TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

A NOVIDADE DA VIDA ETERNA APÓS A MORTE *

 

 

PAUL O’CALLAGHAN

Professor de Antropologia Teológica

Universidade Pontifícia da Santa Cruz (Roma)

 

 

 

No mundo pagão era comum considerar o futuro como uma simples réplica do passado. O cosmos existia desde sempre e, dentro de grandes mutações cíclicas, perduraria para sempre. Segundo o mito do eterno retorno, tudo o que ocorreu ontem, voltaria no futuro. Neste contexto antropológico-religioso, o homem só poderia salvar-se escapando da matéria, numa espécie de êxtase espiritual separado da carne; ou vivendo neste mundo, como dizia São Paulo, sem esperança (cf. 1 Tess 4, 13; Ef 2, 12). Nos primeiros séculos do cristianismo, os pagãos seguem uma ética mais ou menos recta; crêem em Deus ou nos deuses e prestam-lhes culto assíduo, em busca de protecção e consolo; mas falta-lhes a esperança certa de um futuro feliz. A morte era um puro corte, sem sentido.

Por outro lado, a vontade de viver para sempre é profunda no homem, como manifestam os filósofos, os escritores, os artistas, os poetas e, de modo eminente, os que se amam. O homem anseia perdurar, e esse desejo manifesta-se de múltiplos modos: nos projectos humanos, na vontade de ter filhos, no desejo de influir na vida de outras pessoas, de ser reconhecido e recordado; em tudo isso, pode-se adivinhar a tensão humana para a eternidade. Há quem pense na imortalidade da alma, há quem entenda a imortalidade como reencarnação; enfim, há quem, ante o facto certo da morte, decida empregar todos os meios para conseguir o bem-estar material ou o reconhecimento social: bens que nunca serão suficientes, porque não saciam, porque não dependem só da própria vontade. Nisto, o cristão é realista, pois sabe que a morte é o termo de todos os sonhos vãos do homem.

No meio do dilema da morte e da imortalidade, o poder recriador de Deus torna-se presente na vida, paixão e ressurreição de Jesus Cristo. O crente cristão, unido com Ele pelo Baptismo e os outros sacramentos, reproduz os marcos principais da passagem do Senhor pela terra. Como escreve São Paulo aos Romanos, “fomos sepultados juntamente com Ele pelo Baptismo para nos unirmos à sua morte, para que, assim como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos pela glória do Pai, assim também nós caminhemos numa vida nova. Porque, se fomos enxertados n’Ele com uma morte como a sua, também o seremos com uma ressurreição como a sua” (Rom 6, 4-5).

Com efeito, o cristão tem a certeza de que Deus lhe deu a vida criando-o à sua imagem e semelhança (Gen 1, 27). Sabe que, quando experimenta a angústia da morte que se aproxima, Cristo actua nele, convertendo as suas penas e a sua morte em força corredentora. E está seguro de que o próprio Jesus, a quem serviu, imitou e amou, o receberá no Céu, enchendo-o de glória depois da sua morte. A grande e gozosa verdade da fé cristã é que, pela fé em Cristo, o homem pode superar de longe o “último inimigo” (1 Cor 15, 26), a morte, abrindo-se à visão perpétua de Deus e à ressurreição do corpo no fim dos tempos, quando todas as coisas se tenham cumprido em Cristo.

A vida não termina aqui, estamos seguros de que o sacrifício escondido e a entrega generosa têm um sentido e um prémio que, pela misericórdia magnânima de Deus, vão mais para além do que o homem poderia esperar com as suas próprias forças. “Se alguma vez te tira tranquilidade o pensamento da nossa irmã a morte – porque te vês tão pouca coisa! –, anima-te e considera: que será esse Céu que nos espera, quando toda a formosura e a grandeza, toda a felicidade e o Amor infinitos de Deus se derramarem no pobre vaso de barro que é a criatura humana e a saciarem eternamente, sempre com a novidade de uma nova alegria?” [1].

 

Os novíssimos começam de algum modo na terra

 

Embora seja certo que a novidade cristã se refere, principalmente, à outra vida, ao Além, a Igreja ensina que a novidade da Ressurreição de Cristo já está presente, de algum modo, na terra. Por mais que dure o universo tal como o conhecemos, já estamos “nos últimos tempos”, certos de que o mundo foi redimido, pois Cristo venceu o pecado, a morte, o demónio.

Como dizia o Senhor, “o Reino de Deus já está no meio de vós” (Lc 17, 21); “no meio”, não só como uma presença externa, mas também “dentro” do crente, na alma em graça, com uma presença real, actual e eficaz, embora ainda não de todo visível e completa. “A plenitude dos tempos chegou, pois, até nós (cf. 1 Cor 10, 11), e a renovação do mundo está irrevogavelmente decretada e começa a realizar-se de certo modo no século presente, já que a Igreja, mesmo na terra, se reveste de uma verdadeira, embora imperfeita, santidade (...); somos chamados filhos de Deus e de verdade o somos (cf. 1 Jo 3, 1); mas ainda não fomos manifestados com Cristo naquela glória (cf. Col 3, 4), na qual seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal como é (cf. 1 Jo 3, 2)” [2].

Com efeito, a Igreja na terra já é antecipadamente depositária dessa presença do Reino de Deus; caminha como peregrina na terra, mas todo o poder salvífico de Deus actua já de algum modo no século presente, por meio da palavra de Deus e dos sacramentos, especialmente a Eucaristia; poder salvífico que se manifesta também na vida santa dos cristãos, que vivem no mundo, sem serem do mundo (cf. Jo 17, 14). O cristão é, ante o mundo e no mundo, alter Christus, ipse Christus, “outro Cristo, o próprio Cristo”: estabelece-se assim uma certa polaridade na vida da Igreja e de cada crente entre o “já” e o “ainda não”, entre o momento presente – ocasião de acolher a graça –, e a plenitude final; tensão que tem muitas consequências para a vida do cristão e para a compreensão do mundo.

