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TU  ÉS  A  MÃE!

 

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

 

Os caminhos de conversão são inúmeros. Oxalá fossem mais. É-nos difícil imaginar o sofrimento de quem não sabe para que vive. Impressionou-me a resposta de um artista – violinista polaco, mas educado no ateísmo marxista – quando um amigo católico lhe mostrou compaixão pela inquietação interior que sentiria. Inquietação?... Não, não era inquietação, respondeu o outro. Era – um enorme vazio!...

Ignoro o fim desse drama espiritual. Não esqueço, porém, o caso de um professor universitário em que o próprio me contou o que lhe sucedera. Um bom colega emprestara-lhe vários livros para o esclarecer, porque ele, sinceramente, gostaria de acreditar. Mas verificou-se o que a Igreja nos diz: a fé é um dom de Deus. Por mais simpatia que tivesse pela Igreja e por mais correctos que lhe parecessem os argumentos, lidos e meditados, não passavam de uma verdade… possível. Provável mesmo. Nada mais. E tinha pena.

Um dia, por obrigação social – inauguração de uma obra de assistência – acompanhou o senhor Bispo, que o deixou na capela por uns minutos, enquanto visitava ou benzia as instalações. Passando os olhos pelas imagens, deteve-se na de Nossa Senhora. Não me disse se a achou mais ou menos bonita. Simplesmente pensou, ou melhor, dirigiu-se-lhe, rezando pela primeira vez: - «Ah, então Tu és a Mãe!…» E pronto. Nunca mais perdeu a fé.

É bem conhecida a conversão de André Frossard, convertido repentinamente ao olhar para um dos castiçais do altar-mor. Mistérios da graça. Mas julgo que a história do meu amigo, sendo embora outro mistério da graça, tem alguma explicação. Digamos que Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe. era a «peça» que lhe faltava para o «puzzle» que o consumia. Descobriu que a Igreja era mesmo uma família: a família de Deus. Que a «lógica» da fé é uma lógica de amor, não de conceitos. Que a verdade é a Verdade, é Alguém; é a realidade viva e eterna de Jesus Cristo, que morre por nós para nos unir consigo ao Pai no Espírito Santo; uma longa história de amor e um grande acontecimento, que permanece por todos os séculos dos séculos. –Ámen!

Faz-nos bem conhecer estes casos. Há sempre o perigo de reduzirmos a fé a «verdades» conceptuais, a princípios, critérios morais, bons comportamentos. Faz-nos bem que o Papa Francisco nos repita que é uma história de amor, de paixão – de Deus por nós e de nós por Ele e pelos nossos irmãos. Que a Verdade da fé, sem Bondade e sem Beleza, se torna uma caricatura.

Que beleza? A beleza moral, a beleza sobrenatural e humaníssima dos Santos. Porque a principal «hierarquia da Igreja», como dizia Lubac, «é a hierarquia da santidade». Para isso é que Nosso Senhor instituiu a Igreja; não apenas «para termos razão», embora a fé seja também uma festa para a inteligência: ilumina tudo, dá-nos o sentido de tudo, e um sentido que chega a abranger a insensatez dos nossos erros e pecados - como as sombras de uma genial e fulgurante pintura.

E como toda a vida cristã é um caminho de contínua conversão, não esqueçamos que «a Jesus sempre se vai e “torna a ir” (quando nos afastamos) por Maria» («Caminho», 495). «O amor à nossa Mãe será sopro que transforme em lume vivo as brasas de virtude que estão ocultas sob o rescaldo da tua tibieza» (id., 492).

 

 

 

 


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