ENTREVISTA

 

 

ROMA E O PAPA FRANCISCO

 

 

 

 

 

Cardeal Agostino Vallini

Cardeal Vigário para a diocese de Roma

 

 

Por ocasião da tomada de posse da cátedra como Bispo de Roma na Basílica de São João de Latrão, no dia 7 de Abril passado, o Cardeal Vigário para Roma Agostino Vallini deu uma entrevista ao L’Osservatore Romano (ed. port., 14-IV-2013), da qual publicamos um excerto, sobre a relação do Papa com a diocese de Roma.

 

 

A tomada de posse tem lugar na tarde de domingo, mas o Papa Francisco saiu do conclave sentindo-se já plenamente bispo de Roma, e quis exactamente Vossa Eminência ao seu lado quando se apresentou aos fiéis na Varanda das Bênçãos. O que aconteceu?

 

– O conclave é obra de Deus e foi um milagre. Estou ainda mais convicto depois de ter vivido pela primeira vez esta experiência de graça. Cria-se uma atmosfera que torna este momento único e diverso de qualquer outra vicissitude humana. Entra-se no conclave com a consciência de uma grande responsabilidade, isto é, contribuir para uma obra de discernimento, grande e complexa, para entender e pedir inspiração ao Senhor. E depois rezamos, rezamos muito. Por exemplo, no dia da eleição, entre uma votação e outra, recitei três vezes o rosário. Na Sistina não se fala nem se negoceia, reza-se. De resto, chega-se a este momento depois de dias de reflexão – oito desta vez – e o tema não é o Papa mas a Igreja, com todas as suas realidades, boas e não. Trata-se de uma visão da Igreja universal. De modo quase especular procura-se entender quem poderia governá-la neste exacto instante histórico. O clima espiritual no qual se desenvolveu este conclave foi marcado por momentos muito particulares, depois da renúncia de Bento XVI. Portanto, era necessária a assistência do Espírito Santo. E penso que o Senhor se tenha manifestado. Inclusive através do entusiasmo do acolhimento popular reservado ao novo Pontífice: neste sentido, o sensus fidei que vem do povo é uma confirmação.

 

– O que tornou mais visível a obra de Deus na eleição do Papa Francisco?

 

Para responder a esta pergunta são necessárias algumas reflexões profundas. Antes de tudo, era preciso acolher uma herança preciosa e riquíssima como a de Bento XVI, com o valor das motivações que acompanharam a sua renúncia. Naquele dia 11 de Fevereiro fomos todos surpreendidos. Desconcerto e incredulidade eram evidentes nos rostos de cada um de nós. Imediatamente formaram-se grupos nos quais nos perguntávamos o que teria acontecido. Depois pouco a pouco se difundiu o sentimento de fé que nos une, alimentado sobretudo pela estima e devoção que acompanhavam e acompanham a relação de cada um de nós com Bento XVI: se o fez, dizíamos, significa que julgou necessário fazer algo importante pela Igreja. Portanto, ao reler aquela declaração, a reflexão sobre o seu magistério, tão rico e forte, só podia fazer meditar sobre quem teria sido capaz de continuar na mesma linha e, talvez, de lhe dar novo e maior vigor. Assim começou a troca de opiniões entre os cardeais. Depois, na Capela Sistina amadureceu o amplo consenso em relação a Jorge Mario Bergoglio.

 

Quando foi que o Papa o chamou?

 

Depois da eleição, os cardeais passaram diante do eleito para lhe manifestar obediência. Naquele momento ele disse-me: «Vossa Eminência é o cardeal vigário: aceita ficar ao meu lado?». Imediatamente respondi-lhe que sim. E pensei que fosse só isso. Depois, mandou chamar-me de novo e disse-me: «Venha, fique ao meu lado».

 

Em pouco mais de meio século passámos do último Papa romano ao primeiro que veio do novo mundo, fora da bacia mediterrânea, através de Pontífices que dedicaram grande atenção à diocese de Roma.

 

O emergir da consciência diocesana do pontificado em Roma deve-se inicialmente a João XXIII, que transferiu o Vicariato para São João. Paulo VI acentuou esta consciência não só com a reforma do Vicariato mas também indo celebrar nas periferias, visitando paróquias e comunidades da cidade. E João Paulo II visitou quase todas as paróquias. Mas não só: iniciou e levou a cabo a primeira missão da cidade, em preparação para o ano jubilar e celebrou o Sínodo diocesano, do qual permaneceu como gema sintética uma frase: «Igreja de Roma, encontra-te a ti mesma fora de ti mesma; paróquia, encontra-te a ti mesma fora de ti mesma». Bento XVI continuou nesta mesma linha.

 

– Como será a relação entre o Papa Francisco e os romanos?

 

O Pontífice sente-se antes de tudo bispo de Roma, disse-o muitas vezes, e demonstrou-o. No que diz respeito aos romanos, gostaria de narrar um episódio recente. A 23 de Março eu estava na paróquia do Santíssimo Sacramento em Tor de Schiavi, na via Prenestina. No final da missa, muitas pessoas vieram ter comigo na sacristia. Fiquei surpreendido com a força de uma solicitação: «Traga-nos o Papa!». Procurei fazer entender que ainda era cedo. Diante da sua insistência, perguntei a razão e responderam-me: «Não sabemos, mas desejamos tê-lo entre nós. É uma necessidade que sentimos no coração». Esta é a dimensão da relação que se criou com o Papa.

 


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