é uma felicidade incomparável, interior e profunda, embora ainda não possuída de modo perfeito e completo na vida terrena. As bem-aventuranças têm uma dimensão escatológica e actual: correspondem a um futuro já iniciado.

«Os pobres em espírito». Como bom catequista, Mateus não deixa de especificar «em espírito», para que fique bem claro que não é o caso de uma mera situação económico-social, mas de uma atitude interior de humildade diante de Deus, de reconhecimento da própria carência de méritos e da absoluta necessidade da misericórdia de Deus para ser salvo. O desprendimento dos bens e a austeridade de vida são uma consequência desta atitude de espírito própria de quem se apoia não nos bens criados, mas só em Deus. Ao dizer «em espírito» (tô pneûmati, um dativo de relação), e não, como no v. 8, «de coração» (tê kardía: no seu íntimo, diante de Deus, em contraposição com o exterior), a expressão conota um sentido dinâmico, de acção, e portanto uma pobreza que corresponde a uma opção, isto é, uma «pobreza voluntária». É de notar que a formulação de Mateus é uma expressão religiosa coincidente com a dos textos de Qumrã (cf. 1QM, 14, 7: ‘anawê rûah).

4-5 A ordem destes versículos não é transmitida da mesma maneira em todos os manuscritos, por isso a fórmula que aparecia antes nos catecismos tem outra ordem que corresponde a uns poucos de manuscritos gregos e à Vulgata, diferente da que temos aqui; pensa-se que a ordem original teria sido alterada, a fim de facilitar a memorização e a compreensão, juntando frases semelhantes, dado o paralelismo entre os pobres e os humildes (os mansos) e entre os que choram (os aflitos) e os que têm fome e sede.

«Os que choram», isto é, os aflitos. A consolação dos que estão aflitos é um dos bens messiânicos (Is 61, 1-3; cf. Lc 4, 1ss) que Jesus garante aos seus discípulos (cf. Jo 16, 20-22). A consolação é uma forma emotivamente concreta de designar a salvação esperada e trazida por Cristo (cf. Lc 2, 25; Act 3, 20; 2 Tes 2, 16-17). O verbo na passiva «serão consolados» é uma forma reverente de se referir a Deus como agente, sem ter de o nomear (passivum divinum), equivalente a «Deus os consolará».

«Os mansos», tradução que consideramos preferível à adoptada e proposta por um bom número de exegetas. Com efeito, se bem que a tradução «os humildes» corresponda ao hebraico (‘anawîm: pobres) da passagem paralela do Salmo 37, 10-11 (mas traduzido pelos LXX por praeîs: mansos, e assim também pela Vulgata e Nova Vulgata: mansueti), a verdade é que a mansidão é uma noção que tem grande relevo em Mateus, pois o próprio Jesus se apresenta como «manso e humilde» (Mt 11, 29), na linha das profecias de Is 42, 1-4 (citada em Mt 12, 18-21) e de Zac 9, 9 (citada em Mt 21, 5). Por isso não nos parece que em Mateus a 1ª e a 3ª bem-aventuranças sejam simplesmente equivalentes; «mansos» são os humildes, mas com um matiz particular: são os que vencem o mal com o bem, não com a violência, mas com o perdão e com a bondade, como se insiste no mesmo sermão da montanha (Mt 5, 21-26.38-42.43-48; 6, 12.14-15). Estes são, não apenas os que são afáveis, ou simplesmente os não violentos, mas especificamente os que sofrem serenamente e sem ira, ódio ou abatimento, as perseguições injustas e as contrariedades. «Possuirão a terra» (prometida como herança), isto é, «a pátria celeste», figurada na terra prometida ao povo eleito (cf. Hebr 4, 2, 11; 11, 10.16; 12, 22; 13, 14).

6 «Fome e sede de justiça», isto é, uma fome mais espiritual do que material, pela especificação: de justiça. Estamos assim diante duma noção de natureza religiosa, central no discurso da montanha (cf. 5, 10.20; 6, 1.31.33): a submissão à vontade de Deus e ao seus desígnios de amor, uma vida justa, inocente, santa e perfeita (cf. 5, 48).

7 «Os misericordiosos»: o tema da misericórdia é central no Evangelho, pois dela o homem é extremamente necessitado e também está muito presente em Mateus; com efeito, Jesus é cheio de misericórdia (cf. 9, 36; 9, 9-13; 12, 1-7) para com os necessitados que a Ele clamam (cf. 9, 27; 15, 22; 17, 15; 20, 30.34); e esta tem de ser a atitude do discípulo para obter a misericórdia divina (cf. 6, 14-15; 18, 23-35); e é pelas obras de misericórdia que todos hão-de ser julgados sem apelo (cf. 25, 31-46).

