PASTORAL

A EUCARISTIA NA REVELAÇÃO DE CRISTO

Fontes

 

Miguel Falcão

 

 

 

Com o fim de contribuir para aprofundar e afirmar a fé na Eucaristia, apresentamos as fontes para um possível esquema catequético da Revelação de Cristo sobre este Sacramento.

 

Instituição da Eucaristia

 

Não foi a Igreja quem inventou a Eucaristia (ou qualquer dos sete sacramentos). O que fez, ao longo dos tempos, foi adaptar a sua celebração, mantendo-se fiel à realidade recebida do próprio Cristo.

Assim se vê nos textos do Novo Testamento, escritos sob a inspiração do Espírito Santo, que manifestam a fé da Igreja dos Apóstolos.

O Evangelho de S. Lucas reflecte a prática da primitiva comunidade cristã, que celebrava a «fracção do pão» por um encargo que Cristo dera aos Apóstolos. O sentido da acção sacramental está patente nos gestos e palavras de Jesus.

 

«Tomando um pão, deu graças, partiu-o e deu-lhes, dizendo: ‘Isto é o meu corpo, que é entregue por vós; fazei isto em minha memória’. Depois da ceia, fez o mesmo com o cálice, dizendo: ‘Este cálice é a nova aliança no meu sangue, que por vós é derramado’» (Lc 22, 19-20; cf. Mt 26, 26-29 e Mc 14, 22-25).

 

A I Epístola de S. Paulo aos Coríntios confirma o sentido da acção sacramental: a Eucaristia simboliza e torna realmente presente o sacrifício de Cristo no Calvário para a salvação dos homens.

 

«Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: que o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse: ‘Isto é o meu corpo, que é [entregue] por vós; fazei isto em minha memória’. Depois da ceia, fez o mesmo com o cálice, dizendo: ‘Este cálice é a nova aliança no meu sangue; todas as vezes que o beberdes, fazei-o em minha memória’». Portanto, sempre que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha. Assim, todo aquele que comer o pão e beber o cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor (1 Cor 11, 23-27).

 

Presença real de Cristo na Eucaristia. Comunhão eucarística

 

A fé da Igreja primitiva na presença real de Cristo na Eucaristia corresponde à vontade do próprio Jesus: o Evangelho de S. João recolhe a promessa da Eucaristia, na qual Jesus manifesta claramente a sua vontade de deixar o Corpo e o Sangue como alimento, para comunicar a sua Vida.

 

«Eu sou o pão da vida. Vossos pais, no deserto, comeram o maná, e morreram. O pão que desce do Céu é tal que quem dele comer não morrerá. Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Se alguém comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que eu hei de dar é a minha carne pela vida do mundo».

«Puseram-se então os judeus a discutir entre si, dizendo: Como pode ele dar-nos a sua carne para comer?! Disse-lhes então Jesus: ‘Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu ressuscitá-lo-ei no último dia; porque a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, também o que me come viverá por mim. Este pão que desceu do Céu não é como aquele que os nossos pais comeram, e morreram; quem come deste pão viverá eternamente’». (...)

«Ouvindo isto, muitos dos seus discípulos disseram: ‘É dura esta linguagem; quem pode escutá-la?’» (...) A partir de então, muitos dos seus discípulos foram-se embora e já não andavam com ele.

«Disse então Jesus aos doze: ‘Também vós quereis ir-vos embora?’ Respondeu-lhe Simão Pedro: ‘Senhor, para quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna; e nós acreditamos e sabemos que tu és o Santo de Deus!’» (Jo 6, 48-58. 60. 66-69).

 

A I Epístola de S. Paulo aos Coríntios explicita o efeito da comunhão eucarística: a união com a vida de Cristo e, consequentemente, a união entre todos, na Igreja.

 

«O cálice da bênção que abençoamos não é comunhão com o sangue de Cristo? E o pão que partimos não é comunhão com o corpo de Cristo? Por ser um só pão, nós que somos muitos constituímos um só corpo, pois todos participamos do único pão» (1 Cor 10, 16-17).

 

Conversão do pão e do vinho no corpo e sangue de Cristo

 

Dois milagres insinuam o poder que Cristo tem na conversão eucarística: a conversão da água em vinho e a multiplicação dos pães.

 

«Diz-lhes Jesus: ‘Enchei as talhas de água’. E eles encheram-nas até acima. Depois diz-lhes: ‘Tirai agora e levai ao chefe de mesa’. E eles levaram. O chefe de mesa, depois de provar a água convertida em vinho, como não sabia donde vinha - sabiam-no os serventes que tinham tirado a água –, chama o noivo e diz-lhe: ‘(...) Tu guardaste o vinho bom até agora!’» (Jo 2, 7-10).

 

«Recostaram-se, pois, os homens, em número de cerca de cinco mil. Então, Jesus tomou os pães e, depois de dar graças, distribuiu-os aos convivas; e o mesmo fez dos peixes, tanto quanto queriam» (Jo 6, 10-11).

 

Conclusão

 

A celebração da Eucaristia, sacramento do sacrifício de Cristo no Calvário, é substancialmente o encargo deixado por Cristo aos Apóstolos, para os fiéis poderem aderir pela fé e entrega à graça da salvação, isto é, à graça da união com a vida divina.

 

 

Bibliografia:

 

UNIVERSIDADE DE NAVARRA, Bíblia Sagrada. Novo Testamento, Edições Theologica, Braga 1985-1991

JOÃO PAULO II, Encíclica Ecclesia de Eucharistia (17-IV-03), cap. I, Mistério da fé.

ALBERT VANHOYE, S.J., A Eucaristia nas fontes escriturísticas, in L’Osservatore Romano, ed. port., 28-VI-03, p. 4.

CARDEAL JOSÉ SARAIVA MARTINS, Eucaristia, Universidade Católica Editora, Lisboa 2002.

 

 

 

 

 


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