A PALAVRA DO PAPA

A IGREJA NO BRASIL: O ÍCONE DE EMAÚS

COMO CHAVE DE LEITURA DO PRESENTE E DO FUTURO *

 

 

 

Antes de mais nada, não devemos ceder ao medo de que falava o Beato John Henry Newman: «O mundo cristão está a tornar-se gradualmente estéril, e esgota-se como uma terra hiperexplorada, que se converte em areia» [1]. Não devemos ceder ao desencanto, ao desânimo, às lamentações. Nós trabalhamos muito, e por vezes parece-nos que fracassámos, e apodera-se de nós o sentimento de quem tem de fazer o balanço de uma temporada já perdida, olhando para aqueles que se foram embora ou já não nos consideram credíveis, relevantes.

Voltemos a ler a esta luz, mais uma vez, o episódio de Emaús (cf. Lc 24, 13-15). Os dois discípulos fogem de Jerusalém. Eles afastam-se da «nudez» de Deus. Estão escandalizados com o fracasso do Messias, em quem tinham esperado e que agora aparece irremediavelmente derrotado, humilhado, mesmo após o terceiro dia (cf. vv. 17-21). É o mistério difícil daqueles que abandonam a Igreja; daqueles que, após se deixarem seduzir por outras propostas, julgam que a Igreja – a sua Jerusalém – já não pode oferecer algo de significativo e de importante. Então vão sozinhos pelo caminho com a sua própria desilusão. Talvez a Igreja se tenha mostrado demasiado débil, demasiado longe das suas necessidades, demasiado pobre para responder às suas inquietações, demasiado fria para com elas, demasiado auto-referencial, prisioneira da sua própria linguagem rígida; talvez o mundo pareça ter convertido a Igreja numa relíquia do passado, insuficiente para as novas questões; talvez a Igreja tivesse respostas para a infância do homem, mas não para a sua idade adulta [2]. O facto é que hoje há muitos que são como os dois discípulos de Emaús: não só aqueles que buscam respostas nos novos e difusos grupos religiosos, mas também aqueles que parecem viver já sem Deus, tanto na teoria como na prática.

Perante esta situação, o que fazer?

É necessária uma Igreja que não tenha medo de entrar na noite deles. Necessitamos de uma Igreja capaz de os encontrar no seu caminho. Necessitamos de uma Igreja capaz de entrar na sua conversação. Necessitamos de uma Igreja que saiba dialogar com aqueles discípulos que, fugindo de Jerusalém, vão sem uma meta, sozinhos, com o seu próprio desencanto, com a decepção de um cristianismo considerado já estéril, infecundo, impotente para dar sentido.

A globalização implacável e a intensa urbanização, frequentemente selvagens, prometiam muito. Muitos enamoraram-se das suas possibilidades, e nelas há algo realmente positivo, como, por exemplo, a diminuição das distâncias, a aproximação entre as pessoas e as culturas, a difusão da informação e dos serviços. Mas, por outro lado, muitos vivem os seus efeitos negativos sem reparar como eles comprometem a sua visão do homem e do mundo, gerando mais desorientação e um vazio que não conseguem explicar. Alguns destes efeitos são a confusão acerca do sentido da vida, a desintegração pessoal, a perda da experiência de pertencer a um «ninho», a falta de um lar e de laços profundos.

Como não há quem os acompanhe e mostre com a sua vida o verdadeiro caminho, muitos procuraram atalhos, porque a «medida» da grande Igreja parece demasiado alta. Há também aqueles que reconhecem o ideal do homem e da vida proposto pela Igreja, mas não se atrevem a abraçá-lo. Pensam que o ideal é demasiado grande para eles, está fora das suas possibilidades, a meta a alcançar é inatingível. Contudo, não podem viver sem ter pelo menos alguma coisa – mesmo que seja uma caricatura – daquilo que lhes parece demasiado alto e distante. Com a desilusão no coração, partem à procura de algo que os entusiasme de novo, ou resignam-se a uma adesão parcial que, em última análise, não consegue dar plenitude às suas vidas.