8 «Os puros de coração», dado o contexto dos ensinamentos de Jesus, não se trata de uma simples pureza ritual que satisfaz uma série de requisitos externos para se estar em condições de realizar actos de culto (recordem-se as prescrições de Lv 11 – 16 relativos a alimentos, nascimento, actividade sexual, doença e morte), mas de uma pureza moral, que não fica hipocritamente em exterioridades farisaicas (cf. Mt 23, 25-26), mas vai, na linha da pregação dos profetas (cf. Is 1, 15-16; 29, 13; Salm 24, 3-4; 51, 12; Prov 22, 11), até ao mais profundo do interior da pessoa, onde nascem os desejos e as intenções (cf. Mt 15, 1-20; 5, 28; 12, 34). A pureza do coração é fundamentalmente a rectidão total dos pensamentos, das palavras e das acções, não apenas as boas intenções, segundo o Salmo 24, 3-4, que parece estar na base desta bem-aventurança (cf. Tg 4, 8; 1 Tim 1, 5; 2 Tim 2, 22; Hebr 10, 22). Não se limita à castidade, mas pressupõe-na e exige-a de modo particular, para se entrar em comunhão com Deus – para «ver a Deus» (cf. Hebr 12, 14; Apoc 22, 3-4; 1 Jo 3, 3; Catecismo da Igreja Católica, nº 2517-2533).

9 «Os que promovem a paz». Alguns exegetas preferem a tradução pacíficos, indicando o espírito conciliador, sereno, tolerante, indulgente e paciente (cf. Tg 3, 3-18), mas a maioria pensa que se trata não só dos pacíficos, mas daqueles que se empenham em activamente promover a paz entre os homens (e também – podíamos acrescentar – a paz dos homens com Deus, fundamento sério de toda a paz no mundo); estes «serão chamados…», uma expressão semítica que corresponde a «serão de verdade filhos de Deus» (cf. Mt 5, 45).

10 «Os que sofrem perseguição por amor da justiça» (cf. 1 Pe 3, 14), isto é, ao fim e ao cabo, por causa de Jesus (cf. Mt 10, 24-28), por viver piamente (cf. 2 Tim 3, 12). Esta «justiça», como na 4ª bem-aventurança, não é a justiça dos homens, mas corresponde à plena adesão à vontade de Deus, numa vida recta e santa.

11-12 Depois das 8 bem-aventuranças anteriores, que formam um bloco (uma inclusão marcada pela fórmula «porque deles é o reino dos Céus»: vv. 3.10), há aqui uma ampliação e uma aplicação directa aos ouvintes da 8ª e última bem-aventurança.

Finalmente quero chamar a atenção para a observação de Bento XVI na sua já citada obra, ao introduzir o tema das bem-aventuranças: «As bem-aventuranças não raramente são apresentadas como a alternativa do Novo Testamento a respeito do Decálogo, por assim dizer a mais elevada ética dos cristãos ante os mandamentos do Antigo Testamento. Com tal concepção distorce-se totalmente o sentido das palavras de Jesus. Jesus sempre pressupôs como evidente a validade do Decálogo (ver, por exemplo, Mc 10, 19; Lc 16, 17); no Sermão da Montanha são assumidos e aprofundados os mandamentos da segunda tábua, mas não são abolidos (Mt 5, 21-48)…» (p.109).

 

Sugestões para a homilia

 

Há um novo mundo que exclui a morte

Que se revela no momento da nossa saída da terra

E que é preparado pela construção no amor

 

Há um novo mundo que exclui a morte

 

Nós temos uma imensa sede de vida. Todavia, ao olharmos em redor, só deparamos com sinais de morte: doenças, perseguições, ignorância, solidão, fragilidade, separação, cansaço, dor, traições, injustiças, guerra...

A primeira leitura do dia de hoje pretende levar-nos a erguer o olhar para a condição santa a que Deus Pai nos destinou. O Livro do Apocalipse diz que no céu se encontra um livro no qual são anotados todos os sofrimentos e todas as lágrimas dos homens. Nele se explica o porquê de todas as coisas disparatadas. Tal livro, infelizmente, está fechado com sete selos que ninguém consegue quebrar. O trecho de hoje conta o que acontece depois de quebrado o sexto selo.

