ECUMENISMO

O PAPA DA COERÊNCIA

 

 

 

 

Hilarion

Patriarcado ortodoxo de Moscovo

 

 

A edição portuguesa de L’Osservatore Romano, de 3-III-2013, publicou um artigo do arcebispo ortodoxo Hilarion Alfeyev, metropolita de Volokolamsk, presidente do Departamento para as relações externas do Patriarcado de Moscovo.

Trata-se de um dirigente e teólogo ortodoxo que tem contribuído muito para melhorar as relações entre ortodoxos e católicos.

Neste artigo, Hilarion presta homenagem à acção de Bento XVI neste sentido.

 

 

No passado dia 11 de Fevereiro, o anúncio inesperado da renúncia do Papa Bento XVI ao seu ministério surpreendeu profundamente não só a Igreja católica, mas toda a cristandade e a opinião pública mundial. Na sua condição de progressiva deterioração das forças, sobre a qual ele mesmo referiu, a decisão de deixar o pontificado não pode ser vista senão como um acto de grande coragem e de humildade exemplar.

Neste nosso mundo, no qual tantos que não têm nenhum poder procuram exacerbadamente apoderar-se dele, e outros tantos que o têm procuram a todo o custo retê-lo, a voz suave do Primado da Igreja cristã mais numerosa do mundo, que diz renunciar livremente ao exercício da autoridade devido ao debilitamento físico e para o bem da Igreja, está em forte contraste com a mentalidade corrente. Mais uma vez o Papa Bento XVI mostrou ser coerente com a sua própria linha de integridade moral e de rejeição de compromissos.

Certamente, estamos ainda muito próximos do anúncio da renúncia de Bento XVI para tentar fazer um balanço do seu pontificado. Contudo, diria que uma das chaves interpretativas da figura deste Papa e do seu pontificado seria talvez precisamente a coerência consigo mesmo e com a tradição da Igreja, do seu não se sujeitar às modas fáceis e passageiras, à pressão forte da cultura dominante.

O Papa Ratzinger é um teólogo de elevada envergadura, sem dúvida, um dos teólogos católicos contemporâneos mais competentes. A sua obra, antes e depois da ascensão à cátedra pontifícia – os livros sobre a figura de Jesus, as encíclicas e exortações apostólicas, a declaração Dominus Jesus, o Catecismo da Igreja Católica –, representa um contributo de importância notável para a teologia católica moderna. Um dos temas tratados por ele, a relação entre fé e razão, põe-se em continuidade com quanto já foi dito pelo seu predecessor, o Papa João Paulo II.

Outro tema apreciado pelo Papa Bento XVI, desde o início do pontificado, é a reafirmação dos valores morais cristãos, o seu firme não à «ditadura do relativismo». É uma posição da qual nós, ortodoxos, estamos plenamente cientes. Hoje, no mundo inteiro, mas sobretudo na sociedade ocidental, assiste-se a uma perda perigosa de todas as orientações morais. A mentalidade corrente gostaria de cancelar qualquer distinção entre o bem e o mal. O liberalismo moral extremista e militante impôs o «politicamente correcto» como uma nova ideologia de massa, igualmente absolutista dos maximalismos políticos que entristeceram o século XX. Se lermos atentamente os evangelhos, vemos que a misericórdia do Senhor Jesus em relação aos pecadores nunca significou condescendência ao pecado nem confusão do mal com o bem. Pessoalmente, estou convicto de que a Igreja, hoje talvez mais do que nunca, embora permanecendo aberta à relação com todos e propondo o caminho da salvação a cada homem, deve oferecer aos fiéis orientações de comportamento muito claras. Diria que o actual Pontífice [Bento XVI] mostrou claramente o modo como a abertura ao diálogo nunca deve significar trair os mandamentos de Cristo.

