TEMAS LITÚRGICOS

O LEGADO LITÚRGICO DE BENTO XVI

 

 

Juan José Silvestre

Professor de Teologia Litúrgica

Universidade Pontifícia da Santa Cruz (Roma)

 

 

 

Na passagem do testemunho dos dois Papas, damos a conhecer aos nossos leitores um artigo publicado na revista Palabra (Madrid, Maio de 2013), a cujo Director agradecemos a autorização.

 

 

Penso com grande afecto e profunda gratidão no meu venerando Predecessor […]. O ministério petrino, vivido com total dedicação, tem tido nele um intérprete sábio e humilde, com os olhos sempre fixos em Cristo, Cristo ressuscitado, presente e vivo na Eucaristia”. Estas palavras do Papa Francisco podem servir-nos como introdução a algumas breves reflexões sobre as linhas mestras do magistério litúrgico de Bento XVI, no início de um novo pontificado.

O seu ponto de partida é o primado de Deus. “Deus ante tudo, assim no-lo disse o início da Constituição sobre a liturgia. Quando o mirar a Deus não é determinante, tudo o resto perde a sua orientação” (Bento XVI). Como se traduzia nas celebrações do Papa emérito? Lembrava que a celebração é oração, conversa com Deus. Neste colóquio as palavras e gestos da liturgia precedem a nossa mente; trata-se de “entrar” neles para adquirirmos os sentimentos de Cristo e, pela acção do Espírito Santo, tornarmo-nos uma só coisa com Ele.

Como em todo o colóquio, há nele o silêncio que o torna possível, e os sujeitos que participam nele. O silêncio é recolhimento que nos dá paz interior. As celebrações pontifícias tratavam de ser “escola de silêncio” para os fiéis: silêncio penitente nos ritos iniciais, contemplativo nas orações, interpelante na liturgia da Palavra, de adoração na oração eucarística e na comunhão...

No que se refere aos sujeitos, tratava-se de ter “os olhos sempre fixos em Cristo, Cristo ressuscitado, presente e vivo na Eucaristia”, que é princípio da liturgia e está realmente presente para a tornar possível. Daí a decisão de Bento XVI de que o fiel receba a sagrada Comunhão de joelhos, e na boca: destaca o valor da Eucaristia como encontro pessoal com o Senhor Jesus sacramentado. O próprio Deus está presente, e diante d´Ele caímos de joelhos.

Junto com Cristo, toda a sua obra redentora se actualiza na celebração. A Páscoa, inseparabilidade da Cruz e da Ressurreição, está no centro da liturgia cristã. Pela acção do Espírito Santo, transformamo-nos progressivamente em Cristo morto e ressuscitado e, unidos assim a Ele, apresentamo-nos ao Pai. Deus Pai é o destinatário de nosso colóquio. Recuperar e fortalecer a noção de uma direcção na oração litúrgica foi uma ideia central de Bento XVI. Celebrante e fiéis não rezam um em frente do outro durante a Oração eucarística, mas em direcção ao único Senhor. Nesta linha, o Papa emérito propôs colocar no centro do altar a cruz, para a qual podem mirar juntos o sacerdote e os fiéis, para se deixarem guiar para o Senhor a quem rezam juntos.

Finalmente, destacava a dimensão eclesial da liturgia. O verdadeiro sujeito da liturgia é a Igreja, a communio sanctorum de todos os lugares e de todos os tempos. “A liturgia cristã, embora se celebre somente aqui e agora, num lugar concreto, e expresse o sim de uma comunidade determinada, é por natureza católica, provém do todo e conduz ao todo, em unidade com o Papa, com os bispos, com os crentes de todas as épocas e lugares” (Bento XVI). Compreende-se bem o uso do latim em partes significativas das celebrações pontifícias, a reza da ladainha dos santos em algumas cerimónias... Na celebração da Eucaristia cada fiel se encontra na sua Igreja: na Igreja de Cristo, onde não há estrangeiro; cada um está na sua casa em qualquer parte, como membro da “família dos filhos de Deus” (São Josemaria Escrivá).

Podem encerrar esta breve panorâmica as seguintes palavras de Bento XVI: “Em toda a forma de esmero pela liturgia, o critério determinante deve ser sempre a mirada posta em Deus […]. Quando, nas reflexões sobre a liturgia, nos perguntamos como a tornar atraente, interessante e formosa, já vamos por mau caminho. Ou a liturgia é obra de Deus, com Deus como sujeito específico, ou não é. Neste contexto vos peço: celebrai a sagrada liturgia dirigindo a mirada a Deus na comunhão dos santos, da Igreja viva em todos os lugares e de todos os tempos, para que se transforme em expressão da beleza e da sublimidade do Deus amigo dos homens"

 

 

 

 

 


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