Um anjo vem do Oriente e traz na mão o selo de Deus que imprime na fronte de um número simbólico de cento e quarenta e quatro mil servos do Senhor. Tal número indica a totalidade da comunidade cristã. Não são uns privilegiados, não são poupados às provações, às vicissitudes, às desventuras desta vida, mas colocados numa nova posição, santa. Pertencem a Deus. Assimilaram os seus ensinamentos, os seus sentimentos e as suas escolhas. Vêem com os seus olhos a realidade deste mundo, juntamente com uma infinidade de outros, vestidos de branco. O vestido branco é o símbolo da alegria e da inocência e as palmas que eles transportam são o sinal da vitória.

São todos aqueles que neste mundo suportaram tribulações e perseguições e deram a sua vida pelos irmãos como fez Jesus, o Cordeiro. Este texto dá-nos uma abertura sobre o céu, sobre o nosso destino final depois da saída deste mundo.

 

Que se revela no momento da nossa saída da terra

 

Jesus – que morreu para entrar no Reino do Pai, e ressuscitou – dá-nos uma visão do céu como um sentido para a nossa existência. Não vagueamos neste mundo sem uma meta, não corremos sem um intuito, não nos movemos sem um destino mas com um fim. À luz do céu compreendemos que a nossa vida não é guiada por um destino cego, mas pelo grande amor de um Pai que nos quer santos. Ele quer elevar-nos a participar do espírito da sua santidade

Hoje é o dia em que os homens tomam consciência do dom que o Pai lhes fez: em Cristo, Deus tornou-nos membros da sua família, tornou-nos santos. A santidade não é fruto do nosso heroísmo, mas puro dom de Deus. Só Ele nos pode tornar santos. O Pai não espera o dia da nossa morte para nos dar esta vida divina, como nos recorda S. Paulo na segunda leitura, Ele no-la dá já hoje. Porém, esta nova realidade que existe em nós só se manifestará quando for retirado o véu constituído pela nossa condição terrena e, «quando Jesus aparecer, então haveremos de ser iguais a Ele, porque o veremos tal como Ele é». Diante de Cristo os nossos olhos abrir-se-ão, e então compreenderemos aquilo que Deus, pelo seu amor, operou em nós.

 

E que é preparado pela construção no amor

 

Neste momento decorre o tempo da nossa preparação e é imprudente apegar o nosso coração aos bens deste mundo, como se nos pertencessem de modo decisivo. Cristo, com as bem-aventuranças que nos propõe no Evangelho, sugere-nos que as aproveitemos na construção do amor, para os transfigurarmos em dom.

A pobreza voluntária, a renúncia ao uso egoísta de todos os bens que possuímos (inteligência, bom carácter, instrução, diplomas, posição social, dinheiro, saúde, tempo...) não é algo facultativo, não é um parecer reservado a alguns que querem ser heróis ou mais perfeitos que os outros: é aquilo que caracteriza o cristão.

O sofrimento não é uma coisa boa. Os aflitos, aqueles que experimentam uma dor profunda diante de uma sociedade dominada pela injustiça, aqueles que estão insatisfeitos e esperam de Deus a salvação «serão consolados». A vinda do Reino começou a eliminar todas as situações que provocam dor e lágrimas.

Os mansos são aqueles que foram privados dos seus direitos, da sua liberdade, dos seus bens. São pobres porque os potentes lhes tiraram o campo, a casa, as poucas poupanças, a reforma e por vezes até os filhos e filhas. Suportam a injustiça sem terem a oportunidade e a força de protestarem, mas não cultivam a ira, o ódio ou o desejo de vingança. Confiam e esperam em Deus e na vinda do seu Reino.

A fome e a sede de justiça muito para além da fome e sede corporais, são as necessidades mais fortes que o homem experimenta. É com esta inquietação inexcedível que os discípulos de Cristo devem procurar a justiça. Para Deus, a «justiça é feita» quando o malvado se tornou justo. A justiça de Deus é sempre e só a salvação e a recuperação de quem fez o mal.

As obras de misericórdia são acções em favor de quem necessita de ajuda. Procurar não julgar, não condenar, perdoar aos outros como Deus perdoa. Misericordiosos, são aqueles que, como Deus, fazem obras de misericórdia, que se empenham por que as pessoas necessitadas encontrem aquilo de que precisam.

As práticas exteriores não interessam a Jesus. A Ele interessa apenas a lealdade, a rectidão de atitude em relação ao irmão. São felizes e puros de coração porque do coração das pessoas é que vêm os maus pensamentos que as levam a matar, a perseguir, a violar, a cometer adultério, a viver em corrupção, a roubar, a jurar falso e a injuriar. Os puros de coração são aqueles que têm um comportamento moral conforme a vontade de Deus.

