ANO DA FÉ

O ARCO-ÍRIS

Meditação no Ano da Fé

 

 

 

 

 

Joaquim Horta Correia

Engenheiro

 

 

 

 

 

“Este é o sinal da Aliança que estabeleço entre Mim e vós e com todos os viventes, por gerações perpétuas: ponho o Meu Arco nas nuvens, para sinal da minha Aliança com a terra. E quando eu cobrir a terra com nuvens, aparecerá o arco na nuvem e eu me lembrarei da minha aliança convosco» (Gen 9, 12-15).

 

  No entardecer do inverno algarvio, regressava a casa a conduzir com prudência em estrada molhada, porque a chuva miúda não parava e depressa escurecera.

Aproveitava o tempo a meditar, serenamente, no que tinha sido o meu dia para Deus e a agradecer o dom da Natureza e das coisas criadas que, de um lado e de outro, corriam para mim em contramão, sem parar um segundo. Pareciam querer lembrar-me o infinito poder daquele Senhor de “bom gosto” que fizera, apenas em seis dias, toda a beleza do mundo à minha volta, oferecida “de mão beijada” para me sentir feliz.

Tudo perfeito, como era de prever! Ele próprio reconheceu que «tudo era bom» e assim pôde descansar, satisfeito e tranquilo, no sétimo dia. A Criação inteira – homem e natureza – a receber um contínuo impulso de vida, uma constante entreajuda divina, que o Autor distribui com Sabedoria, a procurar o bem de cada um.    

E, para mostrar o Seu amor de Pai e, depois, me levar à gratidão de filho, fez com que a beleza das coisas, passassem por mim em movimento, a lembrar-me que tudo evolui, nada fica do mesmo tamanho, com a mesma frescura ou o mesmo sabor; nada está quieto ou inerte e que eu tenho, continuamente, de mudar para melhor, no caminho de Jesus Cristo. Sentir a Sua presença real na Natureza, tem sido ajuda preciosa para crescer na Fé.

E um dia de sol que, de manhã, parecia “feito de encomenda”, ao entardecer passa a ser incomodado por vento forte, a soprar do sul, que traz consigo um montão de nuvens, mal encaradas, correndo com ar ameaçador, para me ultrapassar. Vinha aí a borrasca! Abrandei a marcha e, durante um quarto de hora, as nuvens de chumbo, saturadas de chuva, a trovejar de ira, descarregam o seu mal humor sobre a terra encharcada. 

O sol, alheio ao que se passa, esconde-se, amedrontado, e fica à espera, pensando consigo que “ri melhor quem ri no fim”. A chuva durou pouco, porque o Senhor do sol e da chuva tinha pressa em mostrar as Suas “delícias”, para que os homens, sempre a pensar no umbigo, olhassem para o Céu, seduzidos pelo “fogo de artifício” que iria criar.    

E então, a sombra escura dessa massa húmida, cansada de chorar, desfaz-se em cristais de luz e desenha uma coroa de sete cores, com círculos alegres e perfeitos, a abraçar a terra, que canta e brilha pela água que acabou de beber. Primeiro, o Arco aparece incompleto, tímido, escondido no arvoredo, e depois, aproxima-se mais, toma corpo, completa a forma e enche-se de cor, curvado de Beleza. Com todo o esplendor, as cores desdobram-se, instáveis, irrequietas, misturam-se com suavidade, e a Natureza exibe quase tudo o que há de melhor, com mais claridade na sombra e nova intensidade no brilho.

Deus oferece no Arco-Íris um completo catálogo de tintas da Sua preciosa colecção, a exibir uma paleta de mil tons, que obrigam estes “pobres artistas”, com alguma inspiração, a dar imensos nomes às cores para mais depressa as confundirem.

E aparece assim, o azul bebé, celeste ou marinho; o amarelo limão, canário ou queimado; o rosa pálido, velho ou laranja; o verde esmeralda ou alface; o branco de neve, sujo ou pérola; o vermelho tomate ou grenat, um nunca mais acabar…Branco com preto, a dar cinzento e, com preta, a dar mulato, etc… Cores batizadas, oficializadas no Arco-íris do nosso dia-dia!

Deus não se importa que brinquemos com as cores. “Façam delas o que quiserem, misturem-nas à vontade, entretenham-se a criar novas belezas, a juntar às Minhas!”

Mas eu não quero viver nas cores da apatia, da indiferença, “no tanto faz” ou “no deixa andar”, que não moram no Arco-íris dos meus sonhos, porque conheço outras, diferentes e únicas, que não “mudam de cor” e duram para sempre. Prefiro e desejo assimilar as cores da Verdade:

o branco da pureza e do Amor divino,

o verde da Esperança e da certeza do Céu,

o azul de Maria e da sua vida interior,

o vermelho do sangue de Cristo e do coração de Deus.

No meu longo caminho, cheio de nódoas e borrões, desvios e desenganos, não me canso de apagar e recomeçar de novo, para manter o percurso nas cores desejadas.

 

Monte Gordo, na Primavera de 2013

 

 

 


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