Com frequência, o Papa foi considerado um conservador ou um tradicionalista e tal fama originou críticas e uma certa impopularidade. Creio que é importante reflectir mais sobre o que significa a tradição para nós cristãos. O cristianismo é a religião do «já» e do «ainda não», a religião na qual transparência e imanência, vida terrena e vida eterna, se encontram. De facto, Cristo já ressuscitou, de uma vez por todas e como primícia da nossa ressurreição geral; mas a «divinização» de cada um de nós é um processo em curso. Portanto, a Igreja tem uma relação particular com o tempo. A Igreja, e com isto entendo as igrejas apostólicas, põe-se sempre naquele continuum que é a tradição. Esta palavra, em latim (traditio) e em eslavo (predanie), indica a transmissão da fé. Devemos entregar, inteiramente, às gerações futuras o testemunho que recebemos dos apóstolos e de quantos nos precederam no caminho rumo a Deus. Por conseguinte, temos uma responsabilidade de fidelidade.

Sem dúvida, Bento XVI como Papa, exactamente como Joseph Ratzinger como teólogo, é o homem da continuidade, da fidelidade àquela entrega que é a tradição. Teólogo da continuidade foi também na sua leitura do concílio Vaticano II. Inclusive sob o ponto de vista da teologia ortodoxa, o último concílio da Igreja católica é apreciável não como momento de ruptura com o passado mas exactamente pelo contrário: enquanto e por quanto retoma a tradição, aliás quero dizer, volta para ela.

O pontificado de Bento XVI marcou uma melhoria considerável das relações entre ortodoxos e católicos e, em particular, entre Roma e a Igreja ortodoxa russa. O Papa conhece bem a ortodoxia; o seu amor pela tradição aproxima-o de nós. Além disso, é necessário dizer que também o conhecimento pessoal influi positivamente nas relações intereclesiais. O Patriarca Cirilo, antes de ser eleito Primaz da Igreja ortodoxa russa, encontrou-se quatro vezes com o cardeal Ratzinger e depois com o Papa Bento XVI. Também eu, depois de ter sucedido ao actual Patriarca como presidente do Departamento do patriarcado de Moscovo para as relações externas da nossa Igreja, fui recebido três vezes pelo Papa em audiência privada. Conservarei sempre uma óptima lembrança das nossas conversações e do próprio Papa. Não creio que se possa dizer que o facto de ser teólogo, homem de pensamento com posições firmes, muitas vezes opostas à cultura dominante, tenha ido em prejuízo do seu ser um pastor. Bento XVI é um homem afável, compreensivo, de grande humildade e sabedoria.

Entre ortodoxos e católicos, ainda hoje permanecem problemas teológicos que devem ser desfeitos e feridas históricas para curar. Tive ocasião de explicar a minha visão do estado das nossas relações e das perspectivas do diálogo teológico ortodoxo-católico directamente ao Papa, nos colóquios pessoais que mantive com ele. Devo dizer que nutro algumas perplexidades em relação ao diálogo realizado pela Comissão teológica mista: creio que num futuro imediato não podemos esperar progressos notáveis. Apesar disso, as nossas posições noutros campos coincidem perfeitamente, ou quase. Por exemplo, as posições éticas. Portanto, devemos investir nestes campos, agir juntos para reafirmar os valores éticos do cristianismo. Disse isto ao Papa e encontrei a sua plena compreensão.

Outro campo no qual podemos e devemos agir em conjunto é a defesa dos cristãos perseguidos. E não me refiro só à Africa, ao Médio Oriente ou a alguns países asiáticos, mas também à Europa, onde com frequência os cristãos são vítimas de marginalização cultural, reduzidos ao silêncio pelo laicismo dominante, para o qual a religião é algo que diz respeito só à esfera da vida pessoal do indivíduo e não deve ter reflexo algum na vida social. O Papa Bento XVI disse e fez muito em defesa dos cristãos perseguidos e dos valores cristãos esquecidos ou espezinhados. Nele tivemos um bom aliado.

Agora, com a renúncia ao exercício do seu ministério, o Papa ofereceu ao mundo uma lição de humildade e sabedoria. Há alguns dias festejámos na Igreja russa a Apresentação de Cristo no templo. Como esquecer aqui o cântico do sábio Simeão, que a nossa tradição descreve como «aquele que tomou Deus nos braços» (Simeon Bogopriimec): «Agora, Senhor, deixa o teu servo partir em paz segundo a tua palavra»? Desejamos a Bento XVI um longo, fecundo e pacífico período na última etapa da sua vida. Quanto a nós, esperamos que a dinâmica positiva nas relações entre a Igreja ortodoxa russa e a Igreja católica romana continue com o seu sucessor.

 

 

 

 

 

 

 


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