Felizes são aqueles que procuram a paz. Aqueles que procuram que todos cheguem ao diálogo, à concórdia e à paz. São todos os que se empenham no bem-estar total, na harmonia consigo mesmo, com Deus e com os outros, procurando que a vida plena de prosperidade, justiça, saúde e felicidade sejam possíveis para todos os homens.

Aqueles que se empenham nas causas da justiça são perseguidos. Tal perseguição é motivo de alegria porque demonstra que foi feita a escolha certa, aquela que está de harmonia com a «sabedoria de Deus». Quem se empenha contra a prepotência, a arrogância, a pobreza, a discriminação, normalmente é violentamente agredido. Ora, a única força capaz de romper a espiral da violência é na realidade a do amor e do perdão.

Assim Deus nos ajude a celebrar esta solenidade cristã da família de Deus. Nela tomemos consciência do dom que o Pai nos fez: em Cristo somos membros da sua família, comunica-nos o seu Espírito e a sua santidade. Saibamos alcançar essa santidade agindo de harmonia com os seus ensinamentos, os seus sentimentos e as suas escolhas.

 

Fala o Santo Padre

 

«A santidade – imprimir Cristo em si mesmo – é a finalidade de vida do cristão.»

 

Caros irmãos e irmãs!

A solenidade de todos os Santos, que hoje celebramos, convida-nos a elevar o olhar ao Céu e a meditar sobre a plenitude da vida divina que nos espera. «Agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser» (1 Jo 3, 2): com estas palavras o apóstolo João garante-nos a realidade da nossa profunda ligação com Deus, assim como a certeza do nosso futuro. Por conseguinte, como filhos amados, recebemos também a graça para suportar as provações desta existência terrena – a fome e a sede de justiça, as incompreensões, as perseguições (cf. Mt 5, 3-11) – e, ao mesmo tempo, herdamos desde já o que foi prometido nas bem-aventuranças evangélicas, «nas quais resplandece a nova imagem do mundo e do homem que Jesus inaugura» (Bento XVI, Jesus de Nazaré, Milão 2007, 95). A santidade – imprimir Cristo em si mesmo – é a finalidade de vida do cristão. O beato António Rosmini escreveu: «O Verbo imprimiu-se a si mesmo nas almas dos seus discípulos com o seu aspecto sensível... e com as suas palavras... doou aos seus aquela graça... com a qual a alma sente imediatamente o Verbo» (Antropologia soprannaturale, Roma 1983, 265-266). E nós prelibamos o dom e a beleza da santidade cada vez que participamos na Liturgia eucarística, em comunhão com a «multidão imensa» dos espíritos beatos, que no Céu aclamam eternamente a salvação de Deus e do Cordeiro (cf. Ap 7, 9-10). «À vida dos Santos não pertence somente a sua biografia terrena, mas também o seu viver e agir em Deus depois da morte. Nos Santos, torna-se óbvio como quem caminha para Deus não se afasta dos homens, pelo contrário torna-se-lhes verdadeiramente vizinho» (Enc. Deus caritas est, 42).

Consolados pela mesma comunhão da grande família dos santos, amanhã comemoraremos todos os fiéis defuntos. A liturgia do dia 2 de Novembro e o exercício piedoso de visitar os cemitérios recordam-nos que a morte cristã faz parte do caminho de assimilação a Deus e desaparecerá quando Deus for tudo em todos. A separação dos afectos terrenos certamente é dolorosa, mas não devemos temê-la, porque ela, acompanhada pela oração de sufrágio da Igreja, não pode romper o vínculo profundo que nos une em Cristo. A propósito, São Gregório de Nissa afirmava: «Quem criou tudo na sabedoria, deu esta disposição dolorosa como instrumento de libertação do mal e possibilidade de participar nos bens esperados» (De mortuis oratio, IX, 1, Leiden 1967, 68).

Queridos amigos, a eternidade não é «uma sucessão contínua de dias do calendário, mas algo parecido com o instante repleto de satisfação, onde a totalidade nos abraça e nós abraçamos a totalidade» do ser, da verdade e do amor (cf. Enc. Spe salvi, 12). À Virgem Maria, guia segura da santidade, confiemos a nossa peregrinação rumo à pátria celeste, enquanto invocamos a sua materna intercessão para o repouso eterno de todos os nossos irmãos e irmãs que adormeceram na esperança da ressurreição.

 

Papa Bento XVI, Angelus, Praça de São Pedro, 1 de Novembro de 2010

 

Oração Universal

 

Irmãos caríssimos:

tomando consciência do dom supremo

que o Pai nos concedeu, em seu Filho,

de nos podermos tornar santos e participantes

da família divina, oremos dizendo:

   

    Ajudai-nos, Senhor, a sermos santos.

