TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

OS PRIMEIROS CRISTÃOS, ALMA DO MUNDO PAGÃO *

 

 

 

 

Jerónimo Leal

Professor de História da Igreja

Universidade Pontifícia da Santa Cruz (Roma)

 

 

A vida dos primeiros cristãos irrompe na sociedade em claro contraste com os costumes pagãos. O seu exemplo pode servir de referência à situação contemporânea. Como afirma a Carta a Diogneto (cap. VI), “o que a alma é no corpo, isso são os cristãos no mundo”. Os apologistas gregos de quem temos alguma referência são abundantes, em comparação com o volume de escritos que conservamos: Quadrato, Aristides, Melito de Sardes, Justino, Atenágoras, Taciano, Hermias, o discurso a Diogneto – de autor desconhecido –, Aristo de Pela, Milcíades, Apolinário de Hierápolis, Teófilo de Antioquia. No âmbito latino, temos principalmente Tertuliano e Minúcio Félix. O fenómeno, como se vê, é extenso.

 

Exemplo. As acusações do povo, às quais respondem os apologistas, versavam na sua maior parte sobre problemas morais. A resposta dos apologistas não só é decidida na defesa, mas também deixou-nos um excelente testemunho de como se comportavam aqueles primeiros cristãos. Aristides escrevia em meados do segundo século (Apologia XV): “Não adulteram, não fornicam, não levantam falso testemunho, não cobiçam os bens alheios, honram o pai e a mãe, amam o próximo e julgam com justiça”.

É um resumo que constitui um autêntico programa de vida. Juntamente a isto, expõe a regra de ouro do comportamento cristão: “O que não querem que se lhes faça, não o fazem aos outros”. Também expõe um plano que desbarata a sede de vingança: “Aos que os ofendem, exortam e procuram fazer-se seus amigos, empenham-se em fazer o bem aos seus inimigos, são mansos e modestos…”. E, nas suas relações sociais, observam uma atitude cheia de caridade para com todos: “Não desprezam a viúva, não contristam o órfão; quem tem, dá abundantemente a quem não tem. Se vêem um estrangeiro, acolhem-no sob o seu tecto e alegram-se com ele como se fosse um verdadeiro irmão. Porque não se chamam irmãos segundo a carne, mas segundo a alma”. Em suma, a sua vida está cheia de sacrifício e de gratidão: “Estão dispostos a dar a vida por Cristo, guardando com firmeza os Seus mandamentos, vivendo santa e justamente como os ordenou o Senhor Deus, dando-Lhe graças em todo o momento por toda a comida e bebida e pelos outros bens...”.

 

Vida segundo Deus. O porquê deste comportamento pode-se encontrar no desejo de felicidade, que é comum a toda a humanidade. Assim o explica a Carta a Diogneto (cap. X): “Não está a felicidade em dominar tiranicamente o nosso próximo, nem em querer estar por cima dos mais débeis, nem em enriquecer e violentar os necessitados. Não é assim que se pode imitar a Deus, antes tudo isso é alheio à sua magnificência”. Trata-se de viver segundo Deus. Esta atitude é resumida por Teófilo na sua obra A Autólico, escrita pouco depois da metade do século II, na qual afirma (cap. III): “Entre eles reina a temperança, exercita-se a continência, observa-se a monogamia, guarda-se a castidade, destrói-se a injustiça, arranca-se pela raiz o pecado, medita-se na justiça, cumpre-se a lei, pratica-se a religião, confessa-se a Deus; a verdade decide como árbitro, a graça guarda, a paz protege, a palavra sagrada dirige, a sabedoria ensina, a vida decide, Deus reina”.

O exemplo de integridade chega até ao respeito pela vida incipiente. Assim, na Carta a Diogneto (cap. V), lemos: “Casam-se como todos; como todos geram filhos, mas não expõem os que nascem”. Expor as crianças significava abandoná-las para que morressem. A prática era muito frequente, pois bastava que o pai não reconhecesse o bebé como seu filho. Alguns cristãos – segundo contam – costumavam recolher os pequenos cadáveres para lhes dar sepultura. Não era só o respeito pela vida apenas começada, mas o desejo de terem muitos filhos, pelo menos nas palavras de Atenágoras no seu Alegato a favor dos cristãos, da segunda metade do século II (cap. XXXIII): “Como temos esperança na vida eterna, desprezamos as coisas da presente e até mesmo os prazeres da alma, tendo cada um de nós como mulher a que tomou conforme as leis que temos, e com vista à procriação dos filhos. Porque, assim como o lavrador, depois de lançar a semente na terra, espera a ceifa e não continua a semear, assim também, para nós, a medida do desejo é a procriação dos filhos”.