Esta realidade confirma, por um lado, a distinção entre a ordem natural e a ordem sobrenatural. Com efeito, a vida sobrenatural, baseada na fé e na graça de Deus, insere-se na alma do cristão, embora não tenha informado plenamente todos os aspectos da sua vida. O cristão vive metido em Deus e para Deus, e esforça-se em comunicar os bens divinos aos outros homens. Na vida futura, a graça, ou vida sobrenatural, converter-se-á em glória, e o homem alcançará uma imortalidade completa, de corpo e alma, na ressurreição dos mortos. A vida natural, pelo contrário, ainda que aperfeiçoada pela vida da graça, tem as suas próprias leis, físicas e morais, e serve como base para a vida familiar, social e política. A vida sobrenatural acolhe e aperfeiçoa a natureza, leva-a à plenitude, mas não fica como que reduzida a ela.

Outra consequência da tensão entre o “já” e o “ainda não” exprime-se na noção cristã do tempo e da história. Para o pensamento pagão, quase sempre fatalista, os acontecimentos da história estavam já previstos e determinados de antemão pelo fatum, o destino. O tempo passava intocável e impassível, como espectador mudo e passivo, enquadrando o curso da história. Mas o tempo cristão não é só tempo que passa; é espaço criado por Deus para crescimento e progresso, para a história e a redenção. Deus actua com a sua Providência no tempo, para levar o mundo e a história à sua plenitude.

Também Deus quis contar com a resposta inteligente e livre dos homens, com as orações dos santos e as boas acções de muitos, para influir no curso dos acontecimentos. Como imagem sua, os homens influem no curso da história: em alguns casos para mal, como aconteceu com o pecado de Adão e Eva; mas sobretudo de modo positivo, participando activamente na realização do desígnio divino, precisamente porque o acontecimento mais relevante e eficaz, o que deu à história do mundo a viragem mais radical, foi a encarnação do Filho de Deus. Por isso, a colaboração humana mais profunda e duradoura nos planos divinos para mudar o curso da história foi levada a cabo pela Virgem, quando acolheu com um decidido fiat! o Filho de Deus no seu seio.

Os cristãos vivem no mundo conscientes dos pecados próprios e dos outros, mas convencidos de que a melhor maneira de aproveitar o tempo é servir a Deus, para melhorar o mundo que nos confiou. De algum modo, o tempo é plasmado pelo homem, é humanizado. A tensão escatológica torna-se patente na providência divina, sempre presente na vida da Igreja e de cada cristão. “A criação tem a sua bondade e a sua perfeição próprias, mas não saiu totalmente acabada das mãos do Criador. Foi criada «em estado de caminho» (in statu viae) para uma perfeição última ainda a atingir e a que Deus a destinou. Chamamos divina Providência às disposições pelas quais Deus conduz a sua criação em ordem a essa perfeição” [3]. Com efeito, Deus não fez tudo até ao último pormenor, desde o início. Pouco a pouco, contando com a colaboração inteligente e perseverante das criaturas, vai aproximando todas e cada uma delas para o seu fim. Como já vimos, o poder salvífico de Deus normalmente torna-se presente na vida do homem de forma escondida e interior; de modo semelhante, a providência divina actua suave e normalmente, não só nos grandes acontecimentos, mas também nos que, na aparência, são mais pequenos. Por isso, o Senhor convida à plena confiança: “Não andeis preocupados, dizendo: Que havemos de comer, que havemos de beber, com que nos vamos vestir? Os pagãos é que se afanam por todas essas coisas. Bem sabe o vosso Pai celestial que tendes necessidade de tudo isso. Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6, 31-33). “Deus – que é a Beleza, a Sabedoria, a Grandeza – anuncia-nos que somos seus, que fomos escolhidos como objecto do seu amor infinito. É precisa uma vida forte de fé para não desvirtuar esta maravilha que a Providência coloca nas nossas mãos, uma fé como a dos Reis Magos: a certeza de que nem o deserto, nem a tormenta, nem a tranquilidade dos oásis nos impedirão de chegar à meta do Presépio eterno: a vida definitiva com Deus” [4].

Desde o início da sua existência terrena, Deus encheu Aquela que seria a Mãe do seu Filho com uma extraordinária abundância de dons, humanos e sobrenaturais. Concebida sem pecado original, Ela era a “cheia de graça” (Lc 1, 28). Durante a sua vida, no meio de intermináveis provas e falta de luz, viveu heroicamente a fé e contagiou-a aos primeiros discípulos de Cristo. No final da sua vida, isenta de qualquer pecado, foi levada ao Céu em corpo e alma, participando para sempre, como Rainha dos Anjos e de toda a criação, na glória do Senhor. N’Ela a promessa de Deus de levar os homens para o Céu verificou-se plenamente. Por isso, a Virgem é para cada homem spes nostra, farol que nos ilumina e causa da nossa esperança.

 

 

 

 

 

 

 

 



* Amplo excerto do artigo do autor La novedad en Cristo, primeiro do Breve curso de Escatologia, editado por www.collationes.org.

[1] S. JOSEMARIA ESCRIVÁ, Sulco, n. 891.

[2] CONCÍLIO VATICANO II, Lumen gentium, n. 48

[3] Catecismo da Igreja Católica, n. 302.

[4] S. JOSEMARIA ESCRIVÁ, Cristo que passa, n. 32


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