 

1.     Pelo Santo Padre, Bispos, Presbíteros e Diáconos,

para que com o seu exemplo nos apontem o caminho da santidade,

oremos, irmãos.

 

2.     Pela Santa Igreja de Deus, Santa no seu ser,

mas pecadora em cada um dos seus membros,

para que nos ensine a purificação necessária

a fim de compreender o grande dom do amor do Pai

na participação da santidade que nos oferece,

oremos irmãos.

 

3.     Pelos cristãos de todo o mundo

que neste momento sofrem no corpo e na alma

os suplícios da sua experiência cristã,

para que sintam a presença consoladora de Cristo,

nas bem-aventuranças por Ele enunciadas,

oremos, irmãos.

 

4.     Por todos nós os baptizados,

para que saibamos ser felizes com a renúncia ao egoísmo,

na mansidão, e na fome e sede de justiça para com todos,

oremos, irmãos.

 

5.     Pelas nossas comunidades cristãs,

para que consigam ultrapassar injustiças,

saibam empenhar-se em obras de verdadeira misericórdia

e com pureza de coração,

oremos, irmãos.

 

6.     Para que com ajuda de todos os santos

ponhamos todo o empenho na harmonia connosco,

com Deus e com os irmãos, a fim de que sejamos

motivo de prosperidade, de justiça e de paz para todos,

oremos, irmãos.

 

7.     Para que sintamos a alegria de ter feito a escolha acertada

quando porventura formos perseguidos por amor da justiça,

oremos, irmãos.

 

Pai de todo o amor e misericórdia,

derramai sobre todos nós a graça do Espírito Santo,

para que consigamos fazer as nossas opções,

lembrados do imenso dom que nos proporcionastes

de podermos pertencer, desde agora, à vossa santa família trinitária

e saibamos combater a prepotência, a arrogância, a pobreza e a discriminação.

Por Jesus Cristo, nosso Senhor...

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Aceitai, Senhor, a nossa alegria, M. Carneiro, NRMS 73-74

 

Oração sobre as oblatas: Aceitai benignamente, Senhor, os dons que Vos apresentamos em honra de Todos os Santos e fazei-nos sentir a intercessão daqueles que já alcançaram a imortalidade. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que e Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

A glória da nova Jerusalém, nossa mãe

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai Santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte:

Hoje nos dais a alegria de celebrar a cidade santa, a nossa mãe, a Jerusalém celeste onde a assembleia dos Santos, nossos irmãos, glorificam eternamente o vosso nome. Peregrinos dessa cidade santa, para ela caminhamos na fé e na alegria, ao vermos glorificados os ilustres filhos da Igreja, que nos destes como exemplo e auxílio para a nossa fragilidade.

Por isso, com todos os Anjos e Santos, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo, Santo, Santo.

 

Santo: Az. Oliveira, NRMS 50-51

 

Monição da Comunhão

 

O Corpo do Senhor Jesus que vamos comungar seja a força que nos auxilie a combater os atropelos, desentendimentos, pobrezas, sofrimentos e falsidades, a fim de conseguirmos ser mensageiros da justiça e da paz.

 

Cântico da Comunhão: Louvai nações do universo, M. Simões, 63

Mt 5, 8-10

Antífona da comunhão: Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os perseguidos por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus.

 

Cântico de acção de graças: Povos da terra, louvai ao Senhor, M. Simões, NRMS 55

 

Oração depois da comunhão: Nós Vos adoramos, Senhor nosso Deus, única fonte de santidade, admirável em todos os Santos, e confiadamente Vos pedimos a graça de chegarmos também nós à plenitude do vosso amor e passarmos desta mesa de peregrinos ao banquete da pátria celeste. Por Nosso Senhor...

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Depois de termos participado nesta solenidade de Todos os Santos, partamos com alegria para a vida conscientes de que temos por missão mudar as maneiras de ajuizar os valores apresentados pelos homens, vendo na derrota uma vitória, no serviço o verdadeiro poder, na pobreza a riqueza, na perda o ganho, na humilhação o triunfo, na mansidão a confiança, na morte o nascimento, para que o sucesso ou o falhanço da nossa vida seja avaliado com toda a justiça por Deus nosso Pai, como fonte de santidade actual preparatória da futura unidade com a Trindade Santíssima no céu.

 

Cântico final: Queremos ser construtores, Az. Oliveira, NRMS 35

 

 

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         António E. Portela

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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