Fora do matrimónio, a atitude é exactamente a oposta. Assim, temos as afirmações da Carta a Diogneto: “Põem a mesa em comum, mas não o leito. Estão na carne, mas não vivem segundo a carne”. A ideia é corroborada por Teófilo: “Considera, pois, se quem recebe tais ensinamentos pode viver indiferentemente e manchar-se com uniões ilegítimas”. Afirma este mesmo Padre da Igreja que é desaconselhável contemplar quer os espectáculos de gladiadores, para não se tornar cúmplices daquelas mortes, como outros espectáculos, para que os olhos e os ouvidos não se tornem impuros com a participação nos cantos. E precisa, em relação ao adultério, que “ali representam-se tragédias em que o cometem não só os homens, mas os próprios deuses, narrando com versos melodiosos, e não sem honras e prémios. Longe dos cristãos passar-lhes pelo pensamento fazer algo disso!”.

 

Obras e desejos. Os cristãos também evitam os pecados de pensamento. Justino, na sua Apologia, escrita por volta do ano 150, declara (1, 15): “Portanto, para o nosso Mestre, não só são pecadores os que contraem duplo matrimónio segundo a lei humana, mas também os que olham para uma mulher para a desejar, pois não só é rejeitado quem comete de facto um adultério, como também quem quer cometê-lo, já que diante de Deus não só estão patentes as obras, mas também os desejos”.

A continência termina frequentemente na virgindade: “É fácil encontrar muitos entre nós, homens e mulheres, que chegaram à velhice celibatários, com a esperança de maior intimidade com Deus”, afirma Atenágoras. E Justino exprime-se também deste modo: “Entre nós há muitos e muitas que, sendo discípulos de Cristo desde crianças, permanecem incorruptos até aos sessenta e setenta anos, e eu glorio-me de vos poder mostrar de entre todas as raças de homens”. Justino continua depois a falar da multidão inumerável dos que se converteram de uma vida dissoluta e aprenderam esta doutrina, pois “Cristo não veio chamar à penitência os justos nem os castos, mas os ímpios, intemperantes e iníquos”.

 

Predomínio do bem. Embora o ensinamento da Igreja tenha sido constante neste âmbito moral, talvez mais do que a doutrina pesou o exemplo de vida dos cristãos.

No final do século II, Tertuliano escreveu um tratado em dois livros intitulado Aos pagãos. Nesta obra (I.5) reconhece-se que pode ter havido alguns cristãos pouco honestos, que recebem justa acusação dos pagãos: “São péssimos e depravados pela sua avareza, luxúria e maldade”. Tertuliano admite que isto não se pode negar de alguns, mas acrescenta que, na realidade, basta para a defesa do cristianismo afirmar que não são todos, nem sequer a maioria.

Ele conclui com uma série de comparações de uma beleza literária fora do comum: “É inevitável que no corpo, embora este seja íntegro ou puro, surja uma bolha, brote uma verruga, apareça uma sarda. Nenhuma bonança muito clara limpa o próprio céu, de modo que nem sequer se desenhe a pequena madeixa de uma nuvenzinha; uma pequena mancha na fronte, exposta em lugar bem visível, aprecia-se muito mais claramente quando o conjunto está limpo. A maior quantidade de bem emprega em seu próprio testemunho uma pequena quantidade de mal. Quando comprovais que alguns dos nossos são maus, nem por isso comprovais que o são todos os cristãos. Procurai uma escola à qual se impute de modo conatural a malícia! Vós mesmos, quando argumentais contra nós dizeis: Por que defrauda este, se os cristãos não o fazem? Por que é tão cruel, se costumam ser amáveis? Desta maneira, dais testemunho de que não são assim os cristãos, quando pensais por que são assim os que se dizem”.

 

 



* Com muito gosto, oferecemos aos nossos leitores este artigo publicado no número de Abril de 2013 da revista Palabra (Madrid), a cujo Director agradecemos a autorização.


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