A sensação de abandono e de solidão, de não pertencerem sequer a si mesmos, que muitas vezes surge nesta situação, é demasia dolorosa para ser silenciada. É necessário desabafar, e então surge a via da lamentação. Mas até a lamentação se converte por sua vez num boomerang que regressa e acaba por aumentar a infelicidade. Poucas pessoas são capazes de escutar a dor: é preciso pelo menos anestesiá-la.

Perante este panorama, é necessária uma Igreja capaz de acompanhar, de ir para além do mero escutar; uma Igreja que acompanhe no caminho pondo-se em andamento connosco; uma Igreja capaz de decifrar a noite da fuga de Jerusalém de tantos irmãos e irmãs; uma Igreja que veja que as razões pelas quais há pessoas que se afastam, contêm já em si mesmas também os motivos para um possível regresso; mas é necessário saber ler tudo com valentia. Jesus aqueceu o coração dos discípulos de Emaús.

Gostaria que hoje nos perguntássemos todos: Somos ainda uma Igreja capaz de inflamar o coração? Uma Igreja capaz de reconduzir a Jerusalém? Capaz de acompanhar de novo a casa? Em Jerusalém residem as nossas fontes: Escritura, catequese, sacramentos, comunidade, amizade do Senhor, Maria e os Apóstolos... Somos ainda capazes de apresentar estas fontes, de modo que despertem o encanto pela sua beleza?

Muitos foram-se embora porque se lhes prometeu algo de mais alto, algo mais forte, algo mais rápido.

Mas, há algo mais alto que o amor revelado em Jerusalém? Nada é mais alto do que o abaixamento da Cruz, porque ali se alcança verdadeiramente a altura do amor! Somos ainda capazes de mostrar esta verdade àqueles que pensam que a verdadeira altura da vida está em outro lugar?

Alguém conhece algo mais forte que o poder escondido na fragilidade do amor, da bondade, da verdade, da beleza?

A procura do que é cada vez mais rápido atrai o homem de hoje: internet rápida, carros aviões rápidos, relações imediatas... No entanto, nota-se uma necessidade desesperada de calma, diria de lentidão. A Igreja ainda sabe ser lenta: no tempo para ouvir, na paciência para reparar e reconstruir? Ou porventura também a Igreja se vê arrastada pelo frenesi da eficiência?

Recuperemos, queridos Irmãos, a calma de saber acertar o passo às possibilidades dos peregrinos, ao ritmo do seu caminhar, a capacidade de estar sempre perto para que possam abrir uma fenda no desencanto que há no seu coração, e assim poder entrar nele. Querem esquecer Jerusalém, onde estão as suas fontes, mas terminam por se sentir sedentos. É necessária uma Igreja capaz de acompanhar também hoje o regresso a Jerusalém. Uma Igreja que possa fazer redescobrir as coisas gloriosas e gozosas que se dizem em Jerusalém, de fazer entender que ela é a minha Mãe, a nossa Mãe, e que não estamos órfãos! Nela nascemos. Onde está a nossa Jerusalém, onde nascemos? No baptismo, no primeiro encontro de amor, na chamada, na vocação [3]. Necessita-se de uma Igreja que volte a dar calor, a inflamar o coração. Necessita-se de uma Igreja que também hoje possa devolver a cidadania a muitos dos seus filhos que caminham como num êxodo.

 

 

 

 



* Excerto do discurso do Papa Francisco a Bispos do Brasil (27-VII-2013), durante a sua estadia por ocasião da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, de 22 a 28 de Julho de 2013.

[1] Letter of 26 January 1833, in: The Letters and Diaries of John Henry Newman, vol. III, Oxford 1979, p. 204.

[2] No Documento de Aparecida são apresentadas sinteticamente as razões de fundo deste fenómeno (cf. n. 225).

[3] Cf. também os quatro pontos indicados por Aparecida (ibid., n. 226)


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial